Em todo o império, bem como na província capixaba, havia carência de estradas. Especificamente na porção sul dessa província, havia uma agricultura que necessitava de meios logísticos para escoamento e comércio de sua produção. Como não havia estradas transitáveis que ligassem a frente produtora aos portos para comercialização entre os povoados ou com outras províncias, o transporte era realizado “[...] em carros de boi, em cargas com animais cavalares e a maior parte se transporta[va] em canoas simplices” (VASCONCELLOS, 1828).
Ormando Moraes (1989, p. 12), memorialista da sociedade cachoeirana, aponta-nos que, em função das poucas estradas e caminhos, muito do transporte de cargas na região sul era feito em “lombo de mulas”, tangidas por tropeiros,
[...] para atender pequenas necessidades na Capital da Província e nos modestos lugarejos que iam surgindo à beira-mar ou a pouca distância para o interior, tais como Guarapari, Benevente (atual Anchieta), Itapemirim, São Mateus, Serra e Viana.
Nesse quesito, além dos muares para transporte e comércio, a região sul era rica em rios navegáveis, com portos naturais e enseadas que ofereciam abrigo às embarcações, facilitando, portanto, o desembarque dos produtos ali cultivados, extraídos ou comercializados. Os mais importantes rios da região sul capixaba, sempre citados por vários autores (VASCONCELLOS, 1828; RUBIM, 1840; MARQUES, 1878; DAEMON, 2010), que atuavam como estradas fluviais, eram os rios Itabapoana, Itapemirim, Iconha/Piúma, Guarapari e Perocão. As enseadas de Meaípe, Una e Ponta da Fruta compunham o cenário.
Mesmo carente de vias de acesso e comunicação terrestre, não obstante a existência de uma Estrada Geral que “[...] cortava a Província de Norte a Sul paralela à orla marítima, ligando-a à Bahia e ao Rio de Janeiro” (BITTENCOURT, 1987, p. 76), grande parte da comunicação comercial na província do Espírito Santo era realizada ora por rios, ora por mar. De acordo com o pronunciamento de Manoel de Assumpção Pereira, presidente da província, de 23 de setembro a 8 de novembro de 1836, tal carência de vias de comunicação trazia prejuízos, pois “[...] as poucas estradas q[ue] tem a nossa Provincia, offecerem difficil trajecto, e por isso tornando-se o nosso comercio interno muito trabalhoso, e pobre [...]” (ESPÍRITO SANTO, 1836, p. 8).
Apesar dos reveses econômicos e da efemeridade do progresso, sempre apontados na historiografia capixaba, que a província conheceu antes do século XIX, a proximidade da região sul capixaba com a província do Rio de Janeiro, a navegabilidade do rio Itapemirim e a necessidade de escoamento de gêneros ali produzidos, principalmente da cana de açúcar, transformou o sul em uma região com moderada capacidade econômica em relação “[...] às demais regiões, inclusive da
capital [...]” (QUINTÃO, 2011, p. 104). Como observa Bittencourt (1987), era das províncias da Bahia e do Rio de Janeiro que comerciantes, das mais diversas categorias, utilizando embarcações próprias ou fretadas, levavam ou traziam mercadorias para vender na região, realizando trocas por “[...] milho, arroz e feijão, que forneciam à Bahia, e os mesmos gêneros acrescidos do açúcar, de madeira e algodão, para o Rio de Janeiro [...]” (BITTENCOURT, 1987, p. 82).
Bittencourt (1987) alega, ainda, que essas transações comerciais e o respectivo transporte dessas mercadorias ou gêneros alimentícios eram realizados por todos os produtores ou negociantes da província, fossem eles do norte ou do sul, especificamente os das vilas de Itapemirim, Benevente ou Guarapari. Esse escoamento de produtos bem como seu comércio, como nos ensina Caio Prado Junior (1961, p. 155), estavam
[...] ligados às necessidades alimentares dos grandes centros da colônia [...] e quase exclusivamente, [Espírito Santo, Porto Seguro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul eram regiões] abastecedoras do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco, em gêneros de subsistência.
Caio Prado (1961, p. 258) aponta-nos que independente da urgência da regularidade desse comércio e escoamento de seus produtos, fosse por mar, rios ou terra “[...] o transporte [...] da colônia não se acha[va] entregue aos azares das circunstâncias e confiado à improvisação; [era] [...] um negócio perfeitamente organizado, sobretudo nas capitais do Centro-Sul”.
