Os estudos sobre mudança e renovação estratégica que adotam teorias de lentes únicas de análise possuem um desenvolvimento limitado, pois a escolha (voluntarismo) e a seleção (determinismo) não são forças opostas, mas inter-relacionadas. Nesse sentido, uma teoria que integra vários níveis de análise é necessária e isso pode ser feito por meio da teoria coevolucionista (FLIER, 2003; FLIER, VAN DEN BOSCH e VOLBERDA, 2003; RODRIGUES e CHILD, 2003; VOLBERDA e LEWIN, 2003; VOLBERDA, BADEN- FULLER e VAN DEN BOSCH, 2001;). O quadro 10 a seguir ilustra algumas definições de coevolução.
Autor(es) Definição de Coevolução
Burgelman (2003, p.40) A coevolução refere-se ao processo pelo qual unidades de análises se envolvem em um relacionamento de influência recíproco, afetando uns aos outros sob um aspecto evolucionista.
Baum e Singh apud
Flier (2003, p.15) A coevolução tenta entender a evolução simultânea das organizações e seu ambiente. Lewin e Volberda
(1999, p.526) Coevolução é um resultado conjunto de intenção gerencial, efeitos ambientais e institucionais. Assume que a mudança pode ocorrer em toda população de organizações que interagem entre si, permitindo que a mesma seja dirigida tanto pela interação direta das firmas como pelo feedback do resto do sistema, ou seja, a mudança é um resultado conjunto de intenção gerencial e efeitos ambientais.
Lewin, Long e Carrol (1999, p.535)
A teoria coevolucionista considera organizações, sua população e seu ambiente como resultados interdependentes de ações gerenciais, influências institucionais e mudanças extra-institucionais (tecnológicas, sócio-político e outros fenômenos ambientais). McKelvey (1997, p.359) A coevolução é considerada como uma interdependência fundamental entre as firmas,
competidores e seu nicho, na qual a mudança é um resultado de outras mudanças. Quadro 10: Definições de coevolução [Fonte: Elaborado pela autora].
Segundo Lewin, Long e Carrol (1999) a teoria coevolucionista assume que organizações, indústrias (população) e ambiente (institucional e extra-institucional) coevoluem, sendo que seus passos e padrões de mudança são distintos e independentes, e a direção das mudanças não é unidirecional e sim multidirecional (figura 8). Os ambientes institucional e extra-institucional, apud Lewin, Long e Carrol (1999) referem-se às instituições que regulamentam as relações econômicas e comerciais no país e entre os países.
Lewin e Volberda (1999) definem a teoria coevolucionista como um resultado conjunto de intencionalidade gerencial, efeitos ambientais e institucionais. A coevolução, segundo os autores, assume que a mudança pode ocorrer em todas as interações da população de organizações e que essa mudança pode ser dirigida por interação direta e feedback do resto
do sistema. Assim sendo, conforme esses autores, a teoria coevolucionista considera que a adaptação organizacional não é apenas um resultado da intenção gerencial, pois está relacionada tanto a aspectos de seleção quanto a aspectos de escolha.
- Ação Gerencial: CEO, gerentes da alta direção - Intenção Estratégica: escolha estratégica, ajuste estratégico, desenho organizacional - Adaptação organizacional: explotação e exploração - Desempenho: retornos normais e retornos acima da média
- Fatores intermediários: condições de fundação, história de adaptação, capacidade absortiva, legado, lógica gerencial
Ambiente Extra Institucional
Avanços tecnológicos, demografia, movimentos sociais, novos entrantes, interdependência global, lógica
gerencial
Regulação, regras, mercado de capitais, sistema
educacional, estrutura de governança, relações
sindicais
Ambiente Institucional - Países
Coevolução Macro-evolução Micro-evolução
Indústria Firma
Dinâmica competitiva
Figura 8: Coevolução da firma, indústria e ambiente [Fonte: Lewin, Long e Carrol (1999, p.537)].
A teoria coevolucionista vem ganhando bastante espaço na literatura acadêmica, no entanto, poucos trabalhos de natureza teórico-empírica têm sido realizados. A realização de trabalhos cuja ótica de análise é a teoria coevolucionista poderia auxiliar na compreensão dos diversos aspectos que afetam a mudança e renovação estratégica nas organizações, levando em consideração que a mudança não é apenas um resultado da intenção dos atores organizacionais ou da seleção ambiental, e sim um resultado conjunto de intencionalidade e efeitos ambientais. A teoria coevolucionista pode contribuir para uma melhor compreensão do debate sobre mudança e renovação estratégica, levando em consideração não apenas as teorias de seleção ou escolha de forma isolada, mas sim de forma inter-relacionada.
Conforme foi verificado no capítulo precedente, a literatura sobre o debate seleção versus escolha engloba uma série de perspectivas. Vários trabalhos empíricos já abordaram uma ou mais perspectivas no estudo da mudança e renovação estratégica nas organizações, como é possível observar nos estudos de Nutt (2002), Beckert (1999), Chang (1996), Peteraf (1993), Child (1987), entre outros. Esses estudos não apresentam diferenças entre as empresas
no que tange à sobrevivência em longo prazo, ou seja, não distinguiram se as firmas com maior longevidade são aquelas que levam em conta apenas a intenção gerencial no processo de adaptação ou se são aquelas que levam em consideração apenas o processo de seleção ambiental. O presente trabalho não pretende verificar se as empresas de sucesso são aquelas que no processo de adaptação levam em consideração aspectos de seleção ambiental e/ou escolha estratégica, e sim verificar quais as ações estratégicas realizadas pelas firmas que levaram à mudança estratégica da organização.
