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Para as experiências com o ensino de maquiagem, inicialmente pensou-se em realizar com os discentes nas aulas regulares. No entanto, os encontros foram prejudicados em virtude dos feriados e eventos internos da escola. Tendo em vista o ocorrido, tivemos como solução alternativa realizar os momentos no contraturno das aulas regulares. Contudo, o número de participantes não poderia ser muito extenso. Com base nisso, estabelecemos como prioridade os alunos que residiam próximos à escola ou que pudessem estar presente no horário para participarem das experiências.

Tendo em vista a limitação do espaço da escola, formamos um grupo de dez estudantes do 7º ano do ensino fundamental, os quais têm como faixa etária dos doze aos catorze anos de idade. O convite para a participação do projeto de maquiagem foi aberto para os alunos das turmas antes de limitar quem iria participar, pois, a princípio, pensava-se em ter uma turma composta por cinco meninos e cinco meninas. Percebeu-se que, ao apresentar o projeto e mencionar que seria voltado para maquiagem, a maioria dos meninos desistiram de participar e isso nos levou a refletir sobre o conceito preconcebido por trás da nomenclat ra maq iagem , por parte dos adolescentes.

Assim, o grupo foi composto por oito meninas e apenas um menino, formando um grupo diverso em suas características. Destacamos algumas diferenças existentes entre eles, como as classes econômicas, os problemas sociais e familiares que têm afetado a forma como eles agem no ambiente escolar. Além desses fatores, podemos perceber também que há algumas características próprias nessa faixa etária, pois esse período é um momento de transformação para a adolescência. Dessa forma, o grupo foi composto pelos seguintes discentes:

Allyssa tem doze anos e mora com seus pais e irmãos no bairro do Planalto, em Natal. Em seu tempo livre, gosta de desenhar, assistir, além de dedicar-se ao lettering, gosta de postar suas criações e organização de estudos no Instagram. Teve pouco contato com o teatro e gosta muito de participar das apresentações, mas nunca foi ao teatro porque nunca teve oportunidades. Allyssa é extrovertida e gosta de expor sua opinião sobre os conteúdos e temas abordados em sala de aula.

Carla tem treze anos de idade e mora no bairro de Emaús, mesmo bairro da escola. Carla mora com sua mãe e irmã e, quando não está na escola, gosta de dedicar-se a leitura. Já participou de algumas apresentações de teatro na escola e gosta de se ver no palco, onde todos possam prestigiá-la. As apresentações de teatro que já assistiu foram no cine teatro, em Parnamirim. É muito extrovertida, gosta de expor suas opiniões sobre os conteúdos.

Gabriele sua idade é treze anos, mora, no mesmo bairro em que a escola está inserida, com sua família: mãe, irmão e padrasto. Sua atividade de lazer é assistir, mas às vezes gosta de ler. O seu único contato com o teatro se deu na escola, mas não gosta muito de participar das apresentações porque tem vergonha de ficar na frente do público, por isso prefere não apresentar, mas gosta de assistir.

Jamilly sua idade é treze anos e também reside no mesmo bairro da escola, onde mora com sua mãe e irmãs. Suas atividades de lazer preferidas são passear e viajar, gosta de conhecer lugares novos. Já assistiu alguns espetáculos de balé no teatro Alberto Maranhão, onde sua prima fez algumas apresentações. Nunca participou de apresentações de teatro porque julga não ter talento. Seu contato com teatro se deu na escola, mas apenas apreciando as apresentações dos colegas. Jamilly é tímida, mas consegue construir relações de amizade com as colegas além de aparentar ser tranquila.

Laura sua idade é catorze anos e mora com a mãe, pai e irmão, no bairro Parque Industrial, localizado nas proximidades da escola. Tem como atividades de lazer jogar vídeo

game. Nunca teve nenhum contato com o teatro em outros espaços para além do ambiente escolar. É um pouco tímida em situações onde tenha que lidar com um público, mas, ao mesmo tempo, quando está com seus amigos gosta de conversar, mostrando-se atenciosa e tranquila.

Maria Clara tem doze anos e mora com sua família, sua mãe e seu pai, em Emaús, próximo à escola Maura. Tem como atividades de lazer passear, mas também se dedica às atividades desenvolvidas pela associação cultural da biblioteca do bairro, local em que já participou de apresentações de dança. O seu contato com o teatro se deu na escola, mas principalmente na biblioteca, onde já participou de oficinas de teatro e dança. Gosta muito de apresentar e assistir a espetáculos, mas nunca foi ao teatro porque não teve oportunidade. Maria Joana tem treze anos e reside em Emaús, mesmo bairro em que está localizada a escola, morando com sua mãe e seus irmãos. Ela tem como atividade de lazer ler livros, além de, por vezes, praticar natação. Não teve muito contato com o teatro e lembra- se de ter participado de uma apresentação de teatro quando tinha cinco anos. Pouco tempo depois, fez aulas de ballet, às quais não deu continuidade. Antes de morar em Emaús, morava em Assú RN, onde assistiu várias apresentações de São João, como também peças baseadas na história da cidade, as quais muitas vezes eram apresentadas na praça ou no teatro. Maria Joana mostra-se ser tranquila e amigável no ambiente escolar com os colegas de sala.

