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Health and development

Dans le document EUROPEAN HEALTH REPORT (Page 76-79)

Nesta reflexão procurei relevar que os princípios básicos do materialismo histó- rico e dialéctico continuam actuais e, neste quadro, Marx continua a ser uma refe- rência fundamental no pensamento contemporâneo e nos movimentos sociais em vista da emancipação social. É fundamental, embora obviamente não a única refe-

6Os camaradas que apresentam discordâncias face à ‘linha justa’ são olhados, senão como inimigos, como colabora-

dores do inimigo, que acabarão fatalmente por ‘vender-se’ à burguesia e os que apresentam dúvidas importa rea- bilitar como ‘ovelha tresmalhada’ ou figura ‘desviante’.

rência, pois determinados temas e tópicos como os referidos não foram nem poderiam ter sido abordados ou, pelo menos, com a necessária profundidade e desenvolvi- mento. Aliás, qualquer um destes temas, entre outros, e que serviram apenas de ilustração tem dado lugar a pesquisas e amplos debates, nos quais Veit Bader tem dado o seu lúcido e incontornável contributo teórico.

Trouxe à colação esta breve reflexão para reafirmar que, por um lado, não são imputáveis a Marx e Engels as responsabilidades e perversidades subsequentes per- petradas por responsáveis dos partidos comunistas, designadamente na URSS e demais países do Leste e, por outro, que a melhor homenagem que podemos fazer aos fundadores do marxismo é procurarmos, no quadro do materialismo histórico e dia- léctico, fazer avançar o conhecimento face a velhas e novas questões. Por isso, não basta utilizar retoricamente certos chavões marxistas-leninistas ou fazer declara- ções de fé à justa linha ‘marxista-leninista’ para conhecermos a complexidade das situações no mundo de hoje. Mais grave, porém, é quando esta ‘linha’ é apresentada pelos seus portadores com ares de detentores de verdade, ora de modo dogmático e

arrogante, ora de modo sibilinamente paternalista.6

O paradoxo da história do pensamento marxista e, mais ainda no mundo de hoje em acelerada transformação, é o de que os seus alegados defensores prestam um mau serviço às causas de esquerda quando tomam o legado marxista como um código quase canónico de princípios. O dogmatismo na teoria e o sectarismo na prá- tica constituem hoje os maiores obstáculos ao avanço da teoria marxista e sua neces- sária renovação, em termos programáticos e orgânicos, para fazer face aos velhos e novos problemas provocados pelo desenvolvimento desigual da sociedade capitalista, assim como a várias perversões e distorsões das experiências do ‘socialismo real’.

O marxismo mantém-se vivo e actuante, não obstante as diversas crises e refluxos a partir da década de 70 do século XX. Contrariamente aos arautos da morte do mar- xismo, ele continua sendo, em várias ciências sociais, nomeadamente na sociologia onde me situo basicamente, (i) fonte de inspiração da leitura da realidade — desde que não se feche mas se abra ‘com frescura’ a aspectos ou elementos doutros paradigmas (por exemplo, accionalismo weberiano e interaccionismo, para além dos contributos de heterodoxos da Escola de Francoforte e muitos neomarxistas e outros críticos próxi- mos do marxismo); e, consequentemente, (ii) como guia e alavanca da acção e como motor duma utopia que funciona como mobilização para a transformação.

O marxismo desempenha hoje um papel central não só no pensamento contem- porâneo como na orientação da praxis, das práticas sociais, desde que não seja visto e repetido como cartilha envolta numa preguiçosa fraseologia dita marxista-leni- nista que perde de vista o que de melhor tem o marxismo: o seu método histórico e dialéctico na análise da realidade em termos macro, meso e microsociais. Ou seja, em vez de pensar as questões e analisar as situações concretas, fixam-se em etiquetas

alegadamente marxistas-leninistas e — eu acrescentaria — comprazem-se em dile- tantes verborreias, incapazes de ler a realidade e articular o velho e novo, o geral e o particular, o abstracto e o concreto.