Conforme Eucélia Maria Agrizzi Mergár (2011), após a queda na exportação do açúcar brasileiro nos anos iniciais dos oitocentos54, como consequência da imediata reação da Inglaterra, que aumentou a tributação do açúcar brasileiro em represália à não
54 As inovações tecnológicas que potencializaram a chamada Primeira Revolução Industrial possibilitaram investimentos para modernização da produção açucareira em boa parte dos países produtores de açúcar. De acordo com Pedro Ramos (2007, p. 560-561), isso fica evidente ao estudarmos os casos de Cuba e de Java, especificamente Cuba, que após a luta pela sua independência, recebeu investimentos estrangeiros, principalmente norte-americanos, que a tornaram o maior produtor mundial de açúcar. Diante do sucesso produtivo açucareiro de Cuba, o Brasil, que ainda usava técnicas de processamento já superadas, encontrou no mercado interno uma maneira de escoar a produção que antes era absorvida pelo mercado externo. Para maiores informações, consultar Ramos (2007) e também Celso Furtado (1991).
renovação do tratado entre Portugal e Brasil55, o comércio açucareiro brasileiro ficou restrito ao abastecimento do mercado interno.
A ascensão do café como produto de exportação impulsionou, em parte, a economia da região sul capixaba, pois, como assevera Vilma Almada (1984), era comum ver as fazendas de café ao longo da rota entre Itapemirim e Benevente. Assim, é possível afirmar que, pelo menos na região sul, a cana-de-açúcar e o café agiram como propulsores da economia, garantindo certa estabilidade econômica no interior da província.
No entanto, não se pode dizer que a produção da cana-de-açúcar tenha sido extinta ou substituída pela do café. A cana-de-açúcar apenas deixou de ser, a partir do século XIX, o principal produto da pauta de exportações brasileira, transformando o mercado interno na principal saída para sua comercialização, uma saída que não foi seguida somente na província do Espírito Santo, mas em todas as províncias que a cultivavam e exportavam.
Pesquisas têm apontado que, no atual estado de São Paulo, a agricultura cafeeira e sua posterior expansão,
[...] na segunda metade do século XIX, garantiu a própria sobrevivência da agromanufatura açucareira [...] e possibilitou a criação da grande indústria de açúcar [...]. O complexo cafeeiro retribuiu o complexo açucareiro com capitais, estradas de ferro, imigrantes e um amplo mercado consumidor de açúcar, aguardente e álcool (MELO, 2006, p. 26, grifos nossos).
Considerando a permanência da agricultura canavieira na região sul capixaba, especificamente no atual município de Marataízes56 e seu entorno e, ainda, a sobrevivência e produtividade da Usina Paineiras na atualidade, instalada como
55 Assim, de acordo com Mergár (2011, p, 62-63), [...] o tratado de 1810 entre Portugal e Inglaterra, que
era completamente favorável à Inglaterra, nos foi legado, apesar de o Brasil já ter se tornado independente de Portugal.
56 Conforme Cezar Marques (1878), Marataízes, naquele quartel do século XIX, era apenas uma povoação entre Itapemirim e Itabapoana. Atualmente, conforme dados do censo do IBGE de 2010, tem uma população de 34.140 habitantes. Sua história está imbricada à história de Itapemirim (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2013, p. 71-72).
simples engenho em Itapemirim, em fins do século XVIII, podemos afirmar que tal retribuição do complexo cafeeiro se deu também no Espírito Santo.
A chegada do café na província do Espírito Santo data do ano de 1800, conforme Antônio Ataíde (1935), quando, a título de experiência, foram plantadas algumas sementes no vale do rio Doce. Embora sem nenhum cuidado técnico, tal experiência foi positiva, pois, de acordo com o autor, em 1812 teve lugar “[...] a primeira tentativa de exportação do café do Espírito Santo para o Rio de Janeiro, tendo o preço da arroba atingido a 3$000” (ATAÍDE, 1935, p. 181).
Citando a Crônica do Espírito Santo, Ataíde (1935) avoca as falas de Francisco Alberto Rubim57, que, satisfeito com o preço da arroba do café, ordenou o plantio e o incremento de sua cultura de norte a sul da capitania. Assim, o cultivo do café, que, na opinião do governador Rubim, iria trazer o progresso e o povoamento do território capixaba, projetava a possibilidade de uma transformação promissora no futuro. Retomando Koselleck (2006), um “horizonte de expectativas”, um futuro próspero se avizinhava.
