• Aucun résultat trouvé

I als_defined(s,lspid)

Dans le document Token-Ring Network Architecture (Page 190-193)

Ramos (2008) chama atenção para o fato de que atualmente inúmeras ações por parte de órgãos governamentais e não-governamentais têm avançado no campo da economia solidária. Eles vêm recebendo o apoio dos movimentos sociais atuando nas discussões políticas e na articulação nacional de produtores, empreendimentos e cooperativas. Através desse contexto lançamos o olhar nesse tópico para alguns direcionamentos relacionados ao

59

131 trabalho das agroindústrias para o processo de fortalecimento da agricultura familiar, mostrando a relevância desse empreendimento para a comunidade de Capoeiras.

Segundo Vieira e Silva, (2005), as organizações cooperativas têm representado para muitas pessoas o ingresso na sociedade globalizada. O projeto nasce com intuito de constituir um grupo coeso com o objetivo de aumentar a pressão política, o poder de negociação, reflexões conjuntas e o aprofundamento de conhecimento das potencialidades locais, realizando um trabalho conjunto na busca de esforços coletivos, trocas de experiência e combate ao isolamento. Como aponta Ramos (2008), nesse processo o trabalhador tem seu papel definido, não de forma individual, mas coletivo, dando ao participante um poder e responsabilidade; é um processo que exige uma emancipação, uma desalienação. Nesse viés, a proposta de desenvolvimento alternativo ou solidário consiste no desenvolvimento da “comunidade”, cidade, estado ou até mesmo da nação, a fim de constituir como o fundamento para uma globalização humanizadora e socialmente justa.

A cooperativa funciona da seguinte forma: Na cooperativa, o trabalho é realizado durante todo mês. Sempre ao final de cada mês ocorre uma reunião onde serão esclarecidos todos os gastos. Depois de tirar o dinheiro para cobrir os gastos, as sobras serão divididas entre os cooperativados. Como fala Maria Barbosa: “A gente paga as contas, água, luz,

despesas com transportes e o que sobra é dividido com os cooperados”.

Figuras 35 - A Cooperativa de Beneficiamento de Mandioca.

132 O modelo adotado para a Cooperativa é o mesmo que pressupõe Lima (2011), obedece ao compartilhamento de um conjunto de valores próprios das classes trabalhadoras, com o reconhecimento da força de coesão e cooperação, pois atua seguindo os princípios do cooperativismo; a solidariedade, o reconhecimento mútuo e a reciprocidade.

As organizações cooperativas têm alguns princípios básicos para a sua formação e atuação como adesão voluntária e livre, gestão democrática controlada por seus membros, participação econômica dos seus membros, autonomia e independência, intercooperação através das estruturas locais, regionais, nacionais e internacionais, dentre outros. Esses princípios não devem ser implantados de maneira impositiva, desconectados da realidade e compreensão dos envolvidos, pois estarão fadados a serem reproduzidos mecânica e limitadamente, pondo em risco a criação e consolidação da organização. É necessário considerar de onde partem os grupos pertencentes, as potencialidades e os limites locais, a sua cultura englobando aspectos regionais e nacionais, e as possíveis inter-relações com outros setores. (VIEIRA E SILVA, 2005: 10)

Percebendo a grande importância de fomentar a geração de renda local, num empreendimento de ação coletiva, a comunidade reconhece que o importante instrumento para geração de renda é a “Cooperativa de Produção de Beneficiamento da Comunidade Rural de Capoeiras”, “A Cooperativa”, como é mais conhecida pelos associados. Ela foi fundada em maio de 2007 e foi resultado de uma seleção pública do Programa Petrobrás Fome Zero do governo federal.

A ideia da elaboração da referida ação foi desencadeada com muito esforço pelo Centro de Estudos, Pesquisa e Ação Cidadã (CEPAC)60 – Macaíba. Esse projeto da Cooperativa de Capoeiras (COOPCAP) foi desenvolvido em conjunto com a Associação Quilombola dos Moradores de Capoeiras e foi pensado para atender, 53 famílias, agregando só um membro de cada unidade familiar. A seleção de associados se deu através de questionários, como destaca seu Manoel Batista que: “Essas pessoas são agricultura, pois o

projeto foi para atender esse pessoal. Pois era o povo que já sabia o que tava fazendo. Desde o cultivo da terra, o plantio, de cuidar da mandioca, saber tempo de uso”.

