Além da análise de como ocorreu o processo formativo dos formadores e tutores que atuaram no PRADIME realizamos uma entrevista dialogada com as coordenadoras pedagógicas do curso. A seguir revelamos as características das três coordenadoras, a fim de explicitar a experiência das mesmas em EaD e traçar, sucintamente, os seus percursos formativos (quadro 5).
Quadro 5: Características das entrevistados
Participante53 Características
M. CH. PB1 Doutoranda em Educação. Mestre em Educação e Contemporaneidade. Licenciada em Pedagogia. Coordenadora Pedagógica do curso de extensão PRADIME (UFBA). Professora do curso de especialização em EaD da UNEB. Consultora UAB, tendo atuado como formadora, tutora e conteúdista de cursos EaD. Professora e tutora de diversos cursos EaD promovidos por instituições públicas e privadas.
M.CE.CH.PB2 Doutoranda em Difusão do Conhecimento. Mestre em Redes de Computadores. Graduação em Ciência da Computação e em Pedagogia. Coordenadora do curso de Especialização em Gestão Escolar a distância da UFBA. Consultora UAB, tendo atuado como formadora, tutora e conteúdista de cursos EaD.
M.CSA.CH.PB3 Doutoranda em Difusão do Conhecimento. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Graduada em Ciências Econômicas e em Pedagogia. Experiências em EaD: Coordenadora Pedagógica do curso de extensão PRADIME em 2010 e 2012; Formadora do curso de extensão Conselheiros Escolares a distância (UFBA) em 2011. Consultora UAB, tendo atuado como formadora, tutora e conteúdista de cursos EaD.
53 Para preservar a identidade dos autores das respostas, seus nomes completos foram substituídos por
uma codificação constituída da seguinte forma: Titulação (M – Mestre) + Área de Formação (CH – Ciências Humanas; CSA – Ciências Sociais Aplicadas; CE – Ciências Exatas) + Vinculo Institucional (PB – Instituição Publica).
Nesta entrevista, consideramos como reflexões centrais: (1) Abordagem de
questões culturais em EaD; (2) Noções de etnopesquisa-formação e do professor pesquisador associada a atuação do formador EaD; (3) A etnografia multi-situada e etnografia virtual em experiências EaD. Para cada um desses eixos apresentamos
questionamentos que foram desdobrados em outros, no decorrer do diálogo, considerando os caminhos eleitos pelos entrevistados e posicionamentos ou relatos que emergiram.
Em relação a condução das entrevistas destacamos que as mesmas ocorreram da seguinte forma (Figura 19):
1. Apresentamos a reflexão e listamos os questionamentos iniciais;
2. O sujeito foi convidado a iniciar a reflexão posicionando-se, compartilhando sua experiência, questionando-se e redirecionando o diálogo;
3. Em paralelo anotamos as contribuições, tecendo e motivando novas reflexões, considerando o que estava sendo apresentado pelo participante.
4. Quando o sujeito concluía sua fala partíamos para a segunda etapa da entrevista, abordando algumas noções teóricas a respeito do tema da reflexão, apresentando trechos de artigos ou da própria tese.
5. Após essa apresentação retornávamos aos questionamentos para que os sujeitos complementassem ou voltassem a refletir sobre suas respostas considerando a fundamentação teórica citada anteriormente.
Sobre a primeira reflexão foram elencadas inicialmente as seguintes questões:
Nos cursos em que você participou como formadora ou cursista (em um curso de formação) foram abordadas questões sobre cultura relacionadas a EaD?
Caso positivo como o tema foi aprofundado?
Você acha que a forma como foi abordado foi suficiente?
Que elementos culturais você mencionaria como alternativas interessantes para motivar a colaboração em EaD?
Nessa reflexão, observamos, a partir das contribuições apresentadas pelos entrevistados, que a discussão a respeito das questões culturais, em cursos de formação de professores para atuar EaD, têm ocorrido, no geral, de forma não intencional, emergindo espontaneamente no decorrer do curso. Essas discussões normalmente são direcionadas para a reflexão a respeito da cibercultura54. Adicionalmente, foi citada por um dos sujeitos uma experiência, na qual se abordou a cultura na perspectiva da “cultura na era digital”, considerando um estudo sobre os imigrantes digitais (seus comportamentos, habilidades, interesses, demandas, limitações, entre outros). Durante o dialogo a coordenadora iniciou dizendo que tinha ficado muito satisfeita com essa abordagem, mas em seguida, quando começou a recordar a experiência, observamos que a mesma demonstrou dúvidas afirmando que talvez hoje pensasse diferente.