Nayara sua idade é catorze anos e mora com seus pais e irmãos, no bairro Parque Industrial, em Parnamirim, um bairro próximo da escola. Tem como atividades de lazer a leitura, como também gosta de escrever poesias e histórias. O seu contato com o teatro se deu na escola em eventos como o São João e o natal, assim como foi o único lugar em que ela assistiu peças de teatro.

Pedro Sua idade é catorze anos e mora com seus avós em Emaús, Parnamirim, no mesmo bairro da escola. Tem como atividades de lazer principais jogar vídeo game e desenhar, onde as principais criações são desenho de animação de mangá. O seu único contato com o teatro se deu por meio de apresentações na escola ou em passeios realizados pela escola, somente assistindo-lhes. É muito introvertido e não gosta de falar muito em público, mas gosta de expressar-se através dos desenhos.

Destaco como uma característica o momento de mudanças não só no que se refere aos aspectos físicos, como também cognitivos e sociais dos alunos. Essas mudanças podem interferir na forma como os discentes se colocam em sala de aula, nos espaços de

socialização, assim como no ensino e aprendizagem, percebendo-a enquanto momento de dúvidas sobre si e o que está em sua volta.

As percepções da realidade sociocultural dos discentes são essenciais para termos uma visão mais ampla de questões da realidade dos sujeitos, considerando-as em sala de aula, em debates e em discussões sobre o tema de ensino.

2 Estudo da aparência

Analisando a realidade observada, e levando em consideração os momentos pedagógicos, buscamos pensar na problemática inicial para o desenvolvimento das práticas pedagógicas sobre a maquiagem artística que nos auxiliasse no aprofundamento das questões em sala de aula. Procuramos um tema que relacionasse os estudantes ao seu meio social e ao conhecimento específico, pois o ensino precisa de alguma forma fazer sentido para os discentes: partindo de suas experiências, procurando refletir sobre sua subjetividade, ao mesmo tempo em que seja possível ampliar a sua percepção do mundo. Neste sentido, tivemos como ponto de partida realizar um estudo sobre a aparência, levando em consideração o período de faixa etária dos discentes, como também as relações sociais, refletindo sobre o uso da maquiagem nos diferentes contextos, relacionando-o com o fazer artístico.

Considerando a aparência física, podemos dizer que existe na sociedade uma preocupação com a forma de nos mostrarmos, resultando em modos de distinção do sujeito em seu meio social, mesmo que inicialmente não tivesse objetivos tão explícitos como atualmente. Notamos que não é de hoje as preocupações com a aparência física, mas esse cuidado excessivo tem se intensificado cada vez mais, ao mesmo passo em que vão surgindo diversas formas de mudá-la.

Tal e esse fato tenha rela o com os chamados digital infl encers q e precisam estar bem apresentáveis no mundo das redes sociais. Se não estivermos satisfeitos com a nossa aparência, podemos recorrer a processos químicos nos cabelos, sobrancelhas micropigmentadas, extensão de cílios, pigmentação labial, peeling, preenchimento facial, e tantas outras possibilidades que o mundo da estética nos oferece.

Observando o poder de comunicação da aparência nas relações estabelecidas no meio social e nas mais diversas culturas, vemos que ela nos traz um conjunto de expressões simbólicas a partir da nossa imagem e do conjunto de elementos que a compõem. Adriana Ramos apresenta alguns desses elementos que podem ser percebidos, identificando na construção da identidade.

No cotidiano, motivados por incontáveis subjetividades, todos escolhemos o modo como nos vestimos e os acessórios que complementam nossas roupas. Determinamos a forma e a cor de nossos cabelos e optamos por usar ou não maquiagem. Operação cujo resultado é uma composição única e pessoal: um arranjo de formas, cores, texturas e volumes que traduz plasticamente a identidade de uma pessoa e que a coloca, invariavelmente, em relação dialógica com o

ambiente e o contexto onde se encontra. Em outras palavras, a aparência trabalhada sobre o corpo é signo da identidade (RAMOS, 2013, pág. 17.).