O projeto procura desenvolver na comunidade um trabalho cuja principal meta é atuar ajudando no beneficiamento da mandioca e promover a venda dos produtos diretamente para o mercado sem que passem pelas mãos dos atravessadores, beneficiando a comunidade com a geração de emprego e renda e como tentativa de permanência dos moradores na comunidade, onde os produtores passam a ser responsável pela produção e pela comercialização dos produtos. Como aponta Junior, Trentin e Filippi, (2008) o

60

O Centro de Estudos, Pesquisas e Ação Cidadã - CEPAC - Criado em março de 1999, esta instituição tem os direitos humanos como filosofia norteadora e atua como instrumento de fomento à cidadania local. Hoje, estimula o debate sobre temas como geração de emprego e renda, educação, saúde, esporte, lazer, cultura e agricultura familiar. Tem executado projetos na área de artesanato, produção rural e protagonismo juvenil.

133 empreendimento vem contribuir para o contexto da reprodução da agricultura familiar, agroalimentar e para o desenvolvimento do meio rural.

(...) a atividade de beneficiamento da produção com fins de comercialização traz uma maior autonomia aos agricultores, o que “lhes possibilita criar espaços de manobra para se contrapor ao regime sociotécnico prevalecente na agricultura modernizada e à gramática da globalização, criando formas de inserção diferenciadas aos circuitos mercantis, que não colocam em risco a reprodução do grupo familiar” (WESZ JUNIOR e NIEDERLE, 2007).

Dessa forma, os mercados locais e alguns produtos vindos da agricultura familiar passam a ocupar seu espaço nas cadeias produtivas, agora em um contexto diferenciado, trabalhado pelas novas normas de qualidade e com adoção do sistema de boas práticas de beneficiamento. Nesse sentido, o empreendimento promove a abertura de mercados alternativos, valorização dos produtos e acabam trazendo inúmeras possibilidades, desenvolvido através de um novo paradigma de desenvolvimento no ambiente rural.

Por outro lado, é importante salientar que a viabilização das agroindústrias não se restringe somente aos agricultores, pois a renda em relação ao empreendimento dado aos agricultores também atende aos mercados locais através da compra de bens de consumo, onde o capital gerado pela adesão ao empreendimento tem circulação não somente no meio rural, ela passa a girar pelo espaço urbano, devido ao trânsito frequente dos agricultores pelos referidos espaços.

Figuras: 36 e 37 – Estrutura interna da Cooperativa (COOPCAP) e Farinha produzida na Cooperativa

134

Figuras: 38 e 39 – Preparo do Beiju e do Grude na COOPCAP.

Fonte: Acervo Ivanildo Lima, 2014.

Com a Agroindústria de Beneficiamento da Mandioca a farinha produzida na comunidade não é mais produzida artesanalmente, ela conta com máquinas que produzem o referido derivado da mandioca com toda higiene e técnicas que favoreçam a qualidade do produto. Devemos destacar que os produtos recebem códigos de barra, atendendo às exigências legais do mercado. Ela conta com equipamentos como: forno, prensa, peneira.

Na fala de alguns associados, eles abordam que têm sido privilegiadas as atividades que gerem ocupações para alguns agricultores, renda para suas famílias, preservação das culturas e tradições locais e manutenção das pequenas propriedades rurais, ou nos termos de (JUNIOR, TRENTIN E FILIPPI, 2008: 10) “a busca por novas alternativas que corroborem com o processo de desenvolvimento rural”. Vieira e Silva (2005) mostram que as organizações cooperativas, vistas como processos sociais, possuem seu universo simbólico e expressam em seu funcionamento, práticas sociais que precisam ser compreendidas em quaisquer tentativas de teorização que venham por ventura fazer-se a respeito delas.

Outro dado interessante de mencionar é que através de uma ação coletiva entre os associados é produzido não só a farinha, como também produtos como: goma, mandioca mole, bolo preto, beiju e grude, estes são comercializados em supermercados, em feiras livres, escolas e outros órgãos públicos que atuam como parceiros no empreendimento comunitário, como a CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos)61. Mas a principal forma de venda que dá mais visibilidade é a venda nas feiras livres de Santa Rita, Ielmo Marinho e Bom Jesus, ambas ocorrem nos finais de semana.

61

Ação do Programa Fome Zero que objetiva promover o acesso a alimentos para as populações que vivem no estado de insegurança alimentar e também promove uma inclusão social e econômica no campo por meio do fortalecimento no que diz respeito, a agricultura familiar.

135 A intenção do empreendimento é que o consumo ultrapasse o ambiente familiar, trazendo desenvolvimento que valorize o ambiente local, proporcionando a utilização do espaço da comunidade. Esses produtos são intimamente relacionados com a procedência da família e com o contexto local, assinalando uma forte relação com hábitos alimentares e gastronômicos dos moradores locais. Como diz Froehlich e Alves, (2005), a agroindústria familiar vem ganhando importantes atributos para criação de uma identidade territorial, fortalecendo-se como um importante aspecto na estratégia de desenvolvimento para a comunidade.

