Projetar a OT consiste em algo que “compreende a sub-tarefa de montar e manter um processo de trabalho dentro de um sistema de produção, aí especificando as atividades de trabalho de forma intercoerente e integrada” (VIDAL, p. 121, 1997). O autor explica que um processo produtivo consiste na organização de um conjunto integrado de máquinas, instalações e dispositivos que formam a base de um sistema de produção e, ao acrescentar o conjunto de atividades humanas ao processo produtivo, tem-se o que se chama de processo de trabalho (VIDAL, 1997).
Ao olhar para o trabalho e a sua organização na perspectiva da ergonomia da atividade, o autor apresenta alguns pressupostos: a. em todos os sistemas de produção, existe um projeto não revelado da OT; b. tal projeto é resultado de uma representação nem sempre adequada ao bom funcionamento do sistema de produção, o que engendra problemas; c. é possível evidenciar tais problemas e relacioná-los com as representações prevalentes; d. a ergonomia busca substituir estas representações por outras, social e participativamente estabelecidas; e. uma das representações, sendo a mais adequada para resolver alguns dos problemas existentes num sistema de produção, deve ser restituída ao coletivo que as construiu (VIDAL, 1997).
A princípio, no momento em que uma organização é concebida, a atividade não pode ser conhecida e revelada de antemão, descrita num formato padrão, na verdade, ela representa o que o operador deverá/poderá/saberá colocar em prática para cumprir o que
lhe foi solicitado (BOURGEOIS; HUBAULT, 2016). Ao realizar uma prescrição a partir de uma representação inadequada da realidade, a organização apresentará problemas durante os processos de trabalho. Buscar uma representação estabelecida de forma participativa permite caminhar a favor de uma condição descrita por Bourgeois e Hubault (2016), na qual o prescrito aceita a possibilidade de ocorrer diferentes respostas operatórias diante de uma diversidade provável de situações.
Alguns dos problemas gerados por uma representação inadequada da atividade foram apresentados em um estudo realizado em uma indústria de processo contínuo (CARBALLEDA, 2002). O autor, ao analisar a atividade de chefes e gerentes, verificou uma situação paradoxal, cuja controvérsia se dava entre: a consideração das diretrizes e das imposições sucessivas da empresa, que estabelecia os objetivos sem considerar os meios; e a consideração das disfunções e incidentes, que colocavam em xeque a consecução dos objetivos. Segundo o autor, tal situação pode levar o indivíduo a negar a realidade da situação de trabalho e a privilegiar um discurso advindo da representação da estrutura organizacional e de seu formalismo, em detrimento dos objetivos. Por outro lado, a opção seria levar em conta a realidade das situações, sem poder traduzi-la na estrutura organizacional em termos de mudanças de objetivos, correndo o risco de não obter reconhecimento de sua hierarquia (CARBALLEDA, 2002).
Carballeda (2002) ainda descreve outra situação paradoxal, cujo motivo se deu devido ao fato de que muitos constrangimentos ligados ao espaço de trabalho, tempo, imprevistos e ferramentas eram considerados pelos operadores ao realizar seu trabalho, mas os gerentes e os chefes levavam em conta apenas um ou dois desses fatores. Tal fato ocasionava dificuldade de compreensão da exposição aos problemas e indisponibilidade de ferramentas e de recursos para resolvê-los em situação real de trabalho (CARBALLEDA, 2002).
A transformação das representações dos profissionais que estão envolvidos na organização, planejamento e no projeto das situações de trabalho, de forma a ampliá-las no sentido de conhecer e entender as situações reais de trabalho, constitui um dos objetivos da ergonomia da atividade para melhorar o trabalho, do ponto de vista da saúde e da eficácia. As representações possibilitam que as ações humanas se reportem a uma série de elementos que se combinam com as informações tomadas da realidade para fundamentar opiniões, concepções e deliberações das pessoas em atividade (VIDAL, 1997). A OT parte de uma representação incompleta sobre o trabalho e sobre os trabalhadores (VIDAL, 1997), visto que as variabilidades inerentes às situações reais são
pouco consideradas ou subestimadas (MENEGON, 2003) e são pouco conhecidas as estratégias que os operadores desenvolvem perante as variabilidades (BRAATZ, 2015).
