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Durante o período de realização da Copa do Mundo, no Brasil, estabeleceu-se uma união mental (BELTRÃO, 2001) sobre o torneio. A seu modo, o jornalismo foi o responsável pela cristalização dessa consciência comum na opinião pública, devido a sua capacidade de noticiar, dia a dia, os múltiplos fatos da Copa, desenvolvendo-se de acordo com suas características básicas de informar conforme determinada periodicidade, universalidade, atualidade e publicidade (GROTH, 2011)52.

A periodicidade das notícias da Copa do Mundo foi essencial para garantir uma sequência narrativa e também lógica, do ponto de vista subjetivo, da realização do acontecimento midiático (CHARAUDEAU, 2006). Groth (2011) pensa que a universalidade e a atualidade jornalísticas são devedoras do elemento periodicidade. Para o autor,

o ritmo da periodicidade possibilita ou facilita o alcance de rendimentos maiores e a execução de tarefas mais difíceis na produção cultural e na vida social. Quanto mais frequente e uniformemente o percurso se efetua, tanto

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No sentido dos estudos do pesquisador alemão Otto Groth (1875-1965), trabalhamos com a ideia de que essas características são a base de um fazer jornalístico que independe do suporte, plataforma ou meio de comunicação pelo qual se realiza, ainda que o autor tenha trabalhado com o meio impresso.

mais aprimoradamente o trabalho exigido, via de regra, pode ser feito (GROTH, 2011, p. 164).

Para a opinião pública, a periodicidade se inscreve como elemento substancial no acompanhamento dos fatos inscritos em um contexto específico, como foi o caso do Mundial, no Brasil. A propósito, esse contexto se caracteriza por sua capacidade de figurar no social de forma estereotipada. Segundo Lippmann (2010, p. 86), “[...] as formas estereotipadas emprestadas ao mundo não vem somente da arte, no sentido da pintura e escultura, mas de nossos códigos morais e filosofias sociais, assim como de nossas agitações políticas”.

Mesmo em uma ambiência tomada por estereótipos, que acabam por defini-la, o fator da universalidade em megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo, emerge pela variedade endógena de assuntos da mesma temática. Groth (2011) disse que a universalidade nunca poderia ser atingida e o que teríamos seria a diversidade, mas ao mesmo tempo afirmou que, com a universalidade, o jornalismo “abrange todas as áreas da natureza, da sociedade e da cultura, ele busca as coisas „em todo o mundo‟ para compilá-las nos seus espaços” (GROTH, 2011, p. 182).

Nessa epistemologia da universalidade jornalística, Groth se deteve mais no geral do que no específico, ou seja, tratou de qualificar o universal como o produto de um trabalho com agenda diversificada e, não necessariamente, com uma agenda temática. A diferença que se estabelece entre esses tipos de abordagem indica que, em um caso, temos um universal homogêneo a partir de uma heterogeneidade; noutro caso, temos uma heterogeneidade de conteúdos por uma homogeneidade temática. A teleologia da prática não difere, bem como não é diferente o processo de comunicação jornalística. Em um ou outro caso, o leitor é o alvo, o fim ao qual se destina a informação, e a norma do procedimento é a regra que conduz um fazer singular em sua especificidade.

Em suma, “universalidade significa na verdade a presença, sem exceção, de todas as áreas, mas não a completude do conteúdo, não a completude de cada detalhe” (GROTH, 2011, p. 211). A presença desse todo joga luz sobre os sistemas de estereótipos e esquemas mentais já estruturados na opinião pública. Lippmann (2010) fala em uma imagem do mundo – não completa, mas possível – à qual já estamos ajustados. De fato, o campo jornalístico atua na manutenção diária desse sistema de estereótipos, na medida em que revela cotidianamente lugares de fala dos atores sociais e seus modos de presença no mundo da vida.

Na realização de megaeventos esportivos como uma Copa do Mundo, em que um universo singular toma forma por um mês, estereótipos também se apresentam dentro desse contexto específico. A tematização do megaevento pela mídia enseja que se mantenham

vigentes, mesmo em um momento destacado da realidade cotidiana, formas elementares de apreensão dos fatos. Esse macroacontecimento não subsiste fora do dia a dia das pessoas, entretanto intervém nele, possibilitando que toda uma variedade de assuntos a seu respeito se interponha na sociedade, durante certo período de tempo.

Do universal fazem parte os fatos jornalísticos, contidos no interior das notícias. A engenharia de produção dessa universalidade, seja aquela do dia a dia habitual, seja aquela relacionada à cotidianidade de um tempo específico, decorre de uma maneira própria do jornalismo de abordar o mundo, fazendo uma mediação entre os indivíduos. Os fatores da objetividade e da subjetividade vão atravessar a leitura dos fatos e a exposição de acontecimentos.

A objetividade e a subjetividade, conforme Groth (2011), emanam do presente, de forma que o jornalismo não se realiza apenas diante de fatos reais e que se destacam dramaticamente do fluxo contínuo do cotidiano – o objetivo atual –, mas trabalha – ou deveria trabalhar – sobre o subjetivo atual, incidindo de modo incisivo no comportamento e posicionamento dos sujeitos, perante o mundo diante de si.

As práticas enunciativas de caráter objetivo estariam contidas no relato e no comentário dos acontecimentos, enquanto a provocação do acontecimento revelaria a possibilidade de emanação do subjetivo atual. Na cobertura do grande acontecimento ou megaevento esportivo, o objetivo atual se vincula ao noticiável; de modo algum ao que deriva do noticiável como resíduo que possibilita a emergência do subjetivo atual.

