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Gonflement des composites en solvant : sonde de l’adhésion interfaciale

CHAPITRE 2 : SYNTHESE DE MATERIAUX COMPOSITES A BASE D’UN RESEAU

2. Gonflement des composites en solvant : sonde de l’adhésion interfaciale

Ainda na segunda metade do século XIX, embora de forma reticente e preconceituosa, o fado foi conhecendo uma progressiva aceitação pelas camadas mais desafogadas da sociedade portuguesa, mormente as possuidoras de cabedais suficientes para proporcionarem às filhas casadoiras um piano (muitas vezes alugado) destinado a dar-lhes a prenda mais apetecida depois ou em paridade com o domínio da língua francesa. Também é conhecida a mania que muitas dessas burguesinhas ou mesmo jovens aristocratas tinham em fazer soar no teclado desse alegado passaporte para obter marido em condições, em vez dos clássicos de laboriosa aprendizagem, os fadinhos mais em voga, com o consabido sabor de frutos proibidos. Algumas levavam até o seu entusiasmo por preferir aos Érard ou Pleyel o dedilhar (relativamente secreto) de pianinhos, como então se designavam as guitarras ou banzas, instrumentos associados às mulheres mal-afamadas dos bairros mais duvidosos da capital deste nosso reino

309- Os Mais Lindos Fados e Canções (Portugueses e Brasileiros). 23.ª ed., Lisboa, Barateira, s/d, p. 12. 310- João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 5.ª edição, 2003, 157.

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decadente, como qualquer filósofo ou escritor que se prezasse não perderia a ocasião de acentuar. As folhas de música com fados foram-se tornando coisa corrente e aceite, como prova à evidência a sua crescente edição — e não eram os faias nem as michelas da Mouraria ou de Alfama que as enchiam da complexa sinalética de quem dedicou longas horas ao solfejo. Como está bem de ver, tais criaturas tinham outras tarefas a cumprir…

Escusado será dizer, portanto, que muito antes do virar do século XIX para o XX, o mal, para quem assim o entendia, estava feito — e dele dera conta, porventura já não a tempo de serem tomadas providências, o literato castiço D. Tomás de Melo (1836-1905):

Dos múltiplos melhoramentos que o progresso nos vai introduzindo nesta pacata e maçadora Ulisibona — não sei se por espírito de imitação a outros mais soberanamente intelectuais, o que em demasia me preocupa e entristece é este ordinarizar-se, este afadistar-se da aristocracia! Quando há anos o progresso, esse elegante e audaz importador, entrava a barra de Lisboa, trazendo no mostruário, entre vários melhoramentos, banzas e fadunchos de primeira qualidade, Cascais foi esperá-lo e abriu-lhe os braços trémulos de entusiasmo. Meses depois, banzas tilintando fados corridos, figuravam nos salões ilustres; vozes esganiçando-se levantavam notas vibrantes e as Torradinhas com manteiga tresandando à Mouraria e Bairro Alto, figuravam envergonhadas no high-life e no high-life below stairs. Se há quarenta anos por essas devezas de Sete Ais, que sete vezes vão repetindo os ais que lábios murmuraram ao desabrochar da saudade, moço amante e amado, houvesse, de guitarra em punho, descantado à bela, com voz terna e maviosa:

« Torradinhas com manteiga

« Torradas por tua mão «No assador do meu peito «Co'as brasas do coração.

esse nóvel Bernardim Ribeiro seria um homem perdido no conceito daquela sociedade, que ainda se não desilustrara na promiscuidade pelintra em que hoje se baralha e confunde no high

life de clássico sabor, entre o brasileiro enriquecido e o titular de exportação!(…) esse indivíduo de mau gosto e hábitos arrieirais seria condenado, sem apelação nem agravo, a nunca mais frequentar aquela sociedade, e, ou teria de privar com a burguesia chata e alvar, ou descantar fados choradinhos no estábulo do Fura Velhas, em companhia dos Lindos olhos, ao som da

banza sebenta do Luiz Velhinho do Poço do Borratém! É que tu, por esse tempo, eras grande ó Sintra! Rainha do bom e do belo, só querias no teu regaço o que fosse nobre e augusto ! E tu que tão alta te guindaste, envolta agora nas sombras do esquecimento, vives triste como Pompeia, a cidade dos desaparecidos ! (…) Antigamente, por noites serenas de Agosto, quando os raios da

