• Aucun résultat trouvé

Gunnar Myrdal, Prêmio Nobel de Economia em 1974, constatou que os países mais desenvolvidos do mundo e que possuem as mais altas rendas reais per capita são minoria. A maioria dos países é pobre e, entre eles, estão os países da América Latina. Nesses países, a população cresce mais rapidamente e suas rendas não acompanham esse crescimento, refletindo um cenário de estagnação da pobreza. Essa é uma das razões que explica o lento desenvolvimento econômico dessas regiões.

Por outro lado, Myrdal (1968) também verificou à época que os países industrializados utilizavam suas rendas para reinvesti-las na sua própria economia e, portanto, “são os países industrializados os que se estão industrializando mais” (p. 21).

A partir do aprofundamento de questões que tratam da desigualdade entre países e também dentro de um mesmo país, Myrdal (1968) desenvolveu estudos que se baseiam no fenômeno que ele denomina causação circular e acumulativa para explicar a dinâmica da economia regional. A causação circular e acumulativa representa um processo em que causa e efeito se confundem. Essa ideia se aproxima mais da realidade do que a suposição de uma convergência automática para um equilíbrio estável.

Para melhor explicar esse conceito, Myrdal (1968) valeu-se do exemplo da questão dos negros nos Estados Unidos não ascenderem socialmente. Por um lado, existe o preconceito dos brancos para com os negros, devido ao baixo padrão de vida dos negros, caracterizado pela pobreza, ignorância, superstição, más condições de habitação e limpeza, indisciplina, problemas familiares e criminalidade. Myrdal constatou que, por serem pobres, os negros não conseguiam se alimentar direito, por sua vez, não conseguiam estudar, e, por isso, não conseguiam uma boa renda, o que os deixavam presos na pobreza. Sendo assim, a modificação de um dos fatores que caracterizam o padrão de vida dos negros resultaria em mudança no outro fator, desencadeando um processo acumulativo capaz de alterar o padrão de vida dos negros. Para quebrar esse círculo vicioso, era preciso uma intervenção externa. Essa questão do círculo vicioso da pobreza já foi abordada por Nurske (1953).

Com isso, Myrdal sugere que as forças de mercado, por si só, não promovem ações que levem à redução das desigualdades regionais, especialmente em países menos ricos. Pelo contrário, elas aumentam as desigualdades regionais uma vez que as regiões menos desenvolvidas possuem menor poder de atração, fazendo com que as indústrias dinâmicas e a mão de obra mais qualificadas migrem para as regiões mais desenvolvidas, resultando em dois extremos: uma região dinâmica e rica e outra região pobre e estagnada. Por esta razão, as forças de mercado, segundo o autor, devem ser controladas por uma política intervencionista, para que o desenvolvimento não se concentre em uma só localidade, deixando o resto do país esquecido.

Para Myrdal (1968), as regiões que possuem atualmente o poder de concentrar investimentos foram originadas a partir de um movimento iniciado em função das vantagens oferecidas, tal como a geografia econômica, e sua evolução foi ocorrendo de forma automática, como descreve abaixo.

O atual poder de atração de um centro econômico se origina principalmente em um fato histórico fortuito, isto é, ter-se iniciado ali com êxito um movimento, e não em vários outros lugares, onde podia do mesmo modo ter começado com igual ou maior êxito (p. 52).

Portanto, as regiões mais desenvolvidas tendem a multiplicar os efeitos propulsores gerados por sua economia, atraindo cada vez mais mão de obra qualificada,

capital, progresso tecnológico, e a anular os efeitos regressivos que tendem a drenar os fatores produtivos avançados da região. Já para as regiões menos desenvolvidas, ocorre o inverso, sendo os efeitos propulsores suplantados pelos efeitos regressivos, resultando numa desigualdade regional cada vez mais acentuada. Conclui-se então que o processo acumulativo opera em ambas as direções.

Para explicar como o princípio da causação circular atua, serão citados dois exemplos do próprio Myrdal (1968). O primeiro diz respeito aos efeitos propulsores em uma região mais desenvolvida.

Figura 3.1 - Exemplo dos efeitos propulsores em uma região desenvolvida

Fonte: Elaboração própria

A abertura de uma importante indústria gera novos empregos, mais renda e desenvolvimento de novos negócios, proporcionando, por sua vez, mais emprego e renda na região, tornando-a atrativa tanto para os que estão nela como também para os que pretendem se transferir para ela. Isso gera um desenvolvimento econômico significativo mediante a criação de economias externas.

POLO DINÂMICO

Atração de novas empresas

Maior oferta e qualidade dos serviços públicos Elevação da arrecadação de tributos

Elevação da renda e da demanda Atração de profissionais mais qualificados

Os efeitos regressivos serão exemplificados por um fechamento de uma importante indústria em uma região menos desenvolvida.

