MATERIEL ET METHODE :
B. Hypothèses pathogéniques de la MAKP :
A utilização de epígrafes na poesia de Barros segue o uso tradicional, muito comum na lírica em todas as épocas. Sua atitude mediante este elemento paratextual em geral não é tão inusitada quanto em relação a outros paratextos. Contudo, no poema a seguir, extraído do livro Tratado geral das grandezas do ínfimo, aparece uma epígrafe muito peculiar:
1ª parte
TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO
Para ele a pureza do cisco dava alarme.
BERNARDO DA MATA131
A DISFUNÇÃO
Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de A menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso Trocado do que e menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa Disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica. 1 – Aceitação da inércia para dar movimento às palavras. 2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção de contigüidades anômalas entre verbos e substantivos. 4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra. 7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais Importância aos passarinhos do que aos senadores. (BARROS, 2010o, p. 399)
Este livro de Barros, como alguns outros, é dividido em partes. Esta opção por dividir e subdividir confere destaque à questão da organização e forma do poema. A epígrafe não está submetida ao poema, mas à primeira parte do livro, que é constituída
de 18 poemas. O livro divide-se em duas partes: “Tratado geral das grandezas do ínfimo” e “O livro de Bernardo”. Observe-se a semelhança entre o título da segunda parte e a tradição de nomeação dos livros bíblicos (O livro de Jó, O livro de Rute, dentre outros).
A epígrafe é sui generis, isto é, extremamente peculiar. Ela atribui a Bernardo da Mata um discurso cuja autoria não poderia ser sua: “Para ele a pureza do cisco dava alarme.”. O pronome pessoal registra que a voz lírica diz algo a respeito de outro, ou seja, Bernardo. Contudo, o estratagema da epígrafe atribui estranhamente o texto a este “ele”, cuja autoria é marcada: a) pela localização separada da frase no corpo do texto (canto superior direito); b) pelo itálico; c) pelo nome com letras em caixa alta (“BERNARDO DA MATA”).
Bernardo da Mata não é um escritor, artista ou filósofo. Como se pode verificar na dissertação de Luciene Campos (2010)132, foi uma pessoa física, existiu não só no imaginário poético da poesia de Barros, esteve também no mundo empírico do poeta. Trata-se de um trabalhador que vivia na fazenda do pai de Barros desde sua infância. Apesar de sua existência empírica, Bernardo é um ser sem discurso escrito, uma personagem silenciosa, que só adquire voz por meio da poesia de Barros, Bernardo torna-se um alter-ego. Por isso, pode-se afirmar que através dessa persona, nomeada Bernardo, é o próprio eu lírico que se manifesta. Esta afirmação explica a epígrafe do poema citado: “Para ele a pureza do cisco dava alarme. BERNARDO DA MATA”. Apesar da atribuição de uma autoria, marcada pelo nome escrito em caixa alta como nas epígrafes tradicionais, o pronome na terceira pessoa do singular (ele) retoma a origem do discurso como sendo o eu lírico. Desta maneira, podemos perceber que na obra poética de Barros as personagens, apesar de algumas delas serem retiradas da realidade infantil do poeta, são como alter-egos por meio dos quais fala a voz lírica. São os “trastes biografáveis” enumerados por Campos:
São os trastes biografáveis (Biografável - diz-se daquele do qual se pode escrever uma história. É ser concreto e natural), tais como – entre outros andarilhos – Maria Bolacha e Bola Sete muito presentes na literatura local. Expliquemo-nos. As crônicas de Ulisses Serra, a poesia de Lobivar Matos, a obra de Manoel de Barros, dentre outros, recuperam essas figuras populares, recriando-as como personagens
132 Em sua dissertação, intitulada “A mendiga e o andarilho - a recriação poética de figuras populares nas
fronteiras de Manoel de Barros”, a pesquisadora elenca os indivíduos que aparecem na poesia de Barros que existiram de fato nos arredores de Corumbá. Campos utiliza documentos das mais diversas fontes (jornais, textos históricos, literatura, entre outros) para demonstrar a existência física das personagens.
poéticas e ficcionais. [...] Ao mapear as figuras populares na obra de Barros, centramo-nos na figura de Maria Bolacha (ver “Dona Maria”, BARROS, 2005, p. 53), personagem real, misto de mendiga meio louca, que viveu em Corumbá na primeira metade do século XX, para verificarmos de que modo tal personagem é retomada nas obras de Lobivar Matos e Ulisses Serra. (2010, pp. 66-67)
Nesta passagem, um aspecto que merece destaque é a apologia que Barros realiza dessa figura popular que foi Bernardo da Mata. Mesmo que o discurso seja do eu lírico, atribuindo-o à persona Barros eleva de categoria a cultura popular, citando-a como aos autores do cânone literário. Por outro viés, a epígrafe pode soar como um deboche desse cânone, ao mesmo tempo em permite elevar a categoria de um discurso que supostamente provém de uma fonte popular, dessas figuras que habitam sua poesia.