Se o reformismo desvirtuou o marxismo, o estalinismo contribuiu decisivamente para a sua fossilização até aos anos sessenta (e nalguns sectores até hoje), deixando de entender o marxismo como um método de análise da realidade, de modo a perceber suas continuidades e mudanças a nível sócio-estrutural, organizacional e interactivo. É à luz destes vários níveis de análise que o tradicional binómio infraes trutura- -superestrutura pode e, no meu entender, deve ser reequacionado e redefenido não para cair num eclecticismo estéril mas para trilhar um caminho fértil e, metodica- mente, aberto ora à mono ora à pluricausalidade, respeitando a relativa autonomia dos diversos níveis de análise mas enquadrando-os numa hierarquia analítica desde o societal ou sócio-estrutural, passando pelo organizacional-político, até ao interaccional.

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* Professor/investigador ISEG-UTL/SOCIUS

Os desafios e os problemas de investigação que a produção de teoria envolve em relação aos objectivos e ao conteúdo do Programa «Próximo Futuro» da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do «Workshop» a realizar em 12 e 13 de Novembro de 2009, sobre as respostas à crise, são complexos, difíceis, mas também muito actuais e pertinentes.

O objecto de observação do qual decorre o objecto científico central da produção de teoria é atravessado pelo dilema da crise. Esta, como conceito polissémico, gené- rico, abstracto e complexo, induz-nos a explicá-la, interpretá-la e a compreendê-la, tendo por base uma série de causalidades e efeitos que têm a sua origem em fenó- menos sociais, políticos, culturais, civilizacionais e económicos que, pela sua emer- gência e plasticidade social, afectam sobremaneira o funcionamento normativo das sociedades contemporâneas. O desemprego, a precariedade da vinculação contra- tual, o desvio, o crime, a guerra, a pobreza e a miséria resultantes das disfunções e perversões da regulação do mercado, do Estado, das instituições e organizações da sociedade civil são demonstrações, inequívocas, de um tipo de crise cujas configura- ções e tendências biológicas e sociais evidenciam um mal estar civilizacional gene- ralizado no que concerne o equilíbrio ecossistémico da espécie humana com as espécies vegetais e espécies animais do planeta Terra. Por outro lado, a emergência de uma multiplicidade de conflitos sociais desviantes e perversos enformam e estru- turam, cada vez mais, os processos de socialização e de sociabilidade que tendem a desenvolver-se no sentido de uma guerra civil interindividual à escala planetária.

Estas interrogações emblemáticas questionam, em primeiro lugar, todos os acto- res cientistas que realizam as suas investigações nos domínios das ciências sociais e humanas, mas também todos aqueles que trabalham e investigam noutros domí- nios científicos: biologia, saúde, física e matemática, etc. Perante a fragilidade e a impotência dos modelos e paradigmas científicos persistentes a demonstrarem o seu valor heurístico e eficácia, efectiva, na prevenção e controlo dos fenómenos des- viantes e perversos que geraram a actual a crise, a primeira ilação a extrair é de que esses modelos e paradigmas também estão mergulhados numa profunda crise. Estando todas as ciências inscritas no contexto normativo da racionalidade instru- mental do capitalismo, quando não integram os mecanismos de eficácia e de rendi- bilidade determinados pela maximização do lucro, enveredam, naturalmente, por uma situação de risco iminente de serem excluídas do mercado que regula o sistema global da produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços científicos.

Assim sendo, em relação à temática da crise, assumo, também, a minha igno- rância em relação aos factores sistémicos particulares e globais que enformam a sua

epistemologia e ontologia actual. Pelo que acabo de referir, considero que estamos longe de poder controlar ou sequer poder prevenir a natureza complexa e abstracta que a actual crise encerra nas sociedades contemporâneas. Esse desiderato, no meu entendimento, é atravessado por uma ignorância generalizada dos diferentes acto- res que pretendem, querem ou podem interpelar as incidências do risco, da incerteza, da insegurança, do medo e da perplexidade face à emergência galopante das suas disfunções e perversões biológicas e sociais.