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lua envoltos na gaze da tua neblina, desciam sobre o glauco desses arvoredos e que o mar ao longe te descantava nénias; nos salões dos teus palácios, pianos de Érard e Pleyel soavam em magistral execução, acompanhando maviosos trechos, que subiam no espaço como trenos de anjos despedindo-se da terra para se perderem no azul. Os tempos mudaram. Hoje (…) ela a discípula, cujos avós despedaçaram montantes em prélios de heróis, (…) sentada na sua voltaire de doze molas, encostando ao seio casto o braço da banza, (…) vai de olhos em alvo, e espasmos de Santa Teresa de Jesus vibrando as cordas de prata à sua guitarra, enquanto em trinos de rouxinol lhe vão saindo da garganta helénica esta e outras estrofes de bom gosto e sabor popular:

«Torradinhas com manteiga,

«Por cima café, canela; «Quem gosta dela sou eu «Quem gosta de mim é ela.

(…) Fadistas, exultai! A banza matou a harpa de Santa Cecília, e o choradinho substitui, sinistramente, a melodia da recitação ao piano com que os vates de outros tempos conquistavam corações inexpugnáveis!311

Usando grande pêra e imponente bigode, D. Tomás foi um cronista interessante, figura castiça como o descreve O António Maria 312 de Rafael Bordalo Pinheiro, que adianta ser aquele possuidor de grande pança caída, dilatada por quantas ceias e idas às hortas memoráveis de

que nos fala a História e em que ele tomou parte, denodadamente, em tremendíssimas pândegas de estalo!313 Precursor da publicidade, através da sua revista O Reclamo, este amigo das fadistices seria o editor de uma obra anónima que não anódina, intitulada Memórias de um

sapatinho, onde não deixa de estar representada a velha trova lisboeta e, bem a propósito, nas tais míticas hortas, amplamente focadas no capítulo anterior:

(…) Ao longe, em um dos bancos fronteiros ao caramanchão, duas mulheres de lenços na cabeça e compridas saias de goma, contemplavam em religioso êxtase, dois fadistas, que assentados mas ao seu lado, cantavam ao desafio. Ou acaso, ou de firme propósito, uma das estrofes dizia assim:

Sopeiras de fina laia, não venham às hortas não; que as hortas são para o faia

E para as mulheres de baixa condição.

311 - Tomás de Melo, Recordando, Lisboa, Viúva Tavares Cardoso, 1904, pp. 21-25. 312 - O António Maria, n.º 447, edição de 20 de Maio de 1897.

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Pepe, menos ferido pela provocação do que pela sensaboria, e mal medido da estrofe, ergueu-se num salto de tigre, caindo de repente sobre os três fadistas.

Era muito de ver-se como toda essa multidão, entregue havia pouco, às delícias da comida, se levantou de repente, para saborear as peripécias daquela luta terrível e desigual. Ágil como um coreógrafo, (…) Pepe cresceu sobre os três, descrevendo um semicírculo com a ponta da lâmina. Ferira dois. Rapidamente se dividiram em dois partidos: um pelo espanhol, outro, o maior, o que mais influência parecia ter — levado pelo patriotismo — optava por prender o malfeitor. A questão tornava-se política. Pepe aproveitando a calorosa discussão da turba, pegou em Georgina [criada de sua condição] pelos braços, e, de fronte erguida e navalha em riste abriu uma clareira por entre aquela massa compacta, e se xalou. Georgina abandonando-me na corrida, partiu com Pepe e o meu companheiro! Fui imediatamente apanhado por uma das mulheres que estava com os feridos, e posto sobre a mesa. (…) Foi distante das hortas que Georgina deu pela minha falta. Valoroso à temeridade Pepe, a despeito dos rogos de Georgina veio reconquistar-me. Como uma aparição sobrenatural, caiu de chofre no meio de vinte pessoas que discutiam o acontecimento, e arrancando-me das mãos de uma das criadas que me contemplava assombrada, pegou-me pelo contraforte, e batendo-lhe com a minha sola, na face, lustrosa de banhas culinárias, deu um pulo de dois metros, e deixando assombrado o auditório que o contemplava, transpôs a porta da vivenda.314

