Chapitre V Présentation des résultats
V.3 ETUDE 2 – Activité téléphonique et état de santé psychique
V.3.2 H3. Approche globale de la santé psychique
O istmo centro-americano sempre foi conhecido por sua distinguida posição geográfica. A saída para o Caribe e o acesso ao Oceano Pacífico facilita, desde épocas remotas, o atravessamento de pessoas, mercadorias e frotas estacionadas na região. Para as Américas, serve como corredor entre o Norte e o Sul. Essas condições, segundo Chaves (2014), fizeram com que aquele território fosse habitado por uma profusão de grupos étnicos, que foram substancialmente afetados pelo choque colonial, nos marcos das grandes navegações ibero- americanas do século XV. Com a chegada dos espanhóis, em 1492, começou-se uma violenta e acelerada reinvenção daquelas sociedades, seus costumes, crenças, língua e, também, de sua organização política, aspecto a que iremos nos ater.
A história da América Central colonial é a mesma de tantas outras regiões saqueadas, rendidas, humilhadas e conquistadas, um eufemismo para a dominação. Uma das questões pertinentes neste processo é recordar sempre que o projeto colonial é um projeto levado a cabo por forças desiguais e que presumem a existência de um perdedor e um vencedor. Não por acaso, as ferramentas auxiliares da dominação eram a ponta da espada e os canhões, mas, também, a doutrinação religiosa e cultural, destes últimos surge a ideia de conquista, de passo legitimador da barbárie.
A história oficial nos conta que a independência da região centro-americana, conseguida em 1821, foi o grande marco para pensarmos sobre aspectos como unionismo e integração em um território que, tendo passado mais de três séculos como parte do Reino da Espanha, haveria de se separar, tomar rumos distintos e construir, como se descomplicado fosse, suas identidades nacionais.
72
No entanto, em 1823, dois anos após a independência, criou-se a República Federal Centro-americana (RFCA), uma escolha, em muitos aspectos, influenciada pelas incertezas e pela pouca experiência dos líderes centro- americanos da época, que deveria organizar os países de acordo com um consenso internacional tácito que impunha certas regras e características para a participação no concerto de Nações ocidentais. A reunificação, “amparada en el brío centroamericanista”, segundo Chaves (2014, p.166), se manteve por aproximadamente duas décadas, quando, em 1842, a RFCA se desmanchou, já com uma parca lembrança do centro-americanismo fundador e com diversas contendas econômicas, sendo a principal delas “la carencia de uma base económica que articulara los intereses económicos de la clase dominante de la región”. Esse argumento faz transparecer que o unionismo de outrora chocou-se com os interesses das elites políticas e, como as diferenças econômicas eram de caráter eminentemente local, havia maior predisposição ao separatismo. E foi o que ocorreu.
As justificativas econômicas levaram a posições políticas extremamente divergentes, o que causou ainda mais distanciamento, e à criação de relações pautadas na disputa e na discórdia, que levaram a um final de século XIX bastante conturbado e que, em certa medida, prenunciava como viria o século XX.
O choque colonial não apenas criou condições para o desenvolvimento de outra estrutura organizativa no interior da América Central, esta, inclusive, por sua posição privilegiada no mapa geopolítico, sofreu – e ainda hoje sofre – com a presença e ingerência das grandes potências hegemônicas que, de forma rotativa, espalharam suas influências pelo mundo.
No século XV, a América Central esteve sob colonização da Espanha, domínio que se estendeu até 1821. No século XIX, Inglaterra e Estados Unidos disputavam o posto da hegemonia mundial e isso se verificou na América Central com um ingrediente a mais: a radicalização do plano anterior de colonização – que já não podia ser colocado naqueles termos porque se tratavam agora de territórios independentes. O imperialismo surge, então, para renovar a retórica da
73
dominação, mas com táticas similares à já clássica exploração de recursos. A construção do Canal Interoceânico do Panamá26, por exemplo, é uma forma de vermos o resultado bem concreto do investimento estadunidense em aproximar-se e obter apoio das elites centro-americanas e, ao mesmo tempo, ter acesso ao território, aos recursos naturais e à mão de obra barata.
