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Tendo em conta que no presente estudo fazemos propostas de estrutura arquitectónica, interessaram-nos com particular enfâse as investigações anteriores com sugestões nesse sentido. Por esse motivo destacamos dois trabalhos que confluem no tema em análise, nomeadamente Os Espaços Teatrais na Lisboa Setecentista: Subsídios para

o Estudo da Arquitectura Teatral, de Alexandra Gago da Câmara (1991) e Teatros Portugueses de Raiz Italiana, de Luís Soares Carneiro (2003), cujas conclusões díspares

aqui se escrutinam, com resposta às questões colocadas pelo arquitecto Soares Carneiro. Luís Soares Carneiro começa por questionar o afastamento da estrutura do pátio às paredes, considerando-o excessivo, embora constituísse uma zona de circulação à cota baixa. Concordamos com o autor, pois o documento do Tombo incompleto bens e prazos

do Hospital permite uma leitura da estrutura do pátio com dimensões diferentes da planta

proposta por Gago da Câmara, que não o cita, e evidencia uma estrutura proporcionalmente menor em relação ao terreno onde está construído. Por outro lado, consideramos que a estrutura do pátio a norte está encostada às paredes das casas que lhe estão contíguas, pois só assim se justifica a existência das janelas de sacada que permitiriam o acesso ao corredor dos assentos do Pátio, nas casas do Marquês de Cascais e de António Gonçalves (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 113r; BNP, Caixa 31, Mç. 21).

A autora não representa na sua planta as três portas de acesso ao pátio através da casa do proprietário, António da Silva e Sousa, nem a da casa do Padre Manuel Barão da Cunha que permitia aceder aos corredores, camarotes e fressuras (ANTT, HSJ, Liv. 1186, ff. 160r, 161r). Assim, o acesso ao recinto não é claro na sua proposta.

Já no lado nascente, a distância das casas à estrutura do pátio é ausente, visto que o vestiário atrás do palco ocupa a área de varanda descrita no documento (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 163r).

Soares Carneiro chama à atenção para o facto de, na proposta de Gago da Câmara, os camarotes no primeiro piso da estrutura do pátio não terem entrada. Como se lhes acede? Não há menção a galerias corridas, logo, serão camarotes que precisam de acesso e a organização apresentada não é clara, levantando dúvidas e questões.

A estrutura sugerida por Gago da Câmara não apresenta corredores de passagem para os camarotes, que surgem desenhados como elementos fechados pelos quatro lados, inviabilizando-lhes acesso, uma vez que a entrada através das casas que lhe estão contíguas é improvável pelo seu distanciamento. Confirmamos a hipótese de Luís Soares

Carneiro quando refere a contradição que ocorre quando Gago da Câmara cita Eduardo Freire de Oliveira pois, as casas de D. Catarina Carvajal tinham janelas viradas para o pátio e estas davam-lhe acesso (Carneiro, 2002: 34), referência que não está espelhada no desenho que propõe.

Numa perspectiva arquitectónica, as escadas desenhadas na sua proposta para as plantas do pátio não esclarecem como se acede aos pisos superiores. Na planta do primeiro piso apresenta dois lanços de escadas e um patamar de acesso aos camarotes desse piso; contudo, na planta do piso térreo não existe representação de escadas. Como se subia? Não existe referência documental sobre a existência de caixas de escada no recinto do pátio. Os acessos faziam-se pelas casas contíguas ao pátio (veja-se as tabelas 8 a 10).

Gago da Câmara aponta a existência de mecanismos cenográficos, que justificam a ausência de ocupação no terceiro piso, situação duplamente impossível para Soares Carneiro, pois, para além do ângulo ser excessivo em relação ao estrado, seria também necessário perfurar a estrutura dos pisos inferiores, que sabemos estarem ocupados por camarotes e varandas (Carneiro, 2002: 34). Ainda assim, e em função das semelhanças, lembramos a Casa de Comédias de Málaga com estruturas verticais simples de madeira – pescante - encostadas à parede sobre o palco, bem como cadafalsos (González-Román, 2018: 76 e 91), que podiam existir igualmente no Pátio das Arcas, razão pela qual as inserimos na nossa proposta.

Concordamos com Soares Carneiro quando menciona a ausência de características de um espaço teatral à italiana no século XVII. É notória a influência castelhana nos espaços de representação portugueses com estruturas idênticas às dos corrais de comédias. O teatro à italiana tem elementos arquitectónicos que só se começam a verificar na construção dos teatros lisboetas no início do século XVIII, o que se confirma na planta pós-incêndio do Pátio das Arcas, com uma nova forma na estrutura da plateia, desenhada em elipse, e que, na documentação de 1707, é descrita como “hua meya laranja” (ANTT, HSJ, Liv. 1099, f. 227r).

Os documentos que analisámos (1696) não dão suporte às propostas das plantas desenhadas por Gago da Câmara, o que nos leva a concordar com Luís Soares Carneiro quando afirma que a autora não indica com clareza a documentação utilizada, até porque a que menciona e transcreve não tem informação sobre esta fase do pátio, mas sim no

1) Coloca a casa da água no lugar oposto ao descrito na documentação, que a situa a poente e à ilharga do sul, no edificado onde estão as casas de Maria Costa e Joseph Pereyra Deniz (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 161r);

2) Do lado Norte, no piso térreo, a autora desenha uma área livre onde, segundo a documentação, existiam 6 fressuras e uma área de assentos (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 162r);

3) Os desenhos dos camarotes sobre o palco têm dimensões diferentes das apresentadas, pois o do lado norte, para nascente, é maior que os restantes três (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 163r);

4) Não indica as portas a poente, uma delas de escadas (ANTT, HSJ, Liv. 1186, f. 160r);

5) Não indica a porta de acesso a sul para os camarotes, palco e vestiário;

6) Não se identifica documentação para a proposta das plantas esquemáticas que desenha para nomear os moradores das casas contíguas ao pátio.

Em síntese, embora Gago da Câmara mencione muita da documentação citada pela dupla Reyes Peña e Bolaños Donoso, não valoriza os seus trabalhos seminais, apresentando propostas cuja base documental é insegura e frágil. Soares Carneiro faz abordagens consentâneas com a sua formação em arquitectura, o que o leva a questões críticas estruturais, com as quais concordamos, não obstante, possamos ir mais longe, com base na documentação inédita consultada.

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