3.3 Overview of the Social Power Block
3.3.1 The Health Component
A juventude do nosso narrador é retomada em Le Cri des oiseaux fous (2015). Este romance contará sobre os últimos dias de Vieux Os em sua cidade natal, antes de partir em exílio para Montréal. O cotidiano do jovem jornalista é acometido pela morte de seu melhor
épuisée. Cou cassé. Écume au coin des lèvres. La Buik prend le tournant au coin de Cabane Créole. Les filles rient en s‟aspergeant de parfum et de poudre” (LAFERRIÈRE, 2017, p. 75).
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Tendo em vista que nossa proposta é reconstruir o percurso de Vieux Os, destacando os eventos e elementos sobrenaturais das obras, acreditamos que torna-se inviável analisar outras histórias que “escapem” de sua narração.
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“Ce sentiment a dominé mon adolescence (et celle de mes amis). Le danger était partout dans la ville. Les requins passaient tranquilement au large ou circulaient dans la ville [...] Un monde des tenèbres. Malgré tout, j‟étais comme un poisson dans l‟eau. Je savais comment éviter les requins” (LAFERRIÈRE, 2002, p. 15).
amigo e colega de trabalho Gasner Raymonde, encontrado morto em uma praia de Porto Príncipe. Depois do ocorrido, a vida de Vieux Os sofre uma mudança drástica. Ao descobrir que o nome do seu filho constava em uma lista de procurados pela milícia haitiana do governo, sua mãe solicita ajuda a um amigo da embaixada nacional do Haiti. O homem decide ajudá-la, com a condição de que seu filho abandone o país em segredo, para a própria segurança do jovem jornalista.
Quando fica sabendo disso Vieux Os toma a decisão de viver intensamente seus dois últimos dias na capital haitiana. Ele procura se despedir dos seus amigos e se declarar para o grande amor de sua vida, Lisa. Boa parte da obra desenvolve-se na procura do rapaz pela moça. Entre esses momentos da saga por sua paixão junvenil há vários episódios insólitos na narrativa. Por exemplo, quando Vieux Os narra seu encontro com Legba, o deus haitiano guardião da passagem entre os mundos dos vivos e dos mortos. O narrador-personagem, decidido a encontrar Lisa, segue a pé para o bairro de Pétionville, onde estava acontecendo a festa de Régine, uma grande amiga do seu amor. Porém, o rapaz é impedido por causa de uma matilha que tenta atacá-lo na rua. Logo, surge Legba, um simpático e simples motorista que se oferece para levá-lo até o local da festa.
Quando chegam à casa de Régine, Legba revela ser irmão do dono da casa, o pai de Régine. Disposto a cumprimentá-lo o motorista desce do carro e sai à procura do dono da propriedade. Por sua vez, Vieux Os sai em busca de Lisa. Após a partida de Legba, Vieux Os relata como conheceu o tio da aniversariante, em uma conversa com a irmã dela, Bibi. O jovem lhe conta que Legba, o tio das garotas, estava procurando pelo pai delas. Bibi não só desconhece Legba como também demonstra não entender aquilo que Vieux Os falava. Segundo a garota, o seu pai havia morrido há muito tempo. Logo, seria a aparição do deus haitiano? O mistério permanece na obra. No fim do romance, Vieux Os segue para o aeroporto, se despede discretamente de sua triste mãe, e se dirige ao portão de desembarque. Ao cruzar o portão, ele é interceptado por alguém:
[...] Meu corpo parece se esvaziar de sangue, quando uma voz familiar cochicha em minha orelha: “boa viagem, meu amigo”. Eu me viro e encontro-me face ao rosto resplandecente de Legba. Esse Legba que me salvou dos cachorros, é o deus que se mantem à porta do mundo invisível. “Você nunca passará ao outro mundo, dizia sempre Ba, se Legba não lhe abrir o portão” [...] Posso respirar. A partir do momento em que Legba em pessoa veio me abrir a última porta, estou fora do alcance de todo mal36 (LAFERRIÈRE, 2015, p. 313-314, Tradução nossa).