Como fica patente, o herói da história é um sapatinho que vai viajando de pé em pé, conhecendo melhores e piores donas, numa narrativa com alguma anónima pimenta, mas sem picar como algumas das obras, por exemplo, de Alfredo Gallis (1859-1910). Não deixa de ser curiosa esta (e outra) quase desconhecida literatura popular licenciosa finissecular ou dos primórdios do século XX, numa das mais católicas e puritanas nações europeias, sempre a braços com crises sociais e financeiras, mesmo depois da Regeneração e da implementação do rotativismo partidário como garante de alguma estabilidade governativa. Os melhoramentos materiais do fontismo foram uma realidade, mas qual o saldo em Portugal do progressivo, embora nalguns aspectos angustiante século XIX, com todos os seus inventos e interrogações? Bastaria dizer-se que o sapatinho da citada obra anónima corresponde a um fétiche que não lhe sobreviverá até final, pois até as zonas de atracção física feminina se deslocarão mais para cima até ao final da centúria, para nos darmos conta de toda a complexidade que esta encerra.

Possui a presente dissertação por tema fulcral o fado e as suas relações com as diversas formas de criação artística, num espaço de tempo determinado. Mas se a trova por vezes é sujeito, noutras remete-se logicamente a cenário, sobretudo porque importa contextualizá-la em espaços, épocas, acontecimentos definidos. Além de que não raras vezes, por paradoxal que

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isso pareça, nem sempre o fado é detectável à primeira vista, havendo que procurar amiúde descortiná-lo…

A alegada canção das prostitutas, como atrás ficou dito, vai progressivamente angariando não apenas adeptos incondicionais como inimigos figadais, ambos esgrimindo argumentos mais ou menos fundamentados (a seu tempo deles falaremos), embora quase sempre toldados pelo calor das paixões. Estas são fáceis de atear num reino que obriga muitos dos seus naturais a procurarem longe melhor vida, perante a incapacidade de gerar recursos. Existe escassez de meios para tornar os portugueses mais cultos e, portanto, mais aptos a usufruir do admirável

mundo novo que constituiu o século XIX. A monarquia constitucional com base na Carta, que sobreviverá com emendas e aditamentos até 1910, será servida por políticos muitas vezes pouco hábeis, incapazes ou corruptos. As excepções são honrosas, mas em escasso número. Um povo analfabeto compra-se facilmente com o famoso carneiro com batatas eleiçoeiro…

3.1.1 — Admirável mundo novo…para alguns

Com a devida vénia a William Shakespeare e ao seu brave new world, que serviria de título ao famosíssimo romance de Aldous Huxley, publicado em 1932 e alertando para os perigos da desumanização numa era científica, torna-se difícil, no entanto, não intitular o século XIX com esse epíteto célebre, dando à palavra mundo o significado (espacial) de século. No conjunto das questões sociais, económicas, científicas, artísticas e históricas, surge-nos de forma nítida que a décima nona centúria depois de Cristo se apresentou como um verdadeiro universo pleno de inovações e de utopias para os habitantes do planeta. Torna-se claro que se nalguns casos teve gente capaz de ver com justeza o futuro, noutros averbaria erros clamorosos. Mesmo assim, poucos

momentos históricos terá havido tão portadores de grandes esperanças nas capacidades de realização do Homem, que parecia então caminhar a passos gigantescos no sentido de múltiplas libertações, desde as diversas formas de tirania política às servidões da fome e da doença. Considerado como o século da História por muitos, não falta quem o aponte como o da Ciência e permitimo-nos acrescentar que também foi, sem grande margem para dúvidas, o da cor, estudada e compreendida como nunca dantes acontecera. Prende-se esse aspecto, por exemplo, com os matizes impressionantes e quase impressionistas dos quadros de Joseph Mallord William Turner (1775-1851), filho de um simples barbeiro londrino. Foi um século de viagens e de conhecimentos

129 adquiridos através do contacto directo com obras, no caso dos artistas. Se o atrás citado Turner não tivesse podido admirar os quadros que Napoleão trouxera da campanha da Itália para o Louvre, se o inglês não tivesse posto os olhos ainda jovens nos grandes mestres venezianos do século XVI, teria a sua obra viajado até às alturas atingidas? É claro que muitos outros exemplos poderíamos dar no campo artístico e do estudo do passado humano, mas deixemos a interrogação, apenas, para o nosso pintor predilecto, não sem lembrar que uma simples visita ao Museu Gulbenkian nos pode proporcionar o contacto com a luminosidade peculiar do grande colorista, através dos temas marítimos que marcariam a sua pintura. Referimo-nos ao quadro Wreck of a Transport Ship (Destroço de um Navio de Transporte).