Outros encaminhamentos citados referem-se a realização de debate sobre a maneira como “as práticas locais dos estados se solidificavam com o uso das TIC nas escolas” e outro a respeito de questões culturais do estado da Bahia. Ademais, um dos entrevistados citou um curso em que a discussão sobre a cultura das instituições federais e estaduais foi iniciada a partir de um movimento político provocado pelos professores das universidades federais que tinham a finalidade de desvalorizar os professores das universidades estaduais. Nessa discussão, os professores das universidades estaduais incluíram o debate a respeito da “cultura local para mostrar que na perspectiva de formação a instituição estadual teria muito mais condição de atender a necessidade de formação dos professores, para uso das TIC, que a federal” [M. CH. PB1, 2012]. Nesse momento, identificamos a implicação da entrevistada neste processo, inclusive, pela
54 Um dos entrevistados considerou que a discussão a respeito da nova postura do professor (como
mediador da aprendizagem) e do cursista (como autônomo, ativo, responsável pela sua aprendizagem, entre outros) faz parte do debate sobre a cultura, no que diz respeito ao processo de ensinoaprendizagem.
forma como se expressou, demonstrou-se indignada com o fato, partindo em defesa das instituições estaduais55 e lamentou que o debate sobre cultura tivesse sido motivado por tal problemática. Em relação ao material didático, apenas um dos sujeitos referiu-se a um curso de especialização em EaD, no qual o disparador da produção do conteúdo estava direcionado para o atendimento das necessidades locais em relação ao contexto cultural. Acreditamos que foram poucas, as referências ao conteúdo didático, porque na prática as instituições não consideram as questões culturais durante a sua elaboração.
Em relação à abordagem das interações culturais em cursos a distância foi unânime a ausência desse debate nas experiências vivenciadas pelos entrevistados. Observamos inclusive que os sujeitos desconheciam essa abordagem e ficaram surpresos quando citamos os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos fora do país. Por outro lado, todos demonstraram acreditar que essa questão interfere no estabelecimento da colaboração. Um dos entrevistados apresentou um exemplo de contextualização das suas aulas no presencial, a partir da compreensão das características e demandas dos seus estudantes, a fim de demonstrar a complexidade dessa ação e suas implicações quando se trata de cursos a distância, onde os estudantes estão afastados geograficamente e vivenciando culturas variadas. Outro participante informou que os professores não são formados (incluindo-se neste meio) considerando o desenvolvimento das competências culturais. Além disso, destaca-se:
A abordagem de cultura nos cursos de formação é mais superficial e não apresenta dispositivos para auxiliar a atuação do formador dentro dessa perspectiva. Acho que falta aos formadores uma contextualização. Seria importante aprofundar essas questões para auxiliar o formador em sua prática docente, apresentando situações e refletindo sobre essas. [M.CE.CH.PB2, 2012]
Outro aspecto pontuado pelo mesmo sujeito está relacionado à colaboração. Ele destaca que nem todos os indivíduos têm predisposição para colaborar com outro. Nesses casos, é preciso agir de forma que os “afete”, motivando-os a colaborar. Dessa forma, torna-se necessário “conhecer a cultura do local ou interagir mais com essas pessoas para poder selecionar elementos culturais que possam afetá-las”. [M.CE.CH.PB2, 2012]. Para fortalecer este argumento, a coordenadora afirma ter aptidão para a colaboração, mas sofre com isso, pois acaba assumindo muitas responsabilidades, pois os colegas e estudantes, não são tão receptivos a colaboração. Ainda sobre essa questão, outro entrevistado destaca a importância de se considerar:
55
“aspectos financeiros, se a cidade é grande ou pequena, a origem de formação dos cursistas (publico e privado), além de aspectos políticos”, no momento de planejamento e concepção da atividade pedagógica. Acreditamos que a coordenadora faz referência a essas questões, quando reflete sobre a sua experiência no PRADIME, reconhecendo que a ausência dessas considerações dificultou a produção colaborativa do conhecimento durante o curso e em muitos casos, impactou na evasão dos cursistas.