Não é meu propósito enveredar por uma postura enciclopédica sistémica global, nem tenho tão-pouco capacidades cognitivas e emocionais para esse efeito. Em fun- ção do exposto, não estruturo o meu discurso narrativo a partir de análises dicotó- micas e determinísticas que olham para a crise como se a sua essência fosse, simplesmente, económica e financeira, descurando os factores de incidência civili- zacional, cultural, biológica, social e política. Ao prescindir da comparabilidade e do contraste sistemático de leituras e citações de autores que se têm debruçado sobre um tema tão vasto, complexo e abstracto, como é a temática da actual crise, remeto-me à condição-função de actor-cientista aprendente das linguagens sociológicas que enformam a minha realidade de professor e investigador.

Ao assumir uma postura de aprendente como actor-cientista no contexto da minha historicidade biológica e social, assumo plenamente a minha condição-função de objecto de observação e de objecto científico, evitando as sistemáticas disjunções analíticas dos discursos narrativos que separam a teoria da prática, o presente do passado, os factores objectivos dos factores subjectivos, os factores qualitativos dos factores quantitativos.

Não obstante saber que a minha análise possa enveredar pela especulação e o erro, recuso seguir os modelos de análise «judaico-cristãos» que separam, mecani- camente, as partes do todo que enformam a acção individual e colectiva, assim como a interdependência e complementaridade subsistente entre as partes e a totalidade sistémica que estão na origem dos processos de socialização dos fenómenos sociais, políticos, económicos, culturais e civilizacionais. Ao sair dos parâmetros desse meca- nismo compreensivo, interpretativo e explicativo, cujas causalidades e efeitos dos fenómenos desviantes e perversos têm sempre uma essencialidade comportamental ou estrutural e institucional, centro a minha análise nos parâmetros da actual crise da sociedade capitalista, tendo presente a função estruturante que o actor factor de produção trabalho exerce no processo global da mesma. Estou ou procuro estar longe das análises determinísticas, como são os casos do modelos e paradigmas vigentes que, na generalidade dos casos, separam, mecanicamente, o bem do mal, a teoria da prática, a escravidão da submissão, a burguesia do proletariado, o indivíduo do grupo, assim como a sociedade civil do Estado. Esta separação ou disjunção meca- nicista, sendo objectiva e subjectivamente impossível é, no entanto, objecto de expia- ções e de culpabilizações sistemáticas por parte daqueles ou daquelas que sofrem ou não os revezes da actual crise capitalista.

Este tipo de atitude comportamental com grande plasticidade social parece para- doxal, mas não é. Quer na situação de desempregado, auferimento de um salário de

miséria, quer ainda numa situação de pobreza, de precariedade de vinculação con- tratual ou de exclusão social, a percepção e a dedução genérica dos efeitos negativos dos problemas e das origens dessas realidades está sempre no capitalismo ou no Estado, mas nunca nos indivíduos, grupos, comunidades ou sociedades civis que se identificaram e se adaptaram, normativamente, a esse mesmo capitalismo e a esse mesmo Estado. Tanto é assim que não obstante esses problemas negativos terem sido uma constante na história do capitalismo e do Estado, hoje, perante uma crise inaudita nunca antes imaginada, os que vivem numa situação de miséria e pobreza continuam a reivindicar trabalho, emprego, salários de miséria e inclusão na ordem social vigente, exigindo, para o efeito, o que o capitalismo e o Estado não podem dar. Em função das interrogações e problematizações introdutórias que o mesmo texto encerra, desenvolverei a minha análise a partir de duas dimensões básicas: 1) natu- reza do processo de industrialização e de urbanização com base nos limites históricos da transformação da matéria orgânica em matéria inorgânica; 2) contingências das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e da globalização e as suas conse- quências comportamentais à escala local, regional, nacional, continental e mundial.

1. Limites do processo de industrialização e de urbanização das sociedades

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