Desde 1987, a artista passou a utilizar o desenho de observação para apreender e representar a figura humana em seus diversos matizes emocionais e para explorar diferentes opções para as composições visuais das obras. Desenhando, dessa forma, a partir da observação direta de uma forma humana real ocupando um determinado espaço físico.
O processo de criação da artista consiste no desenvolvimento de uma idéia de forma visual, isto é, a partir da elaboração de diversos desenhos de observação dos modelos, de estudos e também de esboços derivados da sua imaginação.
Os desenhos podem ser executados a partir da modelo posando em várias poses diferentes individualmente ou mesmo já com o cenário inteiro. Nessas ocasiões, ela seleciona as roupas, determina o cenário e solicita aos modelos que façam as poses que mais se ajustem ao desenvolvimento da idéia inicial da obra, com o objetivo de estudar diversas opções para elaborar a composição.
Depois que a artista seleciona a imagem mais adequada para trabalhar uma obra, passa para a etapa da pintura, quando normalmente solicita às modelos que posem novamente, a fim de captar a maior quantidade possível de informações, como, por exemplo, detalhes das mãos, o acabamento da roupa, desenhos do rosto para detalhar a luz e a sombra, etc., para poder copiar e inserir na composição. Pois, para a artista, é importante preservar a configuração visual da idéia, ou seja, representar exatamente aquilo que ela tem em mente para determinada obra. Em suas próprias palavras:
[q]uando se desenha do vivo a vontade que tenho é pôr no papel aquilo que estou a olhar. (...) Tem-se o olho fixo e tenta-se fazer exatamente como se está a ver. (...) Aquela coisa da pincelada que puxa a idéia é... é horrível. Eu gosto mais de ter a idéia e depois tentar fazer tal e qual como vejo (Melo, in: Rosengarten, 2004: 57).
A imagem para uma obra que Paula Rego tem em mente pode ser derivada da sua imaginação, inclusive pode surgir ‚completa. Com paisagem, encenação e tudo‛ (ibidem: 57). Ela conta que, normalmente, nesses casos, a imagem trata de uma circunstância envolvendo duas figuras, uma situação entre elas, como se relacionam uma com a outra no espaço da composição pictórica, valorizando mais um ou outro aspecto que possa detalhar melhor a relação que se estabelece entre elas.
A artista chama essas imagens de ‚instant}neos‛ e, como tal, estão presentes ‚muitas coisas que j{ vêm de antes e, se calhar, coisas que vão acontecer depois. Como todos os instant}neos não têm tudo l{ dentro‛ (ibidem: 58). Isso implica que o público possui toda a liberdade para imaginar o que aconteceu antes e depois, criando as suas próprias histórias a partir da interpretação das imagens que a artista criou.
Em outras ocasiões, a idéia também pode surgir da leitura de um livro, por exemplo, e, a partir daí, ela faz diversos desenhos até que se sinta satisfeita com o resultado, ou seja, até que acredite que a imagem ‚pegou‛. O processo de trabalho para a execução da pintura é o mesmo descrito anteriormente. Ademais, esse tipo de prática se tornou uma constante nas obras mais maduras de Paula Rego.
2.7.2. UM UNIVERSO DE TRÊS GERAÇÕES DE
MULHERES QUESTIONA O SEU STATUS QUO NO
ÂMBITO DAS RELAÇÕES SOCIAIS – AS NOVAS
HEROÍNAS DE PAULA REGO
O leitmotif das meninas continua a ser o personagem central das novas obras. Contudo, o ponto de vista da artista em relação às meninas também sofreu alterações. Elas agora assumem o papel de três gerações de mulheres: adolescentes, mulheres adultas e inclusive avós.
A temática das novas obras gira em torno das relações sociais envolvendo o status quo das mulheres. Elas continuam sendo filhas e amantes, mas também surgem representando o papel de irmãs, esposas, mães e avós, como protagonistas de dramas familiares mais abrangentes.
A configuração das imagens foi construída de forma realista. Segundo Sarah Kent, que escreveu um artigo na Art in America (junho/1989) sobre as obras de Paula Rego da década de 1980, intitulado Rego’s Girls, o ‚realismo arcaico com que foram pintados *os quadros], confere a essas figuras um estatuto simbólico‛ (in: Rosengarten, 2004: 56).
A propósito, a forma como Paula Rego trabalhou o realismo, ou seja, de forma imponente, confere às figuras uma atitude e uma gravidade próprias das figuras das pinturas históricas. A temática da pintura histórica é calcada em fatos históricos de grande importância, cenas mitológicas, literárias e da história religiosa. Entretanto, num sentido mais estreito, a pintura histórica se refere ao registro pictórico de eventos da história política, tais como cenas de guerras, batalhas, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis. Nesse contexto, a artista subverte a ordem da hierarquia patriarcal presente no c}none desse gênero artístico e pinta as ‚’serviçais heróicas’, as filhas e as irmãs dos homens heróicos que são convencionalmente o tema desse tipo de pintura‛ (ibidem: 52).
