Outro aspecto importante que deve ser analisado no processo de mudança nas relações de trabalho nos últimos séculos está ligado à forma como a classe trabalhadora se organiza e se reconhece enquanto classe e como age de forma a alterar o seu estado de submissão à classe capitalista. Para Braverman (1980) esse processo de autorreconhecimento sofreu um grande golpe com o desenvolvimento das forças produtivas.
Por um lado a diversificação dos postos de trabalho e a mudança nas plantas produtivas promoveram um processo de desconcentração da força de trabalho. Os trabalhadores não se concentram mais embaixo de um mesmo teto, e as atividades parceladas e cada vez mais desconectadas entre si complicam o processo do trabalhador de reconhecer no colega de trabalho uma unidade de classe como ocorria com maior facilidade na fábrica fordista/taylorista.
Por outro lado, os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia aplicada à produção levaram a um crescimento espantoso do poder de consumo da classe trabalhadora. Ainda que a maior parte do excedente fosse apropriada pelo capitalista através da extração da mais-valia, a transferência de uma parte, ainda que pequena desse incremento aos salários pela pressão dos sindicatos e o barateamento do produto final, gerou um mercado de consumo de massa em proporções até então desconhecidas pela classe trabalhadora. Esse processo criou a ilusão de inclusão da mesma nos ganhos gerados pelo desenvolvimento tecnológico. Essa inclusão, aliás, se mostrou necessária ao desenvolvimento do capital, uma vez que o aumento da oferta de bens deve ser acompanhado por um aumento da demanda sob a pena de uma crise de superprodução.
Assim, segundo Braverman (1980), a inclusão da classe operária no mercado de consumo de massa e o distanciamento criado pela diversificação do trabalho e dos trabalhadores significaram um arrefecimento da luta de classe. Para o autor, esse movimento de luta passou de uma posição mais combativa do sistema para uma posição de barganha por melhor distribuição do crescimento promovido pelos aumentos de produtividade do trabalho.
O extraordinário desenvolvimento da tecnologia científica, da produtividade do trabalho e, em certo grau, dos níveis ordinários de consumo da classe trabalhadora durante este século, tiveram, como não raro se observou, um profundo efeito sobre os movimentos trabalhistas em geral. A classe trabalhadora sindicalizada, intimidada pelo grau e complexidade da produção capitalista e enfraquecida no seu ímpeto revolucionário original pelos ganhos proporcionados pelo rápido incremento da produtividade, perdeu cada vez mais ânimo e ambição de arrancar o controle das mãos capitalistas, e tendeu mais a barganhar por participação do trabalho no produto. (BRAVERMAN, 1980, p. 21).
Desse modo as formas de organização dos trabalhadores são cooptadas pelo capitalismo e pelos impressionantes ganhos de produtividade que a revolução técnico- científica aplicada à produção trouxe no último século. Em vez do combate pelo controle das forças produtivas os sindicados se conformaram em barganhar por melhor distribuição desse excedente, de certo modo abrindo mão de tomar o controle da produção.
Além disso, segundo Harvey,
de organização da classe trabalhadora (como os sindicatos), por exemplo, dependiam bastante do acúmulo de trabalhadores na fábrica para serem viáveis, sendo peculiarmente difícil ter acesso aos sistemas de trabalho familiares e domésticos. [...] A luta contra a exploração capitalista na fábrica é bem diferente da luta contra um pai ou um tio que organiza o trabalho familiar num esquema de exploração altamente disciplinado e competitivo que p.145-146).
No entanto as conquistas da classe operária na distribuição da riqueza gerada pelo capital não é suficiente para proporcionar o fim da insatisfação que é intrínsecaao modo de produção capitalista e que tem a sua gênese na alienação do trabalho. Apesar de possuir mais conforto e poder usufruir mais plenamente de parte do mercado de consumo de massa, o trabalhador ainda se encontra em uma situação em que o seu trabalho permanece expropriado de sentido. O trabalho ainda é força de trabalho com todas as suas limitações. Não proporciona ao trabalhador a satisfação e a plenitude do trabalho enquanto agente emancipador do homem, e segue como algo penoso e cada vez mais sem sentido em si mesmo. Como coloca Braverman:
A insatisfação centrava-se não tanto na incapacidade do capitalismo de proporcionar trabalho, mas quanto ao tipo de trabalho que ele proporciona; não quanto ao colapso de seus processos produtivos, mas quanto a seus espantosos efeitos nesses processos, no momento de seu devia a que as pressões da miséria, desemprego e escassez tenham sido eliminadas. Longe disso; e pelo contrário, porque elas eram suplantadas por uma insatisfação que não pode ser contornada oferecendo-se mais prosperidade e empregos, pois
precisamente são essas coisas que em primeiro lugar originam a insatisfação. (BRAVERMAN, 1980, p. 23-24).
Esse movimento, segundo Harvey, significa uma nova estratégia de controle e redução do poder de pressão da classe trabalhadora organizada. As várias modalidades de trabalho, que deram origem a vários tipos de trabalhadores são utilizados como forma de contrapeso ao poder do trabalhador organizado. Segundo o autor isso ocorre devido:
O modo como forças intelectuais e novas tecnologias são empregadas para pôr por terra o poder organizado da classe trabalhadora, os recursos dos capitalistas na tentativa de promover a competição entre os trabalhadores, ao mesmo tempo que exigem flexibilidade de disposição, de localização e de abordagem de tarefas. (HARVEY, 2004, p.175).
Todos estes fatores apresentados nessa seção nos levam à conclusão de que o desenvolvimento tecnológico e o progressivo processo de desenvolvimento das forças produtivas, apesar de propiciar ganhos importantes para o capital, não conseguem promover o desenvolvimento da classe trabalhadora. À medida que o capital consegue, pelo aumento da produtividade do trabalho, ampliar a extração de mais valia do processo produtivo, ele concentra esses ganhos em suas mãos, não compartilhando seu crescimento com a classe trabalhadora.
Ao contrário, o capital cria mecanismos de cooptação e envolvimento do trabalhador no processo de ampliação de seus ganhos, à medida que o desenvolvimento tecnológico promove o crescimento do desemprego estrutural. A classe trabalhadora é colocada contra a parede, não possuindo alternativa a não ser se render às novas formas de trabalho que surgem com a acumulação flexível do capital. Formas de trabalho cada vez mais precarizadas como veremos na próxima seção.