"Eu sou bicha porque eu quero e não deixo de ser homem por causa disso não!"
- Título Original e em Português: Madame Satã - Ano e País de Produção: Brasil, 2002 - Direção: Karim Aïnouz
- Gênero: Drama
- Duração: 105 minutos - Idioma: Português (Brasil) - Suporte: Digital
1. Sobre a técnica cinematográfica
Argumento: O filme conta a história de João Francisco dos Santos, homem, negro, homossexual, morador e frequentador dos bares da Lapa no Rio de Janeiro nas décadas de 1930 e 1940. A partir da narrativa do filme, João ganhava a vida através da prostituição de seu corpo bem como agenciando seus amigos (Tabu e Laureta), ao mesmo tempo em que sonhava em ser artista. O filme nos dá a visibilidade desse homem, suas agressividades, delicadezas, amores, histórias, crimes, uma vida subversiva e desconstrutiva contada a partir da narração de fatos reais que ajudaram a marcar a história do corpo e da sexualidade no Brasil do século XX. João vive num universo paradoxal, ao mesmo tempo em que se traveste de signos do feminino para viver seu personagem Madame Satã, que entoa canções lânguidas e dança nos bares e cabarés da Lapa, vive em um entorno machista, sendo-o ele mesmo, e se fazendo respeitar pela expressão da agressividade e da violência.
Foco narrativo: Objetivo.
Cenário e Figurino: Os cenários do filme se resumem aos bares e cabarés da Lapa no Rio de Janeiro da primeira metade do século XX, bem como a casa de João Francisco na qual vivem os personagens principais, trata-se de um lugar escuro e muito simples. Tem-se também, com menos frequência, a prisão e a praia. No tocante ao figurino, destaca-se o personagem João Francisco que vestia roupas do universo masculino em seu cotidiano, mas ao dar vida à Madame Satã, faz uso de saias,
199 cordões, colares, brincos, maquiagem, brilho e adereços do universo feminino, contudo, deixando seu peitoral musculoso à mostra. O personagem Tabu, por sua vez usa vestidos, saias e blusas em sua vida quotidiana.
Trilha sonora/sonorização: O filme começa com barulho de plateia, gritos e palmas, depois temos a imagem silenciosa do personagem principal e seu rosto machucado em primeiro plano, o único barulho que se escuta é a voz da polícia a descrever aquele sujeito. De fato, durante toda a película, os sons que são enfatizados são as vozes dos personagens, fortes, graves, finas, não importa, o foco parece estar no que eles tem a dizer. A trilha sonora é composta por canções românticas como Noite cheia de estrela, Nuits d'alger de Joséphine Baker e Ao romper da aurora.
Fotografia e Câmera: O filme é majoritariamente noturno, e sua fotografia é marcada pela escuridão, seja nas ruas, nos bares, na casa de João Francisco, em seu quarto. As luzes e o colorido aparecem poucas vezes em cenas que acontecem durante o dia no passeio da família (João, Laureta e a filha) no parque e na praia, bem como na saída de João da prisão. As cores aparecem também mais fortemente ao final do filme com as apresentações de Madame Satã, principalmente as cores escuras e o vermelho presente em suas vestimentas. No que concerne à câmera, tem-se um foco nos rostos e expressões dos personagens durante toda a película a partir do plano americano, com ênfase nos corpos nas cenas de sexo. Nos espetáculos de Madame Satã, a câmera vai passeando pelo corpo musculoso e adornado de João, por seu rosto e por suas expressões, pelos adereços, com ênfase na boca, nos olhos, nos movimentos do personagem, ela acompanha o mesmo, percorre seu corpo e o público que assiste à sua expressão.
2. Análise do corpo em movimento no filme - Visibilidade dos corpos e desejos no filme:
Corpo e desejo: João deixa claro desde o início do filme o seu desejo por outros homens, um desejo que é por vezes violento, afetuoso, impetuoso, agressivo. Trata-se de um desejo que se explicita nos olhares, bocas, movimentos, cenas de sexo. Destaca-se também o desejo de João de virar artista e a estesia que sente nos palcos, em suas palavras: Quando fiz meu espetáculo eu senti uma felicidade estasiante. Corpo e sexualidade: O sexo aparece na película de várias formas, primeiramente ele é uma maneira de ganhar a vida em termos financeiros para João, Tabu e Laureta através da prostituição. É também uma forma de gozar a vida, contudo, na maioria das vezes aparece de forma interdita na linguagem falada e as cenas de sexo são sempre marcadas pela escuridão, nos dando uma percepção de algo escondido, marginal. Destaca-se também que o personagem João se trata frequentemente no feminino, fato evidente quando faz sexo com um policial e também com Renato, proferindo as seguintes frases: "Sente aqui os coxão da preta" (para Renato); Quer dizer que tu tá querendo uma garota assim da minha altura, morena? Tu sabia que eu tenho uma irmã assim como tu quer que eu te apresente? Nesses diálogos fica claro que a
200 linguagem pretende esconder que se tratam de dois homens a fazer sexo.
Tem-se logo no início do filme uma definição de João a partir de sua sexualidade: É pederasta passivo, usa as sobrancelhas raspadas e adota atitudes femininas, alterando até a própria voz. Nesse discurso, o personagem é colocado como nocivo à sociedade, alguém de baixo nível por se aproximar de prostitutas e pederastas, o discurso também enfatiza as alterações que João faz em suas performances de voz e de fala ao representar Madame Satã. João gosta de dançar, cantar e performatizar o feminino, mas o faz inicialmente de forma escondida imitando Vitória, que se apresenta nos palcos e para quem João trabalha como camareiro. Contudo, sua expressão corporal mostra o quanto ele deseja estar naquele lugar, se mostrando sempre apaixonado pelos números. Contudo, o personagem só começa a se apresentar efetivamente quando sai da prisão pela segunda vez, tendo o bar Danúbio azul como palco, faz sua performance como a princesa Jaci. O homem musculoso, agressivo e violento e, por vezes, afetuoso, se adorna de brilho, maquiagem e purpurina, expressando pelo seu corpo, gestos, olhares e falas os poemas e canções que ganham vida na sua expressão.
Corpo e Educação: A educação aparece na película logo em seu início, quando João está preso e um policial o descreve como alguém de instrução rudimentar que Exprime-se com dificuldade e intercala em sua conversa palavras da gíria de seu ambiente. É de pouca inteligência. Não gosta do convívio da sociedade por ver que esta o repele, dados seus vícios. Nesse discurso inicial existe uma ênfase em uma noção de educação e instrução a partir da inteligência, que nesse caso, não estaria atrelada a um sujeito como João, negro, pobre, homossexual. Destaca-se também a relação entre João e a filha de Laureta, para com a qual ele exerce a função de pai, cuidando da menina, dando comida, colocando para dormir e levando para passear. João se preocupa com a educação da criança, fato esse notório em algumas falas do personagem, como Vou colocar minha princesa num internato de freiras francesas ou Isso lá é jeito de criar uma moça fazendo referência ao fato da criança estar com lêndeas. O personagem também repreende Tabu por ter feito sexo na casa deles com a porta aberta: Tu imaginou se minha princesa acorda?, questiona.
Descrição de cenas emblemáticas: