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G Graphique 9 : Pourcentages des réponses obtenues à la question 10

CONTEXTUELLE DES ALTERNANCES ET MÉLANGES CODIQUES

G Graphique 9 : Pourcentages des réponses obtenues à la question 10

Como vimos anteriormente, o superior objectivo da organização da corrida da Figueira da Foz-Lisboa era o de fundar um Automóvel Clube capaz de congregar os automobilistas e defender os seus interesses ameaçados de diferentes maneiras: quer pelas enormes taxas de desalfandegamento; quer pelas exageradas coimas aplicadas em vazios legislativos altamente convidativos à prepotência da polícia; quer ainda pelas taxas de circulação aleatórias criadas pelas diferentes autoridades autárquicas da época. A ideia de organizar uma corrida e aproveitar o fluxo mediático por ela provocado com vista à criação de uma associação automobilista não era, como já vimos, nova e limitava-se a seguir um procedimento que já havia sido adoptado em França, com grande sucesso. Na verdade, a organização da prova Paris-Bordéus-Paris, em Junho de 1895 assentava no facto de que um dos grandes objectivos da comissão organizadora dessa corrida liderada pelo Conde de Dion, era justamente a fundação do Automóvel Clube de França, o que veio a acontecer em 12 de Novembro desse ano, ou seja, cinco meses depois da histórica corrida. Como destacou o historiador James Flink,355 “a seguir à corrida, em 12 de Novembro de 1895, a comissão organizadora, uma vez mais sob a liderança do Conde de Dion, fundou o Automóvel Clube de França com o objectivo de encorajar o desenvolvimento do automobilismo e regular as competições desportivas. No princípio de 1896, o clube tinha já 422 sócios registados; em 1900, esse número já ascendia a 2261 e o clube estava então instalado na Place de la Concorde. Entre as suas tarefas, o clube organizou em 1898 o primeiro Salão Automóvel, sem integrar pela primeira vez as bicicletas, tornando-o num acontecimento anual que atraía as atenções da Europa e dos Estados Unidos. A história da fundação do Real Automóvel Clube de Portugal (RACP) não é, porém, pacífica, nem isenta de dificuldades. Após o final da prova da Figueira, sentia-se já que o clima entre os membros da Comissão Executiva não tinha a fluidez do princípio. E em vez de se aproveitar o entusiasmo que se produziu em favor do automobilismo, nessa precisa altura, a comissão entrou numa aparente letargia. Só em Março de 1903, quatro meses depois da organização da corrida, um artigo escrito por Carlos Calixto, com o sugestivo título “O Automóvel Clube de Portugal”, fazia finalmente um ponto de situação claro e circunstanciado em relação à questão da fundação do Clube, em se referia o aparecimento de uma nova comissão e ao entendimento que entretanto surgira na congregação de esforços dos dois grupos.356 Esse entendimento teve lugar numa reunião conjunta entre as duas comissões, a da corrida da Figueira e a nova, liderada pelo coronel Carlos Roma du Bocage, realizada no dia 20 de Fevereiro, que teve, a julgar pelo teor do artigo publicado por Calixto, um ambiente “leal e amável”. A comissão de Carlos Roma du Bocage – a que Calixto se refere, subconscientemente como “os representantes do RACP” – tinha enviado um ofício no dia 12 de Fevereiro provavelmente para o jornal A Época dirigido por Zeferino Cândido – solicitando uma reunião, a qual teve lugar no dia 18 na Companhia dos Tabacos, com a presença de representantes das duas partes. Essa missiva foi recebida no dia 13 e Zeferino Cândido elaborou prontamente uma resposta, datada de 14 de Fevereiro:357

Tenho a honra de acusar a carta de V. Exa. de 13 do corrente em que me comunica que um grupo de automobilistas amadores resolveu fundar o Automóvel Clube de Portugal, sociedade para que já foi solicitado o Alto Patrocínio de Sua Majestade El-Rei e de Suas Altezas. Entretanto, como o fim do grupo a que pertenço é pugnar pela patriótica causa do automobilismo português, resolveu autorizar-me a comunicar a V. Exa. que se acha pronto a assumir aos desejos de V. Exas. Da realização de uma conferência de três membros de cada grupo, tendo para esse efeito dado poderes à mesa que dirige os seus trabalhos, composta dos Srs. Carlos Calixto, Dr. Henrique Anacoreta e o abaixo-assinado. V. Exa. se dignará comunicar-me dia, hora e local para essa conferência, bem como os nomes dos três delegados, representantes do grupo a que V. Exa. preside.

