IV. RAPPORT DE GESTION
10. Gouvernement d’entreprise
O primeiro relato é o de Amỹ Paranawãja. Ele foi registrado por mim, na sua casa, na aldeia Tiracambu em setembro de 2015, com o auxílio de Wa'amixĩa, esposa de um dos seus filhos. Na época, surgiu entre os filhos de Amỹ Paranawãja o interesse em falar sobre os parentes dos quais haviam se separado antes do contato na década de 1980 e que os levaram ao local onde estão atualmente. Alguns meses antes, Hajmakoma'ã havia visitado a Terra Indígena Arariboia, acompanhando uma equipe da Funai, e voltou interessado em saber qual era o seu vínculo com aqueles Awa que vêm evitando a todo custo o contato com os karai e o Tentehara que vivem ao redor do que restou do seu território. O que ele e seus irmãos vinham dizendo é que os “isolados”, esses outros Awa, eram seus parentes e faziam parte do seu grupo familiar. Esse grupo havia se afastado durante uma fuga e nunca mais foi visto. Segundo o relato de Hajmakoma'ã, que era repetido por seus irmãos, parentes próximos e outras pessoas até de outras aldeias, seus pais faziam parte de um grupo maior do que aquele que passou a viver na aldeia Tiracambu e Awa. Seu pai, Takwaxa'a, tinha um irmão, Xipa Xa'amukua. Xipa Xa'amukua, por sua vez, tinha muitos filhos e seriam eles e seus descendentes os “isolados” da T.I. Arariboia. Em uma situação de muita violência, na qual os Awa eram perseguidos por fazendeiros locais que queriam ocupar suas terras, o grupo de Takwaxa'a e Xipa Xa'amukua dividiu-se em dois: o primeiro grupo foi em direção ao norte, para as cabeceiras do igarapé Presídio, e o segundo para o sul, do outro lado do Pindaré. Essa história vinha à tona sempre que se falava das invasões à T.I Arariboia e ações de proteção dos “isolados” promovidas pela Funai ou pelos Tenetehara. Hajmakoma'ã queria ir até lá para saber se os seus parentes estavam vivos e cobrava a Funai para que levasse um grupo da T. I Caru para lá. De fato, vários homens awa que vivem na T.I. Caru, tanto nas aldeias Awa quanto Tiracambu, e na T.I Alto Turiaçu, participaram de expedições promovidas pela Funai nos meses e anos seguintes para monitorar
os “isolados”. Essas expedições tinham como objetivo observar as movimentações dos indígenas pelo território para elaborar estratégias para sua proteção e coletar provas da sua sobrevivência, necessárias para que o órgão justifique a proteção ao seu território.
Na T.I Arariboia vivem mais de 5 mil tenetehara-guajajara em mais de uma centena de aldeias. Ela é alvo constante de invasões e de intensa atividade madeireira ilegal. Com a insuficiência das ações estatais para sua proteção, os indígenas organizam-se por conta própria em grupos de vigilância que monitoram e combatem as atividades ilícitas dentro do seu território. Uma das principais preocupações anunciadas por esses grupos de vigilantes indígenas é justamente proteger os “isolados”. Nenhum contato foi realizado até o momento, ainda que eles sejam esporadicamente avistados e vestígios da sua presença sejam encontrados com frequência pelas equipes da Funai e pelos seus protetores guajajara. Apesar de serem motivo de atenção internacional, mobilizem os esforços dos seus vizinhos e sua proteção seja muitas vezes priorizada para receber os poucos recursos que a Funai ainda dispõe para exectuar suas ações, esses grupos têm evitado a todo custo o contato. Os relatos dos participantes dessas expedições é sempre a de que a área de que os Awa dispõem é cada vez menor, devido às crescentes invasões, ao desmatamento e às condições ambientais adversas, como a falta de água e incêndios também cada vez maiores e constantes. Por isso a preocupação de Hajmakoma'ã, Amỹ Paranawãja e os demais. Eu mesmo estava envolvido nas ações da política de proteção aos “índios isolados” e foi nesse contexto que tentava saber mais sobre as possíveis relações entre os Awa da T.I Caru e os da T.I Arariboia. Diante da constante preocupação com um contato, sempre iminente, era necessário a elaboração de um plano de ação.