Levando em consideração a Escola Maura, por exemplo, essas mudanças em busca de uma identidade não seria possível para os discentes no ambiente escolar, pois há um sistema de normas internas que determinam aspectos de sua aparência. Regras do tipo: não pintar o cabelo com cores e tra agantes (sic.) e os meninos não usarem brincos ou terem um corte de cabelo que chame muita atenção, determinam como deve ser a aparência dos alunos. As regras determinam uma padronização que, de certa forma, delimita a liberdade de expressão por meio da imagem visual, ao mesmo tempo em que reforça estereótipos de que, por exemplo, algumas características não serem bem vistas na sociedade.

A adolescência já é por si só um período movido por desejos e a possibilidade de mudar, de reinventar-se, de descobrir outros mundos, de apaixonar-se, já provoca neles muitas mudanças, seja na sua forma de pensar, de agir ou reagir a situações. E, nesse sentido, a maquiagem pode ser encarada como um elemento muito significativo nesse processo de descobertas, como nos lembra o conto restos de carnaval da Clarice Lispector (1998)3, no

qual, ao usar batom e ruge, a menininha escapava de sua meninice, e sentia-se mulher. Assim, a aparência pode ser modificada tanto pelo processo natural da vida, como também com finalidades determinadas, e, dessa forma, somos capazes de nos reinventar e nos redescobrir. Do mesmo modo que no meio social podemos também relacionar a mudança na aparência ao processo de caracterização visual do ator/atriz. Em função do espetáculo, o ator/atriz, por meio dos signos estabelecidos, constrói sua aparência com o intuito de dar vida ao personagem, compondo um outro ser em si mesmo.

Pensar sobre o que é a aparência nos faz perceber, que seu sentido está interligado a várias categorias de associação. Sua definição apresentada no Dicionário Aurélio, refere- se a 1. aq ilo q e se mostra primeira ista, exteriormente, aspecto... 2. Aquilo que parece realidade sem o ser, ilusão, fingimento, fachada... 3. Simulação da realidade e, portanto, oc ltamento de ma realidade diferente... 4. Manifesta o total o parcial, da realidade (FERREIRA, 2009, p. 159). Assim, podemos perceber que, nesse sentido, a aparência está relacionada com as formas de nos mostrarmos, que pode não condizer com o que realmente somos, dependendo da imagem que buscamos passar ou da leitura de quem nos observa.

Mais que um simples mostrar-se, existem vários fatores que podem interferir na construção da nossa aparência, que vão desde as condições econômicas até as relações estabelecidas em um determinado grupo de convivência social. Além dessas questões, os processos midiáticos têm grande interferência não só no que as pessoas podem identificar como boa apar ncia , como tamb m nos di ersos meios de b sc -la. Dessa forma:

em virtude dessa determinação subjetiva, os critérios convencionais continuam a se impor, legitimando como evidência jamais ameaçada uma certa universalidade da própria ideia de beleza. Esses critérios, como se encarnassem o ideal comum de beleza do corpo, podem mesmo ser tomados como preconceitos e acabam por servir sempre como os mais recentes modelos de apreciação. (JEUDY, 2002, p. 25) Nos propomos, então, a estudar essas relações e os sistemas de diferenciação social com base nos estudos de Pierre Bourdieu e Eric Landowski, entendendo esses sistemas simbólicos de categorização e as influências que as relações sociais podem estabelecer na construção da aparência. Buscamos sintetizar o conjunto de relações simbólicas existentes, que estão relacionados ao entendimento socialmente construído sobre o termo aparência e seu prejulgamento.

Desta forma, buscamos relacionar esse estudo com os conhecimentos de maquiagem artística, que podem se dividir em relações estéticas, técnicas e cênicas. Podemos então destacar os seguintes conhecimentos: cuidados com a pele, teoria da cor (colorimetria), luz e sombra, procedimentos técnicos de desenho, estrutura facial, as funções da maquiagem cênica e a maquiagem na caracterização visual dos personagens. A partir dos temas de conhecimentos, podemos relacionar com a construção da aparência dos atores e seus sistemas simbólicos. Tais relações estabelecidas serão relevantes para o desenvolvimento das práticas pedagógicas, enquanto objeto de reflexão do processo investigativo.

A escola, enquanto espaço de socialização, também pode ser vista como um espaço de grande import ncia para a constr o da apar ncia dos ed candos, pois a pr tica educativa, é parte integrante da dinâmica das relações sociais, das formas de organização social (Lib neo, 2013, p g. 19). As relações de troca entre professor e aluno, assim como entre o ambiente interno e o externo, vão interferir nesses processos de construções e isso pode ser percebido, por exemplo, quando o professor desperta o senso crítico dos alunos para as situações que são vivenciadas no seu dia a dia.