A tabela 15 focaliza as expressões selecionadas como expressivas de tendências ou características regionais em cada um dos dois grupos e a tabela 30, nos anexos, os parâmetros necessários ao teste do qui-quadrado.
Tabela n.° 15 - Quadro comparativo das expressões da cultura regional por regiões brasileiras
ammYajSSaBg. B afai
w m
H ggp
Nordestino, nordeste 54 23,9 Florianópolis 67 24,9
jggg Bahia 48 21,2 2° Nordestino, nordeste 41 15,2
m Salvador 21 9,3 ||p§|| Música 37 13,8
Festa 19 8,4 :4o Santa Catarina 33 12,3
S J I EU A, Estados Unidos, Europa 16 7,1 Brasileiro 22 8,2 a Brasileiro 15 6,6 m m EUA, Estados Unidos, Europa 20 7,4 Americano, norte-americano 12 5,3 w m Americano, norte-americano 10 3,7 ||CÍQ=5Paulista, mineiro, carioca, gaúcho 12 5,3 Festa 9 3,3 Música 10 4,4
mm
Paulista, mineiro, carioca, gaúcho 8 3,0fDP Turista, visitante 6 2,7 m- Dança, dançar 7 2,6
m
Sulista, sul 5 2,2 11° Catarinense, catarinenses, barriga verde5 1,9 i l l Baiano, baianos 4 1,8 iwm.Turista, visitante 4 1,5
KM Dança, dançar 2 0,9 1 V Sulista, sul 4 1,5
14° Santa Catarina 1 0,4 14" Bahia 2 0,7
111Carnaval 1 0,4 15° Salvador 0 0,0
¡ESIFlorianópolis 0 0,0 16° Baiano, baianos 0 0,0
\T Catarinense, catarinense, barriga verde
0 0,0 Carnaval 0 0,0
Total 226 100,0 ■¡¡Ei Total 269 100,0
O teste do qui-quadrado, instrumentalizado pela tabela 30, nos anexos, expressa, pelo seu valor de 168,36, a ocorrência de diferenças estatisticamente significativas entre as duas regiões, e que tais diferenças não são devidas ao acaso. O coeficiente de Cramér de 0,45 exprime um nível médio de intensidade nessa diferenciação. Os termos "nordestino" e "nordeste" apresentam freqüência maior em Salvador (1° lugar) do que em Florianópolis (2.° lugar), sendo empregados para designar a seca e a fome que vitima e assola aquela
14 Cabe aqui observar que as menções a Antônio Carlos Magalhães, político baiano, que aparecem na tabela 14 referem-se ao nome de uma rua em Salvador, onde se situa a "Catedral da Fé" da IURD, não ao político. 15 Felicidade e consumo são termos associados numa "sociedade de consumo".
região e aquele povo, e, ao mesmo tempo, para divulgar o trabalho filantrópico da ABC e da IURD. Na tabela 30 dos anexos, "nordestino" é mais recorrente do que o esperado na Bahia do que em Santa Catarina. O que articula os nordestinos enquanto "povo", o que lhes confere uma certa "identidade regional" é a miséria e a seca e não, propriamente, algum sentimento de "orgulho regional". Ao "povo do sul", expressão referida uma vez nos programas da Bahia e três nos de Santa Catarina, é conferida a capacidade de "saber da necessidade das pessoas e não medir esforços para ajudar" ("sondagem de opinião").
A modulação regional não parece adquirir, nos discursos iurdianos, um estatuto de valor capaz de se sobrepor à força da homogeneização e à própria perspectiva universalizadora, coadunada, de algum modo, como já foi mencionado, com a proposta igualitária do próprio cristianismo. As referências parecem ater-se mais à arena geográfica do que cultural, como as repetidas chamadas para os templos situados em Salvador ou em Florianópolis, além das demais cidades recorrentemente nomeadas, distribuídas pela área de abrangência dos programas televisivos e da atuação da Igreja Universal. Essas expressões: "Bahia", "Santa Catarina", "Salvador" e "Florianópolis" são as que mais contribuem para demarcar uma diferenciação entre as duas regiões, conforme se pode inferir da tabela 30, nos anexos, mediante as distâncias que apresentam entre as freqüências obtidas e as esperadas.