36“[...] Mon corps s‟est comme vidé de son sang, quand une voix familière me glisse à l‟oreille: “Bon voyage, mon ami.” Je me retourne et me retrouve face au visage rayonnant de Legba. Ce Legba, qui m‟a sauvé des
A resolução apresentada na citação acima se encontra no fim do romance. Podemos interpretar que o narrador-personagem reconhece Legba, por causa do episódio vivido na casa de Bibi, durante o aniversário de sua irmã Régine. Quando Vieux Os estava desesperado para encontrar Lisa, o homem ressurge, revelando-se um deus, com o proposito de tranquilizar este rapaz durante sua fuga para outro país. É como se Legba estivesse sempre protegendo e guardando Vieux Os dos perigos no próprio país.
Em Pays sans chapeau, vinte anos depois de seu exílio, ele regressa a Porto Príncipe com a finalidade de escrever um livro. Agora, na condição de escritor bem sucedido, Vieux Os narra seus reencontros com a família, antigos amigos e o momento em que, enfim, consegue se declarar a Lisa. Ele ressurge, na capital haitiana, como um estrangeiro à sua própria cultura materna. Desabituado às práticas culturais, ele redescobre seu país.
Entretanto, o seu propósito de redigir o livro sobre sua pátria é interrompido quando ele percebe que há algo de estranho acontecendo na nação. Vieux Os se envolve com o mistério da formação de um exército zumbi. Suas suspeitas se estendem a Bombardopolis. A pequena cidade que estava sendo investigada pela ONU por causa de seus moradores. Os americanos notaram várias situações, aparentemente, difíceis de compreender. A maior preocupação deles foi quanto à fome.
Segundo as descobertas dos pesquisadores Norte-Americanos, os moradores do lugarejo não eram como os outros seres humanos. O povo se limitava a comer uma refeição a cada trimestre, com o pretexto de não sentirem fome como as demais pessoas. Com o auxílio do professor J.B Romain e o doutor psiquiatra Legrand Bijou, Vieux Os reúne várias pistas sobre o que realmente seria este exército.
Durante sua pesquisa acerca deste mistério, Vieux Os se depara com o convite de Lucrèce, o padrinho de sua tia René. Este senhor estimula o narrador-personagem a visitar o mundo dos mortos, para que ele fale pessoalmente com os deuses do Vodu. Vieux Os aceita o convite de fazer a excursão pelo além, conhecendo pessoalmente os deuses Legba, Erzulie, Ogou, Marinette e Damballah. Após este encontro, ele se decepciona com as divindades. Até que uma delas decide ir ao mundo dos vivos e convencer o escritor famoso a escrever o livro. Desse modo, Pays sans chapeau se constitui de duplicidades. Até mesmo em sua divisão, uma vez que há dois polos que nomeiam os capítulos, se intercalando na obra; Pays
chiens, est le dieu qui se tient à la porte du monde invisible. “Vous ne passerez jamais dans l‟autre monde, disait toujours Da, si Legba ne vous ouvre la barrière.” [...] Je peux respirer. À partir du moment où Legba en personne est venu m‟ouvrir la dernière porte, j‟ai été hors d‟atteinte de tout mal” (LAFERRIÈRE, 2015, p. 313-314).
réel e Pays rêvé. O primeiro dedica-se ao cotidiano e aos elementos da cultura popular
haitiana, enquanto o segundo direciona-se ao plano místico do religioso haitiano, o seu imaginário. Estes dois mundos se cruzam constantemente, promovendo verdadeiras
(com)fusões 37 entre os dois países.
Com essa narrativa, Dany Laferrière fecha o seu ciclo haitiano. Através das temáticas da morte, da prática vodu, das lendas e mitos, ela se conecta às outras obras deste autor. Podemos perceber que esta obra se vincula as outra narrativas não apenas por causa da presença dos eventos sobrenaturais, mas também por retomar passagens, construção dos enredos e garantir a intertextualidade de personagens, que transitam entre as narrativas.
