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N°4 GRILLE DE LECTURE

Dans le document Quelle conception des politiques publiques (Page 81-86)

No início do século XIX a região onde se localiza o município de Caçador era tradicionalmente povoada pelas etnias indígenas Xoclengs e Kaigangs, que viviam às margens do Rio do Peixe. O meio de sobrevivência era, basicamente, caça, pesca, coleta de frutos e plantio de algumas culturas como o milho e a mandioca.

Os novos habitantes que sucederam a essas etnias foram os caboclos48, fruto da miscigenação de desbravadores luso-brasileiros, índios e negros. Esses viviam de uma agricultura voltada principalmente para a subsistência e o corte da erva- mate, detendo a posse da terra, sem preocupação com o direito de propriedade.

Parte da atual mesorregião Oeste Catarinense e o Sudoeste do Paraná foi alvo de disputa, do início ao fim do século XIX, entre Brasil e Argentina. Essa demanda só findou com o arbítrio do Presidente Grover Cleveland, dos Estados Unidos da América que, em 1895, deu ganho de causa ao Brasil.

Paralelamente a essa contenda havia, desde 1854, uma disputa entre as províncias do Paraná e Santa Catarina por uma grande extensão de terras, assim definida por Thomé (1992, p. 62):

48 Neste trabalho a palavra “caboclo” se refere ao habitante pobre do meio rural, na região

considerada, a maioria das vezes caracterizado como posseiro. Concordando com Machado (2004, p. 48), não necessariamente existe uma conotação étnica na palavra, embora “frequentemente o caboclo era mestiço, muitas vezes negro”.

O Paraná pleiteava as terras da margem direita dos rios Marombas e Canoas, desde a região de Canoinhas ao Norte, até o Rio Uruguai ao Sul, incluindo Curitibanos e Campos Novos. E Santa Catarina não deixava por menos, pleiteando as terras da margem esquerda dos rios Negro e Iguaçu, nelas incluindo os campos de Palmas e todo sudoeste do Paraná até a foz do Rio Santo Antônio no Iguaçu.

A região ficou conhecida como território do Contestado devido à disputa de terras, agravada com a definição da fronteira internacional com a Argentina, que aumentou o território disputado. O desfecho final da contenda ocorreu no ano de 1916, após um acordo entre os dois estados e a divisão das áreas contestadas.

Antes disso, entre 1906 e 1910, foram implantados 380 km da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG) em seu trecho de União da Vitória (PR) até o Rio Uruguai, margeando todo o vale do Rio do Peixe. A empresa norte americana responsável pela sua construção, a Brazil Railway Company, recebeu do governo republicano a concessão e a autorização para colonizar 15 km de terras ao longo de cada lado das margens da ferrovia.

Referida empresa, ao iniciar o processo de demarcação e colonização das terras recebidas em concessão, não respeitou as posses dos caboclos e os expulsou de “suas terras”, gerando grande descontentamento e revolta. Organizado por lideranças religiosas, o conflito, que ficou conhecido como “Guerra do Contestado” (1912-1916)49, deu início a mais cruel e sangrenta guerra pela disputa

de terras no Brasil.

Thomé (1986, p. 7) assim definiu esse conflito: “Um movimento messiânico de grandes proporções, uma luta pelos direitos humanos, uma disputa pela posse de terras, uma questão de limites interestaduais, e uma competição econômica pela exploração das riquezas naturais”. A Guerra Santa, como ficou conhecida, abrangeu o território Contestado e, ainda, as regiões do Planalto de Lages, do Planalto Norte e do Vale do Rio do Peixe.

Após a guerra, a empresa construtora da ferrovia iniciou o processo de colonização propriamente dito, passando a vender as terras sob seu domínio para outras companhias colonizadoras. A partir daí, intensificou-se a chegada dos imigrantes, principalmente de origem italiana e alemã, além de poloneses, árabes e

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Inúmeros autores dedicaram-se ao estudo desse conflito armado, que além da causa citada envolveu diversas outras causas e atores sociais. Entre os autores que tratam do tema existem aqueles que ousaram contar a história dos vencidos e não a dos vencedores como é de costume. Neste sentido destacam-se neste trabalho as obras de Auras (1984) e Machado (2004).

sírio-libaneses. Vieram, principalmente, das velhas colônias do Rio Grande do Sul, impulsionados pela escassez de terras nas colônias de origem e atraídos pela atividade madeireira e pela possibilidade de adquirirem terras na nova região. Os colonos de origem européia, além de constituírem o público preferido das empresas colonizadoras, dispunham, muitas vezes, de algum capital para a compra da terra. A partir dessa colonização, iniciou-se na região um processo de economia voltado para o mercado capitalista, com a conseqüente valorização das terras.

