CHAPITRE 1. SYNTHÈSE BIBLIOGRAPHIQUE
1. Saccharomyces cerevisiae
1.4.1. Glutathion
Em novembro de 1983, seis meses volvidos sobre a sua sessão solene de inauguração, o CEPCEP iniciou as atividades científicas regulares, com a realização de um curso subordinado ao tema Religião em África. Pas-
sado e Presente. Resultado de uma parceria entre a nova unidade da UCP e
o International African Institute, sob o patrocínio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian, essa primeira iniciativa trouxe a Lisboa e ao CEPCEP um vasto conjunto de académicos estrangeiros, provenientes de várias uni- versidades e continentes: John Middleton (dos EUA), John Peel (de Ingla- terra), Germaine Dieterlaine (de França), Bernardo Bernardi (de Itália), Johannes Fabian (da Alemanha), Merid Aregay (da Etiópia), Jacob Ajayi (da Nigéria), Ali Merad (da Argélia), Aquino de Bragança (de Moçambique), Peter Fry e Manuela Carneiro da Cunha (do Brasil), que se juntaram ao já conhecido Ioan Lewis (o conferencista convidado em maio desse ano), e a Carlos Laranjo Medeiros. O curso foi lecionado na UCP, em Lisboa, e repetido depois na Universidade do Minho, em Braga, tendo decorrido até maio de 1984. O ato inaugural do curso decorreu em dois dias. A 16 de novembro, houve uma sessão aberta para os inscritos, mas também para convidados e jornalistas, com palavras de boas vindas do Reitor da Universidade e do Presidente da Comissão Instaladora do Centro, Freitas Ferreira, e com a presença de dois convidados absolutamente especiais: Léopold Sédar Senghor, Presidente da República do Senegal entre 1960 e 1980, que proferiu a conferência inaugural, intitulada «Religião e Cultura Africana», e Mário Soares, ao tempo Primeiro-Ministro de Portugal. No dia 17, as autoridades académicas e convidados especiais (Senghor incluído), foi recebida pelo Presidente Eanes no Palácio de Belém, antes de rumar
72 Redes de Conhecimento
a Braga, onde se repetiu o ato da véspera (embora já sem a presença de Mário Soares).
Menos de uma década passada sobre a descolonização, trazer a Lisboa o antigo Presidente do Senegal e juntá-lo na mesma mesa com Mário Soa- res, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, a quem uma certa memória coletiva assacava supostas responsabilidades no que de pior tivera aquele processo, era um ato de coragem cívica – e, do ponto de vista do reconhe- cimento do CEPCEP, uma excelente estratégia de publicidade. A realização do curso atraiu a atenção pública, tendo o influente semanário Expresso dedicado duas páginas da sua revista ao evento, num artigo assinado
por Jorge Wemans124. O texto não se debruçava somente sobre aquela
iniciativa; a partir de uma entrevista feita a Mário Lages e a Carlos Laranjo Medeiros, o jornalista apresentava ao público a própria natureza e linha ideológica e programática do Centro. E por isso vale a pena recordar o seu teor.
