5.3 Axiomes de relations et de slots
5.3.1 Héritage
A relação dos jogos de covas com o ambiente escolar moçambicano também se configurou num dos objetivos desta pesquisa. Abaixo segue o depoimento de Carlos Muapanco e do professor Carlos Canipuella Vieirina, que tentaram intermediar uma parceria entre a APJTN e a escola. Carlos Canipuella Vieirina é professor licenciado em Educação Física e atua como professor desta disciplina na Educação Básica moçambicana. Atualmente está ocupando o cargo de Direção de Educação.
Rinaldo. Os jogos de covas são populares na escola? Os alunos praticam estes jogos regularmente nas escolas?
Carlos Muampanco. A APJTN ao tentar introduzir o M’pale na escola, percebeu que ele era o jogo menos aderido pelos alunos. Entretanto, flagrei em diversas oportunidades, alunos jogando o M’pale fora da escola em suas comunidades. Os mesmos alunos que não aderiram o jogo na escola, quando estavam com o tempo livre, frequentavam o núcleo mais próximo e praticavam o jogo, onde demostravam muito talento. Ao perceber a destreza daqueles alunos, eu como presidente da Associação, solicitei uma credencial junto a direção provincial para introduzir e distribuir nas escolas material para a prática do M’pale. No primeiro festival de jogos escolares, solicitamos ao Ministro da Juventude e Desporto a incorporação dos jogos
tradicionais ao festival nacional de jogos escolares. O Ministro se comprometeu a conversar com o Ministério da Educação e o resultado foi a realização do segundo festival nacional de jogos escolares em 2015 com a presença da modalidade jogos tradicionais. Nesta edição de 2015, Nampula sagrou-se campeão na modalidade jogos tradicionais. Alguns alunos praticam o jogo na escola, entretanto, como o M´pale não é considerado um desporto oficial, ele é pouco praticado neste espaço.
Rinaldo. Professor, qual é o desposto mais praticado na escola? Por que o jogo M’pale não é muito popular nas escolas de Nampula?
Carlos Canipuella Vieirina69. Nas escolas, o desporto mais comum e o mais praticado é o
futebol. Os alunos com ou sem incentivo, praticam esta modalidade desportiva com muito apreço, ou seja, é o jogo mais praticado durante os intervalos de aula. Porém, o jogo tradicional M’pale também é apreciado em praticamente todas as escolas de Nampula. O M’pale é jogado em tabuleiros esculpidos em madeira e em falta destes, confeccionam-se tabuleiros com buracos escavados no chão. A falta de tabuleiro e a falta de incentivo faz com que o M’pale seja um desporto pouco apreciado no espaço escolar. As peças para o jogo geralmente são sementes de Canhú, pequenas pedras ou outras pequenas sementes. O jogo M’pale e o jogo Muravarava70, assim como vários outros jogos tradicionais moçambicanos,
fazem parte do currículo oficial de educação física na Educação Básica moçambicana. No entanto, dentro do programa de ensino, que inclui os jogos tradicionais ao currículo, há a liberdade para que o professor inclua um jogo local que ainda não está cadastrado no programa. No programa, cada professor, no tempo destinado para os jogos tradicionais, aplica 20 % deste, para trabalhar com aqueles jogos que são mais praticados pela comunidade local.
Rinaldo. Os professores de educação física não deveriam incluir a modalidade de jogos tradicionais em sua prática de sala de aula, já que estes fazem parte do programa de ensino, são componentes curriculares de educação física?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. Grande parte dos professores estão a negligenciar o proposto pelo programa. Em Nampula, por exemplo, o jogo tradicional mais praticado pelas comunidades desta província é o M’pale. Este deveria ser o jogo em destaque a ser trabalhado
69 Informações obtidas em entrevista com o senhor Carlos Canipuella Vieirina, professor de Educação Física do
ensino básico moçambicano e presidente do núcleo Magos de Marapaniua, em 27 de agosto de 2015, Nampula, Moçambique.
70 Muravarava é um jogo tradicional em Moçambique. Dentre os jogos tradicionais em Moçambique, os jogos de
nas escolas. O que falta aos professores para incluir jogos tradicionais nas escolas é o componente de formação ou capacitação de professores. Muitos professores saem do IMAP (Instituto do Magistério Primário) e do IFP (Instituto de Formação de Professores), que são instituições que formam professores para o ensino básico, despreparados para incluir jogos tradicionais em sua prática pedagógica. Nas instituições acima citadas, os professores tomam ciência que os jogos tradicionais fazem parte do componente curricular, entretanto, não saem destas formações preparados para implementar nas escolas.
