Importante notar que durante a fase mais intensa dos conflitos na Somália (1991-1995), foram identificados apenas dois editoriais sobre esse país africano268. Pergunto, se a escolha dos temas abordados pelos editores segue a importância dos acontecimentos fatos do cenário mundial. No momento em que a guerra civil da Somália estava no seu ápice, entre 1991-1995, a Folha veicula apenas dois editoriais sobre esta contenda. Iguais aos outros editoriais que debateram os problemas de alguns países africanos, nos editoriais sobre a Somália foram identificados termos como:
268
Auxílio à Somália. Editorial publicado em 3 de Dezembro de 1992 e Somália urgente. Editorial, 21 de Agosto de 1992
tragédia, fome, guerra, conflitos, barbárie. Nestes editoriais, nenhum destes termos foi contabilizado mais de uma vez. Dessa maneira, a observação desta recorrência sugere certa homogeneidade na utilização dos termos usados nos editoriais que tiveram o continente africano como eixo central da informação.
O editorial Auxílio à Somália trata sobre o debate em andamento na ONU sobre a possibilidade do envio de uma força de intervenção, liderada pelos Estados Unidos, para garantir a distribuição efetiva do auxílio humanitário. Segundo o editorial:
Está em debate no conselho de segurança da ONU a proposta de envio de uma força de intervenção liderada pelos Estados Unidos – à Somália, visando garantir a distribuição efetiva do auxílio humanitário internacional 269.
Constata-se neste editorial que não há associação entre a fome, guerra e conflitos, como uma característica cultural inerente as populações da África. Essas atribulações foram apresentadas como desdobramentos da guerra civil somali, assim:
A maior parte dos remédios e alimentos que hoje chegam ao país são desviados ou roubados pelas inúmeras facções que impuseram àquela nação africana uma perversa lei do mais forte. Tais condições evidentemente agravam ainda mais a situação de miséria extrema em que mal sobrevivem boa parte da população, bem como a fome que mata centena de pessoas a cada dia270
Por outro lado, ficam explícitas as representações da África no Brasil, a partir da maneira como os editores da Folha se referem à situação econômico-social da Somália. Ao escrever que Tais condições evidentemente agravam ainda mais a situação de miséria extrema em que mal sobrevivem boa parte da população, o jornal deixa implícito que a miséria já era comum no país sendo agravada pelo estado de guerra civil que o país, estava submetido. Assim, percebe-se que algumas análises dos editores da Folha estiveram ancoradas em pressupostos que relacionam o continente africano a pobreza.
Em outro trecho, chama atenção à utilização de termos como massacres e barbárie, sem necessariamente colocá-los explicitamente como marcadores culturais das populações de origem africana:
Num cenário assim, de afronta à noção mais básica de direitos humanos, de
massacre cotidiano que envergonha toda a humanidade, à medida que se
cogita na ONU parece mais do que justificada – como ocorreu no caso da
269
Auxílio à Somália. Editorial publicado em 3 de Dezembro de 1992. 270
Bósnia-Herzegovina. Garantir que a ajuda chegue ao seu destino, aliás, é a obrigação mínima da comunidade internacional face à barbárie que ainda impera incontidos nos mais diversos cantos do planeta271.
O cenário onde se afronta à noção mais básica de direitos humanos e dos massacres cotidianos que envergonham toda a humanidade é a Somália. É interessante notar que a terminologia barbárie, por sua vez, não está restrita a Somália ou a qualquer outra região do continente africano, mas sim, aos mais diversos cantos do planeta. Desse modo, a maneira como as terminologias afropessimistas foram empregadas no editorial analisado, destoaram das formas comumente usadas pelos editores da Folha ao tratar dos problemas africanos, ou seja, apela para os direitos humanos e amplia a concepção de que o massacre (barbárie) ocorria em outras partes do globo.
Já o editorial veiculado no dia 21 de Agosto de 1992 com o título: Somália urgente deu destaque aos desdobramentos da guerra civil na Somália, as estatísticas da guerra e ao posicionamento da comunidade internacional em relação ao término do conflito.
A tragédia que se abate sobre a Somália, país do Nordeste africano submetido ao duplo flagelo da seca e da guerra civil, já estarrecia a opinião pública nacional com terríveis imagens de crianças a um passo da morte mais abjeta por inanição272
Cabe destacar que dos três editoriais que versaram sobre a Somália, este foi o editorial em que mais foram identificados termos afropessimistas. Tragédia, flagelo, seca, inanição, fome, guerra, conflitos, refugiados foram às terminologias identificadas. Os editores deixam implícita a incapacidade dos africanos em resolverem os seus problemas ao emitirem a opinião de que: o espectro da fome, longe de ser afastada pela ainda tímida ação internacional, e apontam para que a iniciativa da solução das adversidades é comumente atribuída aos domínios externos ou ocidentais, assim:
O espectro da fome, longe de ser afastado pela ainda tímida ação internacional, agora se impõe na forma de números sinistros: 75% das crianças de até cinco anos podem morrer, naquele país, dentro de poucos meses; de 500 a mil somalis cruzam diariamente a fronteira em direção um dos campos de refugiados no Quênia, tentando escapar de um conflito sangrento que já dura 18 meses273.
271
Auxílio à Somália. Editorial, 3 de Dezembro de 1992. 272
Somália urgente. Editorial, 21 de Agosto de 1992. 273
A iniciativa em solucionar as desventuras no interior do continente dependeria da tímida ação internacional, portanto, do exterior. O editorial do dia 2 de Janeiro de 1993, com o título Esperança na Somália, discorreu sobre as ações dos grupos envolvidos na guerra civil somalí, no sentido de por termo aos conflitos armados no país. Este editorial foi o que menos apresentou semânticas afropessimistas, embora nele possa ser identificada a presença de termos como: fome; guerra civil; conflito. Desse modo, fome (3); guerra civil (4) foram os termos mais recorrentes nos três editoriais que discorreram sobre o contexto político Somália.