O conteúdo “Plantas Medicinais”, proposto para as docentes, é um tema pertencente ao contexto indígena Xukuru e esperávamos que proporcionasse um resgate tanto das especificidades do conhecimento relacionado ao tema, como possibilitasse verificar a forma como as docentes resgatam a cultura, no trabalho desenvolvido em sala de aula.
Foram registradas algumas visitas da pesquisadora aos Xukuru em eventos e outros momentos, que deram margem a uma descrição etnográfica do contexto pesquisado. A partir daí, foi obtida uma visão geral do que pesquisar e por onde começar a pesquisa. Tivemos, assim:
• Visita à escola para negociação da coleta de dados e tipo de pesquisa a ser realizada, solicitação da autorização para a realização de filmagens e fotografias das docentes e discentes (junho/2006);
• Acompanhamento da apresentação dos projetos interdisciplinares (setembro/2006), no Salão de reuniões São Miguel, em Vila de Cimbres;
• Acompanhamento de um grupo de pesquisadores franceses no período de uma semana (fevereiro/2007), cujo objetivo foi a verificação da prática pedagógica Xukuru;
• Participação de um encontro com pais, lideranças e professores da escola pesquisada (maio/2007), registrado em vídeo e em diário;
• Conversas com as docentes para a realização das aulas (não registrada), maio de 2007; • Observação e registro das aulas (junho/2007);
• Outras visitas para entrega dos DVDs às docentes (conversa não registrada) em julho de 2007. Esta visita teve como objetivo entregar às docentes o registro de suas aulas em DVD. Achamos necessário tal procedimento por considerarmos relevante uma análise metacognitiva por parte das docentes, que será tema de outro trabalho.
Sobre o conteúdo “Plantas Medicinais”, foi feita uma análise em alguns livros e manuais sobre as plantas e suas funções fitoterápicas. As escolas Xukuru também se utilizam de livros didáticos, considerados por eles livros da escola do branco, visto que a base nacional comum curricular precisa ser ensinada pelas escolas indígenas. Ressaltamos que esses livros não são formatados para escolas indígenas. O material didático indicado como “livros indígenas” é complementado por cartilhas, folhetos, revistas, cadernos especiais, etc. Isso foi constatado pela pesquisadora e reafirmado pelos discentes, através de comentários sobre a falta de referência, em seus livros, ao conteúdo proposto (informação registrada no diário de campo).
Para acompanhar a disposição dos saberes docentes, referentes ao conteúdo “Plantas Medicinais”, tivemos que estudar o conteúdo. Os livros pesquisados foram os mais variados: manuais, enciclopédias, guias, pesquisas, etc. Cada livro apresentava uma informação diferente sobre o tema. Esses livros estão representados pelos autores: Biazzi (1997); Costa
(1996); Dicionário de Medicina Natural (2000); Barsa/Saúde (2001); Seleções - Guia Prático de Alimentação (2006); Spethmann (2000); todos estão inseridos na bibliografia. O mais significativo, foi “Plantas da Bíblia” (CARRAZZONI, 2003). Nesse, encontramos várias das plantas apresentadas pelos professores Xukuru, com a respectiva composição química, nomes científicos e indicações. Assim tivemos uma idéia da disposição dos saberes científicos, ressaltados nos respectivos livros. De acordo com Carrazzoni (2003):
A utilização de plantas medicinais no decorrer do tempo é repleta de curiosidades. Na antiguidade, a sua aplicação para a cura de males baseava- se no espírito das plantas, teoria sustentada em parte pelos alquimistas e desenvolvida pelo ocultismo. Eram os chamados arquétipos, pertencentes a uma corrente que costumava atribuir a cada planta um Deus. Seus adeptos acreditavam que, graças às divindades responsáveis por cada espécie, os homens podiam receber proteção contra as doenças do corpo e do espírito. O emprego de plantas na busca da cura do corpo e do espírito esteve sempre vinculado a ritos religiosos e mágicos (p. 12).
Assim, o conteúdo “Plantas Medicinais”, o mais expressivo entre os conteúdos culturais resgatados pela etnia, na nossa concepção, pôde também servir para verificar a existência de “mitos e crenças” em relação ao uso e manejo das plantas, tanto na terapêutica contra as doenças como na manutenção dos rituais religiosos, apesar de não termos este como objetivo de estudo. Mitos e crenças, abordados em momentos da nossa análise, serão evidenciados considerando apenas a inter-relação entre os significados construídos em sala de aula.
Em relação às seqüências didáticas, Forquin (2003, p. 25) diz: “[...] Diferentes escolas podem ter hierarquias de prioridades divergentes, mas todos os professores e todas as escolas fazem seleções no interior da cultura [...]”.
Cada docente organizou suas aulas, para filmagens e posterior análise neste trabalho, conforme descrito abaixo.
Docente A: 1 - Resgate das concepções dos estudantes, breve explanação sobre o tema em sala de aula, com atividade para ser realizada em sala e trabalho de pesquisa para casa. Os estudantes pesquisariam com os pais e trariam uma ou mais plantas (amostras) para explicar “para que serve e como se faz” (linguagem utilizada pela docente para conceituar a planta e mostrar os procedimentos fitoterápicos de cada planta); 2 - Apresentação da pesquisa, realizada de maneira oral pelos discentes; 3 - Aula fora da sala, com o objetivo de identificar algumas plantas nas imediações da escola.
Docente B: 1 - Apresentação da pesquisa, solicitada anteriormente pela docente. Os estudantes apresentaram os trabalhos (lendo); 2 - Apresentação de músicas e danças que consagram o resgate da cultura da etnia Xukuru. 3 - Aula fora da sala, com o objetivo de identificar algumas plantas que estariam no quintal de uma casa, próxima da escola.
Docente C: 1 - Aula fora da sala, numa horta orgânica, com o objetivo de verificar os procedimentos para o cultivo de hortaliças, frutas e algumas plantas medicinais; 2 - Depoimento de uma agricultora Xukuru sobre o plantio de uma horta orgânica (ela falou um pouco sobre o cultivo de algumas plantas, controle de pragas e manejo e cultivo da horta); 3 - Aula expositiva em sala sobre plantas medicinais; 4 - Apresentação de trabalhos realizados em grupo pelos estudantes, após a aula expositiva da docente.
Docente D: 1 - Aula expositiva sobre o tema plantas medicinais; 2 - Apresentação de amostras de plantas pelos discentes, abordando a nomenclatura e utilidade fitoterápica; 3 - Depoimento de um membro da comunidade, falando sobre a importância e especificidades de algumas das plantas medicinais apresentadas pelos alunos e a importância do uso para o seu povo.