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soins de suite et de réadaptation

2. Fiche d’analyse en GMD

3.1. Classification en GME

3.1.4. Groupes médico-économiques

A cobertura dos galpões fabris que hoje abrigam diversos ambientes do conjunto do SESC Pompeia apoia-se em um sistema estrutural, pré-fabricado em concreto armado, reconhecido por Lina Bo Bardi como um sistema hennebiqueano.

Algumas características das arquiteturas de todo o século XX – na Europa, nas Américas, no Brasil – estão diretamente relacionadas ao cenário do início da modernidade não apenas por ainda utilizarem das mesmas práticas que no século XIX tiveram sua origem, como é o caso do sistema estrutural modular patenteado por Hennebique, mas por incorporarem edificações históricas deste período em novos conjuntos arquitetônicos. O SESC Pompeia, em São Paulo, é um exemplo da amplitude e permanência tanto dos fundamentos modernistas quanto da própria estrutura fabril que foi restaurada e incorporada aos novos usos e ao novo tempo, reafirmando as características de flexibilidade, aplicabilidade e neutralidade inerentes ao sistema utilizado.

François Hennebique (1842-1921) era engenheiro nascido na Bélgica e naturalizado francês. Construtor autodidata, aos 50 anos registrou uma patente de sistema de construção em concreto armado que integrava pilares e vigas em um único elemento, no ano de 1892 79. Ele havia tido contato com o trabalho do

jardineiro francês Joseph Monier, na exposição de Paris em 1867, que por sua vez já havia patenteado uma mistura de concreto a uma malha de arame 80.

A partir do grande sucesso que as pequenas construções ligadas ao paisagismo de Monier estavam tendo na Alemanha, muitos franceses foram encorajados a explorar sistemas semelhantes, e Hennebique foi apenas mais um

79 CENTRO DE ESTUDIOS HISTÓRICOS DE OBRAS PUBLICAS Y URBANISMO. El sistema

Hennebique. Conteúdo digital da exposição Hormigon armado em España 1893 a 1936. Madrid,

2010. Disponível em: <http://www.cehopu.cedex.es/hormigon/temas/C42.php?id_tema=79>. Acesso em: 20 de jun. 2014.

80 Na década de 1860, o jardineiro francês Joseph Monier fez fortuna patenteando uma combinação

empírica de malha de arame e concreto para construir reservatórios, lagoas e outros elementos de paisagismo, como bebedouros, banheiras ou vasos, depois o utilizando também em pequenas pontes e pequenos edifícios. Como o empreendedor Monier não foi muito bem-sucedido, acabou transferindo os direitos de uso de suas patentes para os outros, tais como os industriais alemães, o engenheiro Gustavo Mathias Wayss, Freytag e o engenheiro Koenen, que adquiriram os direitos em 1885 e estudaram cientificamente o novo material para dar-lhe uma formulação racional.

deles. No entanto, diferenciou-se sobremaneira dos demais, pois criou uma organização empresarial eficiente, com equipes técnicas altamente competentes81 e

expandiu muito as aplicações do sistema.

Os elementos essenciais eram simplesmente pilares vigas, e grande variedade de aplicações (flexibilidade) era garantida a partir do simples aumento ou diminuição do número de pilares e vigas para um mesmo vão, conforme as sobrecargas. A substituição de perfis metálicos por vergalhões flexíveis82 na

constituição das vigas, bem como o uso de estribos, foi aperfeiçoando a patente, que adquiria crescente espectro de utilizações. Em 1894, a obra de preservação integral da fachada exterior de uma refinaria de açúcar ameaçada de ruína (sete lajes de piso, em Lille) significou o princípio de uma ossatura estrutural independente da alvenaria de tijolo, aqui utilizada pela primeira vez em escala importante, sendo cada piso considerado como um sistema rígido e indeformável 83.

A empresa denominada de Maison Hennebique era constituída de uma rede de escritórios técnicos, com sede em Paris, e revendedores espalhados por diferentes localidades e países. Os beneficiados eram autorizados a usar o sistema patenteado em determinada área. Na virada do século, muitos países da Europa (Itália, Bélgica, Suíça e Reino Unido), da África (Egito) e das Américas (Estados Unidos da América, México e Brasil) usaram a tecnologia construtiva. No Almanake

Laembert aparecem diversos anúncios, como, em 1914, o da empresa Hennebique,

que oferecia cálculos grátis para obras no Rio de Janeiro, como observa Gianechini

84. Além disso, a organização realizava inúmeras demonstrações públicas – algumas

delas em exposições regionais e internacionais, onde montava estandes publicitários

81 Os engenheiros Samuel de Mollins (suíço), Porcheddu Giovanni (italiano) e José Eugenio Ribera

(espanhol) foram alguns dos que o ajudaram a expandir as aplicações do sistema original patenteado.