Os caboclos remanescentes da Guerra do Contestado continuaram sendo rejeitados e discriminados nesse processo de colonização, eis que não dispunham de recursos financeiros para adquirir as terras que habitavam e não estavam adaptados ao modo capitalista de produção e da propriedade privada. Desse modo, eles eram obrigados a procurar outras terras mais distantes ou se subordinarem aos colonos de origem européia. Nesse sentido, Paulilo (1998) afirma que os caboclos ao serem desalojados de suas posses formaram o primeiro contingente de sem-terra no estado.

No início do processo de colonização, devido ao isolamento em relação aos povoados existentes, os colonos usavam a madeira da mata remanescente para construção de benfeitorias e procuravam diversificar suas atividades para a manutenção da família. Dentre essas atividades podem ser citadas: a produção de milho e feijão; a extração da erva mate; a criação de animais, principalmente aves, suínos e gado misto, além da transformação caseira de alimentos.

De acordo com Thomé (1993, p. 39), até 1916, o local onde atualmente se localiza a cidade de Caçador “era o ponto de convergência dos limites de quatro municípios: Palmas e União da Vitória (Paraná) e Curitibanos e Campos Novos (Santa Catarina)”. Além disso, nessa região existiam grandes propriedades cujos limites foram respeitados no processo de demarcação das terras da EFSPRG, dificultando inicialmente o processo de colonização. Referidas propriedades provinham de títulos coloniais expedidos pelos estados do Paraná e de Santa Catarina, anteriores à construção da ferrovia. Mesmo assim, foram demarcadas as áreas remanescentes que, após expulsão dos “intrusos” (caboclos), deram origem à Colônia Rio Caçador em 1918.

A região de Caçador era coberta por florestas de araucária e de outras madeiras nobres. De acordo com Thomé (1995, p. 105), “Caçador cresceu na medida da expansão da indústria da madeira, desde 1918, quando se instalou a

primeira serraria, e passou por diversos estágios de riqueza econômica, conforme variava a produção da floresta da araucária”.

No início da colonização a Vila de Caçador apresentou um crescimento mais lento, tendo em vista que as famílias foram residir em seus lotes de terra no interior das colônias. Essas famílias, em sua maioria, eram de agricultores de origem italiana. A partir do ano de 1924 o povoado vivenciou um crescimento mais acelerado, juntamente com a indústria madeireira, culminando com a criação do município de Caçador, em 1934. O território desse município foi o resultado do desmembramento dos municípios de Porto União, Joaçaba, Curitibanos e Campos Novos.

Após a criação do município houve uma diminuição no ritmo de seu crescimento devido, principalmente, à política nacionalista do Presidente Getúlio Vargas e ao advento da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, a população de origem italiana e alemã sofreu certa discriminação por parte das autoridades brasileiras. Essas autoridades olhavam com desconfiança aquela população devido à posição contrária que o Brasil adotou contra o fascismo e o nazismo, tanto que foi proibida a prática do idioma italiano e alemão. Além disso, houve uma racionalização dos óleos e combustíveis, dificultando as atividades industriais naquela época.

Logo após a Segunda Guerra, o município retomou o crescimento, sempre ligado à indústria madeireira. Em 1949, segundo Thomé (1993, p. 55), o município de Caçador era considerado “o maior produtor de pinho da América do Sul”. A Estação Ferroviária de Rio Caçador ocupou lugar de destaque entre as demais estações da EFSPRG e foi considerada uma das mais importantes do estado. O período pós-guerra até 1964 marcou época na exploração madeireira, não só nesse município, mas em todo o estado de Santa Catarina.

Na segunda metade da década de 1960 a escassez da araucária provocou o declínio da produção madeireira. Nessa época houve importantes incentivos fiscais do governo federal para o reflorestamento, que possibilitaram a recomposição das reservas florestais do município e adjacências, principalmente, com a plantação de pinus (Pinus taeda e P. elliottii). Foram essas reservas que continuaram a sustentar a indústria da madeira no município (THOMÉ, 1995).

Observa-se que ainda hoje o plantio do pinus na região continua em franca expansão, sendo que a única reserva significativa de araucária está inserida na

Floresta Nacional do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), localizada no distrito de Taquara Verde.

Além das atividades já citadas, algumas outras tiveram importância no processo de formação do atual município de Caçador. Entre elas destacam-se: a vitivinicultura, incluindo a organização de uma cooperativa ligada ao setor; a Viti- Vinícula Caçador S.A., também conhecida como “Cantina”; a produção de trigo, batata, erva mate; a construção de moinhos industriais de cereais e outras indústrias de transformação.

Mais recentemente (década de 1990) verificou-se no município uma intensificação das atividades de fruticultura e olericultura, com destaque para as culturas de pêssego, tomate, pimentão e cebola.

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