Diogo (1998) refere que existem quatro barreiras que dificultam o envolvimento das famílias nas escolas, sendo elas: a tradição de separação entre a escola e a família; a tradição de culpar os pais pelas dificuldades dos filhos; as barreiras estruturais da organização social; e a persistência das estruturas organizadas dos estabelecimentos de ensino. Passaremos, de seguida, a explicar as barreiras mencionadas.
Na tradição de separação entre a escola e a família, muitos pais consideram a escola como a responsável pelas funções educativas e, muitos professores, aceitam isso. Se, por um lado, os professores pretendem obter o apoio dos pais na vida escolar dos filhos, por outro, não querem perder a sua autonomia profissional e pedagógica. Os professores esperam que haja uma continuidade em casa dos valores e atitudes da escola. Se os pais não se envolvem como esperam que aconteça, acusam-nos de falta de interesse.
Estrela e Villas-Boas (Estrela & Villas-Boas, 1997, citado por Zenhas, 2006) referem que também existem atitudes por parte dos pais/encarregados de educação que conduzem a esta separação entre a escola e a família. Há pais que se demitem das suas funções educativas; pais que se intrometem nas funções dos professores; pais que não apoiam os seus filhos em casa; e pais que não se sentem confortáveis na escola devido às diferenças entre a sua cultura e a da escola.
Não havendo comunicação entre a escola e a família, a separação existente vai acentuar-se ainda mais, contribuindo para uma maior desconfiança entre ambas as instituições e o desenvolvimento de perceções negativas.
Quanto à tradição de culpar os pais pelas dificuldades dos filhos, quando os alunos manifestam problemas e dificuldades, os professores têm tendência para culpar os pais. A falta de envolvimento destes na vida escolar dos filhos revela, para a maioria dos professores, falta de interesse. A culpabilização dos pais vai impedir a procura de soluções para ultrapassarem as situações. Os professores responsabilizam os pais pelo afastamento da escola às famílias, da qual eles já se sentem excluídos. Segundo Diogo (2008), os resultados de algumas investigações comprovam que os pais querem envolver-se mais na vida escolar dos seus filhos, querem apoiá-los mais mas, não sabem como fazê-lo e nem se sentem capazes de o fazer.
Relativamente às barreiras estruturais da organização social, Diogo (1998) demonstra que a incompatibilidade de horários das reuniões nas escolas com os horários de trabalho dos pais/encarregados de educação, constitui um dos principais obstáculos.
Quanto à persistência das estruturas organizadas dos estabelecimentos de ensino, a burocracia existente nas escolas, o formalismo e a linguagem técnica, afastam os pais e encarregados de educação com baixa escolaridade (Marques, 1997b). Outro aspeto que é importante referir, é o facto de muitas vezes os pais serem chamados à escola quando há problemas. Caso contrário, os pais não se deslocam, pois, tal é considerado uma perda de tempo (Afonso, 1993). Também as práticas de segurança das escolas (controlo de entradas, exigência de identificação) intimidam muitos pais, afastando-os.
Os fatores considerados por Epstein (1995, citado por Reis, 2008) e que separam a escola e a família é a idade e o nível de escolaridade, ou seja, à medida que aumentam, diminui o envolvimento. As famílias vão perdendo o contacto com as escolas e com a vida escolar dos seus filhos.
O perfil do corpo docente é considerado por Diogo (1998) como um outro obstáculo à colaboração escola-família. O autor refere que no grupo de professores existe uma grande insegurança quanto às intervenções das famílias na escola. Os professores receiam que os pais se intrometam nas questões pedagógicas, ameaçando a sua autonomia dentro da sala de aula. Salienta-se ainda, o facto de os professores não receberem formação acerca da colaboração escola-família.
Tendo em conta que a relação entre a família e a escola é também uma relação entre culturas, as diferenças de linguagem e de cultura entre a escola e as classes desfavorecidas tornam-se um obstáculo ao envolvimento entre ambas. Silva (1993) refere que estes pais têm dificuldade em compreender os professores e não sabem como ajudar os filhos. Alguns destes pais vivenciaram no seu percurso escolar, experiências negativas, o que dificulta a criação de uma relação de confiança.