Tomemos como exemplo o seguinte episódio: a personagem Marie, mãe de Vieux Os, declara constantemente, em Pays sans chapeau, que Porto Prìncipe não passa de um “[...] grande cemitério.” 38
(LAFERRIÈRE, 2011, p. 86). Na presente narrativa, esta frase é enfatizada por diversas comparações entre o cemitério e o país, entre mortos e cidadãos e entre o exército zumbi e as autoridades armadas norte-americanas que estão instaladas em Porto Príncipe. Todavia, há uma possível conexão entre a frase de Marie e os dizeres de Ba, sua mãe e avó de Vieux Os, em L’Odeur du café (2016). Na passagem que destacamos sobre a infância do narrador-personagem podemos reconhecer esta „impregnação‟ da morte, posto que a própria Ba dizia que o verdadeiro cemitério se encontrava por toda parte. No projeto de Dany Laferrière, seria Pays sans chapeau a materialização deste post-mortem? Não temos a intenção de responder esta questão, mas salientamos que esta reflexão nos ajuda a compreender a referida narrativa.
De acordo com Lucas (2002), o título do nosso objeto de estudo é uma expressão haitiana: “peyis san chapo”, que significa “o lado de lá” 39
ou “além”. Laferrière explica nas páginas de dedicatória do que se trata este ditado: “Paìs sem chapéu, é assim que se chama o lado de lá no Haiti porque nunca ninguém foi enterrado com seu chapéu” 40
(LAFERRIÈRE, 2011, p. 7). A própria explicação de Laferrière é pouco clara para nós, mas percebemos que é proposital que o além se torne elementar na obra. Por isso a insistência nas comparações entre vida e morte.
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Aqui referenciamos o trabalho de Nathalie Courcy, intitulado: La traversée du Pays sans chapeau :
(Con)fusion des mondes, vérités multipes et identités plurielles. A autora propõe uma pesquisa a respeito dos
entrecruzamentos entre os universos que dividem nosso objeto de estudo. 38
“[...] grand cimetière” (LAFERRIÈRE, 1997, p. 103). 39
O “Lado de lá” foi escolhido como tradução para “l‟au-delà”, por Moreira (2006), na versão brasileira do livro
Pays sans chapeau de Dany Laferrière. A estudiosa explica em sua tese de mestrado que escolheu adotar este
sentido, para evitar a possìvel satanização e folclorização que a palavra “além” pode trazer ao texto. 40
“Pays sans chapeau, c‟est ainsi qu‟on appelle l‟au-delà en Haïti parce que personne n‟a jamais été enterré avec son chapeau” (LAFERRIÈRE, 1997, p. 7).
As duplicidades em Pays sans chapeau são tão abundantes que não podemos apenas compreender esta passagem em conexão à perspectiva do misticismo religioso que a personagem Ba atribui ao cemitério, no romance L’odeur du café (2016). Há possibilidade de ser uma obra que retoma não só o viés religioso haitiano, mas que também procura se pronunciar sobre uma espécie de desumanização enfrentada pelos haitianos após a ditadura militar de Duvalier. Deste modo, o cemitério, destacado por Ba em L’Odeur du café (2016) e retomado por Marie em Pays sans chapeau, possibilita a visualização do contexto religioso e da imagem de um país que luta pela sobrevivência.
Ademais, a viagem feita por Vieux Os pelo mundo dos mortos, relatada em nosso
corpus, está aparentemente vinculada à profecia de Nozéa, personagem mística de Le charme des après-midi sans fin (2016). Esse episódio, que se passa durante a infância do narrador-
personagem, mencionado anteriormente, pode indicar-nos não só o exílio, como também o retorno ao país. Nozéa, em sua profecia imprecisa, destaca que embora o garoto viajasse para outro lugar ele iria retornar para morrer em Petit-Goâve. Todavia, esta morte não ocorre, mas a viagem é intensificada em toda a obra como se o destino de Vieux Os fosse percebido pelos personagens adultos, que insistem em dizer que o garotinho nasceu para realizar grandes coisas fora de Petit-Goâve.
