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J. Han

Fundada em 1º de setembro de 1987, a história da TV Cabugi é hoje contada por profissionais que participaram da sua fundação. Entre os principais nomes do período inicial da TV estão os do jornalista Osair José Vasconcelos de Medeiros, ex-repórter regional da TV Globo Nordeste, ex-diretor de jorna- lismo da TV Cabugi e primeiro chefe de redação da emissora, e o da jornalista Ana Luiza Câmara, que, ao longo de 25 anos atuou como repórter, chefe de reportagem, chefe de redação e diretora de jornalismo da emissora.

Osair Vasconcelos se destaca como um dos personagens centrais no processo de fundação da TV Cabugi, hoje Inter TV Cabugi. Ana Luiza Câmara recorda que as primeiras reuniões para discutir a criação da TV foram realizadas na casa de Osair Vasconcelos e de Vânia Marinho (esposa de Osair na época e que viria a ser a primeira apresentadora do RNTV 2ª edição) com a presença do então Ministro da Administração do Governo José Sarney, Aluízio Alves. De acordo com ela, “Aluízio Alves, quando recebeu a concessão, entrou em contato com eles e disse: ‘eu vou montar a TV e quero vocês para trabalharem na TV” (informação verbal)4.

Os anos do governo do ex-presidente José Sarney, entre 15 de março de 1985 e 15 de março de 1990, destacam-se como um período em que houve um aumento expressivo no número de concessões de rádio e TV em todo o País. Como nota Lima (2001), do governo Figueiredo (1979-1985) para o governo Sarney, o número de concessões saltou de 634 para 1.028. 4 Entrevista concedida por Ana Luiza Câmara à bolsista Luciana Salviano

A autora aponta que, historicamente, a política de concessões de rádio e televisão esteve comprometida com os interesses dos grupos privilegiados, na medida em que os meios vêm servindo à prática de manipulação do poder. Dessa forma, a autora conclui que as concessões distribuídas no período da Nova República foram utilizadas como moeda política, especialmente durante o período da Constituinte, entre 1º de fevereiro de 1987 a 5 e outubro de 1988: das 1.028 conces- sões feitas pelo governo Sarney até a promulgação da nova Constituição de 1988, 539, ou seja, 52% ocorreram nos últimos nove meses da Constituinte (janeiro a outubro de 1988) (MOTTER, 1994 apud LIMA, 2001, p. 26).

A tese de que as concessões serviram na época como moeda política também é apontada pela jornalista Ana Luiza Câmara. Para ela, talvez a concessão da TV Cabugi, e das outras TVs que conseguiram a outorga no Rio Grande do Norte, tenha se dado porque no período o então presidente José Sarney queria mudar o mandato de quatro para cinco anos. Ela deduz que não é à toa que todas as emissoras receberam concessões no mesmo período. Motter (1994 apud MENDONÇA; REBOLÇAS, 2009, p. 6) assinala um dado interessante sobre o que estava em jogo na época: além do quinto ano do governo Sarney, estava em disputa também a escolha do sistema presidencialista de governo.

As concessões foram utilizadas como moeda de troca em torno das votações do quinto ano de mandato do presidente Sarney e do presidencialismo como sistema de governo. Dos 91 cons- tituintes premiados com pelo menos uma concessão de rádio ou televisão, 84 (92,3%) votaram a favor do presidencialismo e 83 (90,1%) votaram a favor do mandato de cinco anos (MOTTER, 1994 apud MENDONÇA; REBOLÇAS, 2009, p. 6).

Evidencia-se, também, nesse contexto, uma reconfigu- ração do “compromisso coronelista”. Segundo Bursztyn (2008), com o agravamento da crise fiscal do Estado ao longo dos anos 1980, o poder das lideranças políticas locais se viu ameaçado. Com a crise, tornavam-se escassos os recursos transferidos pela União que eram apropriados no plano local pelos coronéis. Nesse sentido, o autor aponta para uma “fórmula mágica” utili- zada pelo governo Sarney que buscava apoio e que beneficiou os grupos políticos tradicionais.

A fórmula mágica encontrada, de baixíssimo custo para a União, foi a concessão de direitos de exploração das ondas de rádio e televisão. Poderoso instrumento de formação de opinião, a mídia falada e televisiva serviu para cristalizar um notável sistema de apoios, sobretudo no momento em que se consolidavam as redes nacionais de comunicação. Naquele momento, já se podia dizer que o novo coronel assumia uma fisionomia urbana e se comunicava com bases pela mídia, não precisando mais arcar com os dispêndios que caracteri- zavam a velha forma assistencialista de dominação política (BURSZTYN, 2008, p. 240).

Bursztyn (2008) destaca também a participação de 19 parlamentares proprietários de meios de comunicação (3,4% do total dos constituintes) na votação da nova Constituição Federal de 1988, o que representa um diminuto grupo dentro do universo da população do país no período.

Assim, para não perder o apoio dos diferentes grupos dominantes no Estado do Rio Grande do Norte, o presidente Sarney concedeu para cada grupo político estadual um canal de televisão. Processo semelhante ocorreu igualmente

em outros estados nordestinos na mesma época, como apontam Mendonça e Rebolças (2009) e Lima (2001).

Outorgada em 19 de dezembro de 1986, a TV Cabugi nasceu com os seguintes cotistas: o ex-ministro da Administração do governo Sarney, Aluízio Alves e os deputados constituintes Ismael Wanderley G. Filho (PMDB-RN) e Henrique Eduardo Lira Alves (PMDB-RN). No mesmo dia foi concedido também um canal à TV Tropical, em Natal, pertencente à família Maia, tradi- cional adversária da família Alves. E à família do ex-governador Geraldo Melo foi concedida a TV Potengi, em Natal, dois anos depois, em 29 de setembro de 1988.

Formação e treinamento da primeira