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HUMAN INTERFACE PROBLEMS

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3.13 HUMAN INTERFACE PROBLEMS

Conforme abordado anteriormente, a Teoria Ator-Rede dá ênfase à simetria entre os humanos e não humanos, o que significa superar a tradição humanista que coloca o humano no centro do “social”, em detrimento do não humano. Tratar dos não humanos significa lançar luz para compreender a sua importância não apenas na contemporaneidade, mas admitir sua real importância na constituição da humanidade. Na perspectiva da Teoria Ator-Rede (TAR), o social é constituído a partir do agenciamento sociotécnico, pelas ações heterogêneas (humanos e não humanos em simetria) temporárias ou provisórias. Ou seja, o fluxo, o movimento, a transformação (tradução ou translação) é a condição para a TAR, assim, como a comunicação (ver capítulo 4) e a informação (ver big data) que condicionam as associações heterogêneas.

Para Latour (2012), a construção de uma “sociedade” em decorrência do Iluminismo, do Humanismo e da Racionalidade científica, assim como os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que promoveu, agora precisa de uma outra sociologia para explicá-la. A separação, em ontologias diferentes, resulta, dentro da perspectiva moderna, aquilo que Latour (2013) chama de hibridismo, a inseparabilidade daqueles que não deveriam estar em ontologias diferentes (veja sobre o hibridismo no capítulo 2).

Para se dar a devida relevância às coisas, aos objetos, às técnicas, às máquinas e tecnologias, será preciso compreendê-las sob esta perspectiva de simetria. Por simetria entende- se que não há hierarquia entre os atores, pois não há subordinação entre o humano e o não humano, mas, ao contrário, há a constituição do agente de forma heterogênea e provisória, que associados na ação desmobilizam-se a favor de outras redes. Assim, sua medida será na ação e nos rastros gerados pelo agenciamento sociotécnico. Essa relação intrínseca para além da

subordinação das coisas aos humanos, é central para se compreender a TAR. Para Latour (2012), não há mundo constituído sem os humanos da mesma forma que não há mundo sem os não humanos.

Para Latour (2012, p. 114) não se trata de uma “absurda ‘simetria’ entre humanos e não humanos”, mas obter simetria seria, “não impor a priori uma assimetria espúria entre ação humana intencional e mundo material de relações causais”. Não significa dar mais privilégios para a “matéria ‘objetiva’ em detrimento da linguagem, símbolos, valores ou sentimentos ‘subjetivos’, mas tratar do que diz respeito “ao tipo de força, causalidade, eficácia e obstinação que os actantes não humanos possuem no mundo”. “Matéria”, portanto, “é uma interpretação altamente politizada da causalidade”.

Conforme abordado no capítulo 2, a preocupação da TAR com a ontologia simétrica, humanos e não humanos numa mesma ontologia, é evitar, por um lado, o determinismo tecnológico no qual os artefatos seriam os responsáveis pelas transformações sociais e, por outro lado, o determinismo humanismo (antropocentrismo), no qual são os humanos os responsáveis pelo social, no qual os objetos, as coisas, a natureza e as tecnologias são relegadas à subordinação, a um segundo plano.

De acordo com Latour (2012, p. 108-109) a questão não é se os não humanos determinam a ação, o que acarretaria determinismo tecnológico e provocaria uma “inversão no rumo da influência”, da causa e efeito, com os humanos se transformando em meros intermediários. Mas as coisas precisam “autorizar, permitir, conceder, estimular, ensejar, sugerir, influenciar, interromper, possibilitar, proibir etc.”. Para a TAR, “nenhuma ciência do social pode existir se a questão de o quê e quem participa da ação não for logo de início plenamente explorada”. É o que a sociologia do social faz ao descartar os não humanos e não identificar quem são os atores, reforça um “social” a priori que não se sustenta pois os atores que promovem as associações não são conhecidos, ou são determinados pelos clichês do senso comum.

Entretanto, mesmo que o determinismo tecnológico em algum momento ganhe relevância, como ocorreu na revolução industrial e nos seus efeitos posteriores, o determinismo humano, ou seja, o antropocentrismo, ainda é sua “essência” da modernidade (LATOUR, 2012, p. 108-109).

Não humanos é uma expressão sem significado em si mesma, “não designa um domínio da realidade” (LATOUR, 2012, p. 109), mas deve ser considerada somente como aquilo que o

pesquisador empregaria a fim de exemplificar a durabilidade e a extensão de uma interação. Assim, não humanos representam o que sustenta as relações “sociais”, dando a elas a durabilidade necessária para a construção do social.

