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Mas para que escrever sobre a história da sua própria vida quando não se é nenhuma celebridade? O que posso contar da minha vida? Era o que muitas professoras pensavam. Engraçado como, por vezes, atribuímos pouca importância à nossa própria vida em sua relação com o nosso fazer e ser no cotidiano. Entender a própria vida como parte da história, de um modo geral e da história da educação, foi um desafio que colocamos para os professores cursistas. Entender que essa história seria escrita de modo diferente das outras histórias do livro que elas leram, dos filmes que elas viram, também não foi um processo demasiadamente complexo. Inicialmente, muito receio, mas quem não os tem? O medo mais evidente dessas caras professoras era de começar e prosseguir com uma escrita de si que ultrapassasse o que lhes parecia comum demais, sem estatuto ‘científico’, sem importância capital no quadro da história da educação de sua cidade e do sistema educacional ao qual pertenciam. Aliás, ultrapassar esse estágio de não reconhecimento de sua importância no quadro da educação é, no nosso entendimento, um dos maiores valores da formação de professores a partir de suas próprias histórias e da interpretação delas. Isso lembra Josso (2006, p. 28) quando escreve que “toda mudança existencialmente significativa introduz uma espécie de “caos” psíquico, isto é, comportamental que engendra um desconforto mais ou menos suportável de acordo com as pessoas”. Assim, era preciso saber aproveitar o “caos” como um elemento de criatividade, de crescimento e de fortalecimento da identidade de ser professora considerando sua história contada por ela própria, “passada a limpo” a partir do viés da sua própria criticidade. Sobre o que escrever, acreditamos no que Josso (2006, p.30) aponta sobre a formação a partir da biografia:

Essa pedagogia centrada no sujeito da formação, nas características dos que aprendem relacionadas com sua dinâmica biográfica não tem necessidade de confidências sobre as intimidades das pessoas, mesmo quando utilizados os relatos de vida. [...] A formação, do ponto de vista do sujeito, para se nomear como tal, exige de quem aprende, criatividade e tempo para converter as vivências, as atividades em experiências e integrá-las significativamente à história de vida tal como ela começa a ser contada. A criatividade é indispensável uma vez que se trata de elaborar os instrumentos, procedimentos e simbolizações que dão significados ao que se vive e se aprende.

As atividades, desde o nascedouro, foram permeadas de provocações intencionais à escrita de si, entendendo a criatividade como elemento fundamental da produção. E essa criatividade, como já escreveu Gianni Rodari (1982, p.140) baseado nas leituras principalmente de Ribot, é o “‘pensamento divergente’, isto é, de capacidade de romper continuamente os esquemas da experiência”. Para ele, a mente criativa questiona todo o tempo, “descobre problemas onde os outros encontram respostas satisfatórias” e trabalha para resolvê-los; esta mente “não aceita o conformismo”, o estabelecido. Rodari (1982,) em sua Gramática da Fantasia traz a afirmação de que podemos ser criativos, seres criadores de nossa própria história, desejosos de liberdades, a tal “liberdade” que Cecília Meirelles bem definiu “[...] Liberdade, essa palavra / que o sonho humano alimenta / que não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda...”55

E nesse exercício de criatividade e liberdade, os seis semestres de vida acadêmica permitiram o amadurecimento da história de cada um. Percebemos e respeitamos que a integração das histórias precisava do tempo de maturação de cada indivíduo. Tempo de rever suas histórias, tempo de curar as feridas da aprendizagem, de curar as feridas da vida de professora, de curar suas feridas de família, tempo de lembrar seus bons e maus professores, tempo de refletir sobre eles, tempo de enxergar com novos olhos os alunos que estavam em sala de aula naquele momento presente, bem como os que estiveram em outros momentos de suas vidas. Tempo de perceber o que aprendiam e com quem aprendiam, como e onde aprendiam, de perceber o que ensinavam, para quem ensinavam como e onde ensinavam. Tempo de se ver mulher, professora, ser humano participante da vida que é coletiva, fazendo história e deixando seus vestígios no planeta, tempo de se ver a partir da sua escrita fazedora de história e contadora dela mesma.

Assim , a proposta de escrita de memorial foi pautada pelas memórias das lembranças de infância, de estudante, de iniciantes no universo profissional dessas tão diversas professoras, entrelaçadas às suas experiências vivenciadas tanto nos espaços da UFBA quanto em seus locais de trabalho. Essas facetas de escrita foram denominadas de Eu-estudante, Eu- professora, Eu-professora-cursista, no entanto, isso não engessava a construção do texto, eram disparadoras de lembranças que permitiam pensar separado cada acontecimento e relacioná-lo com outros seus e alheios, relatar nos seus cadernos de campo e na construção do memorial, que, ao gosto da autora seguia ou deixava de seguir uma ordem cronológica. Mais tarde,

55 Romance 24 ou da bandeira da inconfidência. - Livro Romanceiro da Inconfidência Em Obras poética, Nova

algumas utilizaram a estratégia de escrever sobre suas vidas, relacionando um acontecimento do passado com o presente.

Foi proposto um ensaio monográfico como parte constitutiva do memorial. A questão é que elas tinham que, a partir de suas histórias e de suas observações nas visitas à escola, realizadas em três semestres, mais sua própria percepção como professora, escrever um artigo, que era um desdobramento de seu próprio memorial, um capítulo a mais da sua história em que elas fizeram um recorte de um tema que as incomodasse nas relações de ensino aprendizagem. O ensaio monográfico estava distante de ser um elemento destoante do memorial, antes, era seu complemento. O diálogo era da sua vida com autores que escreveram sobre o tema escolhido. Mais uma vez a palavra era “científico”. Será que o “Científico” sempre amedrontará as pessoas na Universidade? Será que o científico tem que ser seco, frio, distante da vida? Mais uma vez discutimos sobre a vida e a ciência estarem intimamente entrelaçadas e de como um não pode viver sem o outro. O medo foi sendo dissolvido nas visitas às escolas e nas discussões do tema numa sala em que se conversava, em que podiam expor suas impressões, em que se debatiam os problemas de uma rede pública de educação em comum.

Assim, os memoriais foram sendo escritos, entre as lembranças dos acontecimentos, as pesquisas e as situações que teciam a cada dia a existências das professoras. Como mágica, as letras teciam tramas diferentes que, muitas vezes, se cruzavam com experiências próximas. Não, a vida da maioria das professoras não fora fácil e talvez esses memoriais, que recriam as suas vidas, venham a ser um documento para se re-pensar a história de educação que temos hoje, quer seja pelos vazios deixados pela ausência de fatos, pelo que não ousaram relatar ou pelo grito no papel, na esperança de que as coisas um dia mudem junto à alegria das descobertas do dia a dia, a graduação depois de anos de prática na escola. Como bem disse Eliane Lopes (2001, p.13) na introdução do livro de Magda Soares: “Sem ingenuidades, é preciso também lembrar que tudo isso, porque é História, são vidas recriadas e não vividas, e que as biografias valem tanto pelo que contam quanto pelos seus silêncios e pelas suas lacunas”

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