O século XX foi marcado pela consolidação de hegemonia dos Estados Unidos e também para a América Central, de uma série de Tratados que pretendiam “establecer paz duradera y los medios para la conservación de las buenas relaciones (Saborio apud CHAVES, 2014, p.167)27. Nesse sentido, um novo impulso integracionista deu-se, uma vez que os acordos e tratados eram atraentes apenas quando negociados com o conjunto de países centro-americanos e não com unidades específicas que, sozinhas, eram demasiado frágeis. Uma primeira mostra disso foi a criação da Corte de Justicia Centroamericana, mediante o Tratado General de Paz y Amistad, de 1907, proposto pelos Estados Unidos, quando se impõe que deve existir uma instância suprema que coordene a Justiça e zele pela paz e pela ordem centro-americanas.
No entanto, cabe relembrar que a escolha centro-americana, desde 1902, não era pelo unionismo ou por posições consensuadas, muito pelo contrário, e o que ocorreu com as assinaturas dos tratados propostos por Washington foram sucessivos fracassos em suas implementações e cada Estado centro-americano optou por não se expor à mediação de terceiros para a resolução de seus problemas, o que tornava a recém criada Corte de Justiça um nati morto. A integração, em qualquer sentido, e proposta por quem fosse, não era opção.
26 O Canal começou a ser construído em 1881, pela França, que abandonou o projeto pelos altos
custos financeiros e de vidas humanas de trabalhadores que morriam por conta de diversas doenças tropicais. Os Estados Unidos assumiram o projeto em meados de 1904, acreditando que a obra, considerada até hoje das mais ousadas e de difícil planejamento já construída, era a chave para a integração definitiva dos Estados Unidos à economia mundial. Com o Canal do Panamá, reduziu-se o tempo de travessia entre os oceanos Pacífico e Atlântico, evitando que, para escoar a toda a produção da Costa Oeste estadunidense, se fizesse a travessia pelo Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul, ou pelo Estreito de Magalhães, este sendo a maior e mais importante passagem natural entre os oceanos Pacífico e Atlântico, também situado no sul da América do Sul. O Canal foi construído com massiva mão de obra centro-americana, inaugurado em 1914 e acaba de fazer, em julho de 2016, sua primeira grande reforma e expansão.
27 Tradução livre: “estabelecer uma paz duradoura e os meios para a conservação das boas
74
Após praticamente meio século, em 1951, por iniciativa do então presidente salvadorenho Óscar Osório, que reuniu seus homólogos centro-americanos, voltou a se discutir vias compartilhadas de resolução de problemas, a fim de harmonizar as distintas iniciativas e criar um plano de aproximação entre os países da América Central. Nesse sentido, criou-se, no mesmo ano, a Organización de Estados Centroamericanos (ODECA), encarregada de cuidar da integração política e melhorar o conjunto das iniciativas econômicas, criando a ideia de atuação e negociação em bloco, que deu origem posteriormente ao Mercado Comum Centroamericano (MCC), em 1966. Todavia, como os esforços novamente recaíram no aspecto econômico, a integração política oscilou de formas bastante bruscas na década de 1970, quando se constatou um severo empobrecimento das populações, o enriquecimento de poucos empresários e a ascensão de governos ditatoriais que fecharam, de uma vez por todas, mais uma vez, o diálogo aberto e ampliado sobre a região. É por isso que Chaves (2014, p. 168) chega a dizer que, na segunda metade do século XX, a região “sucumbe a una de sus peores y vergonzosas épocas, por lo que era impensable e ilógico hablar de integración”28.
Também, a partir da década de 1970, Centro-américa começou a chamar a atenção da comunidade internacional por sua situação crítica e caótica, o que aparentemente, deu cabida para que, externamente, se iniciassem certos movimentos29 exógenos para resolver a situação da instabilidade da região.
3.2 TRANSIÇÃO PARA O SÉCULO XX E A CONTINUIDADE DE INGERÊNCIAS