O social é o resultado de “associações feitas de vínculos não sociais por natureza” (LATOUR, 2012, p. 27). O social não deve designar um domínio da realidade ou um componente especial, mas um movimento, um deslocamento, uma transformação, uma translação, ou seja, “uma associação entre entidades”. O social é o fenômeno ubíquo e provisório das relações diretas, pois não existem vínculos duráveis constituídos dos materiais sociais. O que não significa que não há materiais duráveis, mas que, provavelmente, se existem, eles não são “sociais”, pois são os não humanos que possibilitam a durabilidade para as relações sociais, mas seus papéis não eram considerados, pois não eram considerados atores nem suas ações eram, propositalmente, percebidas ou consideradas (LATOUR, 2012, p.107-108).

A questão do não humano remete a questões antigas debatidas, ao que se tem de registro, desde a Grécia Antiga. A primeira trata do conceito de técnica que, atualmente, está relacionada à ideia de produção e do saber como fazer, e envolve toda a dinâmica de obtenção de conhecimento, de habilidades, da produção de produtos, protocolos, manuais, equipamentos, máquinas, objetos técnicos, dispositivos, coisas, usos e práticas. A técnica envolve as habilidades teóricas e práticas para se produzir algo e também ideologias inerentes a sua elaboração (VIEIRA PINTO, 2005, p. 219-220).

Sua origem etimológica remete ao grego tekhné, que “define um conjunto de conteúdos e de procedimentos que permite a realização de uma atividade, um saber específico e produtivo no sentido etimológico da palavra, produção” (OLIVEIRA; PORTO, 2016, p. 12). Ou seja, qualquer atividade prática, que vai desde a elaboração de leis ao ofício do artesão, do médico ou do militar e, também, envolve a produção artística (LEMOS, 2002, p. 26).

Tekhné, portanto, é uma expressão que visa “descrever as artes práticas do saber fazer

humano em oposição a outro conceito chave, a physis, ou o princípio da geração das coisas naturais” (LEMOS, 2002, p. 26). A physis seria de ordem primeira, que remete aos pré- socráticos os quais acreditavam na imanência, ou seja, a totalidade de tudo que existe, nela, sujeito e objeto se confundem e são complementares, isto é, o “processo de surgir e desenvolver-se num constante e permanente movimento vital, confundindo-se com a própria força motriz de tal movimento” (OLIVEIRA; PORTO, 2016, p. 12). Assim, na physis não há a purificação do sujeito e passividade do objeto. É considerada, então, a expressão daquilo que é

primário, fundamental e persistente, opondo-se ao que é transitório, transcendental. Enquanto

tekhné possui sentido derivado, transitório, propício a esgotar-se da coisa concluída. Foi com a

tradução de physis para natureza que ocorreu a distorção do seu sentido original e “destruiu sua força evocativa” (OLIVEIRA e PORTO, 2016, p.12-13).

Lemos (2002, p. 27), destaca que a partir de Platão, tekhné foi colocado “em oposição ao saber teórico-contemplativo”, ou seja, à épisteme. Assim, Aristótoles colocaria a tekhné como atividade prática inferior às coisas da natureza, gerando a percepção daquilo que é produzido pelos humanos, é artificial, portanto, inferior. O nascimento dos termos no grego revela a cultura e o imaginário daquele povo naquele período, no qual a técnica, sendo uma habilidade puramente humana, é imitação da natureza, que “viola os limites sagrados impostos pelos deuses aos homens”.

Ambos os conceitos tekhné e physis, “fazem parte de todo processo de vir a ser, de passagem da ausência à presença, ou daquilo que os gregos chamavam de poièsis” (LEMOS, 2002, p. 26). Demonstram os primórdios da separação ontológica que a TAR evoca no debate sobre a modernidade, que remete à técnica, por um lado, como atividade subordinada e inferior, assim como se separa da physis, compreendida como movimento de imanência.

A TAR procura conciliar physis e tekhné, pois incorpora a imanência da primeira e a provisoriedade da segunda, assim, a técnica é rede ideológica revelando as relações de poder (LAW, 2012), pois para Latour (2012), elas não são naturais, mas invenções humanas.

Os objetos técnicos não devem ser vistos exclusivamente como seres estáticos e passivos, produtos da elaboração humana para simples manipulação, ou da sua subordinação. Na definição no Pequeno Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2015), um objeto é algo material que pode ser percebido pelos sentidos; uma coisa mental ou física para a qual se dirige o pensamento, um sentimento ou uma ação; assunto; tema; motivo, causa; coisa, mercadoria”. Entretanto, a definição remente à subordinação do objeto à percepção humana, o que denuncia a assimetria entre ambos e resultaria na distorção sobre a questão dos agenciamentos das redes sociotécnicas.