O relato de Amỹ Paranawãja foi o seguinte:
O falecido Xipaxa'amuku tinha muitas crianças. A mãe deles que criou eles. Eram muitas crianças. Entre os adultos, não tinha mulheres. Ele não tinha filhas, só uma. Um filho morreu junto com ele. Tinha um outro homem. O nome dele era Takwaxa'a. Ele tinha outros filhos. Era um pai e muitas crianças. Ele tornou-se o pai deles todos. O outro pai morreu. Não tinham mais o pai. Não eram meus filhos, mas tornaram-se. “Não são meus filhos”, eu disse para eles. A mulher dele morreu. Ele sonhou com a mulher. Sonhou lá no mato. Ele tinha muitos filhos com a outra mulher. O falecido Xipaxa'amukua é o pai deles. Eram muitos filhos mesmo. Realmente eram muitos. O falecido Xipaxa'amukua é o pai deles. Minha irmã se casou com ele. Eu os chamei de filhos. Eles me chamaram de amỹ64 e eu os chamei de ta'axi65.O outro
64 Termo vocativo para M em guajá. 65 Termo vocativo para S e D em guajá.
paimorreu. Será que ele morreu? Doía muito a barriga. Tinhakaraiespantando eles. Por isso ficamos espalhados. Nós ficávamos juntos. Os fazendeiros mandaram cachorros atrás da gente. Eram pistoleiros. Depois o pai do Xiparẽxa’a morreu. Morreu. O falecido Takwajuxa'a.O cachorro sempre morde a gente. O cachorro foi atrás da gente. “O cachorro vai atrás de você”, minha falecida mãe disse.
O’Dwyer (2002, p. 60) associa o grupo de Amỹ Paranawãja ao que foi nomeado pelos funcionários da Funai como o micro-grupo de Jacamintxia. Gomes (1990, p. 359), ao resumir na época a situação dos grupos awa contatados até o final da década de 1980 relatava que se tratava de “grupo composto de dezessete pessoas que vive no alto igarapé Presídio e mais para dentro da área Caru. Apareceu recentemente no Posto trazido pelo contato com o grupo de Txipatxiá para receber presentes. Foram vacinados e aparentemente não contraíram doenças, tendo já voltado ao seu território.”
Em relatório de fevereiro de 1988, de Fiorello Parise, então funcionário da 4ª Superintendência Executiva Regional da Funai em Santa Inês e enviado para a Coordenadoria de Índios Isolados em março de 1989, é apresentado um histórico dos grupos awa contatados. Sobre o “micro-grupo” Jacamintxia, que naquele momento tinha 8 mulheres e 9 homens, informava:
Em agosto de 1987, um grupo de índios Guajá, até então sem contato com o pessoal da Funai, visitou a aldeia do bosque, Pin Awá, A.I. Carú, fazendo contato com os grupos que ali se encontravam. Os mesmos, em número de 03, permaneceram poucas horas no local, receberam alguns brindes, e retornaram á [sic] mata. Meses depois, através de informantes Guajá foram identificados como “Grupo de Jacamintxiá” [sic]. Em Setembro [sic] de 1988, as família de Kamairu, grupo Txipatxiá [sic] e o grupo do Txiamin [sic], de contato intermitente, se deslocaram da aldeia do bosque, proximo [sic] ao Pin Awá, em direção as [sic] cabeceiras do igarapé Presídio, numa de suas caminhadas tradicionais. Nos dias 30.10 e 01.11.88 retornaram a [sic] sede do Pin Awá trazendo juntamente com os três Guajá que já haviam visitado a aldeia do bosque em 1987, um total de 17 índios, os quais ainda não tinha mantidos [sic] contato [com o] pessoal da Funai [.] [T]odos bastantes [sic] saudáveis, podia- se observar também que o referido grupo não tinha qualquer contato, sequer esporádico, com regionais. Os adornos, utensilios [sic] e corte de cabelo totalmente tradicionais do grupo Guajá. Dia 08.11, parte do grupo num total de 07 índios, retornou ao seu “lugar” de origem. Os outros 10 índios permaneceram na aldeia em companhia do grupo de Txiamin [sic] e Txipatxiá [sic], os índios que permaneceram (10), receberam vacinas e foram atendidos pela Equipe médica da ADR de São Luís.
