Entre os cerca de mil e trezentos prêmios literários de que se tem notícia hoje na Itália, o Bagutta pode ser considerado o mais antigo. Fundado em 11 de novembro de 1926, este concurso recebe o nome do restaurante onde nasceu, a Trattoria Bagutta, que por sua vez tem o mesmo nome da rua onde estava situado, no centro histórico de Milão.
O escritor Riccardo Bacchelli foi um dos primeiros frequentadores do restaurante e passou a convidar ao local diversos amigos que ali se reuniam para jantar e debater sobre livros. Na noite em que foi instituído, decidiu-se que os onze amigos que estavam à mesa constituiriam o júri do prêmio. Um grupo heterogêneo formado por intelectuais de áreas como jornalismo, Direito e artes, eram eles: o próprio Bacchelli, Orio Vergani, Adolfo Franci, Paolo Monelli, Gino Scarpa, Mario Vellani Marchi, Ottavio Steffanini, Luigi Bonelli, Mario Alessandrini, Antonio Veretti e Antonio Nicodemi.
A premiação do Bagutta, contrariando a prática adotada por seus concorrentes, é feita no inverno. Consta em seu website96 que o concurso não tem assessoria de imprensa, editais, limitações de gênero e menos ainda, um regulamento. Quanto às obras já premiadas, estão presentes ensaios, romances, contos, poesias, livros de memórias e até uma antologia de traduções. Os organizadores garantem que este é o único dos grandes prêmios que continua independente das pressões editoriais e, analisando o seu histórico, é possível notar que ele considera livros que estão fora de qualquer lógica comercial.
Em 2011, ano da 75º edição do Bagutta, foi fundada a Associazione Artistico Culturale Cenacolo di Bagutta, uma associação independente, sem fins lucrativos e apartidária com o objetivo de valorizar a cultura em todas as suas manifestações, tanto através da organização e promoção de eventos artísticos, quanto através de debates de ideias.
Conforme notícia veiculada no jornal Corriere della Sera97, a Trattoria Bagutta estava em débito com o locador do imóvel onde funcionava e fechou suas portas em 29 de junho de 2016, motivada por um despejo judicial. Contudo, o Premio Bagutta sobrevive e está em sua 93ª edição, já que os jurados mantiveram as reuniões na Sala dell’Ermelino, espaço cedido por Francesco Micheli, um financista apoiador do prêmio. Desde 2018, o tradicional jantar de premiação também acontece lá.
96 www.bagutta.it Último acesso em 28/06/2019.
97 Disponível em http://milano.corriere.it/notizie/cronaca/16_luglio_02/epilogo-amaro-il-bagutta-chiuso-tre- giorni-7ec00e36-3fcd-11e6-83d3-27b43c152609.shtml Último acesso em 28/10/2016.
1.4.2 Premio Viareggio Rèpaci
Este concurso literário foi chamado de Viareggio por ter sido fundado, em 1929, na homônima cidade toscana, por três literatos: Leonida Rèpaci, Alberto Colantuoni e Carlo Salsa. O objetivo de seus fundadores era ampliar a circulação de obras de prestígio na sociedade literária italiana, uma vez que o Premio Bagutta, que à época já existia, estava muito circunscrito a uma vida de cenáculo e ao contexto milanês.
Desde a festa de inauguração do prêmio, ele foi prestigiado por escritores ilustres como Luigi Pirandello e Massimo Bontempelli. De sua primeira edição saíram vitoriosos Lorenzo Viani, autor de Ritorno alla patria (Alpes) e Anselmo Bucci, com o seu Il pittore volante (Ceschina).
A seleção dos indicados ao Viareggio é realizada por um comitê gestor constituído pela presidente Simona Costa, a secretária literária Costanza Geddes Da Filicaia e pelo júri, composto por um mínimo de treze e um máximo de vinte e uma figuras de renome no âmbito literário italiano, entre professores universitários, jornalistas e escritores98.