Ao retratá-las executando tarefas domésticas, a artista assinala o estoicismo dessas mulheres, que, num gesto de companheirismo (às vezes sem outra escolha), apóiam seus pais e irmãos, dando-lhes suporte para que sejam quem são. Em outras palavras, a cumplicidade das mulheres no âmbito doméstico sempre foi menosprezada, tida como algo sem importância. Por isso, a artista presta homenagem a todas essas mulheres que foram minimizadas em suas contribuições.
Desse modo, Paula Rego apropria-se de um gênero de pintura, tradicionalmente masculino, servindo-se da altivez que o caracteriza para reescrever a história dessas mulheres-heroínas a partir de um ponto de vista feminino.
A escala imagética das figuras femininas das obras dá-nos a impressão de que elas são maiores do que as reais. O dispositivo de ampliar certas imagens em relação às outras, funciona para assinalar a importância do personagem na obra.
A configuração visual da composição das obras foi elaborada segundo critérios nitidamente demarcados por luz e sombra. A luz foi representada de forma crua e o efeito visual das sombras é intenso. Poucos elementos (objetos) foram arranjados nas composições. Basicamente, esses elementos atendem dois propósitos: primeiro eles desempenham um papel conceptual, sendo revestidos de significados simbólicos, e, segundo, funcionam para harmonizar as composições visuais das obras. Ao analisarmos minuciosamente a configuração das composições, poderemos concluir que a artista freqüentemente dispõe esses elementos no campo inferior da tela, com mais freqüência no campo direito da pintura, ocupando o primeiro plano da composição. Segundo a artista, esses objetos exercem uma dupla função nas obras, pois são acomodados para auxiliar tanto a história quanto a própria pintura (Bradley, 2002: 38).
O cenário das obras, em sua maioria, é o exterior. A configuração arquitetônica dos elementos que compõem a cena funciona como um dispositivo cênico para paradoxalmente sugerir a idéia de encenação teatral (interior).
2.7.2.1. DISPUTA PELO PODER NO TERRENO
DOMÉSTICO – AS CRIADAS
As Criadas, 1987, foi a primeira obra que a artista executou logo depois de finalizar a série da Menina e o Cão. A obra foi inspirada na peça de teatro de mesmo nome do escritor francês Jean Genet (1910-1986), encenada pela primeira vez em 1947, em Paris. A peça foi baseada no caso real de duas irmãs que brutalmente assassinaram sua patroa.
A infância de Genet foi muito conturbada, permeada por delinqüência, abandono e casas de correção. Filho ilegítimo passou a maior parte de sua adolescência num orfanato, e isso se refletiu de diversas formas em suas obras. Os elementos principais que permeiam suas obras passam pelo submundo do crime, pela perversão sexual e pela crueldade da opressão social.
Odiado pela burguesia e adorado pelos intelectuais, Genet denuncia e ridiculariza a falsidade e o fingimento da sociedade burguesa. As Criadas conta a história de duas
irmãs, Claire e Solange, que se sentem sufocadas e humilhadas na sua condição de criadas chegando a quase perder o juízo por não conseguirem mudar essa situação. As duas ambicionam o lugar da patroa, se sentem envergonhadas pela posição subalterna que ocupam, se envergonham das suas roupas pobres e até mesmo do próprio cheiro que exalam, mas ao mesmo tempo humilham-se diante da senhora. Todas as vezes que a patroa se ausentava da casa, as duas entravam num estado tal de euforia, a ponto de encenar um ritual macabro, no qual elas assassinavam a senhora. A catarse emocional de cada uma acabou sendo, na verdade, um ensaio para a prática do crime horroroso, que ambas cometeram ao assassinar a patroa.
Na obra As Criadas de Paula Rego, a artista introduziu a filha da patroa à história de Genet. A partir das duas duplas que se formou na obra, ela explorou a composição visual da pintura baseada na idéia da disputa pelo poder doméstico. Como ela mesma diz: ‚*q+uem é que depende de quem? Uma luta constante a ver quem é que manda. Essas lutas que se passam nas casas particulares são eternamente fascinantes porque é por aí que se vê o que se passa no mundo inteiro. Mas mais concentrado‛ (Melo, in: Rosengarten, 2004: 59).
Para ajudar no processo criativo da obra, a artista foi ao Harrod’s e comprou mobília de bonecas para montar um cenário real. O propósito de usar esse recurso consistia em estimular a sua imaginação, ou ainda, para pô-la ‚num certo estado de espírito‛ (McEwen, in: Almeida, 1988, s/p), como ela mesma assinalou.
A partir disso, a artista passou a elaborar diversos desenhos, experimentando composições diferentes, até encontrar a mais pertinente à idéia que tinha em mente para pintar a obra.
Fig. 125 - Paula Rego. Estudo para As Criadas, Fig. 126 - Paula Rego. Estudo para As Criadas,
1987. Caneta e aguada s/papel, 42 x 29,7 cm. 1987. Caneta e aguada s/papel, 42 x 29,7 cm.
Fig. 127 - Paula Rego. Estudo para As Criadas, 1987. Caneta e aguada s/papel, 29,6 x 42 cm.
Fig. 128 - Paula Rego. Estudo para As Criadas, 1987. Caneta e aguada s/papel, 29,6 x 42 cm.