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2.5 Apache Spark

2.5.3 GraphX

Conforme já anunciado antes, nesta seção, retomaremos alguns trabalhos que têm como foco de análise as formas pronominais de complemento verbal, na diacronia do PB. Nesse sentido, resenhamos, aqui, os estudos de Cyrino e Brito (2000), Sales (2007), Lopes e Cavalcante (2011), Coelho e Nunes de Souza (2013), Yamauchi (2013), Oliveira e Souza (2013), Oliveira (2014), Souza (2014), Araújo (2014), Nunes de Souza (2015) e Silva (2017).

Cyrino e Brito (2000) observaram o quadro dos pronomes pessoais no que diz respeito à perda do uso tu/te e a aquisição do você/te. As autoras coletaram em peças de teatro exemplos de pronomes de 2ª pessoa em função de objeto até completar 100 dados para cada período. Os períodos foram divididos em: 1) comédias de Martins Pena (1833-1842); 2) peça de Graça Aranha (1911); 3) peças de Oswald de Andrade (1933-1937); 4) teatro de Gianfrancesco Guarnieri (2ª metade do século XX). Nesse corpus, as autoras identificaram uma variedade de ocorrências de pronomes objeto, com referência a 2P. Ilustramos, no quadro 5, a seguir, apenas as ocorrências referente à P2.

Quadro 5: ocorrências referente à P2 coletadas por Cyrino e Brito (2000).

Período Te ti lhe o/a você

1º- 1833-1842 44 1 37 12 3

2º- 1911 85 12 2 1 -

3º- 1933-1937 57 2 18 8 11 4º- 2ª metade do séc. XX 58 1 1 1 24

Fonte: adaptado da tabela 2, em CYRINO; BRITO, 2000.

Como exposto no quadro acima, o pronome te mostrou-se bastante produtivo em todos os períodos analisados. Como ilustram os exemplos, a seguir, retirados de Cyrino e Brito (2000, p.3).

a) JOSÉ – Minha Aninha, não chores (...) Você sabe que eu agora estou pobre como Jó (...) . Nós nos casaremos na freguesia, sem que teu pai o saiba (...).

ANINHA – mas como? Sem dinheiro?

JOSÉ – Não te dê isso cuidado: assentarei praça nos Permanentes. (Pena,s/d:40) b) Para te dar uma ilha. Uma ilha só para você.(Andrade, 1976:77)

c) Você não percebe que não te vejo mais... (Guarnieri, 1988:35)

Já a forma pronominal lhe foi o segundo pronome mais recorrente, no estudo de Cyrino e Brito (2000), registrando maiores usos no primeiro e no terceiro período, ou seja, as primeiras metades dos séculos XIX e XX. O pronome você teve maior produtividade no terceiro e quarto período, 11 e 24 ocorrências, respectivamente. As formas pronominais ti e o/a registraram maior recorrência de uso nos períodos segundo (ti – 12 ocorrências), primeiro (o/a – 12 ocorrências) e terceiro (o/a – 8 ocorrências). Com relação aos pronomes na posição de sujeito, Cyrino e Brito (2000) observaram que os dados do segundo período restringiram- se, na maioria, ao uso do tu (97 ocorrências).

Na segunda metade do século XX, perceberam um uso acentuado do você (83 ocorrências), em contrapartida houve um decréscimo do uso do tu (10 ocorrências). As autoras destacaram que no quarto período as ocorrências de tu, na posição de sujeito, foram poucas e estavam acompanhadas de formas verbais em terceira pessoa. Elas ressaltaram, também, que das 58 ocorrências de te, nesse período, 10 associam-se não mais à forma canônica do tu, mas a sua nova realização com verbo na 3ª pessoa, e 48 associam-se à forma de tratamento você. Cyrino e Brito, ancoradas em Monteiro (1994), defendem a ideia de que o uso do você com o pronome objeto te dá ares de maior aproximação ou informalidade ao discurso, ao passo que as construções você/lhe parecem ser mais formais. Em outras palavras, elas acreditam que a seleção de forma pronominais estão condicionadas muito mais aos tipos de relação e às inferências intersubjetivas que a um conjunto de regras de estrutura sintática. Cyrino e Brito (2000, p. 6) admitiram que, além dos “fatores pragmáticos, há regras estruturais que submetem o uso desses pronomes pessoais” (tu/te X você/te). Elas citaram como exemplo as construções “‘Eu te amo você’ ou ‘Eu te falei pra você’, em que o clítico

parece ser uma manifestação de concordância”. As autoras concluíram sua análise afirmando que

Antes de ir à escola e ‘aprender’ que te se usa com tu, como determina a uniformidade de tratamento, a criança diz a sua mãe: ‘cê me põe lá? (...) eu te arrumo’. Há muito a ser pesquisado quanto ao uso de VOCÊ/TE, já que o uso de TU/TE só ouviremos, em PB atual, em restritas regiões do país e se tiver sido ‘aprendido’ na escola pelo falante. ‘Uniformidade de tratamento’, portanto, só por imposição da escola [...]. (CYRINO; BRITO, 2000, p. 6, grifos das autoras).