A subordinação é uma perspectiva construída por uma visão de mundo marcadamente moderna. Para a TAR, ao contrário, os objetos constituem as redes sociotécnicas, pois “os objetos são redes. Ele parece individual quando na verdade é múltiplo!” (LEMOS, 2013, p .246).

A contribuição dos não humanos para as redes sociotécnicas são melhor apreendidas a partir de Agamben (2005), que define o dispositivo a partir de uma entrevista de Foucault: 1) é um conjunto heterogêneo, linguístico e não linguístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis medidas de polícia, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si, é a rede que se estabelece entre esses elementos. 2) o dispositivo sempre tem uma função estratégica concreta e se inscreve sempre numa relação de poder. 3) Como tal resulta de relações de poder e relações de saber.

Lemos (2013, p. 251), parte de Agamben para enfatizar a questão da rede, visto que se aproxima e compõe com a TAR uma perspectiva comum, pois o dispositivo e o objeto técnico se aproximam na definição, pois integram a rede sociotécnica de maneira a expor “suas relações e interconexões de forma mais ampla”:

Pensar um celular, uma xícara ou um escudo escolar com etiquetas RFID como “dispositivo” nos permite ver políticas de telecomunicação, interfaces, mercados de aplicativos, formas de sociabilidade, projeto pedagógico, relação pai-filho, professor- aluno, política educacional...a noção de dispositivo coloca em relação ao objeto em sua dimensão fundamental que é a associação a outros objetos, a sua dimensão como uma rede sociotécnica (LEMOS, 2013, p. 252)

Desta forma, um dispositivo “é rede que coloca em relações coisas, normas, leis, resoluções, práticas, deontologia [...]. [...] A noção de dispositivo está associada a redes de poder e a sentidos jurídicos, tecnológicos e militares” (LEMOS, 2013, p. 251-252). A noção de dispositivo revela as associações das redes heterogêneas, é o que relaciona o pensamento de Foucault, a TAR e a Ontologia Orientada ao Objeto (OOO) de Graham Harman, que ao possibilitar a perspectiva das redes sociotécnicas, resulta na dispensa de se “procurar o objeto real, sempre velado”, pois permite compreender os objetos em “suas relações e interconexões de forma mais ampla”, e que, também permite abrir as caixas-pretas, por meio das controvérsias (LEMOS, 2013, p. 252).

O dispositivo inclui a coisa, a rede e o objeto técnico. Ele visa a integração, pois a rede é, em associação, sua natureza. Assim, um computador pode estar conectado por meio das redes digitais com outros dispositivos, entretanto, sendo dispositivo, mesmo que não estando conectado, pertence à rede sociotécnica, ainda que as redes não sejam visíveis a priori. Assim, um elemento artificial, a coisa, e os elementos naturais constituem o social simetricamente. Estão presentes na vida humana e não são apenas passivos, mas “fazem fazer coisas” (LEMOS, 2013).

Para Heidegger (LEMOS, 2013, p. 250-251), a coisa diferencia-se do objeto, pois ela sempre tem uma dimensão oculta, tornando-a mais interessante do que o objeto quando deixa de ter a dimensão puramente instrumental. A coisa inclui o objeto quando este tem na sua essência algo não revelado, o que o torna inescrutável, não revelado e não compreendido completamente.

Para Lemos (2013, p. 245) não é possível compreender os objetos plenamente, pois os objetos, parte das redes, “estão sempre associados a outros objetos e a outros componentes que formam a sua estabilidade como caixas-pretas”. Entretanto, os objetos foram produzidos para serem compreendidos, se não são compreendidos tornam-se coisa, mas sendo resultado da elaboração sociotécnica, o objeto se manifesta e se revela.

São suas “trajetórias” e seus rastros que o tornam intelegíveis, e são virtualmente compreendidos nas associações, visto que “a existência dos objetos é só em parte percebida pela nossa experiência” (LEMOS, 2013, p. 245). Por exemplo, o computador é, aparentemente, uma caixa-preta, um objeto técnico estável, um problema ou alguma uma melhoria pode tirá-lo da estabilidade e gerar controvérsias que resultarão no acionamento das “redes que o compõem tornam-se visíveis, e os pedaços revelam outros objetos vinculados” (LATOUR, 2012; LEMOS, 2013, p. 246).

Husserl, Martin Heidegger e Harman contribuem “para uma análise do objeto nele mesmo, o que é muito interessante para revelar as formas de suas futuras associações” (LEMOS, 2013, p. 246-254). Harman propôs a Ontologia Orientada a Objeto (OOO), que considera objeto tudo que existe, de pessoas às coisas, mas que devem ser compreendidos por suas quatro dimensões mas que jamais poderão entendidas como essências, pois para o autor, assim como para Heidegger, seguirão sempre desconhecidas.

