Chapitre IV : Profilométrie SHG de solutions aqueuses
B) Application au montage de profilométrie
Em nossa análise da rede observamos duas questões bem presentes na visão dos Setores de Educação e Produção do MST em Santa Catarina na construção do Curso: a agroecologia e a importância do PRONERA para o Movimento.
Como afirmamos na seção anterior, a visão de agroecologia e a opção por um modelo agroecológico de desenvolvimento rural geram conflitos no interior do MST e se refletem na construção da rede. Para coordenadores do Setor de Produção, o debate teórico sobre a agroecologia foi posto da direção do Movimento para a base. No entanto, o debate reflete um problema que era evidente nos assentamentos.
A construção de um modelo pautado na agroecologia apresenta inúmeras dificuldades. Para o Setor de Produção, é no assentamento que o Movimento tem maior disputa de poder com o conjunto da sociedade. Essa disputa com a sociedade é um “campo de batalha” constante e ali dentro o modelo de produção convencional tenta se reproduzir, para se fortalecer, é ali que ele se fortalece. Para um Coordenador do Setor de Produção,
“esse processo existe, mas não é verdade que a maioria dos assentados adotam o modelo convencional, há uma grande parte que adota, mas eu não poderia dizer que é a maior parte, porque toda vez que você oferece uma alternativa produtiva para essas famílias assentadas, elas imediatamente largam esse pacote tecnológico. Elas estão ali por uma falta de opção.” (Coordenador do Setor de Produção – MST)
Mas nesta citação observamos também a possível dificuldade de uma liderança reconhecer a importância que estaria tendo o modelo agrícola convencional. O entrevistado faz referência a uma das justificativas mais comuns observadas entre os defensores de um modelo agrícola alternativo: os produtores estão sem uma opção concreta e por isso adotam o modelo convencional. Evidencia-se aqui a dificuldade de reconhecer as vantagens que do ponto de vista dos assentados pode ter o modelo agrícola convencional.
Para professores da Escola 25 de Maio, militantes do MST, a dificuldade de se implantar propostas agroecológicas nos assentamentos está relacionada à dificuldade de comercialização desse produto. Para eles, há críticas à agroecologia dentro dos assentamentos, porque não há mercado garantido para esses produtos, levando o agricultor a preferir a agricultura convencional. Esta seria uma visão que procura entender o ponto de vista dos assentados, mostrando que a apresentação de uma nova opção não é condição suficiente para mudar as expectativas de produção e de mercado.
Ainda para estes professores, as divergências ocorrem até mesmo na direção do Movimento e estão ligadas a tentativas anteriores de implementação da agroecologia que não tiveram sucesso. De modo geral, haveria conflitos no debate da questão da agroecologia nos assentamentos, provavelmente devido a fracassos de experiências anteriores, por questões de mercado, por falta de treinamento, e pelas vantagens oferecidas em termos de menor mão-de-obra, da produção convencional (com o uso de insumos químicos, por exemplo).
Dentro deste quadro, professores da Escola 25 de Maio apontaram ainda a importância do curso técnico em Agroecologia, para se construir um novo modelo de desenvolvimento para os assentamentos. Para esses professores, em nível estadual, a agroecologia ainda estaria “engatinhando” nos assentamentos. Há uma responsabilidade muito grande do Curso de formar pessoas que vão ter que tentar resolver problemas, apenas na linha agroecológica, não de agricultura convencional. Para um professor:
“Dentro do Movimento, há divergências quanto à visão de agroecologia. Para um grupo, a agroecologia é bandeira de luta, que é possível implementar cada vez mais agroecologia na nossa realidade e que a Escola possa ser um exemplo. Para outros agroecologia ainda é utopia, ainda precisa superar outros problemas.” (Professor – Escola 25 de Maio)
Ainda para alunos do Curso, a opção pela agroecologia está presente na direção do Movimento. Só que esse grupo não está dentro dos assentamentos, não tendo, portanto, uma prática concreta da agroecologia no cotidiano.
“É tem um pessoal dentro do Movimento que não apóia a agroecologia, mas a maioria gostaria que pelo menos para o auto sustento não usasse agroquímico e pregam isso, mas eles não têm essa prática quase, não trabalham em lavoura. A maioria deles estão liberados, não tem esse tempo, mas eles insistem muito na questão da agroecologia.” (Aluno – Escola 25 de Maio)
Podemos observar, pelo exposto acima que, embora o MST tenha investido num discurso sobre um modelo de desenvolvimento pautado na agroecologia para os assentamentos da Reforma Agrária, há inúmeros conflitos gerados pela existência da força da agricultura moderna, convencional, e da distância que podem sentir os assentados em relação a suas lideranças, que saem dos assentamentos e se afastam das atividades produtivas.
Além disso, estes conflitos estão relacionados à dificuldade central em se delimitar o que seria uma proposta de desenvolvimento rural agroecológica. A agroecologia é resultado de uma construção social e, portanto, não tem uma definição única. Esses conflitos se tornam ainda maiores quando confrontados com outros atores, com diferentes visões de mundo, de sociedade e com outras perspectivas de desenvolvimento rural.
Outra questão bastante apontada pela Coordenação Estadual de Educação do Movimento refere-se à importância do PRONERA para o MST. Para a Coordenação, a importância do PRONERA vai bem além do financiamento dos projetos educativos, embora seja um programa, ele vem permitindo avançar na
Ainda outro ponto positivo e, sobretudo, estratégico para o MST, refere-se ao fato do PRONERA abrir espaço para um modelo educacional que fuja da “escola padrão”, atendendo à educação de jovens e adultos e ainda promovendo o ensino técnico. Na visão dos coordenadores de educação do Movimento esta seria uma modalidade de ensino difícil de ser conseguida pelos órgãos de educação pública.
O PRONERA permite assim que o MST aumente sua rede de apóio, articulando-se de maneira formal com as Universidades. Isto garante ao MST ocupar um lugar que pode dar maior legitimidade acadêmica e não só política à sua ação.
Junto com esta avaliação estratégica, está a avaliação ideológica, que também é positiva. Para o Setor de Educação do MST, o Programa tem afinidades com a educação proposta pelo Movimento para os assentamentos da Reforma Agrária. Podemos entender que a avaliação positiva sugere que os princípios educativos, as visões de agroecologia, de sociedade e de mundo e outros interesses estão contemplados no Programa. Este fato é mais uma evidência que reforça nossa hipótese inicial de que o MST é o ator-mundo dessa rede. Porém, como veremos nos próximos capítulos, o PRONERA se faz com outros atores e, na construção da rede, inúmeras são as arenas de conflitos em torno da questão da educação, da agroecologia e outros pontos centrais do Programa.