No intuito de sondar eventuais referências ao "Primeiro Mundo" desenvolvido, foram investigadas as menções aos Estados Unidos e Europa (não foi incluído o Japão), que apresentaram uma relativa proporcionalidade nas duas regiões pesquisadas (5.° lugar e na Bahia e 6.° em Santa Catarina). Para uma mentalidade provinciana, "se até os americanos estão aderindo, por que não deveríamos aderir"? As matérias produzidas pelas Igreja, propagando o seu trabalho em Miami, Nova Iorque, Londres, Paris, sem mencionar os países fora do circuito primeiro-mundista, como México, Colômbia, Chile, etc., relatam a sua repercussão entre os imigrantes, procedentes da África, Caribe, etc., em busca de "uma vida digna" (narrador da IURD).
A palavra "festa" ( 4 o lugar na Bahia e 8.° em Santa Catarina) também é um termo representativo do trânsito profano-sagrado, inscreve-se na pauta dos valores abolidos pelo iurdiano quando de sua mudança ou conversão ("eu saía para as festas com amigos"), e, uma vez matizada pela inserção do fiel no universo religioso da Igreja, reveste-se de uma significação divinizada. "Festa" não aparece referindo-se a qualquer evento de caráter cultural ou regional, só ocorre dentro do âmbito religioso.
O termo "música" ( 9 o lugar na Bahia e 3 o em Santa Catarina) designa, majoritariamente, as canções religiosas anunciadas pelos agentes iurdianos; a maior incidência em Santa Catarina justifica-se pela presença, nos programas, do depoimento de um músico. Portanto, nesse ínterim, piadas, adágios, manifestações populares "profanas" dificilmente circulariam pelo " espaço público" ou pela "retórica oficial" da Igreja Universal.
"E você, minha amiga, meu amigo, é convidado a estar conosco neste domingo, participando desta festa onde nós estaremos nos enchendo, fazendo o nosso coração transbordar, ser inundado pela paz da felicidade, da alegria e da água do Espírito Santo" (Pastor, Programa Pare de sofrer, Salvador, Rede Record, 24-05-98).
Portanto, em vista do que se pôde verificar, a nossa segunda hipótese: de que os discursos que animam a mídia televisiva da IURD em Salvador e em Florianópolis são bastante uniformes em vários aspectos, mas a "ética do trabalho" (como um conjunto de princípios que modelam a conduta do indivíduo em relação ao trabalho) tende a ser menos enfatizada na Bahia do que em Santa Catarina, só se confirma parcialmente, de acordo com os dados analisados. O levantamento quantitativo e os testes do qui-quadrado realizados oportunizaram a apreensão, como vimos, de diferenças significativas, sob certos aspectos, entre as duas regiões, mas não a ponto de caracterizar uma ênfase maior ao trabalho ou a uma "ética do trabalho" em Santa Catarina do que na Bahia. O que se manifestou de forma clara nos discursos analisados foi a maior ênfase ao trabalho institucional e filantrópico da IURD na Bahia do que em Santa Catarina.
A força universalizadora e homogeneizadora, à qual já nos referimos antes, do neopentecostalismo iurdiano, articulada ao código relativamente padronizado da sua linguagem midiática, onde depoimentos e pregações são transladados de uma região para outra, acentuam muito mais a onipresença da Igreja do que as especificidades porventura pertinentes a cada "conversão" ou a cada "corpo" local de "fiéis", o que, em certa medida, pode justificar a indiferenciação sob o ângulo mais específico da "ética do trabalho".
O substrato que sanciona o trabalho, a prosperidade, a saúde, a paz, a vida, enfim, e que emerge da retórica iurdiana é a "fé", mas a fé que toma uma "atitude" (que começa por buscar a IURD) e que se manifesta como uma justaposição de razão, emoção e magia. O caráter obsessivo do "trabalho institucional" da Igreja não se impõe como sanção; mas, enquanto persuasão, porta sua própria carga de violência simbólica.