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Esta seção abrange a discussão e teste da hipótese de que os pares de turma afetam a propensão ao empreendedorismo. Para tanto, utilizou-se o modelo de regressão Probit em dois estágios (IV Probit). Devido à natureza dos coeficientes Probit, será apresentada a tabela com o Efeito Marginal Médio das variáveis explicativas, auxiliando a interpretação dos coeficientes. A Tabela 14 apresenta os efeitos marginais médios das variáveis explicativas em relação à probabilidade de um indivíduo tornar-se empreendedor.

Tabela 14

Efeito Marginal Médio do Modelo Geral com Dados Agregados de 2001 a 2010

Variáveis Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5

%Empturma 0.00748** 0.00749** 0.00740** 0.00740** 0.00733* (0.00373) (0.00373) (0.00374) (0.00373) (0.00369) Pai 0.185*** 0.184*** 0.185*** 0.185*** 0.186*** (0.0105) (0.0105) (0.0106) (0.0106) (0.0103) Mae 0.160*** 0.160*** 0.160*** 0.160*** 0.162*** (0.0125) (0.0125) (0.0125) (0.0125) (0.0123) Sexo 0.0282*** 0.0289*** 0.0288*** 0.0288*** 0.0289*** (0.00907) (0.00906) (0.00906) (0.00904) (0.00883) Natal -0.00721 -0.00860 -0.00821 -0.00822 -0.00497 (0.0195) (0.0195) (0.0195) (0.0194) (0.0162) Renda 0.00204 0.00206 0.00221 0.00221 0.00400 (0.00314) (0.00315) (0.00314) (0.00311) (0.00306) Frequência -0.00111* -0.00113* -0.00115* -0.00115* -0.00115* (0.000647) (0.000648) (0.000648) (0.000648) (0.000648) Rendimento 0.000750 0.000743 0.000761 0.000758 (0.000499) (0.000499) (0.000499) (0.000497) Noturno -0.00102 0.000551 0.000516 (0.0106) (0.0105) (0.0105) Gestão 0.0148 0.0206 (0.0272) (0.0270) N_filhos 0.0148 (0.00941) Cragg-Donald Wald F 1413.385 1475.334 1479.591 1479.848 1480.229 Observações 10,889 10,889 10,889 10,889 10,889 Nota. Erro-padrão entre parênteses. %Maeempturma e %Paiempturma foram utilizadas como instrumentos. Nota 3: variável dependente Empreendedor (Categórica, sendo atribuído 1 caso o indivíduo tenha se tornado empreendedor nos 5 anos subsequentes à conclusão do curso no IFRN). Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

*** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1

O primeiro modelo incluiu variáveis de controle relacionadas ao background familiar e escolar dos indivíduos. Conforme pode-se observar, a variável de interesse pares empreendedores é estatisticamente significante a 5% e apresenta sinal positivo. Desse modo, o aumento de 1 ponto percentual na fração de empreendedores na turma está associado ao aumento de aproximadamente 0.7 pontos percentuais na probabilidade do indivíduo exercer atividade empreendedora. Este resultado corrobora os achados de Falck et al. (2012), Hacamo and Kleiner (2018), Kacperczyk (2013) e Markussen and Røed (2017).

A literatura destaca alguns elementos através dos quais o contato com proprietários de negócios pode fomentar o comportamento empreendedor. Dentre os quais, pode-se citar: compartilhamento de recursos e informações sobre acesso ao capital e consecução de crédito (Field et al., 2015), desenvolvimento de habilidades

empreendedoras (Kacperczyk, 2013), informações sobre riscos associados à atividade empreendedora (Markussen & Røed, 2017), difusão de oportunidades de negócios (Field et al., 2015) e recompensas não-pecuniárias, como através do status social percebido aumentar a utilidade de um indivíduo tornar-se empreendedor (Gianetti & Simonov, 2009).

As variáveis de controle “pai empreendedor” e “mãe empreendedora” se mostraram estatisticamente significantes a 1%. Ser filho de pai empreendedor está associado a um aumento de aproximadamente 18,5 pontos percentuais na probabilidade de um indivíduo exercer atividade empreendedora. Já se o indivíduo for filho de mãe empreendedora, a probabilidade do mesmo empreender aumenta em aproximadamente 16 pontos percentuais. Esses achados estão em consonância com Chlosta et al. (2012), Criaco et al. (2017), Hoffmann et al. (2015) e Lindquist et al. (2015).

