CHAPITRE 1 L’Économie de Communion : Origine et Philosophie
1.2 Idées générales et concepts fondamentaux
1.2.3 Principaux axes de l’Économie de Communion
1.2.3.2 Des « hommes nouveaux » dans la gestion de l’entreprise
Conforme mostramos na subseção 4.2.2.2.1 da página 70, utilizamos a classificação de Scheibman (2000) ao considerarmos o tipo semântico do verbo como fator da variação te/lhe em nossa análise.
Para classificarmos um verbo conforme a proposta de Scheibman, temos, obviamente, por se tratar de uma classificação semântica, de considerar o contexto. Um verbo como “dar”, por exemplo, pode ser considerado um verbo material em (81), por se referir a uma ação ou atitude concreta ou abstrata, mas é verbo discendi na expressão “dar notícia”,
bem como “dar uma informação”, por expressar uma atividade verbal e equivaler a “dizer”, “contar”, “falar”, como em (82) e (83):
(81) mas nosso DEUS é poderoso pode dar-lhe saúde para me ajudar [C026- 29.6.1958]
(82) Hoje estou te escrevendo esta cartinha a fim de dar-te as minhas notícias. [C020-1.3.1955]
(83) Olha amigo o endereço que te dei do Frade não é mais o mesmo [C069- 19.9.1976]
O mesmo se pode dizer do verbo “mandar”: material em (84) e discendi em (85): (84) o irmão João li mandara o cartão della como prova [C032-14.02.1965] (85) ela manda lhe lembranças [C049-2.1.1973]
A classificação de Scheibman apresenta nove tipos diferentes de verbos, porém, para eliminarmos os nocautes ocasionados durante as rodadas no Goldvarb X, fizemos um amálgama de dois desses tipos, a saber: amalgamamos os verbos de atividade corporal (os que descrevem gestos ou interações corporais, como abraçar, empurrar etc.) com os verbos de
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atividade material (os que expressam ações ou atitudes concretas, como fazer, escrever etc.) devido à aproximação semântica entre os dois tipos promovida pelo traço [+ação]; e os verbos possessivos/relacionais (os que indicam posse ou pertinência, como ter, possuir, pertencer, condizer etc.) com os verbos relacionais (os que se expressam uma característica do ser, como ser, parecer, tornar-se, ficar etc.) devido ao traço [+atributivo] comum aos dois tipos. Quanto aos verbos existenciais (os que expressam existência ou acontecimento, como ser, acontecer, ocorrer, estar, haver etc.), por terem ocorrido apenas uma vez em toda a amostra, resolvemos desconsiderá-lo, já que não encontramos traços semânticos comuns a outros tipos.
A tabela 17 mostra a percentagem de ocorrências de verbos conforme o tipo semântico na amostra analisada:
Tabela 17: Total de verbos por tipo semântico Tipo semântico
do verbo
Verbos
nas cartas Ocorr./Total %
Dicendi
dizer, falar, contar, comunicar, declarar,
perguntar, etc.
176/481 36,6
Materiais fazer, escrever, dar,
conceder, abraçar, etc. 163/481 33,9 Sentimentais amar, estimar, gostar,
querer, desejar, etc. 55/481 11,4 Perceptivos ver, encontrar,
reencontrar 33/481 6,9
Relacionais ter, pertencer, dever 28/481 5,8 Cognitivos conhecer, esquecer,
julgar, achar 25/481 5,2
Existenciais ser, acontecer 1/481 1
Antes de fazermos nossa análise, havíamos levantado a hipótese de que verbos que expressam sentimento (desejar, querer, esperar, amar etc.) e os que expressam sensação (- os “verbos de percepção” de Scheibman, como ver, ouvir, encontrar etc.) desfavorecem a ocorrência da forma lhe como 2ª PESS porque, conforme a sugestão de Monteiro (1994, p.
163), te conota maior intuito de aproximação ou de intimidade (forma T) do que lhe, cujo uso como pronome de 2ª PESS surgiu em contextos de polidez (forma V); enquanto os demais
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corporal (abraçar, pegar etc.), os verbos cognitivos (conhecer, lembrar etc.), verbos dicendi (como dizer, falar, perguntar etc.), os verbos possessivos/relacionais (ter, pertencer, ser etc.) e os existenciais (como acontecer, ocorrer etc.), por sua vez, favorecem a ocorrência de lhe como 2ª PESS por serem verbos que revelam menos aproximação ou intimidade entre remetente e destinatário.