Sales (2007), com base em escritos baianos (bilhete, poema, dedicatória em ‘santinhos’, cartão de aniversário, relato pessoal em folha de livro de oração, dedicatória em fotografias e carta pessoal) produzidos na década de 40 do século XX, analisou a realização dos pronomes pessoais. Por questões de afinidade com o fenômeno linguístico observado em nossa pesquisa, nesta ocasião retomaremos apenas os resultados relacionados à P2.

Os informantes da amostra analisada por Sales (2007) tiveram pouco acesso aos bancos escolares, a maioria das famílias trabalhavam nas lavouras. Do total de 48 correspondências, 18 foram escritas de mulheres para homens, 12 de mulheres para mulheres, 15 de homens para mulheres e 3 de homens para homens. Nas correspondências de mulheres para homens, observou-se: i) maior produtividade de você tanto nulo (em 15 manuscritos de um total de 48) quanto realizado (9/48), ii) baixa recorrências da forma tu presente, apenas, em 3 manuscritos de um total de 48. A pesquisadora acredita que essa larga adesão das informantes pela forma você parece apontar para uma inovação feminina, uma vez que a forma pronominal preferida pelas mulheres é inovadora quando comparada ao tu.

No tocante às correspondências escritas por mulheres para mulheres, observou-se que o você nulo (em 4 manuscritos) é mais produtivo que o tu nulo (em 1 manuscrito). Para Sales (2007), isso parece indicar que o você, também, detém um grau de familiaridade como o tu.

Nas correspondências produzidas por informantes do sexo masculino e endereçadas a destinatários do sexo feminino, percebeu-se uma maior recorrência do você nulo (presente em 13 manuscritos dos 48 analisados), já o tu nulo mostrou-se menos produtivo sendo encontrado em apenas 3 manuscritos. Porém, quando se tratava da forma lexicalmente realizada observou-se uma preferência para o tu (9 manuscritos) com a forma verbal flexionada na terceira pessoa do singular. Já quando as cartas eram escritas por remetentes do sexo masculino e endereçadas a destinatário do mesmo sexo observou–se uma pequena variação no uso dos pronomes tu/você nulos, a forma inovadora você foi identificada em dois manuscritos e o conservador tu em apenas um.

Para uma análise mais detalhada, Sales (2007) dividiu o corpus em dois grupos: i) documentos de autoria dos informantes (cartas pessoais, bilhetes, dedicatórias e relato pessoal) e ii) documentos com autoria parcial dos informantes, fragmentos do texto escrito em versos (poemas, cartas com poesias, trechos de poemas em bilhetes). Nessa perspectiva, cabe ressaltar que, por delimitações metodológicas da nossa pesquisa, iremos retomar somente os resultados referentes ao uso dos pronomes objetos de P2 nos documentos de autoria própria analisados por Sales (2007).

Sales (2007) identificou, nos documentos de autoria própria, as seguintes formas pronominais, na função acusativa: te (39/70 - 55.71%) e lhe(s) (17/70 - 24.29%). Já na função dativa houve ocorrência das formas te/ti (36/93 - 38.71%) e lhe(s) (38/93 – 40.86%).