Carlos Roma du Bocage respondeu rapidamente. E no dia 18, a conferência de delegados tinha lugar nos escritórios da Companhia dos Tabacos. Dessa reunião resultou organizar-se a tal reunião definitiva, em que a Comissão da Figueira indicasse as condições em que se poderia estabelecer o programa de acção de uma única comissão resultante da fusão das duas

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anteriores. Dessa reunião, onde estiveram presentes Zeferino Cândido, Henrique Anacoreta, Anselmo de Sousa, Júlio de Oliveira, Eduardo de Noronha, Álvaro de Lacerda e Carlos Calixto, foram lavradas uma acta e uma carta sendo que a primeira traduz formalmente o acto administrativo que determina a fusão dos dois grupos de trabalho:358

Aos vinte dias do mês de Fevereiro de mil novecentos e três, estando presentes numa das salas de redacção da Época os senhores Dr. Zeferino Cândido, Anselmo de Sousa, Dr. Henrique Anacoreta, Eduardo de Noronha, Júlio de Oliveira e Carlos Calixto, como representantes da comissão fundadora do Automóvel Clube de Portugal, organizadora da corrida Figueira-Lisboa, o Sr. Zeferino Cândido assumindo a presidência deu a palavra ao Sr. Carlos Calixto para relatar o que se havia passado na conferência com os delegados da comissão instaladora do Real Automóvel Clube de Portugal, em harmonia com o pedido feito em ofício que esta segunda comissão dirigira à da corrida Figueira-Lisboa. O Sr. Carlos Calixto começou por expor que a referida conferência tivera lugar no dia 18 do corrente, numa das salas dos escritórios da Companhia dos Tabacos, entre os senhores Carlos Roma du Bocage, Dr. Eduardo Burnay e Frederico O’Neill, como representantes do RACP. O Sr. Carlos Bocage, que presidia à sessão dos delegados, historiou largamente os trabalhos da comissão de que faz parte, afirmando que tendo conhecimento da corrida Figueira-Lisboa não soubera, contudo, que ela fora o início dos trabalhos de uma comissão que, ao constituir-se, resolvera fundar o ACP; que só mais tarde soube de tal resolução e desde então procurar com os seus colegas chegar a uma “entente” connosco, visto terem todos intenções comuns e termos nós tido a prioridade da iniciativa. Nesta conformidade nos dirigira o ofício de 12 do corrente. O Sr. Dr. Zeferino Cândido usando em seguida da palavra, confirmou que a comissão de que faz parte se constituiu em 6 de Setembro e nessa sessão, de que foi lavrada a competente acta que corre impressa, resolveu-se desde logo fundar o ACP e, para facilitar esta iniciativa, assentou-se também realizar uma corrida de automóveis para a qual foi depois adoptado o itinerário Figueira-Lisboa. Realizada a corrida com êxito incontestável, e publicado o respectivo relatório em cujas conclusões se propunha: “que o remanescente da importância das taxas de inscrição seja aplicado às despesas da fundação do ACP e que a distribuição dos prémios da corrida Figueira-Lisboa se faça por ocasião da sessão inaugural do ACP” – a comissão continuou os seus trabalhos, tratando agora da elaboração dos estatutos, sendo os fins do Clube auxiliar e desenvolver o automobilismo como meio de transporte económico e altamente vantajoso, como sport essencialmente moderno e como margem para a criação de uma nova indústria.

O Sr. Carlos Bocage tomando de novo a palavra afirmou que os fins do Clube que ele e os seus amigos tencionavam organizar eram exactamente os mesmos, parecendo-lhes contudo difícil a criação de uma indústria automobilística, porquanto outros países, como a América, com larga iniciativa e grandes capitais, têm procurado alcançar o mesmo “desideratum”, não conseguindo nunca fazer concorrência à indústria francesa. Afirmou uma vez mais a sua simpatia pelo trabalho e pela comissão da corrida Figueira-Lisboa, simpatia tanto mais generalizada em todos os seus amigos, quando é certo que reservavam, desde que pensaram numa aproximação das duas comissões o lugar de vice-presidente da Assembleia-Geral, para o Sr. Dr. Zeferino Cândido.