Como iniciativas que consideramos positivas, em relação ao desenvolvimento de atividades colaborativas, podemos citar a organização das turmas de um curso de especialização que considerou a proveniência das pessoas. Nesse caso, o entrevistado afirmou ter observado que a colaboração entre os cursistas aconteceu de forma mais intensa a partir dessa estratégia. Outra alternativa interessante foi o convite para participar da equipe pedagógica do curso de especialização da escola de gestores, como assistentes de turma, os egressos da primeira turma. Nessa experiência, observou-se que essas pessoas conheciam muito da dinâmica do curso (das regiões onde estavam os cursistas) e com isso as interações eram ampliadas e a colaboração mais intensa nos grupos por eles mediados.
Por fim, a respeito da condução da entrevista, destacamos que como fundamentação para tal reflexão apresentamos aos entrevistados trechos da seção 4.2, do capítulo anterior, que discutiu a respeito da Interação Cultural e EaD. Além disso, ressaltamos que no quadro 9 (do apêndice IV) foram transcritas as respostas completas dos sujeitos, antes e depois da apresentação da fundamentação teórica, indicando as contribuições registradas por cada indivíduo.
Em relação a segunda reflexão foram elencadas inicialmente as seguintes questões:
Qual a sua compreensão sobre o etnopesquisa-formação?
Qual a sua compreensão sobre o professor pesquisador (considerando a abordagem de Antônio Nóvoa)?
Você acredita que os seus dispositivos (da etnopesquisa-formação) e as competências do professor pesquisador possam apoiar a atuação do formador EaD? Como?
A partir dessa reflexão foi possível identificar a noção que os indivíduos têm respeito da etnopesquisa-formação, principalmente por associá-la à contextualização
cultural. Por outro lado, notamos que não foram citadas (por esquecimento ou desconhecimento) questões fundamentais, tais como: o reconhecimento, por parte dos professores da valorização do conhecimento prático (valorização da experiência) que nasce no seio da comunidade implicada na pesquisa; que o processo de pesquisa ocorre no âmbito da coletividade e envolve demanda social de determinado grupo. Pela forma como foi apresentado seu entendimento sobre o assunto, tendemos a acreditar que apenas uma das entrevistadas já havia recorrido a etnopesquisa-formação em sua prática docente e conhecia de maneira mais aprofundada esse tipo de abordagem. As outras duas já haviam lido algo a respeito, mas não demonstraram muita aproximação com o tema.
Sobre a compreensão da noção de professor pesquisador apenas duas Uma disse que este representa um professor curioso; interventor; sujeito livre para aprender. A outra, afirmou que a prática docente deste envolve além de lecionar, a pesquisa Após apresentar algumas fundamentações teóricas, essa última declarou não conhecer a noção defendida por Antonio Nóvoa e por isso, em sua resposta, não refletiu a respeito da compreensão do conhecimento e da organização de aprendizagens.
Em relação à adoção dos dispositivos de pesquisa pelo formador, durante a sua prática docente, as três entrevistadas concordaram com esta possibilidade importante. A primeira respondeu dizendo: “principalmente no que diz respeito à contextualização e conhecimento do outro para proceder a intervenção” [M. CH. PB1, 2012]. A segunda mencionou que o uso de alguns dispositivos deixa o cursista mais a vontade em participar, como é o caso da entrevista dialogada. A última disse que, se o formador tiver a formação para atuar com a etnopesquisa-formação, esses dispositivos poderão ser utilizados continuamente.
Quando questionamos como esses dispositivos poderiam ser usados, um dos sujeitos mencionou a realização de entrevistas dialogadas no AVA, para aprofundar algum conteúdo, ou identificar dúvidas dos cursistas. O outro compartilhou uma das suas experiências, fazendo uso do diário de formação, como descrito a seguir:
O uso do Diário de formação (usa geralmente o diário de bordo) a intenção é o sujeito registrar tudo que é significativo para ele no decorrer da formação a partir da sua expectativa de aprendizagem. O formador então tem condição de compreender a origem das dificuldades como os avanços se constituem, os avanços da metodologia, etc. Faz com que o professor reavalie sua própria condição de docente como gestor, interventor, mediador. [M. CH. PB1, 2012].