Atualmente o prêmio possui três categorias: “Narrativa”, “Poesia” e “Saggistica”99. O número de obras indicadas para cada categoria pode variar, mas na fase final são escolhidas, na uma primeira votação, oitos obras (le rose) e, na segunda votação, três obras finalistas (le terne), a partir das quais extrai-se a vencedora. Além disso, há prêmios jornalísticos e reconhecimentos conferidos ao autor do ano e a uma redação de estudantes de escolas da cidade de Viareggio. Os jurados atribuem também o Premio Internazionale Viareggio-Versilia a uma personalidade de fama mundial que tenha dedicado a vida à cultura, ao entendimento entre os povos, ao progresso social e à paz.
1.4.3 Premio Campiello
Prêmio literário fundado em 1962 por um grupo de industriais da região do Vêneto e presidido por Mario Valeri Manera durante vinte anos. Em sua primeira edição (1963), coroou La Tregua de Primo Levi e, desde então, é entregue anualmente a uma obra de narrativa italiana editada no mesmo ano do concurso. Admitem-se romances e contos, ensaios não são considerados.
98 Ver nome e currículo dos membros em http://www.premioletterarioviareggiorepaci.it/premi/comitato Último acesso em 29/10/2016.
O vencedor da premiação, cuja cerimônia normalmente é feita no Palazzo Ducale ou no Gran Teatro La Fenice, em Veneza, é decidido pela Giuria dei Lettori ou Giuria dei Trecento, um júri popular de 300 leitores de diversas proveniências, culturas, idades e profissões que podem participar do processo decisório uma única vez, votando em um dos cinco livros previamente selecionados pela Giuria dei Letterari, formada por dez personalidades do mundo cultural e literário.100
A Giuria dei Letterati fica incumbida ainda de escolher o vencedor das categorias “Opera Prima”, desde 2004 destinada à obra de estreia de um autor, e “Campiello Giovani”, reservada a contos de tema livre em língua italiana escritos por jovens com idade entre 15 e 22 anos na Itália e no exterior, através da contribuição dos Istituti Italiani di Cultura.
Constituída em 1985 pelos membros da confederação das indústrias do Vêneto, a Fondazione Il Campiello, além de organizar o prêmio, trabalha para realizar congressos e manifestações culturais. A partir de 2010, a fundação passou a entregar anualmente um prêmio a notáveis personalidades da cultura italiana contemporânea. Os vencedores até o momento foram: Carlo Fruttero, Andrea Camilleri, Dacia Maraini, Alberto Arbasino, Claudio Magris, Sebastiano Vassalli, Ferdinando Camon, Rosetta Loy e Marta Morazzoni.
1.4.4 Leitura comparativa entre os prêmios
No intuito de observar com mais clareza eventuais convergências e divergências entre os prêmios, fizemos uma tabela comparativa (ver anexo) com as obras vencedoras do Campiello, Viareggio, Bagutta e Strega, no período que estudamos, isto é, o século XXI. Exceto no caso do Bagutta, em que constam obras de diversos gêneros literários, nos ativemos apenas aos campeões das categorias narrativas dos concursos que contemplam mais de uma obra por ano.
A grande diferença que pudemos constatar reside na alternância de editoras contempladas pelos concursos literários. Nas dezenove edições do Strega neste início de século apareceram apenas cinco grandes grupos: Mondadori, Rizzoli, Einaudi, Bompiani e Feltrinelli. A única exceção foi a vitória de 2018 pela Guanda. No mesmo período, o Viareggio foi entregue a livros de onze diferentes editoras, com chance desse número aumentar em 2019, já que entre
100 Ver nome e currículo dos membros em
http://www.premiocampiello.org/confindustria/campiello/istituzionale. nsf
/($linkacross)/FA31259F16CCED27C1257F3B00410F6A?opendocument&language=IT Último acesso em 29/05/19.
os três finalistas há duas obras da editora La nave di Teseo que nunca venceu esse prêmio. Já o Campiello e o Bagutta, com duas categorias cada, premiaram dezenove e vinte e três casas editoras, respectivamente. Houve uma edição empatada no Campiello e outra no Viareggio, enquanto no Bagutta esse fenômeno aconteceu seis vezes, o que incrementa a possibilidade de revezamento entre editoras vencedoras em razão do aumento no número de prêmios concedidos. Contudo, mesmo que considerássemos apenas uma das categorias e excluíssemos os empates, o número de editoras vencedoras em cada um dos outros três prêmios ainda excederia a quantidade de editoras contempladas pelo Strega.