Não obstante essa expectativa de prosperidade econômica, de acordo com Mergár (2011, p. 77), apesar do relativo sucesso da lavoura cafeeira, a província do Espírito Santo ainda amargava dificuldades econômicas.
De acordo com Saletto (1996), a cultura do café, após algum sucesso na região do entorno de Vitória e consequente exportação nos anos de 1826 e 1827, alcançou o sul da província. A proximidade com as fronteiras das províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, somada ao desgaste das terras do Vale do Paraíba, antiga região produtora de café, fez com que fluminenses e mineiros, em busca de terras virgens para o cultivo do valioso grão, entrassem em território espírito-santense com seus escravos, aumentando significativamente a população do local.
57 Português de nascimento, Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira foi capitão de mar e guerra e assumiu o governo da capitania do Espírito Santo no período de 1812 a 1819. Isso fez com que a capitania ganhasse autonomia, uma vez que não mais seria administrada pela capitania da Bahia. Para maiores esclarecimentos, consultar o site
http://www.morrodomoreno.com.br/materias/francisco-alberto-rubim-e-a-autonomia-administrativa-do- es.html.
A cafeicultura, além de alavancar pequenos povoados na região sul (Mapa 3), no ano de 1846 fez surgirem
[...] os primeiros estabelecimentos da povoação que se tornaria o principal centro urbano da região: Cachoeiro de Itapemirim. Situada no limite do trecho navegável do rio [Itapemirim], ela [...] [Cachoeiro de Itapemirim, atraiu] a produção do interior, em busca de transporte para o litoral (SALETTO, 1996, p. 29).
Mapa 3 – Expansão cafeeira em direção à região sul capixaba.
Fonte: IBGE, (Acesso em 24 jan 2017. Nota: Dados adaptados pela autora.
Aduz ainda a historiadora que, devido à rápida proliferação do plantio do café,
[n]ovas áreas foram sendo ocupadas: Alegre, Veado, Castelo, Itabapoana. Em 1864 a região já apresentava três novas freguesias: Cachoeiro (1856), Alegre (1858), Itabapoana (1863). Dez anos depois, encontramos mais quatro: Rio Pardo, Calçado, Veado, Aldeamento Afonsino (SALETTO, 1996, p. 29).
Os dados estatísticos comprovam que o governador Rubim estava certo quanto ao incremento do plantio do café para o aumento da população e, consequentemente, das rendas provinciais. O relatório presidencial de 1857, de José Francisco de Andrade Pereira de Barros, aponta que em 1856, ao passar a administração ao comendador José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, havia em toda a província uma população de 48.775 habitantes58, 36.675 livres e 12.100 escravos. Somente na região sul havia uma população de 15.636 habitantes, 11.424 livres e 4.212 escravos (Tabela 3).
Tabela 3 – Distribuição populacional do sul da província do Espírito Santo no ano de 1856.
Distritos Pop. Livre Pop. Escrava
Guarapari 2.924 213 Benevente 2.518 412 Piúma 994 133 Itapemirim 2.508 1.885 Cachoeiro 1.494 1.254 Itabapoana 986 315 Total 11.424 4.212
Fonte: Espírito Santo (1857).
Somente na região sul, no ano de 1856, conforme o relatório do presidente José Francisco de Andrade Pereira de Barros, havia um percentual correspondente a 32% do total da população da província, uma vez que seu contingente era de 15.636 habitantes. Dito de outra forma, com relação ao total da população da província, entre livres e escravos, somente na região sul capixaba encontramos 31% de população livre e 34% de escravos, isto é, cerca de 1/3 da população capixaba vivia na região sul.
Na sua totalidade, no que tange à população escrava, embora o tráfico negreiro já houvesse sido extinto e o preço dos escravos estivesse majorado, a região sul capixaba apresentava uma situação econômica bem favorável em relação à do
58 Refazendo os cálculos da tabela sobre a estatística de população da província em dezembro de 1856 e considerando que não podemos entender tal estatística como um censo demográfico no sentido que hoje é empregado, encontramos um erro para mais de 138 pessoas. Cf. (Espírito Santo, 1857, p. 9).
restante da província, pois seu número de escravos estava acima do da região da capital e seu entorno, cujo total era de 3.834 cativos.
Voltemos aos povoados alavancados pela cultura da cana-de-açúcar e posteriormente da do café, especificamente a freguesia de São Pedro do Cachoeiro de Itapemirim, que mais tarde passou a denominar-se apenas Cachoeiro do Itapemirim.