Os dois vogais do Centro entrevistados detalharam a Jorge Wemans o que era, e o que pretendia ser aquele nascente CEPCEP: “a intuição [do Centro] é a de compreender o que tem sido e o que é ser português, o que Portugal tem dado ao mundo e o que tem recebido”; e isto, salientavam ambos, “sem qualquer intenção neocolonialista ou interesseira”. Era então o seu horizonte o estudo da “Portugalidade” ou da “Lusitanidade”? Não recusando essas palavras, Lages e Medeiros achavam-nas, todavia, reduto- ras. Sem dúvida no centro das preocupações do CEPCEP estava a questão da “identidade cultural” portuguesa; mas essa identidade era sobretudo multiespacial (ou multicontinental), com destaque para o espaço histórico e geográfico do Atlântico. Daí a importância de “estudar os contactos que nos tocam como nação, de investigar esse espaço cultural que nos tornou uma nação. Se queremos continuar a ter uma identidade cultural própria, não podemos ficar manietados pela ideia fetiche das fronteiras”. Carlos Laranjo Medeiros assumia mesmo que o CEPCEP estava, de algum modo, em contracorrente com a moda da integração europeia, que então domi- nava a agenda e o debate português: periférico no velho mundo, Portugal só existira, e só existiria se, com um novo olhar atlantista, mas pós-impe- rial, soubesse revalorizar-se, evitando assim “a nossa futura regionalização na Europa”. O problema estava – e ainda era sentido em 1983 – em que “o fascismo” (sic) prejudicara “profundamente toda esta temática”. Não se tratava, contudo, de reificar as velhas prevenções históricas de que a maior e melhor parte de Portugal estava “fora da Península” e, portanto, fora da
I PARTE – 4. Os primeiros tempos do CEPCEP:… 73
Europa. Portugal era europeu, mas era também Atlântico. Uma pertença não excluía a outra e, bem ao contrário, ambas se deveriam mutuamente informar e enriquecer, para um quadro mais denso do que era a “identi- dade cultural nacional”.
A especificidade do CEPCEP no panorama nacional era tópico bem caro aos dois entrevistados. “Não existe nenhum outro centro universitário no país”, realçavam ambos, “que tenha esta ideia de base, esta perspetiva de investigação, e que se abra a um trabalho interdisciplinar tão vasto como os que estamos iniciando no campo da história, economia, filosofia, ciência das religiões, antropologia, etc.”. Os ecos eram já muito positi- vos e os apoios “calorosos”. Mário Lages e Carlos Medeiros aproveitavam mesmo para agradecer especificamente a Mário Soares e a Jaime Gama “o interesse manifestado a propósito das atividades que se iniciam”. Mul- tidisciplinar por natureza, o CEPCEP era uma plataforma de diálogo entre investigadores de várias proveniências (o próprio Carlos Medeiros dava aulas na UNL), e estava aberto a colaborações com outras universidades e institutos. Mas era importante salientar que ele nascera na Universidade Católica porque, nas palavras de Mário Lages, “a esta universidade inte- ressam os problemas máximos da cultura e da sociedade portuguesas”, e porque, adicionava Carlos Medeiros, “aqui [na UCP] pode manter-se uma continuidade de investigação que não está à mercê das flutuações políticas
e das dificuldades orçamentais” que outras universidades enfrentavam125.
Informado pela entrevista previamente realizada, Jorge Wemans compôs um texto que era lisonjeiro para o CEPCEP, destacando a sua juventude, o dinamismo da Comissão Instaladora e as relações privilegia- das já abertas com vários organismos estatais e privados e com diversas universidades europeias e latino-americanas (de que era prova a reali- zação do curso sobre Religião em África). Contudo, mesmo salientando o quanto o CEPCEP existia para “reexaminar Portugal”, “a sua realidade como nação” e a sua “identidade cultural, através dos laços que o pren- dem à Europa ou aos povos contactados durante as fases de expansão e de exílio” (e tudo isto configurava o programa de “uma relação não mitificada com o Atlântico”), o jornalista não deixava de afirmar – traindo um certo ar do tempo – que as perspetivas de investigação do Centro pareciam “equacionar-se de forma muito próxima do discurso oficial que
125 Carlos Medeiros acrescentava mesmo, na entrevista dada ao Expresso: “ao contrário do que se pensa, na Universidade Católica há tanta liberdade de pensamento como em qualquer outra Universidade do país. Não dizemos que existe maior liberdade de pensamento só para não se inferir que nas outras não exista igualmente…”.