Harman apresenta as quatro tensões fundamentais, produzidas pelo objeto: o objeto real, a qualidade real, o objeto sensual, a qualidade sensual, que podem ser observadas na tabela 3, a seguir.

Tabela 3: Representação das quatro tensões (quadrante) fundamentais produzidas pelo objeto, segundo Harman

(LEMOS, 2013, p. 247). Quadro elaborado pelo autor da tese. OBJETO REAL

Inescrutável

OBJETO SENSUAL

Percebido pela nossa consciência QUALIDADE SENSUAL

Percebida pelos sentidos (forma, cor textura, peso)

QUALIDADE REAL

É aquela acessível através do intelecto (o que entendemos intelectualmente ser o objeto)

Para Harman o objeto real é “inescrutável”, pois ele não pode ser compreendido na totalidade, ele é “algo [que] está sempre velado ao entendimento humano e essa dimensão pertence sempre ao objeto” (LEMOS, 2013, p. 247). Pensamento similar ao de Heidegger, que reforça a ideia da existência do objeto real, mas que não poderia ser, enquanto Husserl não via o objeto real, só o objeto sensual, aquele que é percebido pela nossa consciência

Para exemplificar, compreender o computador é quase impossível, pois seria necessário compreender toda a rede sociotécnica mobilizada que resultou nas pesquisas, nas tentativas e erros, nos atores humanos e não humanos e em outras redes envolvidas ao longo da história da computação. Assim, a complexidade da tarefa elimina a possibilidade de apreensão do objeto real, restando a compreensão do objeto sensual, ou seja, como o computador se manifesta, seu design, seus softwares, sua capacidade de armazenamento e de processamento, sua capacidade de conexões por meio da internet etc.

A qualidade sensual é aquela percebida pelos sentidos, “é a que experimentamos ao nos depararmos com o objeto (sua forma, textura, cor, peso...)” (LEMOS, 2013, p. 247). E, completando o quadrante, a qualidade real é aquela que “nos é acessível através do intelecto (dizendo de forma simplificada, é o que intelectualmente entendemos ser esse objeto”.

As novas formas de associação implicam uma nova constituição do social que surge a partir da relação entre humanos e não humanos (LEMOS, 2013, p. 245). Para o autor, “apreendemos os objetos pelas suas qualidades sensuais, pela experiência, e pelas suas qualidades reais, o que pensamos dele”.

A Teoria Ator-Rede rejeita a visão heideggeriana de essência, do objeto desconhecido, e propõe a ideia da imanência, ou seja, da circulação e do movimento, assim, o objeto deve ser compreendido como ferramenta, por sua dimensão prática para uso (LEMOS, 2013, p. 251). O objeto é, portanto, uma elaboração das redes sociotécnicas, pois, ao contrário da coisa que inclui necessariamente sua inescrutabilidade, visto não ser compreendida pelos sentidos, para a TAR, ela não existe. Só há objeto em relação, ou seja, é impossível se pensar num objeto sem conhecê-

lo em relação com o humano, assim “todo objeto é social. Ele comunica de alguma forma, troca e se associa” (LEMOS, 2013, p. 251).

Lemos (2013, p. 252-253) propõe uma postura conciliatória, e aponta quatro influências de Heidegger no pensamento de Latour:

1) Apesar de Heidegger afirmar que o objeto é inescrutável, pode-se ver o objeto quando ele se quebra e revela as suas tensões, como ocorre quando as caixas-pretas são abertas;

2) A coisa para Heidegger é o que nos coloca em causa, o que nos concerne politicamente, o que nos envolve, o que, para Latour é o “parlamento das coisas”, os não-humanos que colocam os humanos em “causa”, a partir das questões de interesse (“matter of concern”) e não das questões de fato (“matter of facts”); 3) Para Heidegger, as coisas devem ser vistas pelas suas associações a outras através

da quadratura. Para Latour, as coisas são sociais, ou seja, não há essência, mas a associação, movimento;

4) Para Heidegger, a essência do martelo é o “martelando”, ou a afirmação de que “a coisa coisa” (thing things), ou a coisa é a coisa fazendo coisas de coisa. A dimensão do verbo como movimento também está presente na TAR. Para Latour (2012) e Law (2012) deve-se seguir os actantes e a ação, ou seja, “seguir o verbo” e os actantes são actantes por agirem.