O Sr. Dr. Zeferino insistiu de novo na probabilidade de se criar uma nova indústria que poderia começar pelas reparações dos automóveis e acabar com a sua construção. Agradecendo o lugar que lhe destinavam na mesa da Assembleia-Geral do novo Clube, declarou que não podia aceitar tal cargo, pelos seus muitos afazeres profissionais, agradecendo contudo a deferência.

O Sr. Bocage replica lamentando a declaração do Sr. Zeferino e afirmando não ser contrário a qualquer auxílio que o novo Clube possa prestar para animar qualquer nova indústria ou de reparação ou de construção de carros automóveis e terminou por pedir que a nossa comissão nomeasse três membros que haviam de entrar na lista dos corpos gerentes do novo clube; ao que o Sr. Dr. Zeferino Cândido respondeu que esta comissão reuniria hoje 20 e o que se resolvesse seria comunicado à comissão presidida pelo Sr. Carlos Bocage. Tal foi, nas suas linhas gerais, o que se passou na conferência efectuada no dia 18.

O Sr. Eduardo Noronha, usando da palavra, diz que vê com satisfação que a comissão presidida pelo Sr. Carlos Roma du Bocage presta homenagem aos trabalhos desta comissão reconhecendo a prioridade da sua iniciativa e vê ainda com satisfação que os fins das duas comissões são perfeitamente idênticos, devendo por isso fundir-se, para que a sua acção seja comum e fácil. Sobre o assunto falaram depois todos os membros da comissão, resolvendo-se por fim:

1º – Reclamar para esta comissão a prioridade da iniciativa da fundação do ACP

2º – Que todos os membros da mesma comissão (Srs. Zeferino Cândido, Anselmo de Sousa, Álvaro de Lacerda, Dr. Henrique Anacoreta, Eduardo de Noronha e Carlos

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Calixto) e seus aderentes fiquem fazendo parte do R.A.C.P. como seus sócios fundadores.

3º – Que o Sr. Dr. Zeferino Cândido, Dr. Henrique Anacoreta e Carlos Calixto continuem a acompanhar em todos os trabalhos preliminares a comissão presidida pelo Sr. Carlos Bocage até à eleição dos corpos gerentes do R.A.C.P. deixando depois ao livre alvedrio da referida comissão, a escolha dos três nomes dos membros da comissão da corrida Figueira-Lisboa que hão-de fazer parte dos mesmos corpos gerentes. 4º – Que esta comissão se dissolva e entregue ao Sr. Carlos Roma du Bocage os fundos

e os prémios que tem em seu poder, com o encargo de se realizar uma corrida em Maio, e de se fazer a distribuição dos prémios da corrida Figueira-Lisboa na sessão inaugural do novo Clube.”

A “guerra surda” das duas comissões chegava assim aparentemente ao fim. Mas não deixa de ser motivo de especulação a forma pouco ortodoxa como esta história se desenrolou. Antes de entrarmos na análise de mais factos, a simples leitura desta acta deixa transparecer clivagens e movimentos menos claros. Partindo do princípio que os elementos da “Nova Comissão”, liderados por Carlos Roma du Bocage, eram homens que pugnavam pelo automobilismo e, consequentemente, muito atentos a todos os fenómenos relacionados com ele – de outra forma seria irrazoável o seu movimento em prol da fundação de um Automóvel Clube – que justificação podemos atribuir ao facto de ignorarem ou desconhecerem as intenções da “Comissão da Figueira” em alavancarem a constituição desse Clube através da realização de uma grande prova, a Figueira da Foz-Lisboa? A prova teve uma cobertura mediática nunca vista e essa intenção foi escrita várias vezes na generalidade dos órgãos de comunicação social da época.359 Isto demonstra que, durante cerca de dois meses – entre os primeiros dias de Setembro, altura das primeiras reuniões preparatórias e o dia 27 de Outubro, dia da corrida – as pessoas directamente ligadas à causa do automobilismo, fossem elas apenas pertencentes à vertente comercial ou estivessem elas confinadas estritamente ao domínio do lazer, receberam informações escritas e, seguramente, muitas informações orais sobre as intenções e os trabalhos efectuados pela “Comissão da Figueira”. Não colhe, assim, em nossa opinião, que os elementos da denominada “Nova Comissão” argumentassem desconhecimento sobre esses objectivos ao ponto de Carlos Roma du Bocage ter afirmado que “tendo conhecimento da corrida Figueira-Lisboa não soubera, contudo, que ela fora o início dos trabalhos de uma comissão que, ao constituir-se, resolvera fundar o ACP”.360 Roma du Bocage era um homem relativamente ocupado, devido à sua condição de militar de carreira,361 e viajava com frequência para fora de Lisboa, admitindo-se até que a ele, pessoalmente, lhe tivessem escapado essas intenções. Mas à generalidade dos outros membros da “Nova Comissão” parece de todo impensável que isso tenha acontecido. Para António Furtado Dias o problema resume-se a uma vendetta de Albert Beauvalet que terá sido desconsiderado ou, pelo menos, não suficientemente acarinhado pela “Comissão da Figueira” na condução dos trabalhos que delinearam a corrida da Figueira, abstendo-se assim – ele e os seus correligionários – de participar na prova, enquanto promoviam activamente várias acções para lhes retirar o protagonismo e o mérito de uma eventual fundação de um Automóvel Clube.362