74 Redes de Conhecimento
sustentou, durante anos, a imagem do ser português para consumo dos próprios”. Visto de fora, para quem o conhecia pouco, o CEPCEP era uma instituição “controversa”, que parecia querer atenuar o euro-entusiasmo vigente em muitos (estava-se a um ano e meio da assinatura da adesão de Portugal à CEE), cultivando tópicos e elementos sem dúvida “válidos” para uma política de “cooperação” com África (e outras zonas do globo), que não era de desdenhar, “embora constitutivos do discurso pseudo-histórico ultraconservador (sic) em que se baseava a ideologia do regime que geriu a última fase do Império”. Estas apreciações – como que insinuando uma espécie de filo-salazarismo atribuível ao CEPCEP – suscitaram uma reação de Mário Lages e de Carlos Medeiros. Em carta ao diretor do Expresso, que o jornal publicou, ambos agradeciam a atenção dispensada ao Centro e ao seu curso, asseverando que o mesmo se pautava e sempre pautaria por um estrito caráter científico e apolítico. Por isso, “a afirmação de que pensar Portugal passa pela análise quer do espaço onde se originou a cultura portuguesa – Portugal e a Galiza – quer daqueles a que esteve historicamente ligada – África, Brasil e Oriente – quer das comunidades de emigração, é feita numa perspetiva meramente cultural e não contém qualquer recusa ou opção política”. E isto implicava que, “em termos polí- ticos, os princípios do Centro são os do respeito pela dignidade da pessoa humana, dos povos e das culturas e pelo seu desenvolvimento em plena liberdade, repudiando qualquer forma de domínio e rejeitando todos os
colonialismos e neocolonialismos”126.
Polémica – que não o chegou a ser – à parte, a publicidade do Expresso foi ótima e o curso Religião em África um assinalável sucesso. Ainda ele decorria e já o CEPCEP se lançava, no primeiro semestre de 1984, em duas outras realizações: um curso de Iniciação à Etnografia Portuguesa e um seminário internacional sobre Direito Costumeiro Africano. O primeiro, realizado em fevereiro de 1984, foi patrocinado pela Direção-Geral da Família, e destinava-se a formar, em teorias e metodologias, futuros cola- boradores do CEPCEP em todo o país, para recolha e análise de dados socioculturais. O segundo, em abril, resultando de uma parceria com o Centro de Estudos Judiciários do Ministério da Justiça e com o departa- mento de Direito da London School of Economics, visava conhecer melhor os ordenamentos jurídicos tradicionais dos países da África lusófona e anglófona, na sua relação com as legislações pós-independências.
Mesmo sob uma Comissão Instaladora e – recorde-se – ainda sem Estatutos finais aprovados, o trabalho prosseguia e os sinais de reconheci-
I PARTE – 4. Os primeiros tempos do CEPCEP:… 75
mento exteriores já apareciam. Várias entidades culturais, academias e edi- toras ofereceram livros, catálogos e documentos para a nascente biblioteca do Centro. Uma carta convite da Associação 25 de Abril, assinada por Vítor Alves e Vasco Lourenço, pediu ao CEPCEP que marcasse presença, apro- veitando para divulgar alguma atividade que considerasse mais impor- tante, no colóquio 25 de Abril – Dez Anos Depois, que a Associação estava
para levar a cabo127. Do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tutelado
ao tempo por Jaime Gama, chegava correspondência demonstrativa do interesse em ter o CEPCEP como parceiro para “o estudo da problemática referente aos países africanos de língua oficial portuguesa” e a promessa de que tudo se faria para dar a conhecer o Centro às embaixadas desses países. De docentes dos polos regionais da UCP ou até de investigadores exteriores à Universidade vinham pedidos ou manifestações de disponi- bilidade para colaboração com as atividades a levar a cabo – até projetos de dissertações de Mestrado a realizar no CEPCEP, que o Centro teve de rejeitar, sob o argumento de que não era uma unidade letiva conferente
de graus académicos128.