No tocante às ocorrências com a forma lhe(s), a autora não menciona, em seu texto, se essas são referentes apenas a P2 ou se referem à segunda pessoa (singular e plural) e terceira pessoa do singular, ao que nos parece houve um amalgama entre os dados de 2ª e 3ª do singular e plural, uma vez que os dados são apresentados como “ as ocorrências de lhe(s)”, (cf. SALES, 2007, p. 156). Sales defende, com base em outros trabalhos, que o uso do lhe na função acusativa já faz parte da fala de brasileiros em períodos anteriores ao século XX e que esse uso se estendeu, confirmando que os informantes já estiveram expostos ao referido dado linguístico. Dito em outras palavras, Sales advoga que os autores dos documentos analisados empregaram um dado linguístico próprio de sua gramática. A pesquisadora acrescenta, ainda, que essa ocorrência do lhe como acusativo trata-se de uma mudança encaixada favorecida a partir da inserção do você no quadro pronominal do PB. Sales (2007), ancorada em outros estudos, acredita que o lhe assumiu um comportamento sintático semelhante ao te, podendo atuar tanto na função dativa como acusativa. Percebe-se ainda uma particularidade quanto à escolha dessas formas pronominais na referência a segunda pessoa: te – mais produtiva no tratamento informal; lhe – recurso mais utilizado na possibilidade de esquiva à informalidade. A pesquisadora observou que o uso do você não desvalorizou o te como acusativo em relação ao lhe, mas ambos coocorrem nos mesmos ambientes morfossintáticos. No que concerne ao uso das formas pronominais de P2 na função dativa, Sales (2007) identificou que os clíticos te e lhe foram bastante produtivos, seja com tu ou você na função de sujeito. Nas palavras de Sales (2007, p.162), “o lhe é usado para referenciar tanto tu quanto você, assim como te também é uma forma que não se restringe a referenciar apenas a segunda pessoa.” No que diz respeito aos complementos preposicionados, a pesquisadora observou que o pronome ti mostrou-se bem produtivo com 53.65% (22 ocorrências de um total de 41) na amostra dos documentos de autoria própria. Sales (2007) identificou, ainda, nos documentos analisados, ocorrências dos pronomes você (7/41 - 17.07%) e tu (1/41- 2.44%) na função de complemento

oblíquo. Essas evidências opõem-se à tradição gramatical que preconiza o uso do pronome tu apenas na função de sujeito, não podendo ser regido por preposição.

Outro trabalho que observa as realizações dos pronomes objetos na diacronia do PB foi realizado por Lopes e Cavalcante (2011). As pesquisadoras desenvolveram uma investigação, com base em cartas pessoais escritas no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, com o intuito de observar as consequências da inserção do você. As autoras fizeram a correlação entre o avanço dessa nova forma na posição de sujeito e a retenção do clítico te como complemento acusativo e dativo. Os resultados encontrados mostram as consequências da implementação da forma você, pois ao passo que a forma você vai ganhando terreno, formas alternantes de acusativo e dativo aparecem, além do clítico te. Lopes e Cavalcante identificaram que, quando há maior índice de mistura de tratamento tu/você aumentam os índices do dativo nulo, e depois, quando o sistema se estabelece com a forma você na posição de sujeito, o te retoma sua supremacia tanto como acusativo quanto como dativo. O clítico lhe mostrou-se mais frequente nas cartas mais antigas de 1870. Na década de 1930, as pesquisadoras perceberam uma queda nas frequências de uso da forma a você que parece perder espaço para a estratégia mais inovadora para você.

Correlacionando as formas tu/você às de complemento verbal, Lopes e Cavalcante (2011) observaram o seguinte quadro: i) nas situações de uso exclusivo de tu, na posição de sujeito, a forma de acusativo e dativo mais frequente é o clítico te; ii) em uso exclusivo do você, a forma te passa a ser a forma preferida para o dativo e iii) quando ocorre mescla tu ~você, surge uma forma de dativo que tanto pode estar relacionada a tu como a você, a variante nula.

Coelho e Nunes de Souza (2013) desenvolveram um estudo com base em missivas catarinenses dos séculos XIX e XX. Assim como Lopes e Cavalcante (2011), as autoras procuram correlacionar as formas variantes de P2 (tu/você) na posição de sujeito às formas de complemento verbal (acusativo, dativo e oblíquo) e constataram que no século XIX há uso categórico das formas de ‘tu’ nas posições de sujeito e de complemento, com o predomínio do sujeito nulo. A forma acusativa, com uso categórico, é o te; como dativo esse pronome varia um pouco com para ti, a ti e sintagmas preposicionados de tu, corroborando com os estudos desenvolvidos anteriormente. Nas cartas escritas no século XX, Coelho e Nunes de Souza (2013) observaram que os remetentes de uso exclusivo de tu optaram por complementos desse mesmo pronome, por outro lado os remetentes de uso exclusivo de você elegeram as formas de complemento também associadas ao você, ao passo que os remetentes de uso de sujeito misto (tu/você) utilizaram as formas de complemento dos dois paradigmas, com o predomínio das formas de tu. Esses resultados parecem comprovar a produtividade do te, independente da

forma pronominal utilizada na posição de sujeito, ou seja, o clítico te mostrou-se produtivo tanto nas construções com o pronome sujeito tu quanto com você.