Cada uma das teorias de seleção e escolha tem uma interpretação diferente sobre a sobrevivência das organizações. As teorias de escolha (voluntaristas) interpretam a sobrevivência como prova de que a firma em questão possui recursos e capacidades únicos, rotinas superiores às demais organizações ou ótima alocação de recursos, ou seja, estratégias que levam à obtenção de vantagens competitivas e conseqüentemente à sobrevivência. As teorias de seleção (deterministas) consideram que a sobrevivência das empresas existentes no mercado acontece por meio de um processo de seleção natural, enquanto que os novos entrantes são as formas organizacionais sobreviventes (VOLBERDA e LEWIN, 2003). Sendo assim, Volberda e Lewin (2003) classificaram as teorias de escolha e seleção dentro de três níveis de análise:
• nível da firma, que relaciona a firma às suas capacidades e estratégias para a adaptação e conseqüente sobrevivência;
• nível intermediário, que relacionam a firma ao ambiente institucional; • teorias que relacionam a firma ao macro-ambiente.
Dessa forma, a teoria coevolucionista integra a questão da adaptação das organizações, sua dinâmica competitiva e a dinâmica do sistema institucional no qual as firmas e as indústrias se encontram (LEWIN, LONG e CARROLL, 1999).
Embora a teoria coevolucionista já esteja sendo utilizada em estudos sobre mudança e renovação estratégica, como pode ser observado no quadro 8, que apresentou pesquisas que utilizaram mais de uma teoria para o estudo das organizações (idéia contida na perspectiva coevolucionista), é importante salientar que os efeitos coevolucionistas estão bem longe de serem aceitos ou completamente compreendidos (LEWIN e VOLBERDA 1999). Assim sendo, a teoria coevolucionista possui algumas propriedades que assumem um papel
importante, no sentido de permitir uma melhor compreensão dos efeitos coevolucionistas nos estudos de mudança e renovação estratégica. Esse assunto é apresentado com maiores detalhes no tópico a seguir.
3.2.1 Propriedades da Teoria Coevolucionista
Para entender melhor a teoria da coevolução, torna-se necessário identificar as suas propriedades. Essas propriedades permitem estudar as organizações de várias formas, conforme ilustra o quadro 11.
PROPRIEDADES SIGNIFICADO
Multinível Efeitos coevolucionistas podem ocorrer em múltiplos níveis, dentro e entre as firmas. Causalidades
multidirecionais As firmas coevoluem umas em relação às outras e também com um ambiente organizacional mutante. Não linearidade Mudanças em uma variável podem ocasionar uma série de mudanças em outras
variáveis.
Feedback Positivo Interação mútua entre organizações e ambiente e vice-versa. Trajetória e história
de dependência
A adaptação estratégica em um processo coevolucionista é histórico-dependente, sendo que a sua trajetória é influenciada pelos aspectos institucionais.
Quadro 11: Propriedades da coevolução [Fonte: Elaborado pela autora, baseado em Lewin e Volberda (1999); Lewin Long e Carrol (1999); McKelvey (1999)].
McKelvey (1999) argumentou que a coevolução pode ocorrer em múltiplos níveis de
análise, fazendo uma distinção entre a coevolução que ocorre dentro das firmas (micro- coevolução) e o processo coevolucionista que se dá entre as firmas (macro-coevolução). A micro-coevolução, segundo o autor, leva em consideração os recursos, as capacidades
dinâmicas e as competências existentes dentro das firmas em um contexto competitivo, fazendo com que a coevolução ocorra internamente. A macro-coevolução atua sobre as firmas existentes em um contexto competitivo, ou seja, a coevolução pode ocorrer entre as firmas e seu setor. A coevolução também pode ocorrer entre a firma e o macro-ambiente, pois este pode mudar ao longo do tempo, influenciando na organização e vice-versa. A teoria coevolucionista, portanto, considera que o processo de variação, de seleção e de retenção ocorre dentro das organizações e interage com processos similares que operam no nível da população (setor) (LEWIN e VOLBERDA, 1999).
Segundo Lewin e Volberda (1999) e Lewin, Long e Carrol (1999), as mudanças podem ocorrer em toda a população de organizações que interagem entre si e com seus
ambientes, permitindo que a mudança possa ser dirigida por interação direta mútua e também pelo feedback do resto do sistema. Isso caracteriza a causalidade multidirecional existente nos estudos coevolucionistas, assim como as relações não lineares da coevolução.
As organizações influenciam em seus ambientes, assim como seus ambientes influenciam em outras organizações. Uma firma influencia na outra e em contrapartida também é influenciada pelo comportamento de outras firmas. Essa interação periódica, conforme Lewin e Volberda (1999), resulta em interdependência e causalidade circular, o que caracteriza o feedback positivo em estudos coevolucionistas. Além disso, as organizações geralmente vivem em ambientes bastante institucionalizados, o que pode caracterizar a
trajetória das organizações, fazendo com que seja importante estudar as organizações ao
longo do tempo, verificando portanto, a sua história de dependência (RODRIGUES e CHILD, 2003). Também é importante considerar a história das organizações e a suas rotinas, pois elas podem restringir ou não a mudança nas firmas.
As propriedades da teoria coevolucionista são importantes quando se deseja estudar as organizações pela lente da coevolução. No entanto, nem todas as propriedades precisam ter o mesmo grau de importância em diferentes pesquisas coevolucionistas, o que varia de acordo com o foco de análise de cada pesquisa. Portanto, é importante verificar as particularidades de cada organização, setor, país que influenciam em um determinado estudo. O tópico a seguir aborda alguns aspectos que devem ser levados em consideração quando se estudam as organizações pela lente da coevolução.