Além dos cinco membros da sua direção, não havia – nem nunca houve, até ao presente – um quadro permanente de investigadores no Centro. Mas porque o trabalho ia em crescendo e, sobretudo, porque havia que encetar projetos de investigação e não apenas de realização de cursos ou seminários, foi recrutada uma jovem investigadora, Ana Maria Costa Lopes, que viria a fazer carreira docente na FCH, acumulando com as tarefas do Centro. Professora na Escola Preparatória António Pereira Cou- tinho, em Cascais, Ana Costa Lopes chegou através de um contrato anual de requisição e destacamento, via Ministério da Educação, para bolseira ou tarefeira de um projeto de estudo das fronteiras luso-espanholas, de onde resultariam publicações sobre literatura regional e conto tradicional português e uma investigação sobre namoro e casamento, a muitos títulos inovadora no panorama da sociologia, da antropologia e da etnografia.
Ana Costa Lopes não mais deixaria o CEPCEP até à atualidade, e por isso o seu olhar diacrónico é um importante testemunho do espírito reinante no Centro. Como hoje recorda, foi ali encontrar “experiências muito novas, muito ricas e bem distantes das que tinha tido na Faculdade de Letras de Lisboa”. Os seus superiores hierárquicos rapidamente se tor- naram colegas: eram – a direção – “pessoas muito cultas, muito humanas,
127 Ibidem, CR 1 (carta de 6.2.1984).
128 Ibidem, CE 1 e CE 2 (cartas de 17.7.1984 e 11.2.1985, a primeira endereçada a um Assis- tente Estagiário do polo de Viseu da UCP, e a segunda a um investigador portuense).
76 Redes de Conhecimento
muito próximas, muito entusiastas, muito criativas, muito acessíveis, com muita liberdade de pensamento”. E isso repercutia-se de forma positiva no trabalho: “a receção de ideias novas no novo Centro e a postura do grupo, tão aberta à inovação e internacionalização, através de matérias tabus na nossa sociedade, como era, por exemplo, o caso da área ligada a África,
constituiu um enorme risco, mas muito bem sucedido”129.
Ideias não faltavam – e essa seria uma futura constante da história do CEPCEP até hoje. Naqueles primeiros tempos, em que o Centro já explorava a área temática e geográfica africana, ao mesmo tempo que queria expandir-se para o estudo do eixo Portugal-Galiza e Oriente, esboçaram-se alguns projetos que depois ficaram pelo caminho, ou que, remodelados, só viriam a produzir frutos mais tarde. Eles valem, sobre- tudo, pelos sinais de vanguardismo que significavam e, alguns, pela valia dos nomes que chegaram a envolver. No outono de 1984, Freitas Ferreira multiplicou-se em reuniões exploratórias com Manuela Aguiar, uma antiga colega parisiense de Mário Lages, que era ao tempo Secretária de Estado da Emigração do governo do Bloco Central, para delinear um programa de estudo sobre as comunidades portuguesas migrantes, ou com Aníbal Cavaco Silva, o antigo Ministro das Finanças de Sá Carneiro, mais tarde figura incontornável da mais recente história da democracia portuguesa, contactado para lecionar um módulo de «Dinâmicas Económicas» num
Seminário Portugal Hoje, para cuja realização depois faltou dinheiro130.
Desde o verão de 1984 e em vários momentos de 1985, o CEPCEP estrei- tou também aproximações a Fernando Cristóvão, o Presidente do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa (o ICLP), não apenas para obter possíveis patrocínios para a revista a lançar (Povos e Culturas), mas, sobretudo, para esboçar programas de formação de professores – uma valência em que o
CEPCEP se viria mais tarde a destacar131. Através de Mário Pinto, Freitas
Ferreira entabulou igualmente conversações com a Fundação Calouste Gulbenkian, em particular com Vítor de Sá Machado, um dos seus admi- nistradores, dando-lhe conta do interesse que o Centro tinha em “estudar a criação de cursos de ensino superior à distância, com especial relevo
para a realidade dos países africanos de língua oficial portuguesa”132.