Após a descoberta do ouro nas minas de Castelo, no século XVIII, vários vilarejos foram surgindo e, como nos informa Daemon (2010), Canudal e Lavrinha, no entorno das minas, seriam, talvez, os primeiros. De acordo com Renato Pacheco (1958, p. 58), há registros de que, no ano de 1808, se poderia encontrar, nas minas de Castelo, ouro de 24 quilates, e de que os indígenas ali trabalhavam com afinco. Afirma ainda o historiador que esse fato
[...] passou despercebido à maioria dos historiadores do sul do Espírito Santo, que se referem ao abandono total das minas de Castelo, nos fins do século XVIII, pois provavelmente só o ataque dos Botocudos, em 1819, é que faria com que os remanescentes da antiga população se refugiassem em Itapemirim.
Concordamos com a assertiva de Pacheco, pois, diante da perspectiva de se encontrarem pepitas de ouro de 24 quilates, somente um ataque indígena bem aguerrido faria a população deixar o lugar.
A fuga da população para a região do baixo Itapemirim, no ano de 1824, conforme Daemon (2010), garantiu a autorização, em 17 de setembro do mesmo ano, da “[...] concessão de terrenos para a cultura e lavoura no lugar denominado Castelo [...]” (DAEMON, 2010, p. 318). Foi nesse ano que, possivelmente, alguns mineiros, conforme nos apresenta o autor, com intenção de minerar ouro e ali se fixar, chegaram ao lugarejo chamado Santana de Castelo. No ano seguinte, teve início a construção de uma estrada que ligaria a província do Espírito Santo à província de Minas Gerais.
[...] foi Manoel José Esteves de Lima, natural da aldeia de Cordeiro, em Ribas de Mouros, Portugal, e fazendeiro em Mariana (MG), que, com uma comitiva de 72 pessoas, em 1820, abriu inúmeras fazendas e estradas no sul espírito-santense, inclusive em Cachoeiro, de onde desceram até a Vila do Itapemirim.
Para Bittencourt (1987), é certo que a retirada da população do entorno das minas de Castelo foi promissora para o cultivo da cana-de-açúcar, já que, desde a vila de Itapemirim até o local onde se instalou um quartel59, havia oito engenhos, “[...] denominados Areia, Cardoso, Cotia, Boa Vista, Barra Seca, Passo Grande, Paineira e São Gregório da Bezerra” (BITTENCOURT, 1987, p. 64).
Tudo nos leva a crer que, em 1878, as terras férteis de São Pedro de Cachoeiro de Itapemirim, paróquia elevada à condição de freguesia no ano de 1856, passando a vila por lei provincial oito anos mais tarde (1864), impulsionadas pelo cultivo da cana- de-açúcar e do café, bem como pelos esforços dos governantes que, valendo-se das prerrogativas da Lei de Terras, editada em 1850, promoveram o aumento demográfico do local, apresentassem, conforme informações de Cezar Marques (1878), uma população de 3.893 pessoas entre livres e cativos, homens e mulheres.
Pelos dados informados por Cezar Marques (1878), encontramos uma população, entre adultos, jovens e crianças, em sua totalidade, bastante equilibrada em quantidade de livres e escravos, pois havia 1.946 livres e 1.947 escravos, ou seja, uma pessoa cativa para cada pessoa livre.
No tocante à origem da população livre e escrava, entre homens e mulheres encontramos, nos mesmos dados de Cezar Marques (1878), habitantes tanto nacionais quanto estrangeiros: 3.386 brasileiros e 507 estrangeiros. Quanto aos nacionais, entre homens e mulheres, livres e cativos, encontramos 301 pessoas vindas do Nordeste e do Norte, 355 da região Sudeste, 48 da região Sul, e, oriundas da província, 2.682 pessoas, livres e cativas, homens e mulheres. Entre os de origem estrangeira, encontramos nove alemães, dois chineses, quatro franceses, seis espanhóis e 63 portugueses.
59 Este quartel encontrava-se [...] na parte sul do primeiro cachoeiro do rio Itapemirim [e ali se
encontrava] um inferior e 30 soldados do Corpo de Pedestres (UM CAPIXABA, 1840, p. 28, apud
Quanto à população negra africana, entre homens e mulheres, encontramos, em São Pedro de Cachoeiro de Itapemirim, 409 cativos e treze livres. Pressupomos que parte desta população escrava africana foi traficada clandestinamente, já que se haviam passado 28 anos da Lei Euzébio de Queiróz, e, pelo quadro estatístico apresentado por Cezar Marques (1878), havia 196 homens escravos e 148 mulheres cativas na faixa etária compreendida entre 31 a 50 anos. Portanto, quando o historiador afirma que havia africanos na paróquia de São Pedro do Cachoeiro de Itapemirim, tal informação nos leva a crer que, naquela localidade, havia escravos traficados da África pouco tempo depois da Lei que proibiu o comércio60 de negros africanos.