82 A primeira laje armada com ferros de seção circular (1880) é de Hennebique: Chambre Syndicale,

1949, reproduzido em Alambert (2013, p. 40).

83 É nesta obra que se ensaia a introdução de barras metálicas na parte superior das vigas contínuas,

junto aos apoios, onde se invertem os esforços de tração. SPENCER, J. M. F.; RAVARA, P.B. A

consolidação de uma prática: do edifício fabril em betão armado nos EUA aos modelos europeus na

modernidade. Tese de Doutorado – Faculdade de Arquitetura de Lisboa, Universidade Técnica de

Lisboa, Lisboa, 2008.

84 GIANNECCHINI, A.C. Técnica e estética no concreto armado: um estudo sobre os edifícios do

MASP e da FAUUSP. Dissertação de mestrado. FAUUSP Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo-SP. 2009.

e expunha fotografias85 e modelos de resistência e combustibilidade dos seus

edifícios 86.

A primeira grande aplicação do sistema foi dada de fato em edifícios industriais, o que amplifica a importância das estruturas montadas no Brasil, mais especificamente em São Paulo, que um século depois seriam adaptadas a novos usos pelo SESC. Eram fábricas de farinha de peixe, fiação ou depósitos; somente depois foram se espalhando para outras áreas como pontes, rodoviárias, ferroviárias, saneamento e portos.

Ainda sobre a flexibilidade e adaptabilidade do sistema hennebiqueano, é interessante observar que, na época da expansão comercial do sistema, os clientes podiam encomendar um edifício desenhado sob medida conforme necessidade programática. Mas a modulação da estrutura em si era tão flexível e adaptável que era possível que se tornasse “invisível”, se por diversos motivos o cliente desejasse, e assim era utilizada para qualquer tipo de expressão de arquitetura 87.

Figura 03: Théâtre de de la Ligue de l´Énseignement em Paris, arq. Charles-Paul- Camille Blondel , Paris, 1908. Palco em obras e palco acabado: o arco abatido, em concreto, fica escondido pelo acabamento em gesso além de poder ter sido feito em

tijolos ou madeira.

Fonte: RAVARA, Pedro Belo - A consolidação de uma prática: do edifício fabril em betão armado nos EUA aos modelos europeus de modernidade. Lisboa: FA, 2007. Tese de

Doutoramento88.

85 A fotografia de arte jovem emergiu neste momento como uma aliada moderna e eficaz nas

campanhas publicitárias da organização. A partir de 1899, Hennebique começou a publicar sua própria revista, Le Beton Armé, que se tornou um valioso meio de divulgação dos trabalhos realizados.

86 Pequenos exemplares eram construídos e entregues às chamas para testar as suas propriedades

de resistência ao fogo ou a sobrecargas excepcionais (CEHOPU, 2010).

87 SPENCER, J. M. F.; RAVARA, P.B. A consolidação de uma prática: do edifício fabril em betão

armado nos EUA aos modelos europeus na modernidade. Tese de Doutorado – Faculdade de

Arquitetura de Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, 2008.

Figura 04:Théâtre de la Ligue de l´Énseignement em Paris, fachada: espessura da parede reproduz sistema construtivo usando pedras.

Fonte: RAVARA, P.B. Op. cit., p.103.

Voltando ao caso das fábricas, segurança e unidade estrutural são as principais razões para que as construções industriais fossem feitas em concreto armado, e os melhores exemplos de aplicações dos sistemas em arquitetura fabril estão, não por acaso, nos EUA e Itália, onde se desenvolve com maior ênfase a “tipologia paradigma da proto modernidade” 89.

Figura 05: Fábricas de contadores elétricos – arq. Louis Jallade e Bureau technique de Hennebique, Brooklyn, Nova Iorque, 1908; da Mavericks Mills, arq. Lockwood, Greene & Company e bureau technique central de Hennebique, Boston, 1909; de calçados,sem autoria

de arquitetura, projeto de estrutura do gabinete central de Hennebique. Boston, 1911. Fonte: RAVARA, P.B. Op. cit., p.109-112.

