A teoria psicanalítica foi desenvolvida por S. Freud como meio para resolver problemas de estudo empírico constatados na clínica psicológica e no tratamento das neuroses. A psicanálise é composta por ciências de tipos diferentes: empírico e especulativo. A primeira corresponde à psicologia dos fatos clínicos; a segunda, à metapsicologia. Suas “fantasias metapsicológicas” começam a nascer em 1915, ano em que ele publica O inconsciente na Internationale Zeitschrift für Ärztliche Psychoanalyse. Esse escrito busca justificar a suposição, a partir de provas, do inconsciente como necessário e legítimo na compreensão do ser humano. Tais provas se dão com a observação da existência de lacunas, tanto em pessoas sadias – por meio de ações falhas e sonhos –, quanto por meio de sintomas e fenômenos obsessivos de pessoas consideradas doentes (FREUD, 1915, p. 75). A metapsicologia é a psicologia do inconsciente elaborado por Freud. O conceito de inconsciente é criado para dar conta dessas lacunas, conduzidas por trás da consciência. Em O ego e o id (1923), a introdução do inconsciente é justificada de forma similar: explicar fenômenos observados na consciência.
Para Stein (2012), a metapsicologia consiste em uma teoria da psicanálise, cujo desenvolvimento a diferencia e, ao mesmo tempo, a aproxima da psicologia da época. Isso porque explora um universo que exige não apenas um método, mas a abordagem de aspectos que a psicologia natural não tinha sensibilidade até então. No aspecto de sua psicologia clínica, a psicanálise estuda os distúrbios psíquicos. Ao pesquisar esses distúrbios, hodiernamente chamados de neuróticos, Freud percebe, no aspecto sintomatológico, uma regularidade de fenômenos básicos, tais como os da repressão, da resistência e da transferência. Para ele, há uma conexão regular entre esses fenômenos com a questão da sexualidade e as diferentes fases do desenvolvimento do ser humano, principalmente as da infância, da qual emerge a gênese do paradigma edipiano. Esse complexo não é apenas o fator central na etiologia das neuroses, mas também o centro em torno do qual se organizam a sexualidade, as relações sociais e a própria subjetividade. Freud enfatiza as técnicas psicanalíticas em Recordar, repetir e elaborar (1914). Para ele, “o objetivo dessas técnicas permaneceu inalterado, sem dúvida. Em termos descritivos: preenchimento das lacunas da recordação; em termos dinâmicos: superação das resistências da repressão” (1914, p. 147). Esse duplo aspecto ressalta o objetivo das
técnicas psicanalíticas no material metapsicológico e os elementos para a elaboração de uma teoria rigorosa, que, para conseguir dar consistência às especulações no campo científico, articula-se a uma metabiologia, por meio da relação entre causa e efeito na explicação dos enigmas do objeto abordado.
A dimensão empírica da psicanálise almeja, a partir da clínica, a compreensão dos processos mentais por meio de explicações. Buscam-se a compreensão e a interpretação dos processos psíquicos como causas dos sintomas que emergem. A interpretação da doença psíquica por uma concepção naturalista leva ao problema de como encontrar as causas desses elos faltantes entre as “cadeias” da consciência neurótica. Por essa perspectiva, a saúde e a doença no ser humano seriam uma questão de ordenamento externo, já que os distúrbios psíquicos são compreendidos como perturbações das relações externas – espaço-temporais e causais – com os conteúdos internos. O guia teórico-metodológico para a elaboração dessa metapsicologia é a concepção dinâmica do psiquismo de tipo especulativo.
Se de um lado Freud inicia o desenvolvimento desse conjunto de temas por meio das ciências naturais, o método especulativo metapsicológico se caracteriza como um projeto teórico provisório e supletivo, apresentando considerações de possíveis soluções para as questões abordadas. Enquanto não houver solução no âmbito da ciência natural, a psicologia clínica experimental se mantém de pé mediante um edifício metapsicológico, construído mediante andaimes de uma construção provisória (STEIN, 2012, p. 38). Freud entendia que essa característica supletiva da metapsicologia seria solucionada no momento em que a ciência físico-química tivesse avançado ao ponto de dar respostas empíricas à psicanálise.
Embora a metapsicologia represente uma tentativa de fazer uma ponte entre as ciências naturais e as ciências da cultura (STEIN, 2012, p. 40), a construção teórica oriunda do método especulativo consiste em uma “supraestrutura” especulativa que se caracteriza por um conjunto de “convenções”, isto é, de construções auxiliares, introduzidas com o objetivo de uma utilidade metodológica e heurística na busca de novos resultados clínicos e na organização desses materiais factuais. A especulação psicanalítica se vale de três grandes eixos como modelos auxiliares das explicações sobre os processos psíquicos: o tópico (espacial), o dinâmico (forças) e o econômico (energia) (FREUD, 1915, p. 90).