Os produtos da agroindústria têm enorme aceitação no mercado, por ser de procedência pura e saudável, sem a aplicação de produtos químicos. Além disso, por se utilizar matéria-prima e mão-de-obra familiar na sua fabricação. Ganham também importância por reduzirem os custos de produção, pois necessita de aplicação de menos capital de giro para tocarem o negócio e podendo, assim, resistir por mais tempo às oscilações empreendidas pelo mercado.

Vendo todo esse contexto de inclusão numa economia pautada nos princípios de igualdade, solidariedade, cooperação e ética é de suma importância abordar que o mesmo se preocupa com as relações de gênero. Ramos (2008; 9) atenta que “mesmo o empreendimento de autogestão, onde a pessoa é reconhecida como o centro e razão de sua existência, é preciso estar atento para a visibilidade das mulheres dentro desses empreendimentos”. Assim, por se tratar de um espaço de formação, é importante que as mulheres estejam inseridas em todas as instâncias.

A partir da economia solidária, essas mulheres, sobretudo as mais pobres, têm tido a oportunidade de redesenharem-se como agentes, de mostrar seu potencial propositivo na economia e de posicionar-se contra uma série de estigmas sobre o perfil da mulher que trabalha. (...) Ao apresentar a economia solidária como alternativa econômica para as mulheres, acredita-se que esta é uma forma de resistência da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que deve ser um espaço de emancipação das mulheres. (RAMOS, 2008: 10-11)

As atividades da cooperativa são desenvolvidas na casa de farinha às quartas e sextas feiras, dependendo se tem produto para o trabalho. Elas desenvolvem seu trabalho em conjunto com alguns homens. Eles são responsáveis pelo transporte da farinha até a cooperativa e trabalham no processo mais pesado da fabricação (prensam a mandioca e produzem a farinha) e cabe às mulheres exercerem atividades que vai desde a raspagem de mandioca até a produção de alguns produtos derivados da mandioca para comercialização: goma, mandioca mole, como também na produção de bolo preto, beiju, grude. Mas vale destacar que elas não possuem atividades fixas podendo também realizar outras atividades.

136 Na agroindústria a organização e a divisão das tarefas dentro do grupo têm acontecido com a inclusão de todos os agricultores do domicílio nas atividades que vai do transporte do produto até o beneficiamento da produção. A tradição da mulher no papel artesanal da confecção de produtos acaba demarcando em muitos casos o ponto de partida para a ampliação da atividade. Na organização da formação inicial do projeto a Cooperativa contava com 05 grupos que trabalhava durante toda a semana. Tinha um grupo de mulheres que trabalhava na raspagem de mandioca, um homem para trabalhar no forno a lenha, um prenseiro, um ajudante que reversava entre a prensa e o forno, um homem para tirar goma e uma pessoa que cozinhava (mulher) e outro grupo de mulher que cuidava na raspagem de mandioca. Nota-se na divisão do trabalho que os homens ficavam com o trabalho mais pesado e as mulheres com os mais leves.

As mulheres cooperadas falam que existiram algumas dificuldades no período inicial, mas apontam que a iniciativa é uma maneira de gerar renda para complementar o orçamento doméstico. Outro saldo de cunho positivo para essas mulheres; é que a atividade se torna importante no sentido que veio tentar conter a saída das mulheres de seus lares para trabalhar na cidade. Assim, com essa atividade, elas estariam ganhando seu próprio dinheiro na comunidade e participam ativamente da rotina diária de sua família.

Podemos verificar o que está explícito no parágrafo anterior na voz de uma das associadas e atual vice-presidente da Associação de Moradores de Capoeiras, Maria das Graças Barbosa, quando pergunto sobre os aspectos positivos em relação à Cooperativa:

Até tenho, Nildo, não tanto na questão financeira, mas antes agente tinha como fonte de renda sair de casa e deixar os filhos pequenos em casa e ir trabalhar em natal, até hoje isso acontece muito. A cooperativa veio em cima disso, hoje a cooperativa não abrange toda a comunidade, mas a gente tá usando como o começo. Hoje tenho a vantagem de estar trabalhando na cooperativa e a noite está dormindo com meus filhos e assim ter uma visão do que eles estão fazendo durante o dia. Quem trabalha fora, passa a semana fora e só chega aos sábado, não acompanha o dia a dia dos meninos. (Maria das Graças Barbosa – Entrevista realizada em2014)

O trecho mostrado anteriormente reforça a preocupação das mulheres com a questão da permanência na comunidade e tem nas atividades da cooperativa uma forma de permitir essa permanência e ainda por cima frisar sobre o papel da mulher com os cuidados com a familiar, do lar e a educação de seus filhos. Devemos destacar que em conversa informal com algumas dessas mulheres, elas pontuam que através do empreendimento passaram a se sentir mais valorizadas, passando a melhorar sua autoestima e o empreendimento foi um passo para sua independência econômica, ou seja, no grupo feminino, elas estão preocupadas em

137 encontrar algumas alternativas para geração de renda, como forma de inibir o êxodo de mulheres.