129 Ana Costa Lopes, entrevista por e-mail (novembro de 2016). V. também um seu testemu- nho recente em Lopes e Carneiro, 2016, pp. 226-227.
130 Arquivo CEPCEP, CEP 1 (notas manuscritas das reuniões de Freitas Ferreira, 18 e 30.10.1984).
131 Ibidem, CEP 1 (nota manuscrita de Freitas Ferreira, 17.10.1984).
132 Ibidem, CE 1 (carta de 20.7.1984). Em maio de 1985, Vítor de Sá Machado receberia, das mãos do CEPCEP, um Estudo de Viabilidade da Criação de Cursos de Extensão Universi-
I PARTE – 4. Os primeiros tempos do CEPCEP:… 77
Tratava-se de um nicho nada, ou muito pouco explorado, naquela altura e que só os progressos no domínio das novas tecnologias de informação e comunicação generalizariam, na viragem da década de 1980 para a década de 1990 (a Universidade Aberta, de ensino a distância, seria fun- dada em 1988).
Nada se fazia sem dinheiro e, para a vida do Centro, o financiamento necessário não era abundante. Carlos Laranjo Medeiros é lapidar a esse respeito: “era muito complicado arranjar dinheiro. Eu passava metade do
meu tempo a esgravatá-lo!”133 E “esgravatar” significava encontrar, manter
ou alargar patrocínios e subsídios. A Fundação Gulbenkian surgia no topo das preferências e das disponibilidades – e de facto financiou, num total de mais de um milhar de contos, a preparação e realização de um semi- nário sobre Educação em África, de um curso sobre Portugal e o Oriente, de um congresso sobre Ciências Sociais e Desenvolvimento na África Sub-
saariana, todos realizados em 1985, e de um Curso para Professores e Monitores do Instituto Nacional de Formação Turística, já em 1986134. Mas
houve que diversificar. Ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, pediram-se 1500 contos para “funcionamento da infraestrutura do CEPCEP, bem como para a organização de novas iniciativas e apoio às atividades
planeadas para 1984-85”135. A Carlos Medeiros, Jaime Gama confidenciou
que tal montante não era possível, “mas quase de certeza” se poderiam
“arranjar umas centenas de contos”136, talvez através da realização de um
curso de formação para cooperantes cuja frequência o MNE venderia137.
Ao Ministro da Cultura, António Coimbra Martins, também foram pedidos 1500 contos, estes para financiamento parcial de um projeto de investiga-
ção a lançar sobre Música Portuguesa no Século XVIII138. O Ministério da
Cultura indeferiu, mas libertou algumas verbas que, somadas a dinheiros da Fundação Gulbenkian, permitiram a aquisição para o CEPCEP de um
bom pacote de bibliografia, nos finais de 1984139.
tária e Ensino Superior a Distância pelo CEPCEP, através dos quais se poderia lecionar
para os PALOP, a partir de Lisboa, nas áreas (preferenciais) de economia, gestão, línguas e formação de professores (Arquivo CEPCEP, CE 1, carta de 6.5.1985).
133 Carlos Laranjo Medeiros, entrevista presencial (setembro de 2016). 134 Arquivo CEPCEP, CE 2, passim.
135 Ibidem, CE 1 (carta de 24.10.1984).
136 Ibidem, CEP 1 (nota manuscrita de Carlos Medeiros, 31.10.1984). 137 Ibidem, CE 2 (carta de 4.1.1985).
138 Ibidem, CE 1 (carta de 13.11.1984). 139 Ibidem, CE 1 (carta de 13.12.1984).
78 Redes de Conhecimento
Em maio de 1985, Roberto Carneiro informou os colegas de uma oferta inesperada: o governo líbio propunha-se financiar os estudos que viessem a resultar de um convénio que o Centro assinara recentemente com a comunidade islâmica em Lisboa. Sem surpresas, em reunião de direção, todos os membros concordaram que a proposta era simples-
mente “inaceitável”140. O problema da oferta chamava-se Muamar Kadhafi.