Figura 3.2 - Exemplo dos efeitos regressivos em uma região menos desenvolvida

Fonte: Elaboração própria

Myrdal (1968) explica como funcionam os efeitos negativos da causação acumulativa, através do exemplo de um fechamento de importante indústria. Os empregados que trabalhavam nessa indústria que foi fechada deixarão de receber seus salários, resultando em queda na demanda pelos bens que estes adquiriam. Essa redução na demanda terá como consequência a queda das rendas e também no aumento do desemprego nos outros negócios da região. A região se tornará menos atrativa para empresários e trabalhadores que pensavam em se transferir e também para os que nela operavam. A tendência é um esvaziamento da região em função das poucas oportunidades existentes.

É possível visualizar com o exemplo anterior que o círculo vicioso deve sofrer intervenção do Estado para reduzir o atraso econômico de algumas regiões. Segundo

POBREZA

Êxodo de empresas e profissionais Menor oferta e qualidade dos serviços públicos

Queda na arrecadação de tributos Redução da renda e da demanda

Redução de empregos

Myrdal (1968), para que o crescimento econômico seja obtido, é preciso que haja integração nacional, sem a qual o processo de continuidade do progresso é comprometido.

Outro ponto ressaltado por Myrdal (1968) para explicar as desigualdades regionais está na presença de indústrias nas regiões mais desenvolvidas. A força dinâmica da industrialização está presente no processo de desenvolvimento das regiões mais ricas, ao tempo em que as regiões mais pobres permanecem essencialmente agrícolas, com baixa produtividade. A partir desta constatação, as regiões que não foram contempladas com o ciclo econômico expansionista tendem a continuar com menor eficiência produtiva, em consequência das características de sua população e de seu governo, onde a oferta de serviços públicos básicos no âmbito da educação, saúde e transporte não se fazem presentes. Destaca-se também que a simples oferta de mão de obra barata não se constitui atrativo para as indústrias.

Então, o processo acumulativo a que se refere Myrdal contempla o quão fortes são os efeitos propulsores, de maneira a neutralizar os efeitos regressivos quando uma região alcança um alto nível de desenvolvimento. As potencialidades da região, sobretudo dos recursos humanos, são mais bem aproveitadas. Por esta razão, o progresso ocorre automaticamente de maneira rápida e contínua. Por outro lado, os efeitos propulsores das regiões menos desenvolvidas não têm força para mudar o cenário da referida região. E, deixá-lo sob a guarda das forças de mercado resultará, fatalmente, na ampliação das desigualdades regionais, onde “a pobreza de torna sua própria causa” (MYRDAL, 1968, p. 63).

De todas as medidas, a que surtirá mais efeito para desenvolver os países subdesenvolvidos virá de políticas estatais planejadas e bem executadas. Segundo Myrdal (1968, p.134), “o plano nacional é a determinação de uma estratégia para a interferência estatal, visando maximizar o progresso econômico geral de um país, dando-se atenção aos sacrifícios que a população é capaz de suportar sem que se exponha a riscos”.

Assim, a interferência estatal no jogo das forças de mercado deverá exercer pressão ascendente no processo social. Para tanto, é necessário que o Estado faça um planejamento visando aumentar o montante de inversões destinadas a elevar a

capacidade produtiva do país, discriminando a parcela que caberá a cada uma das atividades, a saber: transporte e energia, aquisição de bens de capital, projetos de irrigação, além da melhoria nas áreas de saúde e educação. Assim, o plano estatal deve refletir a determinação de uma estratégia para lograr o progresso econômico geral de um país, sob o ponto de vista factível e não utópico. Com isso, é possível promover a integração nacional do desenvolvimento econômico, item indispensável para evitar o processo negativo de causação circular.

Myrdal (1968) discorda da teoria clássica, quando esta não vê necessidade da intervenção estatal, pois ele acredita que as forças de mercado atuando livremente (laissez-faire) não conduzem ao equilíbrio, pelo contrário, agravam as desigualdades econômicas. O processo de causação circular é, portanto, uma boa ferramenta para explicar como funciona a dinâmica econômica regional e a intervenção do Estado é apontada como fundamental para evitar a continuidade dos efeitos nocivos da causação circular.

Ademais, os países subdesenvolvidos devem investir em conhecimento para que possam lograr sucesso na busca pelo desenvolvimento econômico. Não basta utilizar os conhecimentos e técnicas já desenvolvidos pelos países desenvolvidos, isto porque é preciso considerar as características do país que se queira aplicar tais políticas. Para tanto, Myrdal acredita que investimentos em centros de pesquisa e universidades são importantes para obter resultados promissores. E os países desenvolvidos podem participar desse processo através do apoio dado a essas instituições de pesquisa.

Portanto, Myrdal também acredita que é vital melhorar a competitividade das regiões menos desenvolvidas, principalmente aquelas essencialmente agrícolas, através do estímulo ao aprimoramento do conhecimento e desenvolvimento de tecnologias.

Documents relatifs