O resultado pode ser verificado na tabela 18 a seguir:
Tabela 18: Atuação do tipo semântico do verbo sobre o uso de lhe Tipo semântico
do verbo Verbos Ocorr./Total %
Dicendi
dizer, falar, contar, comunicar, declarar,
perguntar, etc.
107/176 60,8
Perceptivos ver, encontrar,
reencontrar 17/33 51,5
Materiais fazer, escrever, dar,
conceder, abraçar,etc. 79/163 48,5 Relacionais ter, pertencer, dever 13/28 46,4
Cognitivos conhecer, esquecer,
julgar, achar 9/25 36
Sentimentais amar, estimar, gostar,
querer, desejar, etc. 19/55 34,5
A análise não confirmou exatamente nossa hipótese: realmente, na amostra analisada, lhe foi mais usado com os verbos dicendi (60,8%), mas foi menos usado com verbos materiais, incluindo os de atividade corporal (48,5%), com os verbos relacionais (que incluem os possessivos) (46,4%) e com verbos de cognição (36%).
Ao contrário do que supúnhamos, em nossa amostra, os verbos de percepção não desfavorecem o uso de lhe (51,5%), porém os verbos de sentimento realmente o fazem (34,5%).
Apenas para ilustrar, transcrevemos aqui alguns casos de te, que se mostrou mais frequente com verbos de sentimento (65,5%):
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(86) aqui fica teu filho que ti estima [C031-10.12.1964] (87) até gritarei para o mundo, que te amo. [C051-2.4.1973] (88) Te adoro [C169-6.8.1992]
(89) te quero [C184-12.9.1998]
Lhe, nesses casos, apareceu menos, dos quais são exemplos: (90) beijos dos netinhos que lhe amam [C053-2.7.1973]
(91) eu lhe quero como você realmente é e não como queres ser [C059-9.8.1974] Quanto aos verbos discendi, apontados com favorecedores de lhe (60,8%), provavelmente haja aí a influência de outro fator, que é a função sintática do pronome te/lhe, que comentaremos com mais detalhes na seção 5.5.3.
Os verbos dicendi, em geral, são verbos que admitem dois complementos, sendo um de coisa (o que é dito) e outro de pessoa (a quem se diz algo). O primeiro desses complementos tem função acusativa (OD para a NGB) e o segundo, função dativa (OI para a
NGB). Como, em geral, se explicita o que é dito através de um sintagma nominal ou oracional, o complemento de pessoa (que fica no DAT) é frequentemente substituído por um dos pronomes oblíquos átonos, como nas ocorrências (92), (93), (94) e (95):
(92) Comunicu{-te}OI {o recebimento de sua carta}OD [C003-7.1.1940] (93) peso {li}OI {as vossas oracaos em nome de Jesus}OD [C070-14.2.1965] (94) certifico{-lhe}OI {que irei remeter 96 litros de mel}OD [C077-6.12.1966] (95) ...para dizer{-te}OI {que recebi a tua amorosa cartinha}OD [C049-29.5.1953] Conforme mostrado na pág. 50, lhe surgiu do DAT latino de ĭlle e, em seu processo de gramaticalização, não perdeu sua função original, mesmo tendo adquirido a função de acusativo, o que pode explicar sua alta frequência como OI de verbos discendi.
Na amostra, identificamos 29 verbos discendi, a saber: dizer, falar, contar, comunicar, dar notícia, mandar notícia, declarar, perguntar, responder, respostar, pedir, explicar, convidar, avisar, garantir, assegurar, certificar, afirmar, saudar, abençoar, chamar, confessar, aconselhar, prometer, propor, sugerir, agradecer, parabenizar e esculhambar (em “Seu sem-vergonha! Estou lhe esculhambando logo no início da carta pois
117 fiquei esperando notícias [...] e tive de esperar dormindo, pois não chegou...” [C167- 26.4.1994]), totalizando 176 ocorrências, ou 36,6%.