O que Lemos (2013) pretende nesta abordagem do objeto técnico é pensar nas mudanças que a noção de objeto técnico está passando devido às tecnologias digitais33, em especial, devido aos chips que permitem conectar todas as coisas34. Os humanos e não humanos conectados estão, cada vez mais, intensamente presentes nas atividades das pessoas, portanto, assim como os humanos mudam, os não humanos também mudam constantemente, “o objeto muda e [...] essa mudança aponta questões políticas importantes [...] Precisamos politizar os objetos” (LEMOS, 2013, p. 245).

O paradoxo que Latour (2012, p. 110) levanta é que se foi durante a Revolução Industrial que a sociologia surgiu, “e passou a evoluir paralelamente aos desenvolvimentos técnicos mais ambiciosos e intensivos”, como é que a sociologia permaneceu “sem objeto”? Ou como explicar que os cientistas sociais preferem considerar “significado social” em vez de “relações

33 O autor prefere o termo cultura digital, que será evitada por parecer uma definição apriorística. 34 Ver a internet das coisas a seguir.

materiais”? “Dimensão simbólica” em vez de “pura causalidade”? Esta é exatamente a questão que a Teoria Ator-Rede pretende provocar no pensamento sociológico tradicional, promover uma “sociologia do objeto a serviços dos humanos voltados para o objeto”.

O que importa não é necessariamente a questão de que se o ator é humano ou não humano, mas se “ele faz diferença no curso da ação de outro agente ou não” (LATOUR, 2012, p. 108) pois, para a TAR, “qualquer coisa que modifique uma situação fazendo diferença é um ator – ou, caso ainda não tenha figuração, um actante”:

Se você puder, com a maior tranquilidade, sustentar que pregar um prego com ou sem um martelo, ferver água com ou sem panela, transportar comida com ou sem um cesto, andar na rua com ou sem roupas, zapear a televisão com ou sem controle remoto, parar um carro com ou sem o freio, fazer um inventário com ou sem uma lista, administrar uma empresa com ou sem a contabilidade são exatamente as mesmas atividades, que a introdução desses implementos comuns não muda nada “de importante”, então você está pronto para visitar a Terra Longínqua do Social e desaparecer daqui. Para todos os outros membros da sociedade esses implementos fazer muita diferença e são, pois, segundo nossa definição, atores – ou, mais exatamente, partícipes no curso da ação que aguarda figuração (LATOUR, 2012, p. 108).

Para Latour (2012, p. 112-114), os cursos da ação traçados em meio a modos de existência completamente estranhos formados pelas redes heterogêneas evidencia a necessidade de se compreender as conexões destes atores heterogêneos que estarão sempre abertas a reunião de novos tipos de atores, ou seja, “a continuidade de um curso de ação raramente consiste de conexões entre humanos [.,.] ou entre objetos, mas com maior probabilidade, ziguezagueia entre umas e outras”, pois, “não há relação alguma entre o “mundo material” e o “mundo social” justamente porque essa divisão é um completo artefato”, assim, não se trata de buscar a conexão de um mundo com outro, mas “redistribuir o conjunto todo de alto a baixo e do começo ao fim”. Desta forma, segundo Latour (2012, p. 118), o pesquisador não deve se deter em nenhum dos mundos, ou seja, não deve se limitar aos laços sociais nem se tornar um tecnólogo especializado. Para isso será necessário que, a partir da nova definição de social, as atenções devem se concentrar no “fluxo visível apenas quando se fazem novas associações” e isto ocorre quando os objetos passam a ingressar nos relatos. Se não aparecem, não deixam rastros, não devem ser mais levados em conta e mudam de fase, de mediadores tornam-se intermediários.

Deve-se criar as condições para que os atores falem sobre as ações, sobre as controvérsias. Entretanto, quando se trata dos humanos, obter relatos é uma tarefa mais fácil do que quando se trata dos objetos. Eles precisam deixar rastros, isto é, ingressar nos relatos. A

fim de criar as condições para que os objetos falem, Latour destaca cinco situações propícias para que os objetos falem (LATOUR, 2012, p. 118-122).

A primeira situação é buscar estudar as inovações onde elas nascem: nos laboratórios de pesquisa, nos departamentos de engenharia, nas startups que criam produtos e serviços, nos centros de pesquisa e desenvolvimento nas grandes empresas, nas oficinas dos artesãos, nos espaços dos especialistas de marketing, nas casas dos consumidores e nas muitas controvérsias sociotécnicas. Para Latour (2012, p. 122), são nestes ambientes que os objetos revelam sua vida “múltipla e complexa”, onde as redes se revelam nas “reuniões, projetos, esboços, regulamentos

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