É na centúria de oitocentos que, graças aos avanços na química e nos mais diversos domínios, os grandes movimentos poderão usar a luz e o colorido de forma revolucionária, como fizeram impressionistas e pós-impressionistas. Fica assim esse tempo associado a marcantes realizações artísticas, fruto em larga medida do incremento no conhecimento científico das cores e da iluminação, como atrás se disse, mas também do aprofundamento dos estudos sobre o corpo humano, neste caso os relativos à fisiologia do olho. Os avanços na fabricação das tintas e seu acondicionamento permitiriam, por seu turno, ao pintor registar na tela a natureza quando usufruía do seu contacto directo.

Pode argumentar-se que o início do século XIX ficou marcado pela conflituosidade na Europa e não só, vindo à memória de imediato a figura de Napoleão Bonaparte (1769- 1821). Fundador do império francês, grande génio militar e organizativo, o temível corso possuía uma ambição desmedida e tudo queria conquistar (Portugal não escapou a essa gula), mas corporizava, por outro lado, alguns dos mais válidos ideais da Revolução Francesa, ocorrida em finais do século anterior. Tinham sido tempos sangrentos e difíceis os do fim do Antigo Regime e da execução de Luís XVI (1754-1793), com a guilhotina a surgir como duvidosa invenção humanitária e a polícia política revolucionária, o famoso Comité de Segurança Geral, a contar entre os seus membros (imagine-se!) com o pintor Louis David. A Convenção deixaria, no entanto, uma obra assinalável para o século seguinte, com a criação das (ainda hoje) chamadas

grandes escolas e de outras importantes instituições, como o Conservatório das Artes e Ofícios, a Escola de Belas-Artes, o Conservatório de Música, a Biblioteca Nacional, os Arquivos Nacionais, o Museu do Louvre... A conturbada época legaria também à França um hino com futuro assegurado, A Marselhesa, o serviço militar obrigatório, mais tarde

130 universalmente copiado, e, nomeadamente, esse jovem general de brigada que não nascera genovês por uma questão de escassas semanas, pois a França só comprara a Córsega em 1768. Capaz de rodear-se de homens competentes, o estratego começaria por ser um dos mais importantes defensores da Revolução, que, num plano mais teórico do que prático, decretara a igualdade dos cidadãos perante a lei, ou seja, o direito baseado no respeito pela pessoa humana, bem como o divórcio e a partilha das heranças entre todos os filhos. Elemento-chave no despertar das nacionalidades e implantadora de princípios saudados por pensadores como Immanuel Kant e Johann Fichte, a França revolucionária acabará por cair nas mãos de um Napoleão Bonaparte egoísta, capaz de jogar com os interesses e as paixões dos outros homens de forma a poder utilizá-los como melhor lhe conviesse. Adorado pelas suas tropas, que, com o correr dos anos, formarão um corpo de diversas nacionalidades (portuguesa inclusive) denominado Grande Exército, o general derrota as coligações que se levantam contra os franceses e sofre o seu primeiro grande revés no elemento que lhe era estranho, mas querido aos britânicos, a água, na batalha de Trafalgar (21 de Outubro de 1805). Com essa última acção naval do almirante Nelson, morto em combate, o Reino Unido assume o domínio dos mares, sem que isso impeça o auto-coroado imperador dos franceses de tentar conquistar toda a Europa.

Verdadeiro ícone do século XIX, admirado por Beethoven e pintado por inúmeros artistas, com relevo para David, Napoleão só será derrotado, definitivamente, em 1815, na batalha de Waterloo, pelas tropas comandadas pelo duque de Wellington, o general que chegara à península ibérica apenas como Arthur Wellesley (1769-1852) e, depois, será uma das personalidades mais influentes da primeira metade da centúria, que consagrará a máquina como elemento essencial ao progresso, não sem que isso levante fortes e compreensíveis contestações. De qualquer forma, a força do vapor conseguida por James Watt (1736-1819), dependente do carvão como combustível, não irá apenas expandir-se pelos rios europeus a partir da década de 30, chegando depois aos oceanos. A aplicação desse princípio energético aos meios terrestres, mediante a sua combinação com carris, possibilitará comunicações cada vez mais rápidas, eficazes e baratas. Esse invento do inglês George Stephenson (1781-1848) contribuirá para alargar, afinal, a vastos espaços, o movimento da revolução industrial, que a Inglaterra lidera desde a segunda metade do século XVIII, com a domesticação da força hidráulica e a transformação introduzida nas indústrias têxteis. Os altos-fornos multiplicam-se porque os objectos de ferro são cada vez mais necessários num espaço europeu que conhece um

