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Nesta dissertação busquei refutar qualquer sentido pré-linguístico sobre paternidade que se inscreve na dicotomia biologia versus cultura e objetivei analisar como a paternidade é performativamente materializada em ―Procurando Nemo‖ e, mais precisamente, como este o ―filme‖ trabalha de forma performativa para materializar paternidades. Para tanto, foi construída uma tríade conceitual estruturada nos conceitos de performatividade, inteligibilidade e materialidade, em diálogo com pressupostos teórico- epistemológicos da Teoria Ator-Rede (TA-R). Além disso, as análises não se limitaram aos quase 100 minutos de narrativa, elas focalizaram, sobretudo, em uma rede extensiva de materialidade e socialidades que incluem diversos elementos e, em especial, as notas da produção, críticas cinematográficas, depoimentos obtidos em sites de cinema e textos sócio-educativos.

As análises que empreendi buscaram tecer essa rede heterogênea na qual a paternidade vai sendo performativamente produzida como materialidade. No jogo performático que se delineia nessa rede, a paternidade se constrói, ao mesmo tempo, como elemento anterior (ou seja, a paternidade é referida como o tema central sobre o qual o filme foi produzido), mas também o destino temático do filme (ou seja, o filme constrói paternidade). Esse jogo produz outros efeitos, por exemplo, pessoas inscrevem suas experiências e expectativas como pais referindo o filme; tomando o filme como exemplo, textos fazem referência à paternidade como conflito eterno entre ser pai ou ser amigo do filho ou sobre a importância do carinho paterno ou a questão dos pais que assumem totalmente a criação dos filhos ou ainda o exemplo da paternidade do filme como reflexo da relação de amor/insegurança do criador em relação à sua criatura etc. Processos identificatórios distintos que se articulam mobilizando conexões diversas cuja

heterogeneidade é condição de estabilização da rede, da própria norma e, sobretudo, das ―experiências/vivências‖ paternas.

Desta maneira, afirmo que a paternidade não existe como substância, mas como efeito de redes heterogêneas de materialidades e socialidades, sendo sua existência e possibilidade dependentes dos arranjos travados entre os actantes situados na rede. Ela é produzida como ideal regulatório impossível de ser realizada plenamente (e por isso excludente) e estável precariamente conforme as redes que a possibilitam. Nesse sentido, a paternidade se constitui como mecanismo de coerção e governo, porém apesar disso (ou inclusive por isso) ela não precisa ser desprezada, pois a resistência opera no interior da própria paternidade.

A paternidade é uma norma tácita. Ela produz efeitos, mas nunca apreende plenamente sua produção, pois seus efeitos testemunham suas incoerências, multiplicidade e plasticidade. Criam paradoxos, desestabilizam a própria norma que as origina. Não tenho dúvidas que ela pode operar como desestabilizador e intensificador do ―pensar diferentemente‖, por exemplo, a amizade e o amor entre pais e filhos/as, as masculinidades e maternidades ou ainda a relações entre homens e Estado no que tange a discussão dos direitos sexuais e reprodutivos masculinos.

Alguns elementos fundamentais para se repensar a paternidade, mas, infelizmente, não puderam ser contempladas neste estudo e acabaram ficando de fora. De certa maneira, após re-ler meu estudo, percebi que me voltei em demasia à necessidade de ―pensar diferentemente‖ a paternidade e, em especial, executar um processo de fazer ciência de modo a não ocultar os arranjos que a permitem existir (LATOUR, 2004a; BUTLER, 2008). Em outras palavras, nesta dissertação meu objeto de pesquisa, também, acabou se tornando o próprio exercício de fazer pesquisa.

De certa maneira, ao final desta pesquisa, acabo me identificando como pesquisador com as palavras de Andrew Stanton após assistir a primeira exibição do filme Procurando Nemo: ―Depois que a poeira baixou, eu achei que o filme não é o que eu tinha planejado, mas quando o assisto, é exatamente o que eu quero‖ (Obtido no DVD dois da edição especial nacional do filme). Muito obrigado, leitores e leitoras, pela atenção.

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APÊNDICE I

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