A objetividade e a subjetividade atuais se exprimem no jornalismo entre as práticas de codificação do universal, de um todo que nunca se esgota, e a presença de uma atualidade que localiza os leitores transversalmente num mesmo presente, unificando-os. Groth (2011) sustenta que a atualidade emerge a partir da universalidade, que é fundamento para aquela, na medida em que o interesse público visa a uma pauta generalizada. “Uma notícia só é atual para nós – ainda que ela possa nos dar informações dos acontecimentos mais recentes e ser tão nova para nós – se cair no círculo dos nossos interesses gerais momentâneos” (GROTH, 2011, p. 244).

Em relação à noticiabilidade do megaevento esportivo, ou de um outro qualquer macroacontecimento – na contemporaneidade, de caráter majoritariamente midiático, isto é, voltado para uma esfera que se alarga para além do lugar, da cena, em que se desvela –, parece-nos que o fator da atualidade tem, no mínimo, o mesmo peso do fator universalidade. Groth (2011, p. 245) afirmou: “Universalidade e atualidade se interpenetram, mas não se eliminam reciprocamente, a atualidade não exclui a universalidade. Pelo contrário, uma inclui

a outra”. Em época de Copa do Mundo, quando os conteúdos são trabalhados sob a mesma temática, o atual é o contexto maior que se faz presente por determinado período de tempo e surge como base para que o universal possa ser trabalhado a partir do que emerge na sucessão de eventos periódicos.

Atualizar os fatos é fundamental para o jornalismo; é o momento em que são retratados novos episódios do que já foi conhecido ou ainda é antecipado o que está por vir. A atualização reside no antes e no depois. “Na atualidade está a sua tarefa mais urgente, a sua força mais potente. Isto raramente foi negado na teoria e na prática, a atualidade como característica essencial do jornal permaneceu, via de regra, incontestada” (GROTH, 2011, 223).

Quando tratamos do grande acontecimento, digno de efervescência no coletivo, a atualidade se faz presente o tempo inteiro. A mobilização midiática, diferenciada para a cobertura jornalística do megaevento, sugere que o público será alimentado incessantemente com as informações relativas ao espetáculo, nesse caso, o esportivo. Na transposição do acontecimento real para o acontecimento midiático, cria-se o sentido de que o fato jornalístico ganha vida própria e, assim, cola-se a uma realidade perecível e que se extingue a cada segundo, mas que o campo jornalístico, dentro de sua autonomia e legitimidade social, trata de recuperar.

As modalidades enunciativas para levar essa atualização a cabo são diversas. Há variedade em relação ao que cada mídia oferta e diversidade no conteúdo de uma mesma mídia. A presença da atualização no antes e no depois tem a capacidade de situar o público no contexto mais geral, a todo instante. O presente que se tem daí, entre a notícia ou o comentário do que já passou e a informação ou o comentário do que está agendado ou por vir, é a própria encenação jornalística, inserida dentro de uma forma comunicacional; formato com uma estética singular; estética que varia entre o layout – projeto tipográfico – das páginas impressas de jornal ou revista, o cenário das emissoras de televisão ou mesmo o cenário ambiental de transmissão em que se passam os acontecimentos, e a própria forma da linguagem empregada pelo rádio na cobertura do acontecimento. Assim, a atualidade compreende, tanto a atualização instantânea do público com informações universais sobre o acontecimento, como a atualização técnica e tecnológica do receptor face às transformações por que as mídias passam para melhor dialogar com seus interlocutores.

O plano do simbólico também se inscreve nesse rol de atualidades. Na cobertura do megaevento esportivo, o jornalismo trabalha com todo um estereótipo imagético, que surge de acordo com o contexto em que aquele se realiza. Há um fator de novidade que aí emerge, e

que já fora trabalhado por Otto Groth em relação ao componente da atualidade, e que, segundo o autor, apresenta uma relação íntima com o presente. Conforme Groth (2011, p. 224), a novidade “[...] não é de maneira alguma um conceito temporal. Ela diz que o sujeito até agora não sabia de alguma coisa e agora o faz. Novidade, designa, portanto, algo qualitativo, uma relação mental direta entre o sujeito e o objeto, o que era até o momento desconhecido”.

A mobilização de um repertório singular se apresenta como uma característica essencial desse processo de estabelecimento do novo. Inequivocamente, há uma emanação de sentidos no e do real que solicita uma intervenção prática pela decodificação cognitiva. Logo, essa decodificação só se realiza pelo jornalismo em relação ao que o mundo expressa por processos de codificação, momento de significação da realidade com a qual o campo se depara. É uma ação recíproca em que a possibilidade da simultaneidade, nesse processo de atualização jornalística, é viva. Há uma tendência à simultaneidade, bem como à completude (GROTH, 2011). Entretanto, como já antecipara Groth (2011, p. 226), “simultaneidade é, portanto, o caso extremo da atualidade, é o tipo ideal que nunca será alcançado completamente. A aproximação do presente é o tipo real da atualidade”.

A capacidade de decodificação e de codificação é condição básica para o exercício do jornalismo. A publicidade, como outra característica essencial para o campo, deve parte de sua realização a esse processo interpretativo. Gomis (1991) assinala que o jornalismo pode ser entendido como um método de interpretação da realidade. Para o autor, “interpretação é sempre algo que tem dois lados ou aspectos: compreender e expressar. A realidade a que se refere a interpretação jornalística é a realidade social” (GOMIS, 1991, p. 36, tradução nossa)53. O fator publicitário está relacionado com a oferta de conteúdo para a sociedade.

A publicidade do jornal como sua característica essencial é, portanto, a acessibilidade a cada um e com isso a notoriedade de tudo aquilo que o jornal traz, de tal forma que cada um possa tomar conhecimento, que ninguém esteja excluído da recepção do conteúdo (GROTH, 2011, p. 263).

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