Vamos começar essa análise pela categoria que relaciona os memes políticos do Facebook as estratégias de persuasão. Os memes persuasivos são peças com propósito de convencimento, criadas seja pelo marketing dos candidatos, seja pela militância, pela imprensa, ou pelo eleitor comum deliberadamente para influenciar o processo político.
Essa categoria, de início parece contraditória, porque uma vez que os memes são tidos pelo senso comum como fruto da ação dos usuários do Facebook, mas este tipo de meme representa quase 58% do total da amostra analisada (ver Tabela 4) – de certa forma, comprovando assim que a incidência de memes está em grande parte relacionada com um comportamento emergente dos partidos políticos e dos movimentos populares para o território do Facebook somada a participação cada vez mais frequente das massas que aderem as redes sociais todos os dias –, a ocorrência deste tipo de conteúdo ajuda a explicar a estratégia discursiva assumida pelos partidos e pelos movimentos e replicada pelos seus militantes nas redes sociais. Por outro lado, os números se equilibram um pouco mais quando falamos de memes de discussão pública e ação popular, com uma forte caracterização do uso do Facebook como um canal de mobilização para passeatas e protestos em lugares públicos.
TABELA 4
Tipos de memes na amostra
Tipo de meme N %
Persuasão 151 57,63%
Ação popular 61 23,28%
Discussão pública 50 19,08%
85 QUADRO 2
Tipos de memes na amostra
Meme de Persuasão Meme de Ação Popular Meme de Discussão Política
Na tabela 5, apresentamos o resultado da análise desta tipologia em conjunto com a referência dos memes a cada um dos partidos e dos movimentos analisados. Nele, percebemos que o PT, o PSDB e o Movimento Contra a Corrupção são os mais beneficiados pela produção de memes persuasivos durante o período pesquisado. O PMDB, mesmo estando muito presente no cenário político nacional, possui um conteúdo muito pouco expressivo nesta categoria comparado com os outros partidos enquanto o Movimento Quebrando o Tabu se utiliza muito pouco dessa categoria levando seus memes para o lado da discussão pública.
TABELA 5
Tipos de memes por Partido/Movimento1
Origem Persuasão Ação Popular Discussão Pública
PT 93 12 2
PSDB 33 2 5
PMDB 11 0 0
Movimento Contra a Corrupção 12 44 32
Quebrando o Tabu 2 3 11
TOTAL 151 61 50
1
A tabela leva em consideração apenas os memes publicados nas páginas da pesquisa durante o recorte temporal e que ainda se encontram disponíveis no Facebook – desde que sejam identificados elementos nesses memes que sugiram referência entre os conteúdos analisados.
86 QUADRO 3
Tipos de memes usados pelo PT
Meme de Persuasão Meme de Ação Popular Meme de Discussão Política
QUADRO 4
Tipos de memes usados pelo PSDB
Meme de Persuasão Meme de Ação Popular Meme de Discussão Política
QUADRO 5
Tipos de memes usados pelo PMDB
87 QUADRO 6
Tipos de memes usados pelo MCC
Meme de Persuasão Meme de Ação Popular Meme de Discussão
Política
QUADRO 7
Tipos de memes usados pelo QOT
Meme de Persuasão Meme de Ação Popular Meme de Discussão Política
Ao avaliar as subcategorias desta taxonomia, é possível perceber que memes que fazem referência a Dilma Roussef e ao PT se destacam pela retórica ético moral e a crítica ao governo embasada em sua grande maioria em dados da imprensa que são explorados como argumentos de veracidade para alavancar o capital social do meme gerando credibilidade. (ver Tabela 6).
TABELA 6
Memes Persuasivos por Partido/Movimento
88
propositiva sedutora ético-moral crítica
PT 3 22 22 46 0 93
PSDB 3 4 14 12 0 33
PMDB 0 3 0 8 0 11
Movimento Contra a Corrupção 0 1 3 8 0 12
Quebrando o Tabu 0 0 1 1 0 2
TOTAL 6 30 40 75 0 151
QUADRO 8
Tipos de memes persuasivos usados pelo PT
Retórica Crítica Retórica Sedutora Retórica Propositiva
QUADRO 9
Tipos de memes persuasivos usados pelo PSDB
Retórica Crítica Retórica Ético-Moral Retórica Propositiva
QUADRO 10
Tipos de memes persuasivos usados pelo PMDB
89 QUADRO 11
Tipos de memes persuasivos usados pelo MCC
Retórica Crítica Retórica Ético-Moral Retórica Crítica
QUADRO 12
Tipos de memes persuasivos usados pelo QOT
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Os memes de ação popular permitem destacar aspectos interessantes. (ver Tabela 7). Um fato que se destacou foi a grande quantidade de memes de “ação conectiva hibrida” compartilhados pelo MCC (Movimento Contra a Corrupção) na intenção de mostrar a existência de grupos de militância sem vinculação explícita com organizações partidárias ou que possuem estreitas relações com organizações e entidades que não são diretamente mencionadas no cenário político, mas que crescem constantemente no território do Facebook. Esse dado mostra como o processo de engajamento partidário- político já migrou para o Facebook e se adaptou aos memes para manter seu posicionamento e ideologia disponíveis para as massas. Aqui novamente é possível perceber o uso de dados da imprensa explorados como argumentos de veracidade para alavancar o capital social do meme.
