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Tillich em sua produção teórica posterior ao período revisionista, passa a descrever a religião com uma formulação diferente daquela analisada até aqui, isto é, religião como direcionamento ao sentido incondicional. Por conta disso, vale destacar que no fim dos anos de 1920 a descrição de religião como aquilo que preocupa o ser humano de forma última começa a ganhar mais ênfase nos escritos do autor. Esta formulação pode ser vista em alguns textos

99Sofern ein religiöser Akt sich auf einen vertretenden Inhalt und durch ihn hindurch auf das Letzt-Gemeinte

richtet, ist er religiöse Erkenntnis.

100 In this sense, it is more than evident that Tillich’s determination of the concept of religion, grounded as it is on

como a Teologia Sistemática (1951-1963) Religião Bíblica e a busca pela realidade última (1955), Dinâmica da Fé (1957) entre outras dessa época. Aqui a religião é descrita como “[...] estado de se encontrar apoderado por uma preocupação última, uma preocupação que qualifica todas as outras preocupações como preliminares, e que possui, ela mesma, a resposta para a questão do sentido de nossas vidas”101 (TILLICH, 1988 [1963], p. 293). Chama atenção o fato

de que tal descrição da religião não rompe com os fundamentos de seu período intermediário e encontra-se dessa forma fundamentada sobre a experiência religiosa do direcionamento intencional da consciência ao sentido incondicional. De acordo com Tillich: “[...] podemos e devemos entender que o termo preocupação final, como a frase alemã de que é uma tradução102, é intencionalmente ambígua. Indica, por um lado, nossa preocupação última - o lado subjetivo - e, por outro lado, o objeto de nossa preocupação última”103 (TILLICH, 1965, p. 11).

O teólogo comenta que o objeto da preocupação última não pode ser outra coisa a não ser o sentido incondicional. Para Tillich, nem tudo que ocupa o lugar de preocupação última é verdadeiramente preocupação última, de modo que torna-se necessário considerar o princípio crítico presente no ser humano, que procura distinguir aquilo que de fato é realmente incondicional daquilo que reivindica para si esse caráter, pois na “Na fé verdadeira a preocupação incondicional é o estar tomado pelo que é verdadeiramente incondicional; a fé idólatra, com contraste, eleva coisas passageiras e finitas à categoria de incondicionais” (TILLICH, 1985, p. 12).

Em sua TS, o teólogo comenta que na preocupação última o ser humano deve estar “incondicionalmente preocupado por aquilo que condiciona seu ser para além de todos os

101[...] state of being grasped by an ultimate concern, a concern which qualifies all other concerns as preliminary

and which itself contains the answer to the question of the meaning of our life.

102A fórmula traduzida em português como preocupação última corresponde ao que Tillich descreveu em 1925-

1927 em alemão como was uns, unbedingt angeht. Dogmatik handelt von dem, was uns unbedingt angeht“ (A dogmática trata daquilo que nos preocupa incondicionalmente) (TILLICH, 2005a [1925/1927], p. 2); „Insofern er uns unbedingt angeht, ist es der Weg des Offenbarungsdurchbruchs“ [...] (Na medida em que nos preocupa incondicionalmente, o mito é o caminho da irrupção da revelação) (TILLICH, 2005a [1925/1927], p. 91) ou ainda “Das Gleiche kann auch so ausgedrückt werden: Das uns unbedingt Angehende ist das uns unbedingt Verborgene. (Pode-se expressar o mesmo da seguinte maneira: o que nos preocupa incondicionalmente é o que se nos esconde incondicionalmente)“ (TILLICH, 2005a [1925/1927], p. 15). De acordo com Danz esta fórmula permanece no período posterior ao período revisionista em termos de preocupação última (ultimate concern), “‘religião é o que nos preocupa incondicionalmente’ [Religion ist das, was uns unbedingt angeht] (also prevalent in his later period – ‘religion is that which concerns us unconditionally’ [Religion ist das, was uns unbedingt angeht]) (DANZ, 2099, p. 179).

103we can and must understand that the term ultimate concern, like the German phrase of which it is a translation,

is intentionally ambiguous. It indicates, on the one hand, our being ultimately concerned — the subjective side— and on the other hand, the object of our ultimate concern.

condicionamentos que existem nele e ao redor dele” (TILLICH, 2011, p. 32), isto é, a preocupação incondicional do ser humano fundamenta-se naquele sentido que está para além de qualquer objetificação, nesse sentido, aquilo que preocupa o ser humano de forma última deve ser nada menos do que o incondicional, que tal como dito anteriormente, não é um ser ou um objeto, mas um sentido.

Seria necessário ainda um mapeamento para identificar quando a fórmula “preocupação última” começa a ser utiliza pelo autor. Esta pesquisa infere que nos escritos de Dresden (1925- 1927) a fórmula já estava presente e começa a ser enfatizada. Tendo isso em conta, pode-se dizer que as primeiras formulações da “preocupação última” encontram-se no final do período revisionista do autor, marcado pela filosofia do espírito e do sentido, e está em conformidade com a noção de intencionalidade da consciência ao sentido incondicional. A preocupação última está ligada ao sentido incondicional e se apresenta como uma versão abreviada desta, isso aponta para uma continuidade no desenvolvimento intelectual de Tillich onde a noção de intencionalidade da consciência permanece como fundamento também de seus escritos posteriores. Entretanto, uma análise mais detalhada sobre a definição tillichiana de religião como preocupação última e sua relação com a definição de seu período intermediário se torna inviável de ser feita de forma mais exaustiva nesta pesquisa e segue apenas como provocação para pesquisas posteriores.