Desde esse momento, Vieux Os se sente em uma constante viagem. Por exemplo, quando ele fala dos mortos de sua família, em Pays sans chapeau: “Eles estão aqui, bem perto de mim, os mortos. Meus mortos. Todos aqueles que me acompanharam durante essa longa viagem” 41
(LAFERRIÈRE, 2011, p. 33). Esta citação pode ser interpretada como a declaração, por parte do narrador-personagem, como se ele tivesse alegando que finalizou sua viagem sob a proteção dos seus familiares mortos que sempre estiveram com ele. No entanto, no decorrer da narrativa, ele descobre a possibilidade de mais uma viagem. Dessa vez, um deslocamento até o além, num mundo habitado por divindades haitianas.
Quanto às personagens42 que formam uma intertextualidade entre nosso corpus e as outras obras do ciclo, podemos destacar as divindades Érzulie e Legba. Até o presente momento, citamos a presença da primeira nas narrativas Le Charme des après-midi sans fin (2016) e Le goût des jeunes filles (2017). Nas duas obras, a deusa Érzulie surge em um
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“Ils sont là tout autour de moi, les morts. Mes morts. Tous ceux qui m‟ont accompagné durant ce long voyage” (LAFERRIÈRE, 1997, p. 37).
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Gostaríamos de destacar as personagens presentes em Pays sans chapeau que surgem também em outras obras do ciclo haitiano, são elas: Vieux Os (narrador-personagem), tia René, Marie, Lisa, Manu, Philippe e as divindades Érzulie, Ogou e Legba.
contexto sexual e luxurioso, seja envolvida com homens casados, seja possuindo o corpo de mulheres.
Igualmente, em Pays sans chapeau, há eventos que envolvem o comprometimento entre a deusa e os humanos. Durante as investigações de Vieux Os, o professor Legrand Bijou lhe conta que seu amigo coronel recebeu a carta de uma jovem senhora casada com um dos soldados do exército norte-americano. No conteúdo da carta, a jovem esposa contava que seu marido se negava a manter relações sexuais com ela nas terças e quintas porque seriam dias dedicados à deusa haitiana:
[...] Naturalmente, reconheci logo Erzulie, a senhora do desejo... Imagine isso: um jovem loiro do sul dos Estados Unidos, casado misticamente com uma deusa negra do vodu. E a jovem branca obrigada a dividir o leito conjugal com uma deusa mais negra que a noite43 (LAFERRIÈRE, 2011, p. 154).
Esse episódio assemelha-se muito à história da personagem Thérèse de Le Charme des
après-midi sans fin (2016). Esta personagem também dividia o leito conjugal com a deusa e
se manteve virgem durante seu primeiro relacionamento, por causa dos efeitos que a divindade provocava sempre que seu amado a tocava. As duas obras podem nos fornecer um quadro mais completo desta deusa. Ambas evidenciam as relações que a divindade procura manter com os humanos, assim como o próprio apetite sexual de Érzulie.
Em outro momento da narrativa, “a senhora do desejo” também tenta possuir Vieux Os. Ela insiste em mantê-lo como escravo sexual, na tentativa de fazer ciúmes ao seu marido, Ogou, o qual estava deixando-a de lado há certo tempo. Um problema na relação conjugal entre os deuses do panteão vodu estava causando um desequilíbrio no mundo dos vivos. Ao investigar as narrativas podemos constatar que isto ocorre antes de Vieux Os ter nascido, uma vez que a jovem Thérèse já vivenciava há muito tempo os problemas matrimoniais por causa da deusa que interferia em seu casamento.
Do mesmo modo, em nosso objeto de estudo o deus Legba desempenha uma grande função, transportar Vieux Os até o mundo dos mortos em segurança. Este deus assume a figura de Lucrèce, o padrinho da tia de Vieux Os, a personagem René. Ele é o anfitrião do escritor durante sua viagem ao além. Todavia, o narrador-personagem aparenta não conhecer
43 “[...] Naturellement, j‟ai tout de suite reconnu Erzulie, la maîtresse du désir... Vous imaginez ça : un jeune homme blond du sud des États-Unis, marié mystiquement à une déesse noire du vaudou. Et cette jeune femme blanche obligée de partager le lit conjugal avec cette déesse plus noire que la nuit” (LAFERRIÈRE, 1997, p.192- 193).
o seu antigo amigo. Se em Le cri des oiseaux fous (2015) Legba cria um vínculo de amizade com Vieux Os, em Pays sans chapeau será diferente.