Hoje a cooperativa vem passando por dificuldades em relação à escassez de produto, queda do preço da farinha e por pouco interesse de pessoas que visavam ganho rápido. Também o caso de afastamento por problemas de saúde de alguns cooperados. Mas mesmo assim os que trabalham não desistem e esperam mais alguns incentivos para dar fôlego ao projeto.

A entrevista com uma das principais entusiastas diz muito sobre esse contexto.

Pesquisador: Como vem funcionando a Cooperativa no momento?

Maria Barbosa: Hoje nós estamos funcionando com o mínimo possível por

contada falta de Mandioca. A farinha caiu de preço demais. Agora estamos trabalhando só com o beiju e goma. Agora a gente tá esperando mais algum incentivo para dar mais algum fôlego para o projeto. Tá faltando também a mandioca. Assim falta isso tudo e o dinheiro começa a ficar apertado.

Pesquisador: E as consequências da falta da mandioca?

Maria Barbosa: Como diminui o produto a gente não teve como cumprir os

contratos, tivemos que parar alguma coisa. Antes a gente vendia no Rede mais, nas lojas da CEASA, nos mercadinhos de Ielmo Marinho.

Pesquisador: Qual o principal problema enfrentado hoje pela cooperativa?

Maria Barbosa: Hoje o nosso principal problema é por pessoas que se interessem

em trabalhar e a matéria prima, a mandioca. Houve uma falta de interesse pelos moradores, alguns pensavam que o investimento ia dar bons rendimentos e lucro de imediato e rápido. E não foi assim. Também não tinham muitos jovens. As pessoas que estavam saíram por problemas de saúde, não podia mais trabalhar, outras saíram porque encontraram emprego mais rentável em outros lugares. Era pessoa mais de idade e que trabalhavam na roça. (Maria Barbosa da Silva – Entrevista realizada em 2015)

Diante de todas essas dificuldades apontadas na entrevista acima, os cooperativados não desistem do empreendimento e se projetam na juventude como mola mestra para dar continuidade a iniciativa. Já que o projeto tem como base principal a agricultura familiar, espera-se que no futuro que haja investimentos para que os jovens auxiliem no controle de qualidade dos produtos produzidos e o trabalho com a questão de beneficiamento e reaproveitamento da casca e de outros produtos oriundos da mandioca. Estes investimentos poderão abrir um leque de oportunidades para os jovens e fazer com os mesmos permaneçam também na comunidade.

Com o passar dos tempos o número de participantes foi reduzido para 23, sendo 08 mulheres e 15 homens que realizam atividades na cooperativa sempre em três dias da semana, isso no ano de 2012. Outros Falaram sobre as dificuldades e descrédito em relação a parcerias

138 junto aos órgãos do governo municipal que dificultava o acesso para vinda de mais projetos para a comunidade e para a Cooperativa. No momento atual, a instituição atende somente a 12 pessoas, sendo 04 mulheres e 08 homens.

Para finalizar, é central abordar que existem pessoas se encaminhando para outros setores do mercado de trabalho, como Josélia Estevão de Freitas, que exerce atividades numa indústria de fabricação de balas, localizada no Centro Industrial Avançado de Macaíba e Geane Moura que hoje atua como recepcionista de caixa em uma grande rede de supermercados de Natal. E ainda as jovens Júlia e Sueli Oliveira que atuam numa fábrica de camarão em Parnamirim. Outra área bastante requisitada pelas mulheres é a da saúde, existem meninas da comunidade e até mesmo de pessoas que trabalham como domésticas (caso de Marcela – empregada doméstica) se profissionalizando e buscando os cursos técnicos na área de enfermagem, socorrista e técnico em saúde bucal para possível inserção futura no mercado de trabalho.

Portanto, as duas atividades citadas e as demais profissões aqui elencadas rapidamente estão contribuindo com a mudança na vida das mulheres, inclusive no que diz respeito às relações familiares e as relações de gênero. As atividades se configuram como aspectos importantes para percepção que na comunidade de Capoeiras as mulheres paulatinamente vêm atuando em outras áreas e se destacando, muitas vezes, como as principais protagonistas para umas possíveis inserções no mercado de trabalho e como principais provedoras da unidade familiar. Assim, elas estão se especializando, quebrando paradigmas e conquistando o mercado de trabalho.

139 3 – TRABALHO, EMPODERAMENTO E MUDANÇAS

Dans le document Token-Ring Network Architecture (Page 190-193)

Documents relatifs