Rinaldo. Os professores que trabalham nestas formações não preparam os futuros professores de educação física para a inclusão dos jogos tradicionais nas escolas?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. Muitos formadores não possuem habilidades e competências para trabalhar com jogos tradicionais e a consequência disso é a formação inadequada dos professores de educação física referente a inserção destes componentes na sua prática cotidiana. Os futuros professores participam da formação apenas para cumprir o que determina o currículo, ou seja, muitas vezes, não tem compreendido a grande importância em se trabalhar com os jogos tradicionais de Moçambique, e não são preparados para tal, por isso quando saem da formação não implementam nas escolas. A universidade Pedagógica de Nampula (UP) também está formando licenciados em educação física a quatro anos, ou seja, desde 2011, e os primeiros licenciados também não trouxeram bagagem em relação aos jogos tradicionais. Nestas formações de professores, tanto a UP, como o IMAP e o IFP, priorizam mais as modalidades desportivas tidas como oficiais em Moçambique, como futebol, basquetebol, handebol, do que as modalidades desportivas tradicionais.
Rinaldo. Já que estes profissionais não saem de sua formação inicial preparados para incluir a modalidade de jogos tradicionais, a escola, as secretarias de educação, oferecem algum suporte ou formação?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. Já que nos centros de formação não se priorizam os jogos tradicionais, ou quando o fazem, é de maneira superficial, cabem aos que estão na Direção da Educação, a responsabilidade de promover seminários trimestrais, semestrais, afim de inserir os componentes de jogos tradicionais nas escolas. Para tanto, eu proponho, pela minha experiência como gestor escolar e, com o jogo, já que sou presidente do núcleo Magos de Marapaniua, parcerias entre as escolas e os núcleos de Jogos Tradicionais, afim de promover e resgatar os jogos tradicionais. Nos núcleos e na APJTN, podemos encontrar pessoas
preparadas que conhecem as modalidades de jogos com suas regras, e estes, em parcerias com as escolas, poderiam promover capacitação de professores, no sentido de ensinar a jogar, bem como resgatar histórias e conscientizar os docentes dobre a importância de tais jogos para a comunidade. Com isso, promoveríamos o resgate dos jogos tradicionais nas escolas e estes teriam maior visibilidade comparativamente com os jogos oficiais.
Rinaldo. Atualmente, os jogos tradicionais fazem parte das competições que acontece no Festival de Jogos Escolares moçambicanos?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. Os jogos tradicionais estão presentes no Festival de Jogos Escolares, que é um evento realizado nas escolas moçambicanas. Instituições públicas e privadas participam do festival que acontece anualmente em nível nacional. Os estudantes sentem-se bastante motivados, e é neste evento que acontece uma grande divulgação dos jogos escolares na modalidade de jogos tradicionais e jogos oficiais. No entanto, os jogos tradicionais, por ser mais popular nas comunidades, atraem um maior público do que os jogos oficiais. Os jogos oficiais, basquetebol, futebol, atraem mais os acadêmicos. Uma partida de M’pale, por exemplo, é assistida por muitas pessoas, ou seja, as pessoas se sentem mais atraídas por uma partida deste jogo do que por uma partida de jogos oficiais. As pessoas ficam em volta do tabuleiro assistindo para ver quem ganha o que motiva ainda mais os jogadores.
Rinaldo. A falta de tabuleiros e a dificuldade para obtê-los desestimulam a prática dos jogos de covas na escola a tal ponto de interferir em sua popularidade?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. A popularidade do jogo poderia ser mais acentuada se tivesse mais incentivo financeiro por parte do Ministério da Educação para a confecção de tabuleiros, promoção dos torneios e capacitação dos professores de educação física. Os poucos tabuleiros de jogos tradicionais que existe nas escolas, é devido a iniciativa de alguns professores. Estes propõem para os alunos a confecção de tabuleiros em carpintarias e aqueles que conseguem fazer o tabuleiro ganham uma nota, que é uma forma de incentivo. Nos torneios, premiam-se os três primeiros colocados, cujo prêmio varia de medalhas a materiais escolares.
Rinaldo. A prática do jogo de covas na escola poderia contribuir para a aprendizagem dos alunos, já que é jogo de estratégia e cálculo mental?
Professor Carlos Canipuella Vieirina. Os jogos de covas, em especial o M’pale de Nampula, além
de ser uma distração para as horas de lazer é também um instrumento para desenvolver habilidades e competências matemáticas. Ninguém joga o M’pale sem efetuar operações matemáticas. O melhor jogador também é bom em matemática. Podemos dizer que é um jogo intelectual, pois em todos os movimentos estão sendo utilizados pensamentos e estratégias matemáticas. Durante as partidas, os alunos simulam várias situações de jogos, efetuam diversos cálculos matemáticos, como pensamentos estratégicos e cálculos mentais que contribuem para a sua aprendizagem matemática.