As duas maiores coincidências que observamos no século XXI foram que Paolo Giordano recebeu por La solitudine dei numeri primi o Premio Strega e o Campiello Opera Prima no mesmo ano (2008) e, dez anos depois, em 2018, Helena Janeczek venceu comLa ragazza con la Leica o Strega e o Bagutta, além de ter sido finalista do Campiello. Outros onze autores que, no mesmo arco temporal cotejado por nossa tese, receberam mais de um dos prêmios reportados na tabela foram: a) Niccolò Ammaniti – Viareggio 2001 por Io non ho paura (Einaudi) e Strega 2007 por Come Dio comanda (Mondadori); b) Edoardo Albinati – Viareggio 2004 por Svenimenti (Einaudi) e Strega 2016 por La scuola cattolica (Rizzoli); c) Melania G. Mazzucco – Strega 2003 por Vita (Rizzoli) e Bagutta 2009 por La lunga attesa dell’angelo (Rizzoli); d) Margaret Mazzantini – Strega 2002 por Non ti muovere (Mondadori) e Campiello 2009 por Venuto al mondo (Mondadori); e) Ugo Riccarelli - Strega 2004 por Il dolore perfetto (Mondadori) e Campiello 2013 por L’amore graffia il mondo (Mondadori); f) Sandro Veronesi – Strega 2006 por Caos Calmo (Bompiani) e Bagutta 2015 por Terre Rare (Bompiani); g) Nicola Lagioia – Viareggio 2010 por Riportando tutto a casa (Einaudi) e Strega 2015 por La ferocia (Einaudi); h) Alessandro Piperno - Campiello Opera Prima 2005 por Con le peggiori intenzioni (Mondadori) e Strega 2012 por Inseparabili. Il fuoco amico dei ricordi. (Mondadori); i) Antonio Scurati – Campiello 2005 por Il sopravvissuto (Bompiani), Viareggio 2015 por Il tempo migliore della nostra vita (Bompiani) e Strega 2019 por M. Il figlio del secolo (Bompiani); j) Filippo Tuena – Bagutta 2006 por Le variazioni di Reinach (Rizzoli) e Viareggio 2007 por Ultimo paralelo (Rizzoli) e l) Paolo Di Stefano – Viareggio 2013 por Giallo d’avola (Sellerio) e Bagutta 2016 por Ogni altra vita. Storia di italiani non illustri (Il Saggiatore).
Note-se que, da lista anterior, Paolo Di Stefano é o único autor que ganhou dois diferentes prêmios publicando pela Sellerio e pela Il Saggiatore, editoras não constantes entre as premiadas pelo Strega no período de 2001 a 2019. A Sellerio despontou na dozzina em 2004, 2008 e 2010 e, na cinquina, em 2002 e 2006. A editora Il Saggiatore não aparece como finalista de nenhuma das edições do século XXI.
2 – ASPECTOS DA NARRATIVA ITALIANA CONTEMPORÂNEA
Apresentaremos, a seguir, três ensaios de recente publicação, em que a narrativa deste novo milênio foi examinada por professores pesquisadores de universidades italianas. Nossa seleção baseia-se no fato de que diversas obras e autores premiados pelo Strega foram objeto de suas análises. Trata-se de ensaios que giram em torno da hermenêutica do inconsciente literário e que propõem, cada um a seu modo, uma leitura ancorada nos sintomas observados nos romances italianos do século XXI.