Os principais argumentos para que os pais exerçam influência na decisão de um indivíduo abrir um negócio são: provimento de capitais social e recursos (Dunn & Holtz-Eakin, 2000; Parker, 2009); Transmissão social do Comportamento empreendedor através da herança de valores empreendedores (Colombier & Masclet, 2008; Wyrwich, 2015); Heranças genéticas (Nicolaou et al., 2008; Nicolaou & Shane, 2009, 2010) e, por fim, pelo fato dos pais desempenharem papeis de modelos inspiracionais para seus filhos (Chlosta et al., 2012; Hoffmann et al., 2015; Laspita et al., 2012; Lindquist et al., 2015).

O fato do pai empreendedor exercer uma influência maior que a mãe empreendedora também foi discutido por Chlosta et al. (2012). Os referidos autores encontraram que os efeitos são positivos e estatisticamente significantes a 5%, no caso do pai ser empreendedor, com o parâmetro variando entre 0,337 e 0,394. Já se considerado somente a mãe como sendo empreendedora, tem-se dois dos quatro modelos com resultados estatisticamente significantes a 10%. Os parâmetros variaram entre 0,214 e 0,334. Os autores ressaltam que tais conclusões podem variar de acordo com o país e região que o estudo seja replicado, haja vista que em algumas sociedades o papel dos gêneros diverge consideravelmente, o que poderia levar a resultados distintos.

O termo de interação entre pai e mãe empreendedores foi testado na análise de sensibilidade, mas não apresentou significância estatística ou magnitude nos parâmetros, sendo desconsiderado na análise do modelo geral, divergindo dos resultados encontrados por Chlosta et al. (2012).

A variável sexo também apresentou significância estatística, mas com o parâmetro apresentando um baixo valor. Desse modo, a probabilidade de um indivíduo do sexo masculino empreender é de aproximadamente 2,8 pontos percentuais maior a das mulheres.

As principais razões identificadas na literatura para a menor propensão das mulheres ao empreendedorismo são as associações do estereótipo masculino à atividade empreendedora (Gupta et al., 2009; Thébaud, 2010), medo de falhar (Minniti & Nardone, 2007; Shinnar et al., 2012), autopercepção de capacidade de empreender (Minniti & Nardone, 2007; Shinnar et al., 2012), avaliação de oportunidades (Humbert & Drew, 2010; Minniti & Nardone, 2007) e, por fim, maior aversão ao risco por parte das mulheres (Shinnar et al., 2012).

O fato do efeito do sexo ser relativamente mais baixo do que o encontrado nos estudos citados pode ser explicado pelo aumento da fração de mulheres envolvidas no empreendedorismo. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) (https://www.gemconsortium.org/, recuperado em 03 de julho, 2018) indicam que o Brasil é um dos únicos 3 países da série histórica no qual o número de mulheres empreendedoras é maior que o número de homens. Ao analisar-se a série histórica do GEM no período abrangido na amostra do IFRN, a proporção de homens empreendedores é levemente superior ao de mulheres empreendedoras.

A variável coeficiente de rendimento – utilizada como proxy de aptidão intelectual – também apresentou parâmetro estatisticamente significante. Entretanto, o valor do parâmetro apresentou baixo impacto. O aumento de 10 pontos no coeficiente de rendimento está associado ao aumento de 0,8 pontos percentuais na propensão a empreender.

As variáveis número de filhos, renda familiar, percentual de frequência, turno do curso e cidade do campus não apresentaram significância estatística.

Para estimar se a variável instrumentada é endógena, foi realizado o teste de exogeneidade de Wald. A hipótese nula do teste é de que variável instrumentada é exógena. Caso a hipótese nula não seja rejeitada, não há evidências suficientes na amostra para a utilização de variáveis instrumentais, e desse modo, deve ser utilizado modelo Probit (Angrist & Pischke, 2008). Conforme observado na Tabela 7, rejeita-se a hipótese nula de exogeneidade nos cinco modelos, utilizando-se assim o modelo de regressão Probit em dois estágios (IV Probit).

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