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Furtado Dias acresce a esta tese outros argumentos igualmente substanciais: a de que os elementos da “Nova Comissão” eram titulares ou capitalistas que tinham já conquistado o patrocínio da família real para a constituição do Clube, enquanto os elementos da “Comissão da Figueira” eram, no essencial, jornalistas. Sabe-se que Luís O’Neill – um dos elementos da “Nova Comissão” – era um dos sócios comanditários de Beauvalet na empresa que representava a Peugeot, tendo investido a soma total de 240 mil réis, uma pequena fortuna na época.363

O sucesso da corrida Figueira da Foz-Lisboa – apesar dos desmandos da desqualificação de Edmond – e a aparente cisão na “Comissão da Figueira”, em que uma parte se colocou claramente do lado “legalista” da FIAT e a outra, sem querer ultrapassar os aspectos regulamentares, tentou minimizar a questão da desqualificação de Edmond, apadrinhando um inexistente prémio de velocidade, foram outros dos factos que permitiram que se constituísse uma nova comissão com pessoas de outra esfera social. Em Novembro de 1902, em resposta a um postal anónimo que questionava sobre os prémios da corrida, Carlos Calixto escreve num tom claramente distanciado, como se o assunto do ACP não tivesse rigorosamente nada a ver com ele e com os homens que com ele formavam a dita “Comissão da Figueira”:364

Também à redacção do Tiro Civil foi enviado um bilhete-postal anónimo – esta espécie de correspondência costuma ser sempre anónima – perguntando quando serão distribuídos os prémios da corrida Figueira-Lisboa. Pelo que vemos, o preclaro inquiridor não leu o relatório da respectiva comissão, publicado no último número do Tiro e na Época de 1 do corrente, aliás já saberia que foi resolvido que a entrega dos prémios aos automobilistas se fizesse por ocasião da sessão solene de instalação do Automóvel Clube de Portugal”.

Este assunto, todavia, tornar-se-ia recorrente e surgiria na ordem do dia como elemento de fricção entre as duas facções. Logo em Novembro, portanto, a “Comissão da Figueira” já saberia de alguns rumores sobre a constituição de um grupo de trabalho, presidido pelo coronel Carlos Roma du Bocage, pois a forma como se descarta da entrega dos prémios é reveladora desse estado de espírito. Doutra forma, Calixto não teria problemas em construir uma argumentação que lhe permitisse resgatar o posicionamento original do seu grupo. Um indício deste facto pode ser encontrado numa extensa reportagem sobre o ACP, publicada no final dos anos 20, em que a história da fundação do Clube é apresentada pelo então secretário- geral Magalhães Domingues nos seguintes moldes:365

A ideia da fundação de um Automóvel Clube no país partiu de Albert Beauvalet em Dezembro de 1902. E foi no escritório que Beauvalet tinha então (…) que se efectuou, atrás de um biombo vermelho, relíquia piedosamente conservada pelo seu possuidor – a primeira reunião de automobilistas em que estiveram, além de Beauvalet, Luís O’Neill, coronel Carlos Roma du Bocage, Dr. Eduardo Burnay, conde de Jimenez y Molina, Manuel de Sousa Brandão, Dr. Alberto Cardoso de Menezes, D. António Herédia e Luís Teixeira de Aragão. Trocaram-se as primeiras impressões e oito dias depois nova reunião se efectuava nas salas da Companhia dos Tabacos – estando presentes umas 18 pessoas. E o Dr. Eduardo Burnay apresentou a primeira proposta dos Estatutos. Passados uns dias houve outra reunião nas salas da Liga Naval.