Yamauchi (2013) investigou as realizações pronominais do OI de 3ª pessoa, na história recente do PB, tomando por base um conjunto de 17 peças teatrais dos séculos XIX e XX. Vale lembrar que, conforme enfatizado anteriormente, o foco da nossa pesquisa é a realização dos complementos verbais de 2P, por essa razão serão retomados desse trabalho, apenas, os resultados referentes à realização do OI de 2P.

Em sua análise, Yamauchi (2013) coletou 873 ocorrências do OI de segunda pessoa. Os pronomes clíticos (lhe e te) e nulo obtiveram o mesmo número de ocorrências, 422 (48%). O pronome forte (prep.+ pronome - para/a você), por sua vez, registrou apenas 29 ocorrências (4%). A linguista percebeu que a depender do tipo de verbo houve uma motivação para a realização de alguma das variantes, ou seja, verbos de transferência material favoreceram o uso dos clíticos, verbos de transferência verbal favoreceram a realização da forma nula, já a variante preposicionada teve maior frequência de uso registrada nos contextos com verbos de criação. No trabalho desenvolvido por Yamauchi (2013) também foram controladas as ocorrências das preposições a/para nas construções do OI como introdutora dos pronomes fortes. Após a análise percebeu-se que a preposição a foi a mais recorrente na amostra com 57% (35/61).

No que concerne aos fatores extralinguísticos, a autora observou a distribuição das três variantes do OI (clítico, pronome forte e nulo) ao longo dos séculos. Após a análise da amostra, identificou-se que há um alto índice de uso do clítico na primeira e segunda metade do século XIX, com porcentagem de 66%; ao passo que as outras duas variantes foram mais recorrentes no final do século XX. A variante nula registrou percentual de 68% (221/325) na segunda metade do século XX e no inicio do século XIX teve um percentual de 32% (95/325), já a variante pronome forte teve seu ápice registrado na última década do século XX, com percentagem de 14% (43/325). Com isso, Yamauchi (2013) constatou um decréscimo no uso do clítico e um crescimento no uso da variante nula; já a variante pronome forte teve um crescimento no seu uso no final do século XX, algo que, para a pesquisadora, parece sinalizar uma tendência para o próximo século.

Com relação ao gênero das peças teatrais, a linguista identificou que o clítico é mais produtivo nas peças de comédia, a variante nula mostrou-se mais recorrente nas peças dramáticas e o pronome forte mostrou-se incipiente nos dois gêneros. No tocante à classe social dos personagens, percebeu-se que entre as personagens populares há um alto índice de nulo (55%-339/653), seguido pela variante clítico com 38% (237/653) e a variante pronome forte teve apenas 7% (39/615), já entre os personagens não populares o clítico teve

percentagem de 55% (357/653), o nulo de 42% (274/653) e o pronome forte de 3% (22/653). Quanto ao sexo dos personagens, Yamauchi (2013) observou que personagens do sexo masculino fizeram mais uso da variante clítico, seguida da variante nula e do pronome forte, já as personagens do sexo feminino preferiram a variante nula, seguida do clítico e do pronome forte. A pesquisadora acredita que esses dados da variante nula parecem apontar para o fato das mulheres serem menos conservadoras. Considerando o cruzamento das variantes década e fator clítico, em especial o te, observou-se que, no início do século XIX, esse teve uma presença bem marcante na amostra com 57/140 e no final do século XX apenas 32 de um total de 140 ocorrências. No cruzamento do fator verbos com os clíticos, percebeu- se que o te é mais produtivo nas construções com verbos de transferência verbal, 81/330. Yamauchi (2013) confirma a migração do lhe de 3ª para 2ª pessoa, de 454 ocorrências do clítico lhe, 282 são referentes à segunda pessoa. A autora confirma ainda que, assim como já defendido por estudos anteriores, a realização do lhe como referente de 3ª pessoa parece está atrelado a eventos de comunicação de “[+ letramento]”.

Em suma, Yamauchi (2013), após a análise das peças, a reconheceu que: i) os clíticos dativos parecem ser a variante menos produtiva, ao passo que as variantes nula e pronome forte introduzidas pelas preposições passaram a ser mais frequentes na amostra; ii) a preposição para apresentou um crescimento em detrimento da preposição a; iii) ocorre a migração do clítico lhe (3ª pessoa) para 2ª pessoa e esse coocorre com o te.