O deus da passagem entre os mundos aparenta ter sofrido alguma espécie de metamorfose, ou o nosso narrador-personagem ficou tanto tempo fora do seu país, longe de seus deuses, que se esqueceu do rosto “radiante” do amigo. Contudo, após adentrar o além e se despedir brevemente de Lucrèce, com a intenção de explorar o mundo dos mortos, Vieux Os reconhece-o: “[...] Agora sei quem estava comigo. Não era Lucrèce, mas Legba. Legba, aquele que abre o caminho. É o primeiro deus que encontramos quando penetramos no outro mundo”44 (LAFERRIÈRE, 2011, p. 197-198).
A citação acima nos ajuda a decifrar se se trata do mesmo Legba. É como se a situação de estar entre dois mundos ajudasse Vieux Os a lembrar da figura de seu amigo Legba. Ao mesmo tempo, a situação do “não reconhecimento” também demonstra o estranhamento do narrador-personagem que partiu há muito tempo e se despediu de seu antigo mundo. Pays
sans chapeau comprova que Vieux Os cumpriu a sua promessa, ao que concerne a sua nação,
que foi feita no momento de sua partida para o exílio em Le cri des oiseaux fous (2015):
Um nova cidade para conhecer muito bem. Sem guia. Nem deus. Os deuses não me acompanharão. O antigo mundo não poderá me ser de nenhuma utilidade. Ao contrário, é preciso esquecer-me dos meus deuses, dos meus monstros, dos meus amigos, dos meus amores, das minhas glórias passadas, do meu eterno verão, das minhas frutas tropicais, dos meus céus [...]45 (LAFERRIÈRE, 2015, p. 313, Tradução nossa).
Dessa maneira, Vieux Os se despede de fato de sua vida na pátria-mãe e ao reencontrá-la em seu retorno ele a estranha e, por vezes, a desconhece, como ocorre com Legba. Em seu retorno, Vieux Os comporta-se como alguém que está redescobrindo o Haiti. Entre seus lapsos de memória dos locais, dos momentos vividos com os amigos e a família, ele depara-se com a mentalidade conterrânea, as crenças, as práticas cotidianas que revelam a sua cultura materna. Os eventos sobrenaturais presentes em nosso objeto de estudo podem e devem ser compreendidos como um reencontro para o nosso narrador-personagem.
A abundância desses elementos culturais e religiosos, distribuídos nessas seis obras, revela-nos algumas características da escrita de Laferrière. Ao estudarmos sobre os
44“Maintenant, je sais qui était avec moi. Ce n‟était pas Lucrèce, mais Legba. Legba, celui qui ouvre le chemin. C‟est le premier dieu qu‟on rencontre quand on pénètre dans l‟autre monde” (LAFERRIÈRE, 1997, p. 250). 45“Une ville nouvelle à connaître par coeur. Sans guide. Ni dieu. Les dieux ne m‟accompagneront pas. L‟ancien monde ne pourra m‟être d‟aucun secours. Au contraire, il me faut tout oublier de mes dieux, de mes montres, de mes amis, de mes amours, de mes gloires passées, de mon éternel été, de mes fruits tropicaux, de mes cieux [...]” (LAFERRIÈRE, 2015, p. 313).
movimentos literários haitianos, percebemos que a obra Pays sans chapeau, e o presente ciclo, podem deter algumas características provenientes de um passado estético literário. A referida narrativa não só recai sobre a temática do retorno do exílio, comumente explorado pelas literaturas haitianas da diáspora, como também explora os ritos e as crenças referentes ao imaginário coletivo cultural (MOREIRA, 2006). A recorrência destes elementos e eventos sobrenaturais nas obras de Laferrière seriam, portanto, proveniente de uma tradição literária? Na subseção seguinte, exploraremos mais esta questão.