Das conceções diferentes e por vezes quase antagónicas das competências de cada órgão de coordenação e supervisão decorre uma visão crítica sobre os desempenhos, com frequente recurso ao perfil dos coordenadores:
[…] às vezes duas pessoas com as mesmas funções, uma sai-se bem, outra sai-se mal, uma tem capacidade de liderança e outra não tem. (EB)
[…] está a coordenadora de departamento a ser o motor de tudo aquilo […] é uma pessoa que é reconhecida no grupo. (EB)
Um dos aspetos considerados nas críticas efetuadas são as falhas na supervisão. Não obstante, há que sublinhar que, em primeiro lugar, os conceitos de supervisão variam muito, significando esta expressão, na maior parte dos casos, o controlo do cumprimento das diretivas – portanto, uma função administrativa, que é nesta escola efetuada principalmente com recurso ao coordenador de área disciplinar. Há quem considere que a função essencial do coordenador de departamento será a de assegurar-se do cumprimento da verificação dos procedimentos por parte dos coordenadores de área disciplinar. Aqui a noção que eu tenho é que não há problemas, portanto também não há grande necessidade de interferir. As coisas funcionam normalmente. (EK)
[…] as pessoas são um bocado avessas à supervisão” […]. Provavelmente, o trabalho de supervisão que é feito é apenas do ponto de vista administrativo: saber se as planificações foram cumpridas ou se os critérios de avaliação estão a ser aplicados […]. Não há situações de acompanhamento, de proximidade – isso obrigaria a que também houvesse alguma prática de formação próxima, para resolver determinado tipo de problemas. (EF)
É notícia, na escola, e avulta, porque tudo o que não está em conformidade com o desejável evidencia-se e parece “gritar”, que, apesar das estruturas de supervisão, há sempre quem não siga os procedimentos determinados ou combinados, pelo que, por vezes, aparecem notas dissonantes. Estas evidências sinalizam fragilidades de supervisão que urge colmatar, sob pena de que se julgue que as pequenas assimetrias são erros sistemáticos:
- 118 -
[…] casos indicadores de que as pessoas fogem frequentemente àquilo que está decidido, e até aparentemente no trabalho conjunto… fazem, mas depois, numa outra altura, num outro momento, fazem o que querem, o que acham, o que lhes dá jeito…(EG)
Mas a supervisão, enquanto tarefa de verificação que por vezes implica confrontos, tem espinhos por vezes difíceis de contornar:
[…] ver se os testes estão corretos, se seguem os critérios de avaliação, se há alguma uniformidade em termos dos testes - isso interfere com o trabalho que as pessoas têm ao longo destes anos. Ou seja, a maior parte dos professores já tem uma determinada idade, trabalharam de uma determinada maneira, e agora questionar é sempre desconfortável, quer para quem coloca a pergunta, está a interferir, quer para o outro colega, que sente alguma invasão nos seu trabalho e sente-se posto em causa, quando, de facto, o que se pretende não é nada disso, é que se melhorem práticas, tentarmos, em conjunto, ver o que cada um de nós tem de bom, tem de menos bom, e melhorarmos, porque isso só nos poderia trazer benefícios a todos. Mas há pessoas que, de facto, não aceitam. (EK)
Há que ter noção de que o trabalho do professor é autónomo, e que dentro da sala de aula está apenas acompanhado pelos alunos, pelo que só dele e da sua consciência decorre o cumprimento dos procedimentos estipulados. Hargreaves (1994) sublinha a necessidade que alguns professores têm de resguardar dos olhares alheios a sua relação com os alunos, por diversas razões, uma delas porque consideram que todo o tempo será pouco para se dedicarem à preparação das aulas e notação dos trabalhos. A colaboração não deve por isso ser forçada, mas construída a partir daquilo que os docentes têm em comum e o tempo de trabalho preparatório deve ser respeitado. Por outro lado, este autor chama a atenção para a autoindulgência de alguns professores, que limitam a partilha e o convívio aos que com eles concordam, o que leva à estagnação e à balcanização. Recomenda o privilégio das parcerias, dos objetivos partilhados e a partilha do poder. Por outro lado, Sanches (2009) afirma que a legitimação do individualismo, quando concomitante com o isolamento persistente, produz efeitos nefastos na coesão interna e na visão social da profissão. Stoll (1998) considera a colaboração como estratégia essencial à melhoria da escola e recomenda dez normas a considerar, entre elas o respeito mútuo, os objetivos partilhados e o bom humor.
