TUTORIEL - INSTALLATION MINIMALE D'UBUNTU
I NSTALLATION DE BASE
Para quando a vez da mulher se falar?
Esta parece ser a pergunta que atravessa o pensamento de Irigaray e que move, consideramos nós, a escrita de Lispector. Reivindicar já não apenas um quarto só para si, mas uma sintaxe, uma língua da alteridade: e nessa ausência de uma língua da e para a alteridade, do universo clariciano, puxemos pela galinha como promessa, como aquela que apesar de cacarejar o dia inteiro tem muita vida interior. Relembremos que esta é uma imagem recorrente no discurso do senso comum patriarcal: a representação das mulheres como galinhas que cacarejam sem nexo. Clarice toma essa imagem e confere-lhe uma escrita, isto é, um significado, isto é uma identidade diferente — as mulheres como galinhas ou como Cassandras: «A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. […] Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria.» (2006: 49).
A galinha não é ouvida porque continua a ser patriarcalmente redesenhada, ficcionada: «De certo modo, estamos no terreno da ficção que provocou configurações diferentes do corpo feminino — a partir de uma visão cultural deste como “natural” e do seu trabalho como “fruto da natureza”, o corpo feminino tornando-se pois culturalmente natural.» (Teresa Joaquim, 1997: 445). No caso do conto de Clarice Lispector, a mulher- galinha é (re)formulada como sendo «tonta, desocupada e míope» (2006: 49). A galinha, tal como as mulheres, pensada à imagem e semelhança do modelo masculino. A galinha, tal como as mulheres, em busca da sua feminilidade124 sempre em construção, uma edificação cujos padrões e normas de conduta lhe são extrínsecos, mas que lhe permita ser, de algum modo, feliz.
123 (Lispector, 2000b: 13).
124 Aqui no sentido de assunção de um código patriarcal que lhe é ditado, da atribuição de uma «natureza
88 E por isso, como pode ser o que ainda não é dotado de um corpo, de um desejo, de uma língua (que seja sua)? A galinha, apodada de ser estúpido e inconsequente, relegada para segundo plano por um sujeito ocidental demasiado centrado em si mesmo para ver o óbvio, passa o dia a cacarejar — isto é, a dizer uma palavra impossível que interrompe o monólogo e o dilacera na sua total ausência de sentido — sem realmente ser ouvida, a abreviatura etc. repetida até à exaustão. A galinha não é ouvida, mas ela intui que et caetera, e assim por diante, encerra tudo o que ainda fica por dizer. «Para falar a verdade a galinha só tem mesmo vida interior» (Clarice Lispector, 2006: 49). Essa vida interior é disfarçada, e a própria galinha deixa-se enganar quando esquece que as suas penas não servem para cobrir a sua «pele preciosa», mas sim para «suavizar a travessia ao carregar o ovo» (Clarice Lispector, 2006: 50).
O que é, então, o ovo? E para quando a vez da galinha se falar, de se escrever e finalmente inscrever na tessitura de uma outra cultura, de um outro pensamento que não o da tradição ocidental?
Na entrevista concedida a Júlio Lerner para o programa Panorama125, Clarice Lispector identifica o conto «O ovo e a galinha» (1971) como sendo a sua obra predileta: «”O ovo e a galinha”, que é um mistério para mim». Clarice Lispector mantém nesta entrevista o jogo que iniciou no conto: este é um conto sobre a evasão continua e irredutível do significado. Marca a irredutibilidade do Outro — e da realidade — em relação ao sujeito que o tenta continuamente apreender. Anular a irredutibilidade do outro é uma impossibilidade e crer conseguir fazê-lo é apenas um erro, uma ilusão.
No conto esta impossibilidade é marcada imediatamente por uma narradora que se assume como espoleta para a reflexão mas que não está centrada na sua mundividência como verdade ou representação do real. Apresenta-se como veículo da história que vai sendo contada; mas a sua subjetividade é partilhada. A sua presença é necessária — existe para relatar — mas o cerne do conto é a história e não quem a narra.