Enquanto o relato ia sendo feito por Amỹ Paranawãja em awa, Wa'amixĩa ia traduzindo para mim em português, enquanto eu também fazia algumas perguntas. O trecho transcrito contém o relato completo, porém ele foi feito com muitas pausas e interrupções com minhas perguntas e comentários de Wa'amixĩa e da própria Amỹ Paranawãja. Minha primeira pergunta, feita logo quando ela mencionou pela primeira vez que uma fuga havia separado as famílias era de quem ou do que haviam fugido. A resposta foi de que haviam fugido dos “brancos”. Como na época entendia muito pouco da língua awa e tinha acesso apenas indireto ao relato por intérpretes, pedi algum tempo depois que Amiria me ajudasse a transcrever a história de Amỹ Paranawãja e a traduzi-la. Mais do que isso ele me ajudou a entender detalhes da história, que não eram explícitos na fala de Amỹ Paranawãja ou nas traduções de Wa'amixĩa, mas que eram muito claros para ele. Amiria explicou-me que com a morte de uma mulher e um homem do grupo, Amỹ Paranawãja passou a cuidar das várias crianças. Com a proximidade dos karai, o marido de Amỹ Paranawãja, Takwaxa'a também morreu, e ela passou a cuidar sozinha dos seus filhos, vários deles pequenos, com a ajuda do mais velho, Mihaxa'a. Amiria lembrou que Amỹ Paranawãja estava falando dos seus parentes que estavam na T. I. Arariboia, os filhos de Xipa Xa'amukua, que havia se casado com a sua irmã. Os karai responsáveis pela separação eram “madeireiros”, “jagunços”, “pistoleiros”, os karai awa jakyhara. Wa'amixĩa explicou que quem encontrou Amỹ Paranawãja e seus filhos “no mato” foi Ximira. Na época, ele estava se aproximando dos karai da Funai e, do mesmo modo que fez com outros grupos awa, convenceu- os a também se aproximar e a buscar proteção com esses karai katua, os karai que não tentavam matá-los, mas ofereciam alimentos e facões. Wa'amixĩ destacou que, no entanto, o contato não foi imediato. Antes da aproximação aos karai houve um período necessário para “acostumar- se”, cortando o cabelo, comendo com colheres e cozinhando em panelas. Depois de “acostumados” é que foram para a aldeia. Além disso, aproximar-se dos karai era perigoso. Takwaxa'a havia sido vítima de uma gripe quando voltou para o “mato”66. Porém, havia outro
perigo, que eram os cachorros. Os “jagunços” que perseguiam os Awa, com o objetivo de eliminá-los e liberar suas terras, usavam cachorros que seguiam seus rastros e podiam atacá-los fatalmente. Wa'amixĩa lembrou que os mais velhos, entre eles Amỹ Paranawãja, sempre contam sobre esse fato para os jovens e as crianças nunca se esquecerem. Lembram que o mato é
66 Entre os Awa com quem convivi o espaço fora da aldeia, na floresta, é chamado de mato, que é também como
se referem ao espaço onde viviam antes do contato. O período anterior ao contato é chamado como o período em que “viviam no mato”.
perigoso e que os cachorros podem pegá-los. Segundo Wa'amixĩ “no mato tinha medo de cachorro, medo de comer gente. Ela [Amỹ Paranawãja] ficou triste. Ela diz “cuidado para o cachorro [não] te pegar. Ela chora. Diz que também vai correr. Que fica triste. Fala do branco. Ela contou para gente. O cachorro matou a mãe dela”. Amiria também disse que essa é uma recomendação fundamental para os jovens e crianças: muito cuidado com os brancos e os cachorros no mato, pois eles sempre mordem os Awa. No final, perguntei para Wa'amixĩ e Amỹ Paranawãja se elas e os demais não tinha medo também dos brancos da Funai. Wa'amixĩa me respondeu que o medo era dos “brancos do mato”. Antes, eles nunca tinham visto outros brancos. Os primeiros karai da Funai que conheceram foi um enfermeiro, que lhes medicou e cuidou deles quando foram levados para a aldeia por seus parentes.
Figura 18 Amỹ Paranawãja com seu nima. Ao fundo, Wa'amixĩ.