Tendo em vista que a pesquisa aqui apresentada faz parte do um curso de mestrado profissional do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Humanidades (PPGEH), de acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) esta modalidade de pós-graduação tem como característica dar ênfase à aplicação do conhecimento, enfocando, assim, a pesquisa aplicada e o desenvolvimento de produtos e processos educativos destinados, principalmente, a
professores da educação básica e/ou profissionais de ensino formal ou não formal, nos distintos campos de conhecimento.
Deste modo, a produção de material educativo no mestrado profissional constitui- se requisito fundamental, os quais se definem como “produtos e processos educacionais que possam ser utilizados por professores e outros profissionais envolvidos com o ensino em espaços formais e não formais” (DOCUMENTO DE ÁREA, 2013, p. 27).
Dentre os vários exemplos de produtos educativos apresentados no Documento de Área (2013), optamos por desenvolver dois: a formação de trabalhadores da educação, por meio de um curso de extensão que se configura uma Atividade de Extensão; e a produção do e-book inserido na categoria de Material Textual. Ambos foram submetidos à avaliação e aprovação, sendo que a formação foi avaliada pelos professores participantes do curso de extensão e o e-book pela banca examinadora da defesa.
Optar pelo desenvolvimento do curso de extensão, como apresentamos anteriormente, foi motivado pela necessidade e importância de abrirmos um diálogo acerca do adoecimento mental de trabalhadores em educação do município de Serra/ES.
Dada à relevância das temáticas trabalhadas na formação, que impulsionaram experimentações, debates e produções interessantes, realizamos a produção de um e-book (Figura 17), também pela possibilidade de contribuir para que as conversações disparadas na formação pudessem circular por outros espaçostempos dos cotidianos em educação e auxiliar os profissionais da educação a pensar intervenções no mundo das práticas em seu espaço de trabalho.
Figura 17: Capa do e-book
Fonte: Arquivo de imagens da pesquisadora (2019).
A opção pelo formato e-book deu-se pela importância de permitir o acesso livre do público ao conteúdo do produto e facilitar a utilização em outras formações a serem desenvolvidas no município de Serra, ou mesmo em outros municípios, e, assim, contribuir com a formação de profissionais de outros níveis e modalidades de ensino.
O e-book “Tecendo fios para a produção de saúde no trabalho em educação”, foi elaborado com base nas vivências, experimentações, tramas, conversações e narrativas insurgidas na formação “Educação Ambiental e Saúde Mental no contexto da formação continuada: criando estratégias de enfrentamento ao adoecimento mental de trabalhadores da educação” que promoveu discussões articulando Educação Ambiental, Saúde mental e trabalho em educação a partir da perspectiva das Redes de Conversações. Contudo, esse material não tem a pretensão de esgotar as discussões e resultados oriundos da pesquisa ou descrever detalhadamente os encontros do curso de formação realizados.
A aposta é que o e-book se constitua um material textual que possa inspirar práticas formativas, e por meio da ressignificação de seu conteúdo, disparar movimentos de
discussão e problematização acerca da relação trabalho-saúde-ambiente, contribuindo para a produção de conhecimento de profissionais da educação.
Não coube, portanto, determinar o como realizar os encontros formativos, pois acreditamos que cada profissional da educação tem autonomia para fabular, organizar e realizar os encontros em formatos múltiplos que se adequem a sua realidade e a da sua unidade de ensino. Contudo, sugerimos que as temáticas sejam trabalhadas em encontros coletivos presenciais, pois acreditamos na potência e riqueza das discussões e problematizações. Além disso, também torcemos para que possam desencadear possibilidades de intervenção e experimentação, constituindo-se movimentos de ação criativa na busca de outros modos de vida, trabalho e saúde nos espaços escolares.