Na opinião de Musitu (2003, p.158), existem conceções muito diferentes acerca da participação: dos: pais: na: escola: e: são: “estas: diferenças: que: originam:obstruções: e: práticas dissuasórias o que torna muito difícil que a relação de companheirismo entre pais:e:educadores:seja:produtiva:e:efetiva”:
Normalmente, os professores denominam de pais difíceis de alcançar aqueles que, por mais incentivos e esforços que existam, raramente comparecem à escola. São, usualmente, pais de filhos com problemas de comportamento, de assiduidade, com dificuldades de aprendizagem. Mencionado deste modo, parece, segundo Marques (1993, citado por Zenhas, 2006), que o percurso que separa a escola da família deve ser feito por esta. Para o mesmo:autor:o:mais:correto:será:dier:“escolas:difíceis:de: alcançar”: e: dá: alguns: exemplos: de: dificuldades: causadas: pelas: escolas: e: as: quais: impossibilitam a participação dos pais: reuniões com pais em horários incompatíveis com os seus; informações desinteressantes fornecidas aos pais; o facto de se referirem frequentemente a aspetos negativos acerca dos educandos, entre outras. A mesma opinião tem Afonso (1993, p. 148) ao afirmar que existe entre os professores uma:“tendência:para:considerar:que:o:envolvimento dos pais nos assuntos da escola só é necessário quando existem [problemas] como notas negativas, faltas injustificadas: ou: mau: comportamento”: Montandon: (1991: p: 47): acrescenta: ainda: que: “os: resultados: da: criança: parecem: influenciar: os: contactos: individuais: (): os: professores:propõem:entrevistas:muito:mais:frequentemente:quando:há:problemas”::: Como já vimos anteriormente, os professores, habitualmente interpretam a ausência dos pais como falta de interesse pela vida escolar dos seus educandos. Contudo:e:como:refere:Silva:(2002:p119:citado:por:Zenhas:2006):“a:invisibilidade: de muitos pais dos meios populares na escola não significa necessariamente desinteresse pela escolarização dos filhos, nem ausência de incentivo e possíveis formas de apoio em: casa: ao: contrário: da: usual: interpretação: de: muitos: docentes”: Muitos pais não comparecem na escola, mas envolvem-se fortemente com os filhos em casa, acompanhando o seu percurso escolar e, quando não o fazem, é por não saberem (Zenhas, 2006).
Lourenço (2008) aponta ainda as atitudes e comportamentos dos pais e professores como obstáculo ao desenvolvimento da relação entre a escola e a família. Por um lado, os professores responsabilizam os encarregados de educação pela falta de envolvimento, considerando que, apesar dos seus esforços para os chamar à escola, estes não comparecem manifestando algum desinteresse, sendo os pais dos alunos com problemas de insucesso escolar e/ou de comportamento que mais se alheiam; por outro lado, os encarregados de educação consideram que os professores só os contactam para comparecerem à escola quando existem situações problemáticas. Deste modo e como refere Lourenço (2008), é essencial que a comunicação entre ambos não ocorra somente por aspetos negativos para que os encarregados de educação sintam confiança nos professores e na escola e assim, considerem o diálogo importante bem como a sua intervenção, contribuindo para o sucesso escolar dos seus educandos.
Alguns autores referem outras dificuldades, nomeadamente a ausência de formação conduzindo à falta de preparação dos professores para lidarem com os encarregados de educação, a falta de preparação das famílias e, também, a falta de tempo/disponibilidade de ambos. O diretor de turma, peça fundamental na promoção
do envolvimento escola-família, tem realizado mais funções administrativas e burocráticas que relacionais, não incentivando a participação dos encarregados de educação nem o seu envolvimento. De acordo com Cardoso (2004, citado por Lourenço, 2008), cabe à escola desenvolver estratégias que ajudem os pais/encarregados de educação a integrar-se na vida escolar dos seus educandos bem como estratégias de orientação daqueles, na intervenção no processo educativo. Segundo o mesmo autor, os planos anuais de atividades devem incluir no plano de formação, ações para os pais/encarregados de educação.
As escolas e os professores poderão manifestar características e comportamentos que dificultam o envolvimento e participação dos pais, afastando-os. Nem sempre a linguagem utilizada é fácil de compreender e as reuniões são, muitas vezes, marcadas para horas em que o encarregado de educação se encontra no local de trabalho. Os encontros entre diretores de turma e encarregados de educação, normalmente, cingem-se somente à troca de informações acerca do aluno e os pais são considerados e até colocados numa posição inferior, de dependência. Frequentemente, nos encontros entre diretores de turma e pais, as informações são sobre aspetos negativos do aluno (notas baixas, mau comportamento, etc). Encontramos, ainda, muitos pais de nível socioeconómico baixo, os quais possuem grandes dificuldades em ajudar os seus filhos nas tarefas escolares, quando estes já se encontram no 2º e 3º ciclos. São pais que também possuem um capital cultural mais pobre e que necessitam de orientação para ajudar os seus filhos em casa. Muitos pais possuem, igualmente, expetativas muito baixas relativamente à escola. Estes são, normalmente, os pais de difícil acesso (Matos & Pires, 1994).