A.5 É TUDE DE LA PLATITUDE À L ’ AIDE DE M APLE
A.5.4 Platitude d’un robot de type (1, 1)
5.2 Horizons de calculs et de planification
Estes trabalhos trazem características comuns, entre as quais a ênfase no problema da dominação das massas por um pequeno grupo detentor do poder. Tal é a conclusão básica desses trabalhos: os Rosado conseguem dominar os mossoroenses por meio de uma pesada
carga ideológica presente nos construtos que fazem o “país de Mossoró”. Vale salientar que
esta conclusão é fruto do trabalho de autores que pesquisaram essencialmente as mesmas fontes, ou seja, as obras da Coleção Mossoroense. Suas escritas trazem um componente de forte engajamento e estão mobilizadas para alertar os leitores, os mossoroenses certamente, do perigo e das intenções dos Rosado. Não é por acaso que Francisco Fagundes de Paiva Neto compara em dois trechos do seu livro Mossoró com a Alemanha nazista.
A festa cívica assume uma conotação política em que a totalidade aparente e mistificadora arranca o indivíduo da história e o entrega ao Führer, à oligarquia, ao autocrata, sendo um campo privilegiado ao exercício da violência simbólica, em que a ortodoxia dos poderes instituídos entra em choque com as heterodoxias dos demais poderes que formam a vida social (PAIVA NETO, 1998 p.105).
Mais à frente, ao falar sobre o cruzamento de elementos políticos e religiosos como estratégia que permitiu construir o discurso da resistência e manter a ordem coronelística, Paiva Neto afirma que isso o faz lembrar a estratégia de propagação política da Alemanha, na qual os nazistas lançaram mão de elementos culturais para legitimar os seus atos (Ibidem, p.131).
A ideologia aparece nessas obras como um o componente estratégico da dominação política que mascara, camufla e esconde o real, num exercício claro de dominação
que revela uma injustiça social. A Coleção Mossoroense, os jornais, as emissoras de rádio, as solenidades cívicas são as armas dos Rosado, utilizadas para subjugar o povo. Estes trabalhos chegam mesmo a construírem lugares de sujeito: os Rosado figuram como vilões, enquanto a população mossoroense é a vítima da ação política desta família, e os autores em questão seriam os heróis, prontos a abrirem os olhos das pessoas desse lugar. Vejamos o que diz José Lacerda na conclusão do seu trabalho sobre as atuais lideranças da família Rosado:
Eles não se destacam pela capacidade de congregar, mas, pela capacidade de dividir. São bruxos que pensam no feitiço do dia seguinte. É assim que a cidade com outros adjetivos, decodifica as lideranças de Sandra Rosado como filha e herdeira de Vingt e Carlos Augusto Rosado como filho e herdeiro de Dix-sept, os dois invertem a fábula do bem contra o mal, pois na visão da população é o mal contra o mal (FELIPE, 2001 p.176-177).
É o trabalho das mensagens ideológicas que assegura a permanência da família na prefeitura da cidade. Os Rosado se valem de toda sorte de artifícios para convencer os mossoroenses de que são os eleitos para dirigir a cidade, até mesmo a famigerada compra de votos. À população da cidade, o lado mais fraco nesta relação desigual, só resta o voto, única mercadoria de barganha que pode utilizar.
O apelo ao afeto é exacerbado nos períodos de eleições, nos quais a política torna-se um grande espetáculo (comícios, passeatas, vigílias, shows artísticos), para seduzir e comover as massas, que vão garantir através do voto a continuidade – uma ordem imaginada pelo domínio das instituições que participam com o discurso do reconhecimento e da legitimação, mas, principalmente com o arsenal assistencialista/clientelista que opera desde a promessa do emprego público, até as ordens para consultas médicas, a doação de óculos e prótese dentária e as salvadoras cestas básicas de alimentos (Ibidem, 2001. p. 137-138).
Os discursos elaborados por esta produção acadêmica descambam num olhar dicotômico e maniqueísta sobre Mossoró. Neste sentido, o “país de Mossoró” é dado a ver como um lugar dividido entre os Rosado, juntamente com o seu respectivo séquito de um lado, e o restante da população subjugada de outro. A espacialidade mossoroense oportuniza a um determinado sentido, o qual invariavelmente dá visibilidade às estratégias de dominação presentes em um sem número de práticas realizadas pelo poder público municipal, todas elas tendo por fundamento assegurar a permanência de membros de uma família na chefia do executivo municipal.
Na compreensão dos três autores é possível discernir uma homogeneização irredutível, na qual Mossoró aparece como palco onde se desenvolve uma luta simbólica dos Rosado pela manutenção do controle político, sendo que o “pais de Mossoró” figura como um
engodo que até o momento tem se mostrado bastante eficiente, uma vez que esta família consegue se perpetuar na chefia da prefeitura municipal sem maiores problemas.
A interpretação dos autores imprimiu um aspecto final ao “país de Mossoró”:
nesta espacialidade, o exercício da política parece ser exclusivo dos mandatários e poderosos. Os estudos de José Lacerda, Paiva Neto e Emanuel Braz construíram uma representação de Mossoró como um lugar de mandonismo, onde uma oligarquia, constituída no início do século XX, domina uma massa de pessoas submissas. As práticas políticas que existem em Mossoró são comparadas àquelas que designam a República Velha, domínio dos coronéis
mandatários. Os Rosado seriam os “novos” coronéis, que arregimentam a população com
vários artifícios para no fim conseguirem o que mais desejam, permanecer no poder. A interpretação produz uma dicotomia, engendrando uma polarização entre rosados/elite e os mossoroenses/povo.
De acordo com esta produção acadêmica, os mossoroenses, por se apegarem
afetivamente ao “país de Mossoró” acabam, necessariamente, por se deixar controlar pela
ideologia dos Rosado. Quanto a isso, é importante destacar a possibilidade – que em nenhum momento é autorizada por essas escritas – de que existam maneiras de usar os pilares da
memória, que sustentam esse “país de Mossoró”, de formas diferentes.
Um exemplo interessante e que pode suscitar novos olhares está nas palavras de Crispiniano Neto, autor do texto utilizado no espetáculo Auto da Liberdade. Reproduzimos suas palavras a seguir, que consistem na apresentação do seu livro:
Escrever o Auto da Liberdade foi um desafio diante da visão que os setores mais progressistas sempre cultivaram de que tudo não passava de um jogo de confetes em heróis forjados para reforçar um longo projeto de dominação. Identificamos nestas acontecências mossoroenses, o sonho libertário de um povo, como fio condutor das histórias dessa História.
Buscando as raízes profundas do papel das classes que tinham naqueles momentos a liberdade sonegada, nosso papel não poderia ser o de incensar heróis embalsamados, mas sim o de buscar nas forças vivas dos momentos sociais autênticos, o fazer libertário enquanto esforço coletivo e, portanto, histórico.
Maquiavel foi satanizado porque escreveu ao príncipe, dizendo-lhe como dominar o povo. Na verdade estava dizendo ao povo, como o príncipe o dominava, dando-lhe a senha para a própria libertação.
Tive a sorte do encargo de escrever ao povo como o próprio povo libertou-se em momentos vários, estimulando-o a entender como continuar libertando-se das novas formas de opressão que as novas liberdades provocam, levando os dominadores à permanente reação da reação.
Crispiniano Neto narra, em versos, os quatro episódios que fazem da cidade o
“país de Mossoró”, assinalando que é a “história de um povo que ama a liberdade”
instrumento de dominação, sugerindo uma apropriação da história que talvez escape das armadilhas da ideologia.