Estes memes foram classificados como “ação conectiva híbrida” na medida em que permitem especificar posicionamentos dos grupos ativos na nova esfera pública promovida pelo Facebook. Esse fato é de extrema relevância, pois tanto nessa categoria como na Discussão Pública é onde podemos perceber os fatores que podem promover a ciberdemocracia. Como foi demonstrado no item 3.1 o cidadão é inserido no ciberespaço através da inclusão digital e passa a contribuir para o fortalecimento da cibercultura, se adaptando as novas tecnologias e se comportando cada vez mais como um cibercidadão, promovendo dessa forma o surgimento, em longo prazo, a ciberdemocracia. Então ao fazer parte do Facebook e participar diariamente de páginas relacionadas a política o usuário tem acesso a memes usados para difundir ideias e valores. Essa cultura passa a fazer parte da timeline do usuário no Facebook que interage com a mesma aumentando sua relevância e conhecimento. Esse processo começou a crescer em outubro de 2014 e não parou mais até o momento em que finalizamos essa dissertação. Por isso essa categoria é importante como um possível indicador de ciberdemocracia. Nota- se também que a categoria “ação conectiva”, o MCC (Movimento Contra a Corrupção) incorpora imagens que convidam ao ataque ideológico, e/ou imagens da imprensa exploradas como argumentos de veracidade para alavancar o capital social do meme, entre outros.
91 TABELA 7
Memes de Ação Popular por Partido/Movimento
Origem Ação coletiva Ação conectiva híbrida Ação conectiva Ação conectiva não-engajada Outros Total PT 0 3 8 1 0 12 PSDB 0 2 0 0 0 2 PMDB 0 0 0 0 0 0
Movimento Contra a Corrupção 4 24 16 0 0 44
Quebrando o Tabu 0 1 2 0 0 3
TOTAL 4 30 26 1 0 61
Por outro lado, a análise dos memes de discussão pública (ver Tabela 8) ressalta o fato de que, entre os partidos e os movimentos que protagonizaram esta pesquisa, o PMDB foi nulo no uso de memes de Discussão Pública, chegando a ser superado, neste quesito pelo PT, que durante esse tempo também se utilizou muito pouco dos memes de Discussão Pública. Dilma Roussef é a pessoa que figura em muitas “piadas situacionais”, ao passo que Lula é o vencedor na categoria “piadas sobre personagens da política”, que exploram a sátira aos próprios candidatos ou outros políticos, e em “alusões culturais”, a maior parte em menções e referências a filmes e programas de televisão.
TABELA 8
Memes de Discussão Pública por Partido/Movimento
Origem Lugares comuns da política Alusões literárias ou culturais Piadas sobre personagens da política Piadas situacionais Outros Total PT 1 0 1 0 0 2 PSDB 0 0 1 4 0 5 PMDB 0 0 0 0 0 0
Movimento Contra a Corrupção 7 1 9 15 0 32
Quebrando o Tabu 3 2 1 5 0 11
TOTAL 11 3 12 24 0 50
É digno de nota que essa categoria representa o caminho mais próximo para uma possível ciberdemocracia, pois através da constante discussão política através do Facebook, seria possível promover um cenário de expansão
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onde o protagonista, o referido indivíduo, e o seu conteúdo representativo, que não mais está atrelado à esfera pública midiática de massa, pois passa a exercer sua presença e cidadania no ciberespaço, recebendo e produzindo informação através das inúmeras ferramentas de informação.