Considerações finais

Tillich fundamenta, no contexto de seu período revisionista que vai do fim da Primeira Guerra Mundial até os últimos anos da década de 1920, a noção de religião como uma atitude intencional da consciência em direção ao sentido incondicional presente nas formas postas pelo espírito humano. Isso significa que a noção de religião descrita pelo autor neste período opera na dimensão da vida consciente e encontra seus fundamentos na teoria do sentido em diálogo com a fenomenologia de Husserl, mais especificamente sua teoria da intencionalidade da consciência.

Como dito anteriormente, o objetivo deste primeiro capítulo foi apresentar a recepção da fenomenologia no pensamento teológico de Tillich. Para isso, foram dados quatro passos importantes: primeiro, uma revisão sobre os aspectos biográficos do período revisionista de

Tillich onde foi possível observar as motivações que levaram o teólogo a assumir essa postura, como o abalo da filosofia romântica e do idealismo que marcara a sua primeira fase, e também os interlocutores com os quais Tillich dialogou para revisar seu pensamento, especialmente o neokantismo e a fenomenologia de Husserl. Num segundo passo a discussão girou em torno da teoria da intencionalidade da consciência de Husserl, onde foi possível compreender que para este pensador a intencionalidade da consciência diz respeito a uma ligação que o ser humano tem com o mundo da vida, ligação esta que é infatigavelmente posta, no sentido de que toda consciência é consciência de algo. A intencionalidade se fundamenta, portanto, na consciência que visa algo e o dota de sentido.

Num terceiro passo foram analisados os contatos do teólogo com a fenomenologia de Husserl, expressa primeiramente em cartas escritas pelo teólogo durante seu período revisionista, e o entusiasmo com o qual ele dialoga com a escola fenomenológica. Aqui o foco esteve na maneira em que a fenomenologia é recebida por Tillich na esteira de sua teoria do sentido, bem como a ênfase que o autor dá ao verbo “Visar”, através do qual o teólogo vai moldando sua teoria da consciência intencional ou noética em relação à religião na vida humana. O último passo do capítulo foi analisar as aplicações que Tillich faz da teoria da intencionalidade da consciência na fundamentação de seu conceito de religião. Com essa aplicação o teólogo descreve a religião como um direcionamento intencional da consciência ao sentido incondicional através das formas postas pelo espírito humano em sua incessante criatividade no mundo da vida.

A presença das categorias fenomenológicas “direcionamento” e “visar” ajuda a delinear os contornos da aplicação que Tillich faz da teoria da intencionalidade do ato da consciência de Edmund Husserl para fundamentar seu próprio conceito de religião. Assim, a noção de religião em Tillich encontra-se fundamentada numa consciência imediata e não simbólica do sentido incondicional que funda a autoconsciência, e numa realidade concreta e finita por meio da qual a consciência se dirige em direção ao sentido incondicional. Embora estes dois elementos possam ser separados didaticamente para fins de análise, tal como feito nesta pesquisa, eles são inseparáveis na experiência real e permanecem essencialmente unidos.

A experiência religiosa se caracteriza exatamente pelo ato intencional de “visar” o sentido incondicional e fazer com que a coisa “visada” cobre sentido no mundo da vida através do ato reflexivo da consciência. Ou seja, assim como toda consciência é consciência de algo para Husserl, em Tillich o sentido incondicional também é algo do que se possa estar

consciente. Em Tillich, portanto, a consciência é constituída por um visar original ou “ato puro de direção a (reinem Akt der Richtung auf)” (TILLICH, 1989 [1923], p. 123), cujo correlato noemático intencional é o sentido incondicional.

A religião torna-se então o pressuposto de uma satisfatória realização do sentido em todas as funções. Em outras palavras, a religião como sentido incondicional pode ser percebido pela intencionalidade da consciência em toda forma cultural, e nesse sentido, as formas culturais podem servir como símbolos que apontam para esse sentido incondicional. A cultura, portanto, atua como meio através do qual a religião torna-se possível. Ambas estão unidades em todo sentido particular.

Diante disso, o teólogo afirma que em toda experiência religiosa é preciso distinguir dois pontos: “(1) o ‘ponto’ da consciência imediata do incondicional que é vazio, mas incondicionalmente certo; e (2) a ‘amplitude” de uma preocupação concreta repleta de conteúdo [...] A teologia lida com o segundo elemento, pressupondo o primeiro”104 (TILLICH, 1987b [1947], p. 308). O que está vazio é sem conteúdo e não-simbólico mas é a base da religião, o que tem conteúdo é simbólico e extraído das formas culturais posto pelo espírito humano. Ambos os elementos precisam ser considerados em toda análise da religião e para tanto a proposta de Tillich consiste em formular um método que une um elemento crítico com um elemento intuitivo.

É para dar conta de ambos os polos dessa relação que se torna possível perceber a importância da fenomenologia crítica de Tillich, denominado num primeiro momento de método crítico-intuitivo e depois de metalógico. No método tillichiano, o elemento intuitivo- descritivo está para a consciência intencional assim como o elemento existencial-crítico está para a forma de sentido, isto é, o elemento concreto através do qual o incondicional é percebido. Na sequência, a presente pesquisa se concentrará em torno deste método tillichiano desenvolvido desde os anos 1920 e que receberá em 1951 o nome de fenomenologia crítica.

104 (1) the 'point' of immediate awareness of the unconditional which is empty but unconditionally certain; and (2)

the 'breadth' of a concrete concern which is full of content [...]. Theology deals with the second element, while presupposing the first and measuring every theological statement by the standard of the ultimacy of the ultimate concern.