Outra questão que emergiu nessa reflexão refere-se ao compartilhamento de experiências. A respeito disso, um dos indivíduos destacou que além do compartilhamento é fundamental que ocorra uma reflexão coletiva sobre a experiência, a fim de identificar pontos fortes e fracos. Notamos que a entrevistada recordou momentos em que, em sua formação, foram propostos os compartilhamentos de experiência, sem que as mesmas fossem discutidas pelos colegas, demonstrando certa decepção quanto a essa prática.
Em relação à condução da entrevista a fundamentação apresentada para essa reflexão consistiu em trechos retirados do capítulo 3, especificamente da seção 3.3.2 que tratou da Etnopesquisa crítica e etnopesquisa-formação. Ademais, ressaltamos que no quadro 10 (do apêndice IV) foram registradas as respostas completas e indicadas as suas contribuições.
A respeito da terceira reflexão foram elencadas inicialmente as seguintes questões:
Você já leu ou ouviu falar da etnografia multi-situada?
E sobre a etnografia virtual?
Você acha que essas noções têm alguma relação ou podem contribuir com experiências EaD?
Você acredita ser importante que o formador conheça e/ou utilize essas concepções de pesquisa?
Duas das entrevistadas afirmaram não ter muito conhecimento sobre a etnografia multi-situada56 e virtual57. Uma delas disse que já ouvira falar, mas não se interessou em aprofundar. A outra disse que já havia lido algo, em uma tese, a respeito da multi- situada, por outro lado, nunca tinha ouvido falar da etnografia virtual. O sujeito que apresentou sua compreensão da multi-situada respondeu dizendo que esta lida com “situações de contextos diversificados. Ou seja, na etnografia você esta imerso num grupo e na multi-situada você tem um grupo e dentro do grupo você tem vários grupos” [M. CH. PB1, 2012]. Durante o diálogo conseguimos identificar que esse sujeito
56 “Esta etnografia móvel toma trajetórias inesperadas ao traçar a formação cultural através e dentro de
múltiplos espaços de atividade o que desestabiliza a distinção, por exemplo, entre a vida cotidiana e o sistema, na qual muitas etnografias têm sido concebidas” (MARCUS, 1998, p. 80).
57 Segundo Santaella (2004), essa se apresenta como uma abordagem metodológica direcionada para a
compreendia como a etnografia multi-situada funciona. Sobre a etnografia virtual respondeu dizendo que esta consiste naquela realizada em ambientes virtuais. As questões foram elaboradas com o objetivo de: identificar se a etnografia foi abordada nos cursos de formação realizados pelas coordenadoras e como foram discutidas e aprofundadas, apresentando quais questões, entre outros. Pelo que podemos observar, esse assunto nunca foi tratado dentro do escopo da atuação do formador EaD.
Ao ser questionado o sujeito, sobre a importância do formador conhecer e/ou utilizar essas concepções de pesquisa, todos confirmaram, mas pontuaram não ser essencial; suficiente (quando analisada isoladamente); ou indispensável para a sua atuação. Observamos que, os posicionamentos das entrevistadas nesta questão não foram tão consolidados, provavelmente por nunca terem refletido sobre a adoção dos dispositivos da etnografia, para a sua atuação como formador de cursos a distância. Nesse sentido, destacamos ainda a contribuição de uma das entrevistadas:
É possível utilizar se você tem uma noção de como as questões culturais podem influenciar no modo como se aprende, interaja, etc.Por exemplo, pode-se promover uma discussão a partir do conhecimento prévio do perfil dos cursistas. [M.CE.CH.PB2, 2012]
Sobre a condução da entrevista a fundamentação recuperada para essa reflexão foi constituída de recortes de alguns artigos sobre etnografia multi-situtda (A morte no ciberespaço: um estudo etnográfico da comunidade do Orkut “Profiles de Gente Morta”; Moçambiques; Investigando a rua através da internet (e vice-versa): considerações teórico-metodológicas sobre um itinerário etnográfico) e sobre a etnografia virtual (Etnografia Virtual: uma tendência para a pesquisa em ambientes virtuais de aprendizagem e de prática). Além disso, no quadro 11 (apêndice IV) foram registradas as respostas completas dos sujeitos e indicadas as suas contribuições.