Destes verbos, os seis mais recorrentes foram pedir (32/176 ou 18,2%), dizer (29/176 ou 16,5%), dar notícias (19/176 ou 10,8%), contar (12/176 ou 6,8%), comunicar (12/176 ou 6,8%) e falar (11/176 ou 6,3%). A ocorrência de lhe com estes seis verbos se deu como se detalha na tabela 19 a seguir:
Tabela 19: Atuação dos seis verbos discendi mais recorrentes sobre o uso de lhe
Verbo Ocorr./Total % Comunicar 10/12 83,3 Pedir 21/32 65,6 Dizer 19/29 65,5 Falar 7/11 63,6 Contar 6/12 50 Dar notícias 5/19 26,1
Como se pode perceber, o verbo comunicar, na amostra analisada, favorece o uso de lhe (83,3%), enquanto o verbo dar, na expressão dar notícias desfavorece tal uso (26,1%). Exemplos desses usos podem se verificar nas ocorrências abaixo:
(96) Comunico-lhe o recebimento de Vossa carta [C001-29.4.1941]
(97) E, por falar nisto, quero comunicar-lhe que tenho pelo menos três viagens para este mês [C022-8.11.1955]
(98) Comunico-lhe também que nosso irmão Antônio Sebastião está bastante doente [C064-23.5.1975]
(99) comunico-lhe que recebi sua carta [C073-7.5.1977] (100) a fim de dar-te as minhas notícias [C020-1.3.1955]
(101) estou te escrevendo para te dar uma notícia [C087-23.8.1978]
(102) A finalidade destas pocas linha e somente para te dar minhas notícias [C096-30.6.1979]
(103) É com muita saudade que te escrevo estas linhas somente para te dar as nossas notícias [C156-8.9.1986]
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Uma possível explicação para lhe ser mais recorrente com comunicar e não com dar notícias é que aquele é um verbo menos popular do que este. Note-se a frequência da ênclise – posição privilegiada pela norma padrão – com tal verbo, enquanto com a expressão dar notícias a próclise foi mais comum na amostra. Ao que parece, na amostra, com o verbo comunicar, o pronome lhe conserva seus traços originais: a formalidade (forma V) e a função dativa.
Dos verbos materiais, o mais frequente na amostra foi escrever (66/163) com o qual lhe ocorre 30 vezes (45,5%), sempre com a função de dativo.
Cruzando os fatores tipo semântico do verbo e função do pronome, verificamos que, com os verbos discendi, o pronome lhe aparece como DAT em 93 ocorrências (87%) e
como ACUS em 14 (13%), o que significa dizer que, com esse tipo de verbo, há uma tendência
de o pronome lhe ser usado em sua função original, que é o DAT. Em sua função inovadora,
isto é, no ACUS, lhe ocorreu em 100% dos casos (17ocorrências) em que foi usado com verbos perceptivos, o que corresponde a 51,5% de um total de 33 ocorrências desse tipo de verbo, e em 100% dos casos (9 ocorrências) em que foi usado com verbos cognitivos, o que corresponde a 36% de um total de 25 ocorrências desse tipo de verbo na amostra analisada. A tabela 20 mostra esse cruzamento de fatores:
Tabela 20: ocorrências de lhe por função sintática e tipo semântico do verbo
Função
Tipo DAT % ACUS %
Dicendi 93/176 52,8 14/176 8 Materiais 65/163 39,9 14/163 8,6 Sentimentais 14/55 25,5 5/55 9 Perceptivos 0/33 0 17/33 51,5 Relacionais 11/28 39,2 2/28 7,2 Cognitivos 0/25 0 9/25 36
Para ilustrar o uso de lhe como ACUS de verbos perceptivos e cognitivos, damos
os exemplos a seguir extraídos de nosso corpus:
(104) Como esperava encontrar-lhe em Belém do Pará [C022-8.11.1955]
(105) Eu bem quisera ter tempo para escrever, ou melhor, está sempre lhe vendo [C025-19.6.1958]
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(106) Foi bom você ir morar comigo para eu lhe conhecer melhor [C110- 14.7.1980]
(107) A irmã que não lhe esquece [C042-16.6.1971]
(108) Eu não lhe acho vagabunda não, você é [C158-?.?.1987]