Além disso, em atividade, uma diversidade de racionalidades (da qualidade, da produção, da segurança, da logística, entre outros) se manifesta, podendo gerar contradições e disfunções, diante das quais ocorrem as regulações individuais e coletivas para resolvê-las e finalizar a tarefa (JACKSON, 2000). Carballeda (2002) ressalta que os responsáveis por organizar e planejar o trabalho desconhecem o custo humano das regulações, inclusive que elas constituem condição necessária para atingir o desempenho desejado. Em relação ao custo humano, muitos esforços (físicos e mentais) são realizados para atingir a eficácia produtiva, na maioria das vezes sob pressão de tempo (CARBALLEDA, 2002).
Na perspectiva da engenharia e da gerência, as variabilidades são consideradas com base nos índices de desempenho, dos estudos de tempos e dos rendimentos de fábrica, os quais mascaram as flutuações e os aspectos desconhecidos da atividade (MENEGON, 2003). Lima (2000) destaca que o trabalho consiste em uma realidade criada, na e pela atividade, em seu contexto técnico, social e organizacional, visto que o caráter desestruturado dos aspectos do trabalho em situação real é condicionado pelas diversas fontes de variabilidades que se manifestam. A atividade não é resultado apenas de ajustes no interior de uma estrutura “prescrita” pré-existente, mas sim uma atividade estruturante, na qual os trabalhadores transformam as prescrições e negociam suas ações (LIMA, 2000).
Bourgeois e Hubault (2016) trazem o conceito de trabalho organizado e trabalho de reorganização (Figura 7). Segundo os autores, o trabalho organizado ou prescrição organizacional é concebido num mundo “frio”, longe do trabalho real, com base nas experiências adquiridas com o passado e na projeção do cenário futuro. O trabalho de reorganização ocorre em atividade, numa condição emergente, com a produção de novas regras, cuja viabilidade é favorecida se a OT permitir uma autonomia ao trabalhador e ao coletivo no ato da ação (BOURGEOIS; HUBAULT, 2016). Após o processo à “quente”, os autores destacam a necessidade de se passar pelo teste de deliberação com os operadores e os representantes da hierarquia, a fim de reconhecer e validar a situação vivenciada, além de buscar recursos adequados para contribuir com a atividade.
Figura 7: Trabalho organizado e trabalho de reorganização
Fonte: Bourgeois e Hubault (2016, pag. 132)
Em atividade, os trabalhadores constroem suas próprias normas e quadros de ação e de cooperação, por meio de autonomia concomitante com as regulações, cujo processo resulta na construção de uma OT mais adequada às situações reais e às necessidades da produção (LIMA, 2000). Torna-se então fundamental a compreensão das regulações individuais e coletivas necessárias ao processo de reorganização do trabalho.
Caroly, Depincé e Lecaille (2008) complementam que ao tratar da OT, torna-se essencial a compreensão do que é prescrito implicitamente para então, tomar conhecimento das diferentes lógicas, contradições e variabilidades que se manifestam em situações reais e, portanto, do distanciamento entre o prescrito e o real. O objetivo da ergonomia da atividade não consiste em eliminar as variabilidades, pois conforme coloca Menegon (2003), elas estão associadas ao imponderável manifesto dentro das situações produtivas. Mas, ao conhecer as suas fontes e as estratégias desenvolvidas pelos trabalhadores para lidar com as dificuldades que ocorrem em situações reais, torna-se possível introduzir tal conhecimento na OT e a partir disso, criar margens de manobra para a manifestação de diferentes modos operatórios e estratégias, a partir do reconhecimento das habilidades tácitas postas em jogo no trabalho (MENEGON, 2003).
Carballeda (2002) acrescenta que ao considerar, ao mesmo tempo, essas duas dimensões da OT, é possível criar um espaço de discussão sobre as contradições e as confrontações que existem entre elas. A ergonomia da atividade se interessa em criar tais espaços para validar e incorporar a perspectiva da atividade na OT, de forma que esta interação possibilite também o confronto de representações entre os profissionais atuantes na organização e a expressão das diferentes necessidades.
2.6 CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO A PARTIR DO REFERENCIAL