A prova de que não havia islamofobia estava no convénio já assinado com a comunidade islâmica e também, por exemplo, nas boas relações entre- tanto encetadas com a Fundação Aga Khan, materializado na obtenção de um subsídio de 200 contos para a publicação do primeiríssimo livro da futura vasta produção bibliográfica do Centro: O Islamismo ao Sul do
Saara, da autoria de Ioan Lewis, editado em 1986 como 1.º volume da
coleção «Estudos e Documentos»141.
Um dos aspetos centrais dos primeiros anos de atividade do CEPCEP, depois continuado com ritmos flutuantes – e que de resto se ligava de forma estreita à questão dos financiamentos – foi a realização de convé- nios ou protocolos com várias entidades, académicas ou não, nacionais e internacionais. Era uma aposta explicitamente prevista em todos os docu- mentos programáticos do Centro e vertida em artigo próprio do projeto de Estatutos (que ainda estava em discussão). Os convénios ou protocolos “externalizavam” o CEPCEP, potenciando a sua visibilidade e reconheci- mento e cimentando o seu papel de interlocutor no panorama cultural português.
Um primeiro convénio, ou protocolo, do Centro fora já rubricado, em maio de 1983, com a Secretaria Geral da Família. Vários se lhe sucederam em 1984. O primeiro convénio desse ano foi assinado com o International
African Institute de Londres – a alma mater de Ioan Lewis (e de Carlos
Laranjo Medeiros, quando estudara em Inglaterra) – logo a 15 de fevereiro de 1984. O ato de assinatura teve honras de cobertura mediática, porque reuniu os subscritores, Freitas Ferreira, pelo CEPCEP, e Jacob Ade Ajayi, pelo IAI, e porque marcaram presença na cerimónia os Ministros da Cul- tura e da Educação (António Coimbra Martins e José Augusto Seabra), o chefe de gabinete do Primeiro-Ministro (em representação de Mário Soa- res), o Presidente do Instituto de Investigação Científica e Tropical (IICT), o Embaixador da Nigéria em Lisboa e o Reitor (Pe. Bacelar) e Vice-Reitores
(Pe. Manuel Isidro Alves e Jorge Costa André) da UCP142.
140 Ibidem, ARD, 20.5.1985.
141 Ibidem, CE 3 (carta de 13.12.1985). 142 Ibidem, CEP 4.
I PARTE – 4. Os primeiros tempos do CEPCEP:… 79
Nas palavras protocolares, o Presidente do CEPCEP lembrou a ligação já frutuosa que havia com o IAI, desde maio de 1983, e sobretudo visível na realização conjunta do curso Religião em África, anunciando que a este se seguiria um outro (realizado em 1985), sobre Educação em África. O convénio ali assinado era um reforço da promessa de cooperação e apoio mútuos, que colocava especialmente em relevo “o papel que os portu- gueses desempenharam, desempenham e desempenharão em África”. Era uma comunhão transcontinental – não uma “vocação”, um “destino” ou uma “ambição”, mas tão só “uma realidade histórica que o mundo não pode negar, nem menosprezar”. Tomando a palavra de seguida, Jacob Ajayi agradeceu o interesse do CEPCEP no trabalho do International
African Institute e brindou os presentes com uma pequena conferência
subordinada ao tema «Cristianismo em África. O Protestantismo», na qual lembrou que católicos e protestantes ainda eram, em muitas zonas do con- tinente africano, “numericamente superiores aos muçulmanos e a outras religiões tradicionais africanas” e que, enquanto realidades cristãs ambas, não deveriam aqueles ser “analisados separadamente”. José Augusto Sea- bra, o Ministro da Educação, interveio no fim, para saudar os presentes e louvar a iniciativa, afirmando que aquele ato se revestia de “um significado