Todo o conto é um jogo literário de cariz filosófico sobre como a tentativa desesperada de apreensão do ovo (da realidade) está sempre e desde logo condenada ao fracasso: «Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo.» (Clarice Lispector, 2006: 47). A pretensão de um sujeito que julga entender, que julga captar, apreender (o significado) do que o rodeia,
89 apenas conduz ao erro, à assunção de um engano que criará uma realidade fantasmática, de uma realidade que não é, apenas aparenta ser. Pretender compreender univocamente é tornar o relacionamento com o outro e com a realidade impossível porque a petrifica. A necessidade dos modelos dominantes que perpetuaram a visão platónica de conhecimento sobre tudo o que existe não é mais do que uma tentativa de delimitar a realidade através da imposição de um horizonte solipsista (Luce Irigaray, 2002: 49) e que implica a tentativa (gorada) de aniquilação do que escapa a (essa) compreensão, a essa delimitação.
Em contraposição explícita ao olhar de morte do sujeito do modelo ocidental, o ovo retribui com um outro olhar desprovido dessa necessidade absurda e incapacitante de domínio: «O ovo medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento de compreensão que fere.» (Clarice Lispector, 2006: 47). A existência de uma outra forma de olhar a alteridade, sem necessidade de reduzir a distância ética absolutamente necessária à relação.
O mistério deste conto que permaneceu irredutível à autora reside no facto de não se deixar apreender e solidificar, estabelecer de modo a petrificar-se numa imagem ou numa inscrição na pedra. O seu segredo é a sua volatilidade: «No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. — Só vê o ovo quem já o tiver visto.— Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido.» (Clarice Lispector, 2006: 46). Este conto é, por isso, um conto sobre a escrita e sobre a própria Clarice Lispector mergulhada no ato de escrita, ato que não considera ofício porque não sabe como se escreve. Numa crónica datada de 1968 pergunta:
«[…] como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? E como é que se começa? que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranquilo?
Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever.»
(Clarice Lispector, 2013: 220) Chamamos a atenção para a subtileza gráfica de todas estas perguntas serem grafadas em minúsculas no seu início, como que a marcar o cariz de um traço que se quer oval, sem início nem fim, em segredo a origem da palavra de uma mulher que se diz e que se escreve. A possibilidade de escrita permanece-lhe um mistério, mas um mistério que a mantém pulsante. O «ovo e a galinha», o conto mistério de Clarice Lispector, aquele que lhe resiste e que resiste à leitura:
«[…] nem sempre se escreve com o desejo de se ser compreendido; há, pelo contrário, um desejo paradoxal de o não sermos; não é simples, mas há como que um “espero que, deste texto, nem todos entendam tudo”; com efeito, se a transparência da inteligibilidade estivesse garantida,
90 destruiria o texto, mostraria que não tem porvir, que não transborda o presente, que se consuma126
imediatamente; portanto, uma certa zona de desconhecimento e de incompreensão é também uma reserva e uma possibilidade excessiva […].»
(Jacques Derrida, 2006: 47) A escrita (ou a palavra) que, como o silêncio, é espaço de resistência à tentativa de entender, de apreender, espaço de resistência à tentativa de anular a difer-ença. É, por isso, espaço de possibilidade para falar mulher, ou da mulher se falar, ou, na palavra de Hélène Cixous da mulher começar a se escrever. E, consideramos nós, responde ao apelo de Irigaray para que se anule a condenação de Eco e desafie o destino de Cassandra:
«[…] writing means creating a corpus and a code of meaning which can be stored and circulated, and wish is likely to go down in History. […].
Writing can therefore be a means of expressing yourself and of communicating in certain circumstances when you are denied the right to speak.»
(Irigaray, 2090: 46)