Devemos destacar que entre os memes coletados, 86,5% (N=227) não apresentam traço evidente de humor, podendo se caracterizar como informação, comentário ou ataque. Outro fator importante se destaca quando analisamos como o humor é usado constantemente pelas páginas dos movimentos enquanto que nas páginas dos partidos o humor é muito pouco utilizado. Piadas situacionais são as preferidas, pois alavancadas pela mídia tradicional ganham grande repercussão dentro do Facebook.
Em relação à iconologia destes memes, 21% (N=55) eram memes que combinavam desenho e texto, ao passo que 72% (N=188) combinavam fotografias com texto e 7% apresentaram somente texto. Um detalhe importante é que poucos memes presentes na amostra de fato continham características típicas dos diferentes gêneros de memes registrados até hoje. A baixa variação de gêneros mostra que para os partidos o uso dos memes ainda é algo estrategicamente utilizado, em sua maioria, para ataques e o humor. Já para os movimentos analisados, essa baixa variação de memes acaba sendo disfarçada pela grande quantidade de postagens. Esta baixa incidência de gêneros, no entanto, realça a hipótese de que os memes de 2014 não evoluíram muito em relação aos memes de 2016, pois não exploram a fundo a linguagem interativa, são frutos de opiniões em tempo real nas mídias sociais e de grandes canais de jornalismo digital e continuam assim sendo usados para alimentar argumentos ideológicos e manter unificados os indivíduos das páginas do Facebook – o que reitera a nossa perspectiva de que se trata, em grande medida, de um fluxo de produção de conteúdo de marketing político transcrito para o posicionamento dos partidos dentro das redes sociais. Do lado do eleitor militante esses memes causam um eco transcrito na forma de compartilhamentos, curtidas e comentários diversos em cada um dos 262 memes analisados nessa pesquisa.
Outro fator que deve ficar registrado é que na divisão geral temos uma evolução gradual do número de memes postados. Enquanto em 2014 temos um total de 76 memes analisados, em 2015 esse número caiu para 56, mas em
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2016 analisamos 130 memes no mesmo período das coletas anteriores (aumento de 171% entre 2014 e 2016). Isso nos mostra que tanto os partidos quanto os movimentos aumentaram o número de memes publicados para os mais variados assuntos. As páginas analisadas tem um impacto muito grande se analisarmos a quantidade de indivíduos que as compõem: PT (1.149.651 integrantes), PMDB (65.398 integrantes), PSDB (1.328.892 integrantes), MCC (3.112.093 integrantes) e QOT (6.190.824 integrantes). Somadas elas interagem com aproximadamente 11.846.858 pessoas enviando memes com conteúdo relacionado tanto a esquerda quanto a direita.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos nesta primeira etapa de análise sobre os memes políticos do Facebook nos permitiram testar a proposta taxonômica apresentada, de tal forma que pudemos levantar algumas questões iniciais para o debate sobre o papel dos memes tanto para os partidos como para os movimentos. A taxonomia usada aqui, se ainda imperfeita, ao menos confere ao investigador dimensão sobre as motivações para a produção dos memes analisados.
A grande incidência, por exemplo, de memes persuasivos e ataques pessoais a Dilma Roussef nos apontam em direção à hipótese de que o território do Facebook é dominado pelo partidarismo com grande ambivalência entre esquerda e direita e que o monitoramento deste tipo de memes é capaz de indicar a evolução dos discursos praticados pelos partidos assim como medir a performances dos movimentos populares. Mas isso ainda não é o suficiente. Não no sentido de entender o porquê agora o virtual se tornou tão importante para a política e como ele influenciou esses três momentos analisados entre 2014, 2015 e 2016. Acontece agora uma naturalização do virtual, através de uma nova realidade digital focada na posição de centralidade que cada vez mais o virtual detém, de um protagonismo assumido sem contestações, de modo que se torna cada vez mais impossível pensar a política real sem o virtual. Os atos políticos, talvez este seja o exemplo mais redundante, já não podem acontecer se antes não forem eventos criados e divulgados nas redes sociais.
O sucesso dos atos reais ou manifestações populares depende, cada vez mais, do modo como o evento faz sucesso anteriormente no mundo virtual. Aí está um dos traços da naturalização do virtual, serem tratados como espontâneos. Tais eventos-manifestações existem antes de tudo no mundo virtual, uma precedência ante o real que diz muito sobre o modo como o partido político e o virtual se conectam. Os memes seguem a mesma lógica, porem com uma poder muito maior de informar e entreter, divulgar e julgar e assim manter o discurso vivo nas páginas e nas linhas do tempo dos militantes.