A chegada do café na região sul capixaba não apresentou, de imediato, nenhum progresso técnico na lavoura, pois, como sucedia com o cultivo da cana-de-açúcar, os investimentos para melhoramento da lavoura cafeeira foram ínfimos. Mas o café, diferentemente da cana-de-açúcar, apresentava uma única exigência: terras virgens. Dessa forma, a lavoura cafeeira atuou como uma fronteira móvel que permitiu a entrada nas entranhas do interior sul espírito-santense.
Tanto a produção e o comércio do açúcar para o mercado interno ou externo, quanto a produção e a exportação do café ofereceram oportunidades do enriquecimento e empoderamento de muitos que, atraídos pelo cultivo dos grãos de coffea, se deixaram consumir pela “febre” que provocava, não apenas na região sul capixaba, como também em todas as regiões da província capixaba e em todo o país.
No entanto, como se tratava de algo que se tornaria o principal produto de exportação na província capixaba, a cultura do café exigia melhoramentos nas estradas e meios de transportes para escoamento da produção. Desta feita, abertura de estradas,
60 Segundo Jaime Rodrigues (1994), essa possibilidade é bem concreta, pois, nos processos judiciais por ele pesquisados, encontram-se denúncias e evidências de que havia trechos no litoral, entre as províncias do Espírito Santo e Paraná, que eram utilizados por embarcações negreiras, para as quais o abrigo de deltas de rios e matas fechadas possibilitava o desembarque “seguro”, escapando da vigilância dos cruzeiros ingleses. O risco deveria ser compensador já que, devido à mobilidade da fronteira agrícola da cultura do café, a venda e os lucros nessas regiões eram certos. Ademais, conforme o autor, os africanistas, nesses locais ocultos geograficamente, contavam com certo apoio da população local mais pobre no desembarque de africanos, seja por receio de represálias, vez que sabidamente muitos notáveis estavam envolvidos no tráfico, seja por fazer parte da força armada dos africanistas que, em troca de algumas patacas, impediam as investidas inglesas sobre a “mercadoria”, tripulação e navio.
construção de ferrovias e introdução de barcos a vapor bem como limpeza dos rios eram requisitos para seu escoamento (HEES; FRANCO, 2012).
A proeminência do café como primeiro produto na pauta de exportação da província e a urgência em povoar terras pouco habitadas fizeram com que, em vários relatórios dos presidentes da província, fosse pontuada a necessidade de verbas para a construção ou reparo de pontes e estradas que permitissem o escoamento da produção.
A exemplo disso, podemos destacar a fala do presidente José Bonifácio Nascentes d’Azambuja, em seu relatório, quando se dirigiu à Assembleia Legislativa, em 24 de maio de 1852, mostrando a urgência de melhores vias de acesso para o comércio e para o povoamento.
O presidente Azambuja, buscando solução para o escoamento da produção cafeeira, pretendia substituir por outra a estrada de São Pedro de Alcântara, alegando que seu trajeto era muito difícil por estar em terreno montanhoso e que a nova estrada beneficiaria os colonos e promoveria a instalação daqueles que desejassem usufruir de terras férteis para a lavoura do café e do porto de Guarapari e Benevente para escoamento da produção.
Em outro relatório, podemos averiguar que o presidente Pedro Leão Velloso, por ocasião da abertura da Assembleia Legislativa Provincial, em 25 de maio de 1859, apontava a necessidade de promover o melhoramento da Barra de Itapemirim, dada a sua produção e “[...] condição do desenvolvimento de riqueza d’aquelle municipio, por ventura o que mais tem progredido n’estes ultimos tempos: [...]” (ESPÍRITO SANTO, 1859, p. 31-32).
Diante dessas posições, não é difícil concluir que a lavoura do café trazia certa tranquilidade para a condição econômica da província, aumentando com isso a autonomia da região sul capixaba. Necessitava, entretanto, de muitas melhorias nas estradas a fim de que pudessem conduzir a produção aos portos para desembarque, e exportação.
Não obstante a situação das estradas informada no mesmo relatório em apenso indicado pelas letras F. A, trouxe o presidente Pedro Leão Velloso observações sobre a agricultura que se praticava na vila de Benevente, indicando que, nesse município,