Assim, o material textual foi organizado em tópicos compostos por imagens, produções escritas (elaboradas pela pesquisadora, pela professora orientadora e por cinco formadores, a partir das experiências vivenciadas na formação) e sugestões de leitura, música e vídeos, por entendermos que são elementos importantes para discussões e reflexões acerca da relação saúde-ambiente- trabalho. Como os tópicos não possuem uma ordem pré-estabelecida, podem ser lidos independente uns dos outros e a seguir apresentaremos o título de cada tópico e também um breve resumo para mostrar as questões que neles são discutidas:
● Formação - trama de conversações, encontros e experimentações: apresenta a concepção de formação que apostamos e o aporte teórico das Redes de Conversações. O subtópico “Apresentação da proposta de formação realizada” mostra como a formação foi organizada e o subtópico “O desenrolar da trama formativa” aborda, de modo resumido, como foi realizada a formação “Educação Ambiental e Saúde Mental no contexto da formação continuada: criando estratégias de enfrentamento ao adoecimento mental de trabalhadores da educação”, bem como, apresenta algumas vivências e experimentações, e também alguns projetos elaborados e desenvolvidos pelos profissionais da educação que fizeram parte da formação, nas unidades de ensino de Serra- ES. Vale destacar que esse tópico também é composto por textos de cinco formadores,
produzidos a partir de suas experiências com essa proposta formativa.
● Os modos de vida que temos tecido: realiza um diálogo tendo como foco a crise socioambiental que vivenciamos, além de articular a Educação Ambiental, saúde e trabalho como possibilidade para pensarmos como temos fabricado nossos modos de existência.
● Pelas linhas que tecem saúde: reúne o subtópico “A Saúde como possibilidade de criação de outros modos de vida”, que enfoca a concepção de saúde como possibilidades de invenção, e também discute aspectos acerca da doença mental; já o subtópico “A Medicalização da vida”, que aborda como temos patologizado a nossa existência pelas vias da medicalização.
● Considerações, mas sem ponto final: sem a pretensão de esgotar a discussão, o e-book se encerra com uma breve reflexão, com a intenção de convidar você leitor, a adentrar as discussões aqui propostas a fim de tecer tramas formativas repletas de encontros, conversações e coletividade e apostar na potência de agir como possibilidade de criar outros fios de vida docente.
Importante dizer que esse material textual não tem o propósito de ser um produto a ser replicado como manual ou cartilha. Nossa pretensão é a de que ele se constitua um agenciamento ou quem sabe um intercessor (DELEUZE, 2013), para disparar a reflexão e invenções acerca das questões que acolhe, além de inspirar o desenvolvimento de outras práticas por meio da ressignificação de seu conteúdo com vistas a contribuir com a formação e produção de conhecimento de outros profissionais da educação.
Portanto, buscamos nos desvencilhar dos engessamentos, tratando as questões com criatividade, inventividade, valorizando a potência de escrita de cada autor nessa produção. De fato, nos aproximamos da ideia proposta por Deleuze (2013) quando diz que a leitura deve ser uma leitura de intensidades, e é esse o tom que desejamos dar ao e-book.
É que há duas maneiras de ler um livro. Podemos considerá-lo como uma caixa que remete a um dentro, e então vamos buscar seu significado, e aí,
se formos ainda mais perversos e corrompidos, partimos em busca de um significante. E trataremos o livro seguinte como uma caixa contida na precedente, ou contendo-a por sua vez. E comentaremos, interpretaremos, pediremos explicações, escreveremos o livro do livro, ao infinito. Ou a outra maneira: considerarmos um livro como uma pequena máquina a- significante; o único problema é: ‘isso funciona, e como é que funciona?’ Como isso funciona para você? (DELEUZE, 2013, p. 16).
Seduz-nos a segunda maneira, para assim fugir do prescritivo e do óbvio. Quais pensamentos poderiam insurgir da experimentação de leitura do e-book? Como ele “funcionará” para quem o ler? Quais agenciamentos outros ele provocará? De que modo essa experimentação de leitura poderá contribuir para a formação do trabalhador da educação? Diante dessas indagações só nos resta cogitar, desejar... que essas escritas heterogêneas transitem e componham outras experiências, emanando intensidades vibrantes, como aquelas que experenciamos nos encontros de formação. Aos leitores do e-book, desejamos encontros potentes!