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É impossível negar, portanto que o Facebook possa ser usado como instrumento político e lugar de visibilidade das lutas ideológicas entre esquerda e direita, uma vez que atualmente parece não haver outro lugar de visibilidade senão o virtual. Todavia, uma indagação dever ser feita: o que o Facebook e suas ferramentas oferecem não podem ser danosos ao processo político como um todo? Devido ao fato do Facebook promover uma linha seletiva por divisão de conteúdo é permitido ao indivíduo ter acesso apenas aquilo que lhe agrada em primeiro momento. Essa divisão não promove o debate, pelo contrário, promove um discurso unanime.
Podemos abrir algumas vias de explicitação para a pergunta acima, não tanto de resposta à mesma, mas sobre o porquê desta indagação não ser feita pela maioria. Em primeiro lugar, tratar-se-ia de considerar o virtual como uma espécie de campo de batalha das ideias, que a priori sendo neutro, isto é, nem de “esquerda”, nem de “direita”, ganhará a “batalha das ideias” aquele lado que conseguir maior visibilidade, ocupando os espaços, se comunicando melhor. A permanência da visibilidade no virtual implica que se opere segundo um modus operandi previamente estabelecido no campo empírico do Facebook. Por conseguinte, a visibilidade política não é mais que a visibilidade virtual. Este comunicar-se melhor implica que, na imensa maioria das vezes, os discursos não sejam apenas simples, mas simplórios. Que possam ser consumidos rapidamente, diminuindo grandemente o nível de problematização, redundando em um debate fraco de conteúdo, porém forte de caricaturas.
Novamente aqui temos indicadores que colaboram com a grande quantidade de memes persuasivos encontrados durante a pesquisa. Não se trata de uma simples crise da política tradicional, mas da renúncia à própria ideia de verdade. A estratégia de sedução e ocupação que concretiza a expansão do virtual através dos memes não é mudar os critérios de veracidade, não é estabelecer uma nova ideia de verdade, mas trata-se da própria recusa da verdade. Não havendo mais necessidade de verdade, ao virtual não pode ser mais imputada ou remetida uma ideia de falsidade, mesmo que a seu favor. Essa recusa na verdade pode ser considerada além de estratégica, o fundamento último da proposição de Pierre Lévy de que o virtual não é o oposto do real. Isso fica muito claro depois de agosto de 2016 quando Michel Temer assume o cargo de Presidente da República e desde então o
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espaço ocupado pelos partidos e movimentos de direita aumentou significativamente no Facebook. Verifica-se dessa forma que não há uma politização da internet, mas sim uma partidarização virtual, pois não podemos esquecer que é primordialmente pela direção do capital que o Facebook opera. Diante dessa partidarização não pode haver dúvida de que uma nova forma de política digitalmente mediada é um componente crucial da revolução provocada pela internet. Ela já é utilizada para o estabelecimento de agendas de baixo para cima, capacitar os cidadãos a falar-se em uma esfera pública interligada, e empurrando os limites da ação coletiva. Em particular, os memes políticos tem mudado a natureza da campanha política e continuarão a desempenhar um papel estratégico em futuras eleições e campanhas políticas.
No entanto, a partidarização virtual também pode ser uma plataforma de conflito e agitação maliciosa por populistas de direita que são disfuncionais para um discurso democrático saudável, enquanto os nossos sistemas de governação atual são suscetíveis a explosões emocionais e movimentos populistas que se desdobram na internet. O que podemos perceber é que o Facebook está aberto a todos e pode ser usado para influenciar a agenda pública de muitas maneiras diferentes. Intimado pelo poder dos indivíduos, nossas atuais instituições de governança são, no entanto, incapazes de lidar com o dinamismo e a diversidade das opiniões cidadãs mediadas digitalmente. Assim podemos afirmar que não temos indicadores sólidos para argumentar a favor de uma possível ciberdemocracia brasileira. A este respeito, esperamos que etapas subsequentes da pesquisa, no doutorado, descortinem novos e instigantes novos resultados.
Com efeito, cumpre aqui chegar ao fio da meada lembrando uma fala de Castells (2015), que demonstra um dos motivos do crescimento dos memes políticos do Facebook. Ele conclui: “O que é certo é que a comunicação dos jovens passa pelas redes sociais, e por isso os partidos e movimentos de todo tipo intervêm nas redes sociais, porque a única coisa segura sobre o futuro é que são os jovens de hoje que o farão. Quem mais influenciar a mente dos jovens no espaço da comunicação construirá as bases do poder – conservador, reformista ou revolucionário – no Brasil”.
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