• Aucun résultat trouvé

Para analisar a praça pública na contemporaneidade, é preciso compreender o contexto urbano no qual elas estão inseridas, seus processos históricos e os motivos que a levaram modificar sua função e seu uso com o passar do tempo. A partir disso, Macedo e Robba (2003) caracterizam as praças brasileiras desde a cidade colonial até o período contemporâneo. Citam-se abaixo os aspectos mais importantes das praças em cada período:

a) A praça na cidade colonial: nesta época não havia propriedade absoluta da terra e sim o sistema de concessão para a exploração. O concessionário de uma sesmaria outorgava à igreja o direito sobre o pedaço de terra, sendo que o padre ou sacerdote tinham o direito de repartir a área doada. Esta estrutura foi a força geradora dos primeiros espaços livres públicos brasileiros. O espaço deixado em frente aos templos é justamente o espaço de formação da praça. Este espaço se torna, conforme a povoação cresce, o mais importante polo da vila, e o centro da vida sacra e mundana, atraindo para seu entorno os mais importantes prédios públicos, as mais ricas residências e o melhor comércio. A praça colonial brasileira permitia que todas essas funções acontecessem no mesmo logradouro. A praça até este momento era chamada de largo, terreiro e rossio. Era ali que a população da cidade colonial manifestada sua territorialidade.

b) A praça ajardinada (pós-colonial): a influência cultural exercida pela França e Inglaterra e a necessidade do país conectar-se com a nova ordem social, econômica e produtiva global da virada do século XIX, proporcionaram o surgimento de campanhas de modernização, salubridade e embelezamento das cidades. Grandes reformas foram feitas para transformar a cidade colonial em uma cidade republicana. Neste momento surge a praça ajardinada. São minimizados os usos comercial e militar, passando a ser uma área destinada à contemplação da natureza e ao descanso. O surgimento da praça ajardinada é um marco na história dos espaços livres urbanos brasileiros, pois altera a função da

praça na cidade. É neste momento que as praças mais importantes das cidades passam a ser objeto de projetos de paisagismo. Naturalmente, a crescente valorização do uso de vegetação da cidade, de forma a amenizar os efeitos da urbanização intensa dos grandes centros, fortaleceu ao longo desse século a tipologia da praça ajardinada. A partir da segunda década do século XX os núcleos urbanos brasileiros começam a expandir-se muito rapidamente devido à implantação do modelo de produção industrial e a crescente atividade comercial. Sobe o preço da terra em função da demanda maior que a oferta. Por sua vez, os espaços livres públicos e privados, antes encontrados com facilidade nas cidades, tornam-se cada vez mais escassos. Nesta etapa, o espaço livre público e urbano torna-se mais uma das opções de área de lazer existentes na cidade. Os parques e praças públicas passam a ser utilizados para tal fim, ainda que dedicados exclusivamente a atividades de contemplação. A figura praça manteve-se inalterada até o começo da década de 1950.

c) A praça moderna: a ideia de construção de loteamentos urbanos alterou significativamente o modo de estruturação do espaço livre. A cidade colonial tinha suas praças configuradas pelas edificações do entorno, e sem elas, a praça perderia o significado. Na cidade ou bairro planejado, no entanto, o traçado viário e arruamento predeterminavam a localização da chamada praça. A necessidade de ruas para a passagem de veículos entre os edifícios do entorno e a praça também alterou sua relação com a comunidade lindeira. A praça adquiriu outros significados na cidade moderna. A partir da década de 1940 começaram a aparecer os primeiros sinais de mudança na concepção dos espaços livres da cidade brasileira, coma a alteração do seu programa de uso. Parques e praças passaram a englobar, em seus programas, o lazer ativo, principalmente as atividades esportivas e a recreação infantil. O lazer ativo está presente com a implantação de quadras esportivas, playgrounds e pistas para caminhada, o lazer contemplativo nunca deixou de ser proposto e o lazer cultural é apresentado como inovação, com a implantação de museus e pavilhões de exposição. A partir de 1980, as questões ambientais emergentes impactaram também sobre a criação das praças, não

diretamente sobre os projetos, mas sobre a necessidade de sua existência. A sociedade passou a valorizar muito os chamados espaços verdes na cidade.

d) A Praça contemporânea: a nova conjuntura urbana forçou a revisão de alguns conceitos relativos ao programa de atividades dos espaços livres públicos urbanos, passando, então, a ser aceita maior liberdade na sua concepção, que varia conforme o local da sua implantação. O espaço volta a ser palco de atividades como comércio e serviços. Juntamente com os usos já consagrados do espaço livre, as novas adaptações dos programas passaram a integrar as propostas de ocupação mais recorrentes no final do século. O projeto da praça contemporânea típica dos anos de 1990 absorve os programas de uso, formas e partidos modernos e vai muito mais além. Em outras palavras, evolui do conceito modernista de liberdade, abrindo possibilidades formais antes impensáveis. A liberdade de programas, elementos, desenhos, cores e materiais permite a criação de projetos com variadas linguagens e formas. Os projetos contemporâneos se caracterizam quanto à forma (revitalizações e restauro de imagens, o velho e o novo uso; reconfigurações e mudanças estruturais; colagem decorativa e irreverência; formalismo gráfico como contraponto à praça ajardinada) e quanto ao programa, onde se observa a valorização dos usos que melhor se adaptam às necessidades urbanísticas da cidade contemporânea (introdução do uso comercial e de serviços; direcionamento do uso para passagem de pedestre e circulação, com a criação de esplanadas e a revalorização da praça seca; criação de espaços multifuncionais e adaptáveis, que podem ser utilizados pela população das mais diversas formas).

Ao analisar o histórico das praças brasileiras é possível concluir que a praça tem na contemporaneidade, uma função social bem definida, diretamente ligada à qualidade de vida da população, que busca nela espaços de convivência, lazer, esporte, entre outros. A praça passa a ser um direito de todo cidadão. Porém, para que ela seja de fato um espaço onde a população possa exercer seus direitos, é importante levantar questões sobre sua qualidade, seu uso e sua inserção no traçado urbano. Os itens a seguir apresentam alguns estudos relacionados às praças sobre estes três enfoques.