Nota-se, nestes edifícios, fachadas quase que totalmente permeáveis à luz natural, assim como integração entre arquitetura e estrutura, grandes espaços abertos e ventilados, utilitários, funcionais.

89 SPENCER, J. M. F.; RAVARA, P.B. A consolidação de uma prática: do edifício fabril em betão

armado nos EUA aos modelos europeus na modernidade. Tese de Doutorado – Faculdade de

Com relação às ligações entre as origens do movimento moderno europeu, o concreto armado e as fábricas, são reconhecidas, nessas fábricas americanas, as origens dos “cantos desconstruídos” de Gropius90, ao observar o

vazio que se forma entre os cheios das lajes e dos pilares nas fachadas e a transparência oferecida pela segunda pele de vidro.

Mas em se tratando de edificações fabris com as características que ainda nos são familiares no Brasil, podemos destacar duas obras italianas, de autoria de arquitetura do engenheiro e arquiteto Matté-Trucco com projeto de estruturas do Bureau Technique Central Hennebique e Sociedade de Engenheiros G-A Porcheddu, ambas em Turim, cujas imagens ilustrativas estão na sequência. Elas servem emblematicamente para que destaquemos:

a. um interior vasto, livre e luminoso, pontuado apenas pela malha regular da estrutura de concreto, flexível e adaptável a mudanças.;

b. a localização dos apoios de acordo com fluxo de insumos e produtos; c. galeria central de grande altura;

d. presença de iluminação zenital;

e. sítio confrontante com várias ruas e ocupação imediatamente à beira da calçada, sem recuo

90 Com o edifício da Faguswerk ou da Bauhaus. SPENCER, J. M. F.; RAVARA, P.B. A consolidação

de uma prática: do edifício fabril em betão armado nos EUA aos modelos europeus na modernidade.

Tese de Doutorado – Faculdade de Arquitetura de Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, 2008.

Figura 06: Desenhos (planta e corte) e foto da fachada da fábrica Michele Ansaldi, Turim, 1906.

Fonte: RAVARA, P.B. Op. cit., p. 116-11891.

91 SPENCER, J. M. F.; RAVARA, P.B. A consolidação de uma prática: do edifício fabril em betão

armado nos EUA aos modelos europeus na modernidade. Tese de Doutorado – Faculdade de

Figura 07: Foto interna da construção de uma fábrica FIAT, 1911. Fonte: RAVARA, P.B. Op. cit., p.120.

O uso do concreto na arquitetura data de meados do século XIX, antes de Hennebique92. François Cognet, à época da exposição internacional de 1855, já

escrevia: “O cimento, o concreto e o ferro estão destinados a substituir a pedra” 93.

As casas do inglês Norman Shaw, de 1870, com partes em blocos de concreto, são construídas enquanto Willian E. Ward e Thaddeus Hyatt começam a calcular as propriedades do concreto e ferro combinados. Mas, de fato, só depois de Monier é que alemães (Wayss e Koenen, em 1880) preparam o uso da técnica no sentido moderno, que se pronuncia verdadeiramente com o sucesso de Françoise Hennebique no final dos 188094.

92 PEVSNER, N. Os pioneiros do Desenho Moderno. De William Morris a Walter Gropius. São Paulo.

Martins Fontes:1994.

93 COLLINS, P. Concrete. Londres: Faber, 1959, p. 27. Apud PEVSNER, N. Op. cit.

94 Observa-se, aqui, que a seleção de Pevsner, na obra já citada, para países envolvidos na gênese

da arquitetura moderna não inclui a Itália. Os países foram: Estados Unidos, França, Alemanha (juntamente com os seus dois países dependentes, Suíça e Áustria) e a Escandinávia. Além disso, o caso dos projetos fabris com estruturas hennebiqueanas criados por Matté-Trucco na Itália foi tratado como atípico (exceção) na citada pesquisa de Spencer e Marrara, de 2008.

Logo após a Primeira Guerra Mundial, a partir de 1920, o número de obras executadas no sistema Hennebique começa a cair95 Foram encontrados

registros de que já em 1914 a empresa investia no sentido de conquistar mercados mais distantes (como o do Brasil, por exemplo). Entretanto, apesar do aparente e posterior declínio, nas primeiras décadas do século XX, a aplicação do concreto armado em sistemas como os de Hennebique colaborou de forma tão expressiva com a difusão do uso do material que os arquitetos europeus e americanos do período deram muitas de suas contribuições ao Movimento Moderno usando justamente o concreto.

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