Outro elemento importante para nossa reflexão é o fato de existir um livro dentro de outro livro. A segunda parte do livro é intitulada “O livro de Bernardo”. Tal livro, como um enxerto do discurso do outro no interior do discurso lírico, permite refletir sobre a atribuição da autoria. Nos poemas desse “livro” percebe-se que quem diz é novamente o eu lírico de Barros. O próprio eu lírico nos diz:
[...]
Passei muitos anos a rabiscar, neste caderno, os escutamentos de Bernardo.
Ele via e ouvia inexistências.
Eu penso agora que esse Bernardo tem cacoete para poeta.
(BARROS, 2010o, p. 411)
Os poemas do livro jogam constantemente com as pessoas do discurso (primeira e terceira) mesclando o ponto de origem da fala, o eu e o ele são ao mesmo tempo o eu lírico e o outro.
A expressão “escutamentos” permite compreender que Bernardo não é o responsável pela poesia, sua única atitude diante das situações é escutar, não se expressa por meio de palavras. Sua atitude silenciosa inspira o discurso escrito do eu lírico. Esse homem silencioso, Bernardo, é uma persona assumida pelo eu lírico. Nestas outras epígrafes podemos perceber que a repetição desse estratagema:
As coisas que não existem são mais bonitas.
FELISDÔNIO (BARROS, 1997, p. 7)
Aromas de tomilhos dementam cigarras.
SOMBRA-BOA133
(BARROS, 1997, p. 73)
Frequentemente, o eu lírico assume essas “máscaras”, numa projeção na direção do outro, um ser que fala pelo outro. Se essas personagens falam é apenas por força da cena, que permite criar o ambiente exigido pelo criador do texto, o eu lírico que domina completamente os espaços, são apenas fantoches, que numa espécie de ventriloquia permitem ao eu assumir disfarces e expressar sua proposta poética. As epígrafes sugerem esse jogo das falas de maneira mais evidente, elas atuam como as notas de rodapé, permitindo demonstrar o domínio exercido pela voz lírica sobre os espaços que teoricamente seriam ocupados pelas funções poéticas de origem (eu lírico, autor, personagens).
Alguns poemas de Barros constroem-se por meio de diálogos. As citações de autores literários são associadas a diálogos entre personagens que assumem falas e ao discurso do eu lírico, possibilitando o “deslimite” entre os seres ou vozes, que dessa maneira possibilita a unidade de um mosaico. A citação direta e indireta de autores do cânone literário permite um diálogo intertextual, ao mesmo tempo em que possibilita acrescentar novas vozes ao poema.
Ao longo da obra poética de Barros são citados vários personagens. Alguns deles comprovadamente pertencem ao universo infantil do poeta, como Mário-pega- sapo, Bernardo da Mata, Antoninha-me-leva134. Outros são extraídos da tradição literária e artística, atuando como vozes que dialogam no interior de seus poemas, permitindo construir uma poesia que se aproxima por vezes do texto teatral.
4.4 Adivinhas e ditados populares
133 Felisdônio e Sombra-Boa são personas que aparecem na poesia de Barros. É possível que os dois,
assim como outras figuras recorrentes em sua poesia, tenham sido moradores de rua, andarilhos ou viajantes que passaram por Corumbá, ficando registrados na cultura e no imaginário popular.
134 Alguns dos “trastes biografáveis” que aparecem em Poesia Completa (2010) : Mário-pega-sapo (p.
20); Maria-pelego-preto (p. 22); Maria Gaiteira (p. 23); Mariquinha-besouro (p. 23); Ignácio Rubafo (p. 24); Antoninha-me-leva (p. 29); Gidian (p. 156), Germano Agostinho (p. 156), Aniceto (p. 185); Bernardo (p. 211); Neco Caolho (p. 227); Roupa-Grande (p. 243); Aristeu (p. 287); Ignácio Rayzama (p. 316); Rogaciano (p. 316); Catre-velho (p. 332); Bola-Sete (p. 339); Andaleço (p. 353); Pote Cru (p. 360); Passo-Triste (p. 365); Sabastião (p. 403); Joaquim Sapé (p. 408); Seo Mané Quinhentos Réis (p. 426); Antonio Carancho (p. 435).