Ainda que não seja passível de hierarquização, o eixo dinâmico tem uma precedência didática. Isso porque ele é caracterizado a partir de pulsões concebidas como
forças de natureza psíquica. Assim como os físicos supõem que há uma força que age sobre a matéria, as forças psíquicas são tomadas como fundamento estrutural capaz de organizar e de relacionar fatos, garantindo assim, a busca pelas explicações dos fenômenos observados. Não obstante, assim como em outras teorias oriundas das ciências da natureza, essas forças físico-químicas que agem sobre a matéria não são realidades empíricas, mas se caracterizam como construtos teóricos especulativos, cujos valores são meramente heurísticos. Mesmo tendo ciência de que o conceito de pulsão é uma ideia abstrata, uma convenção sem conteúdo empírico, Freud a considera imprescindível à psicologia.
A suposição de que o psiquismo é como um aparelho passível de ser figurado espacialmente, no qual circula uma energia psíquica de natureza sexual, a libido, também faz parte das hipóteses metapsicológicas. Esses conceitos fornecem, respectivamente, três grandes eixos da metapsicologia, eles servem como modelos ou conceitos auxiliares para que se possam buscar explicações sobre os processos psíquicos (FULGÊNCIO, 2003, p.144).
O eixo dinâmico, como já dito, corresponderia à suposição de pulsões, isto é, de forças psíquicas em conflito. As pulsões seriam a causa motriz do funcionamento do psíquico. Nesse viés, o eixo dinâmico seria impulsionado pelo eixo econômico a investir afetivamente em objetos de desejo. O eixo econômico, correspondente à suposição de uma energia psíquica de natureza sexual, a libido, pode ser avaliada quantitativamente. Essas forças e energias especulativas são passíveis de serem identificadas, pois, a partir de uma especulação topológica, o psíquico é compreendido como passível de ser visualizado e representado espacialmente. É como se fosse um aparelho microscópio ou qualquer objeto similar com o qual lidamos, sendo passível de diferenciar as instâncias psíquicas que o compõem, sem jamais corresponder a uma localização anatômica.
Ao compreender que há, no pensamento freudiano, uma tensão permanente entre as ciências naturais e as ciências da cultura, em sentido amplo, Stein (2012, p. 39) compreende que Freud é filho do seu tempo, na medida em que não consegue superar, no plano da teoria, os fundamentos da psicanálise – sua metapsicologia – dos fundamentos empíricos ligados às ciências naturais. Isso porque a psicologia empírica freudiana é a teoria das neuroses, o estudo da sexualidade em geral, da constituição do sujeito e da ordem social e cultural. Esse estudo se consolida pela facticidade do psiquismo. Loparic (2001, p. 97) compreende o psiquismo freudiano como “um conjunto de fenômenos ou processos mentais, conscientes ou inconscientes, de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos, sediados em ou produzidos por uma psique (‘Seele’)”. O psiquismo é um
processo natural e a psicologia uma ciência natural que, como as demais gestadas no paradigma galileano, obedecem às relações espaço-temporais e causas externas, o que faz com que os fenômenos psíquicos sejam compreendidos como “correntes” ou “cadeias”, cujos elos são atos mentais singulares (LOPARIC, 2001, p. 97).
Principalmente por esses fatos, acontecem as críticas à metapsicologia freudiana pelos pensadores em questão. Ao articular as estruturas do ser humano por meio de uma ciência que não é própria ao objeto da psicologia, busca-se uma explicação para as lacunas patológicas a partir de forças que sejam quantificáveis, formuladas por uma linguagem devedora da metafísica da subjetividade objetivante. Ao não ir além do biologismo e do fisicísmo da época, Freud compreende o ser humano como um sistema fechado, um aparelho psíquico que age de acordo com leis deterministas, ou seja, uma máquina (mecanismo) capaz de produzir todos os fenômenos neuróticos, tratados como perturbação das relações externas. Em síntese:
Freud coisifica a subjetividade humana, o que significa que ele aceita, por um lado, o pressuposto da psicologia do seu tempo, herdado da teoria metafísica da subjetividade, de que o ser humano realiza atos de representação afetivamente carregados e, por outro, a suposição, herdada da teoria metafísica da natureza, de que o homem é uma entidade situada no tempo e no espaço objetivos, externos, em suma, uma máquina movida a forças que obedecem ao princípio de causalidade (LOPARIC, 2001, p. 101).
Embora a metapsicologia represente a base teórica da psicanálise, não constitui seu fundamento. Por isso, a crítica endereçada à metapsicologia não é uma crítica ao empreendimento freudiano como um todo, mas às teses e métodos de sua parte especulativa. Talvez seja oportuna a ilustração utilizada por Frankl para situar sua logoterapia diante do empreendimento freudiano. Ele se considera um anão diante do que Freud representou para a psicologia. Contudo, sendo anão, estaria sentado nos ombros do gigante, o que lhe permitiria enxergar um pouco mais adiante. Essa consideração respeitosa de Frankl sobre Freud efetiva sua abordagem de forma supletiva, e não “suplantiva”.