Oliveira e Souza (2013) estudaram a variação entre as formas de tu/você nas posições de complemento verbal acusativo e dativo. Analisaram o comportamento do paradigma de tu e de você e os fatores linguísticos e extralinguísticos que influenciam o uso dessas variantes. Eles utilizaram, como material empírico dessa análise, cartas pessoais escritas, no final do século XIX e início do XX, por cariocas ilustres e não ilustres. Essa amostra é composta por cartas trocadas entre membros da família Cruz, da família Pedreira Ferraz Magalhães e entre um casal de noivos (Jayme e Maria).

Oliveira e Souza (2013) optaram por correlacionar as variantes de acusativo e dativo ao fator extralinguístico categoria social, essa escolha foi justificada pelo fato da sociedade brasileira, nos séculos XIX e XX, apresentar uma estratificação social diferente da atualidade. Todavia, é perceptível a existência de alguma diferenciação social regulada em fatores econômicos, políticos e socioculturais. Logo, por meio da pesquisa biográfica desses informantes cariocas foi possível distribuí-los em categorias sociais distintas.

Oliveira e Souza (2013) selecionaram como grupos de fatores a serem correlacionados às variantes de acusativo e dativo a estratégia pronominal adotada na carta do remetente na posição de sujeito e a categoria social à qual o informante pertencia. O objetivo

de controlar o pronome utilizado na posição de sujeito foi verificar se essa forma pronominal influencia de alguma maneira as escolhas das estratégias pronominais na posição de complemento verbal, ou seja, verificar se as formas de complemento acusativo e dativo acompanham o mesmo paradigma dos pronomes usados na posição de sujeito. No que diz respeito ao fator extralinguístico, a categoria social, os autores resolvem, com base em informações biográficas e marcas linguísticas dos informantes, subdividir a amostra de cartas em três subconjuntos, com a seguinte distribuição: a família Cruz, em suas missivas, deixam evidências que seus membros estavam inseridos em uma categoria social elevada, enquanto a família Pedreira Ferraz, apesar de ter membros cultos, congregava informantes de uma categorial social menos elevada ao ser comparados aos membros da família Cruz; já o casal de noivos, Jayme e Maria, forneceram indícios de que pertenciam à categoria social baixa quando confrontados aos dois outros subconjuntos de cartas. O objetivo desse monitoramento era verificar a ação da categoria social na realização das estratégias de complemento. Os autores identificaram 402 dados de pronomes complementos, sendo 181 acusativos e 221 dativos.

Em relação ao uso das formas variantes de acusativo, o pronome te apresentou produtividade de 88% (160 de 181 dados); esse pronome foi mais usado nas cartas que apresentaram a famigerada ‘mescla de tratamento’ na posição de sujeito, em que o escrevente alternou o uso do pronome tu com o você, sendo mais recorrente nas cartas em que o tu ocupava a posição de sujeito – seja com uso exclusivo do pronome conservador ou em variação com o pronome inovador. No entanto, nas cartas que apresentavam exclusivamente o pronome você na posição de sujeito, a forma pronominal te é a segunda estratégia mais frequente, ficando os pronomes de 3P (o/a) à frente neste contexto. O pronome lhe, na função acusativa com referente de 2P, apresentou quatro dados, dos quais três foram retirados de cartas com tratamento misto (tu/você na posição de sujeito). O pronome lexical você em posição de complemento só apareceu em cartas com variação na posição de sujeito, essa configuração também se repete com o objeto nulo. Os autores perceberam que quanto maior a variação pronominal na posição de sujeito, maior será a presença das diversas formas de acusativo, porém há uma preferência pelo pronome te prototípico de 2P. Com isso, fica evidente que o te pode se associar tanto ao subsistema exclusivo de tu na posição de sujeito quanto ao subsistema misto em que vigoram tu/você na posição de sujeito.

Concernente ao complemento verbal acusativo correlacionado ao subconjunto de cartas, o clítico te foi a estratégia mais utilizada nos três conjuntos de cartas. O lhe teve registro de quatro dados apenas nas cartas da família Pedreira, ao passo que o pronome lexical você foi produtivo apenas nas cartas dos noivos. Vale ressaltar que apenas a família Cruz não

apresentou variação na escolha das estratégias de complemento acusativo, utilizando apenas o clítico te. Nas cartas dos noivos e da família Pedreira Ferraz, mais da metade dos dados de acusativos foram levantados em cartas com mescla de tratamento na posição de sujeito. Já nas missivas da família Cruz mais de 80% dos dados do complemento acusativo foram retirados

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