No entanto, e apesar de o incumprimento constituir exceção, convém que as estruturas de supervisão possam, em rede, detetar precocemente os casos em
- 119 -
que as aprendizagens dos alunos estejam em causa, de modo a preparar ações preventivas:
[…] não basta criar estratégias que fazem sentido e que deveriam automaticamente promover boas práticas, é preciso verificar se, na realidade, existem essas boas práticas… e se todos estão a adotar essas práticas, porque o que eu vejo não é isso. (EG)
Mas, por exemplo, se se diz que as matrizes devem ser – a informação-teste deve ser elaborada conjuntamente… e que deve ser dada aos alunos, das mais diversas formas: cada pessoa dá, uma no moodle, ou por escrito, ou projeta no … – mas se é isto, não podemos descansar a pensar que isto se faz, porque eu tenho a noção de que isto não se faz sempre. (EG)
Por outro lado, as intervenções devem ser pensadas de forma a não serem mal recebidas pelos colegas, já que, até há bem pouco tempo, qualquer interferência apenas tinha lugar em casos limite:
Não é um trabalho fácil, porque é novo – até agora, não se fazia muito. Só se fazia em casos disciplinares, e eu acho que as pessoas ainda associam um bocadinho esta ideia de interferirem no seu trabalho … só se interfere se há um problema… Não há problema, não é preciso interferir – e o objetivo não é bem esse, é coordenar, é unificar. (EK)
Em suma, a delimitação dos papeis de cada coordenação não será de forma alguma consensual, sendo também a articulação entre as competências entendida de modos diferentes, o que dá azo a alguma perturbação e atrito: […] as estruturas intermédias, se existem, é para funcionarem, se não funcionarem bem, alguma coisa está mal na escola. (EA)
Podemos trabalhar melhor, o que não significa trabalhar muito mais horas, mas trabalhar, se calhar, partilhar trabalho, falar abertamente, criar um ambiente de trabalho positivo. Acho que é cada vez mais por aí. A liderança tem que ser isso – tem que ser não forçar, mas levar as pessoas a confiarem, a quererem trabalhar, colaborar, amenizar. (EK)
São apontadas algumas falhas graves à coordenação de departamento no que se refere à supervisão do trabalho dos grupos, à ligação com a direção, à sua ação conjunta. Isto é, há quem considere que os coordenadores de departamento deveriam agir de forma mais consistente e concertada, entre outros aspetos, através da divulgação de boas práticas.
[…] acho que as lideranças intermédias deveriam ser extremamente ativas e nem sempre são. Portanto, pensando na realidade, em minha opinião, as lideranças intermédias falham com muita frequência na ligação com a direção geral da escola, na ligação com os coordenadores de grupo e naturalmente com… automaticamente na relação com os professores. (EN)
E acho que há problemas – e falta de supervisão, por parte dos coordenadores de departamento. […] Quem é que, de alguma forma, acompanha o trabalho dos coordenadores de grupo? Como? Como é que fazem? O que é que fazem? Como é que os coordenadores de departamento veem o trabalho dos grupos? Que estudo fazem? Há quatro departamentos, não é, são quatro
- 120 -
coordenadores de departamento – como é que cada coordenador de departamento trabalha e analisa e acompanha e supervisiona os que integram o seu departamento, e depois como é que fazem a junção dos quatro departamentos? (EN)