131 progresso sem precedentes. Isso é assim sobretudo na Inglaterra, França e Alemanha, mas também em jovens países, como a Bélgica. Os métodos agrícolas aperfeiçoam-se, afirma-se a noção de que é preciso preservar os solos, como os ingleses já fazem com a vinha desde há muitos anos. As descobertas de Liebig aproveitarão à agricultura e incrementa-se o cultivo da batata, que minorará a fome numa Europa em constante crescimento demográfico.

A meio do século XIX, surge a era do aço  e não espanta que os países mais desenvolvidos incrementem o ensino das ciências e promovam a investigação. As matemáticas, a astronomia, a física desenvolvem-se aceleradamente neste século que cultiva os valores do conhecimento. Fresnel enuncia a teoria ondulatória da luz e Sadi Carnot dá vida ao princípio da equivalência do calor e da força motriz, iniciando assim a essencial termodinâmica. A electricidade torna-se uma verdadeira paixão, pois apresenta cada vez mais utilizações. Gauss inventa o telégrafo, Nièpce e Daguerre dão ao mundo a fotografia. O progresso parece querer surgir em todos os domínios, que não temos a pretensão de enunciar exaustivamente, nesta simples evocação de um século para contextualização de uma época. Mas como esquecer que, nesse período, se desenvolveu sobremaneira a cirurgia? Simpson utiliza o clorofórmio pela primeira vez em 1847, Laennec inventa a auscultação, Pelletier e Caventou descobrem o quinino contra as febres tropicais, surgem as fundamentais experiências de Claude Bernard e de Pasteur...

No domínio das ciências naturais, Lamark estuda a influência do meio ambiente na modificação dos seres vivos, Darwin publicará a sua Origem das Espécies (1859), um dos livros essenciais do século XIX, que também assistirá à observação das sociedades humanas por Alexander von Humboldt e Ritter. Na História, Michelet procura demonstrar que o fio condutor do percurso da humanidade é a sua emancipação progressiva. Filósofos como Hegel interrogam-se sobre a essência do universo e a natureza do homem, enquanto Augusto Comte rejeita tudo o que não se possa verificar cientificamente. Mas o século que tanto cultiva o conhecimento é também o de grandes poetas (Byron, Shelley, Keats, Schiller, Baudelaire, Whitman, etc. ), de portentosos romancistas (Dickens, Balzac, Stendhal, Dumas, Flaubert, Tolstoy, Dostoievsky, Zola, entre muitos outros) e de admiráveis dramaturgos (Kleist, Goethe, Victor Hugo, Wilde, Shaw, Ibsen, Strindberg, Tchekov e seus pares). A música (Beethoven, Schubert, Rossini, Chopin, Verdi, Wagner, Brahms e tantos mais), as artes plásticas (a plêiade vai de Constable a Cézanne) e a arquitectura (Nash, Soane, Vignon, Kleuze, Barry, Pugin e

132 outros) estão presentes num século de explosão de cidades devido ao incremento das indústrias. É também uma época atravessada por grandes causas, como a independência da Grécia em relação ao império otomano, que tanto impressionará Delacroix e que será um facto em 1829. A engenharia surge por toda a parte, com realizações até há pouco julgadas impossíveis, mas será o homem mais livre e viverá mais feliz? Seguramente não.

A economia política procura leis para os fenómenos sociais que sejam semelhantes às aplicáveis aos fenómenos naturais. Se Adam Smith lançara no século anterior os fundamentos do liberalismo económico, os discípulos (Say, Bastiat, Malthus e Ricardo) procurarão aprofundar os seus ensinamentos numa nova era industrial particularmente dura para os pobres. Não são apenas os marinheiros recrutados à força para navios da