Independentemente dos erros históricos desta versão, nomeadamente a omissão à “Comissão da Figueira”, o importante a reter é a confirmação de que os trabalhos preparatórios da “Nova Comissão” começaram ainda em 1902 e que Beauvalet, tal como António Furtado Dias sugere, esteve na origem desse movimento – embora não tenha integrado, certamente por opção própria, os corpos sociais do novo clube. Ora, é igualmente inquestionável que Beauvalet, que assistiu pelo menos a uma reunião na redacção do jornal A Época, sabia das intenções do grupo liderado por Zeferino Cândido em relação à fundação de um Automóvel Clube.

Durante três meses não houve contactos formais entre os dois grupos e ninguém deu qualquer passo nesse sentido. É provável, contudo, que o espírito cordato e conciliador do Coronel Carlos Roma du Bocage tenha finalmente convencido os seus pares de que seria mais útil agregar o grupo da Figueira, unindo esforços numa causa que tinha ainda poucos

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apoiantes. Uma das razões que justificam que os grupos sabiam perfeitamente um do outro é o facto de entre o primeiro contacto e a decisão final da fusão ter apenas passado uma semana: aparentemente, não havia surpresas e cada uma das comissões já sabia o papel que tinha a desempenhar nesse âmbito. Assim, justifica-se que a “Comissão da Figueira” se tenha limitado a gerir a situação, minimizando os estragos para a sua imagem, impondo que a “Nova Comissão” reconhecesse a prioridade das suas intenções e que os membros dessa comissão figurassem como sócios fundadores do novo Clube, pretensões essas que foram acatadas sem desprimor para ninguém – mas certamente com alguma mágoa por parte da comissão original – na já mencionada reunião de 20 de Fevereiro de 1903. Contudo, a fusão das duas comissões, a que Calixto se refere, seria apenas uma figura de estilo pois, na realidade, o que se verificou efectivamente foi uma espécie de aquisição hostil que mudaria o aparente estado de concórdia celebrado na acta da reunião, elaborada em consequência da conferência entre os dois grupos, aqui transcrita. Ao contrário do que foi lavrado então, Zeferino Cândido acabou por aceitar o lugar de vice-presidente da Assembleia-Geral e os restantes membros da “Comissão da Figueira” foram, por assim dizer, todos “encaixados” em lugares de menor destaque: Carlos Calixto foi eleito vogal da Direcção; Eduardo Noronha, Substituto de Vogal da Direcção; Álvaro Pereira de Lacerda e Anselmo de Sousa, Vogais da Comissão Revisora de Contas e Henrique da Silva Anacoreta, Suplente de Vogal da mesma Comissão. Tudo isto foi confirmado na primeira reunião solene do Real Automóvel Clube de Portugal realizada na Sala Algarve da Sociedade Portuguesa de Geografia. A acta dessa primeira sessão de trabalho, que teve lugar no dia 15 de Abril de 1903, merece, por isso, transcrição integral:366

“Às 3 horas da tarde, achando-se presentes na Sala Algarve da Sociedade de Geografia de Lisboa, numerosos aderentes à ideia da fundação do Automóvel Clube de Portugal, o senhor coronel Carlos Roma du Bocage expôs, em nome da Comissão Organizadora do mesmo Clube quais os fins da reunião e pediu à assembleia que nomeasse a pessoa que presidisse aos trabalhos da reunião. Tendo a assembleia instado com Sua Exa. para continuar presidindo, o Sr. Carlos Roma du Bocage agradeceu a prova de confiança que acabava de receber e convidou para secretários os Srs. João Craveiro Lopes de Oliveira e Carlos Calixto. Lido o expediente que constava de várias cartas de adesão à ideia da fundação do Clube, foi