O período durante o qual a pesquisa de campo foi realizada inscrevia-se em uma intensa campanha de moralização das vias públicas encabeçada por jornalistas e colunistas da imprensa local que teciam o que eles chamavam denúncias a respeito das travestis na avenida da Saudade e parabenizavam a ação policial subsequente à publicação de seus escritos, segundo atestou uma análise do pequeno arquivo de reportagens relacionadas às travestis e
41Incorro, aqui, em um problema delicado, qual seja, a não revelação das fontes jornalísticas. Opto, entretanto, por tal estratégia como forma de manter o anonimato sobre a cidade, as instituições e as sujeitas que integram a pesquisa.
veiculadas nos jornais locais de que dispunha a Sempre-Viva42. Os personagens mais engajados em tal atividade midiática eram Humberto, um colunista que costuma fazer uso de linguagem popular apropriando-se de gírias e expressões locais, e Orestes, jornalista responsável por uma coluna policial diária em outro jornal da cidade, apresentador de um programa televisivo na região e, à época, candidato a vereador, que não conseguiu eleger-se (perdeu sua vaga na Câmara para um pastor evangélico).
Nessas colunas, os comentaristas expõem sua foto e seu endereço eletrônico, logo abaixo do nome, oferecendo um caráter mais individualizado à voz que celebra a notícia. Ali, tecem breves comentários pretensamente “bombásticos” fragmentados por pequenos subtítulos que iniciam pequenos parágrafos imbuídos de avaliações pessoais. Destaca-se, mais do que o conteúdo de intolerância e sexismo, o tom com que esbravejam suas observações: por vezes, outorgam-se semi-heróis da virtude, reivindicando processos de moralização sob sua perspectiva de senso comum e assumindo-as a despeito de críticas imaginárias a sua posição. Observe-se o seguinte comentário: “podem até ficar de 'beiço torto' com esse
caboclo que aqui vos escreve, o negócio é que não podemos nem devemos deixar que a tal liberdade vire libertinagem. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e muito diferente” (comentário de Humberto a respeito da ação policial que fechou estabelecimentos em que atuavam mulheres prostitutas, em junho de 2007).
As colunas que reverberam na “moralização” das vias públicas se caracterizam por acompanhar, comentar e arrematar reportagens policiais incriminando uma ou outra travesti por assalto ou roubo. Nesse sentido, tomando por generalizadas as práticas registradas nas reportagens, trazem acusações contra a prostituição de travestis, cobram medidas policiais e congratulam ações policiais de grande repercussão. Por vezes, as acusações e os apelos se fundamentam na afirmação de que se trata de uma demanda da população, ainda que a voz desses outros sujeitos raramente apareça e mesmo que, como mencionado, o colunista se apresente como um bravo de atitude heroica que expõe aquilo com a coragem de ir contra opiniões alheias, por defender “o que é certo”: “esse negócio de mulherada e viadada quase peladas nas ruas precisa e deve ser brecado” (comentário de Humberto após reportagem de uma jornalista tratando da ação, entre as travestis, pelos cuidados com os trajes na rua, em junho de 2007).
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No total, eram, no momento da pesquisa, 33 matérias, provenientes de 4 jornais, com datas entre agosto de 2003 e junho de 2008. Embora o número de reportagens fosse bastante pequeno e os recortes não se vinculassem a um monitoramento sistemático, a análise desse conteúdo jornalístico me sinalizou valores e acontecimentos sociais significativos no contexto do Vale das Passagens.
Uma das reportagens, datada de junho de 2007, retrata o impacto das companhas moralizadoras empreendidas pela imprensa sobre as travestis e sua relação com os demais atores sociais. Uma das travestis, antecipando-se à ação policial que se vinha realizando junto aos estabelecimentos voltados à prostituição, passou, ligada à ONG local, a circular entre os pontos de prostituição de outras travestis alertando-as de que fizessem uso de roupas que dessem conta de cobrir o corpo, afinal ela própria vinha sofrendo ameaças por parte da população sob a justificativa de que, sendo atacadas moralmente pelos meios de comunicação, não teriam o direito de reclamar ou de reagir diante das agressões.
Não raras vezes, também, os apelos pela moralização das vias públicas se amparam em uma miscelânea de acusações ou de supostos “problemas” no local de que se trata: tráfico de drogas, roubo, assaltos à mão armada e vestimentas inadequadas se somam na justificativa pela demanda de intervenção, muito embora, na própria reportagem, a relação entre a circulação de substâncias ilícitas não apareça como prática empreendida pelas travestis e sim como evento simultâneo ao trottoir em um espaço apropriado por muitos diferentes sujeitos para distintas práticas sociais. Esse agrupamento de fenômenos moralmente postos sob desconfiança constrói e fundamenta o pânico moral em torno das travestis na cidade.
Há tempo venho dizendo no meu programa de televisão sobre o perigo iminente dos travestis na Avenida [da Saudade]. Pense bem, o travesti estava armado, será que só este ou uma prática de todos que ali fazem ponto? Nas grandes capitais, as ocorrências são diversas, os hospitais recebem diariamente homens com suas faces cortadas por brigas com os rapazotes, além é claro, do possível tráfico de drogas. Parabéns à Polícia Militar que já há alguns dias vem fazendo a fiscalização na [Saudade] e mostrando quem é que manda (Coluna de Orestes, publicada em maio de 2008, relacionada à reportagem sobre a prisão de Giovana, acusada de assalto à mão armada).
O excerto acima demonstra, além do recorrente tratamento dados às travestis pela desinência de gênero masculina – o que configura, em si mesmo, uma modalidade de ofensa moral –, como a imagem das travestis como um “perigo iminente” é construída a partir da articulação entre fragmentos aleatórios, levantados meramente na forma de hipóteses não comprovadas por meio de dados, sugerindo elementos de atrocidade a sujeitas que o próprio jornalista desconhece. O encadeamento de múltiplas generalizações, todas amparadas em representações moralizadoras extremamente subjetivas, projeta, como em um jogo de sombras, o alerta para o controle e desconfiança em relação ao grupo das travestis. Nesse sentido, a noção de pânico moral desponta como explicativa ou descritiva da forma como a
imprensa jornalística local, através de seus colunistas das páginas policiais, representam as travestis que atuam como prostitutas na cidade.
Richard Miskolci (2007), apoiado em Kenneth Thompson, esclarece que, do ponto de vista da abordagem estadunidense sobre os pânicos morais, a mídia opera pela espiral de significação, de modo estabelece conexões de significação entre fenômenos paralelos, ampliando uma preocupação social. É dessa forma que parecem operar certas reportagens ou colunas acerca das travestis na cidade, como se observa na publicada em agosto de 2003, acerca das reclamações do presidente da Associação de Moradores de um bairro: “moradores pedem a retirada de travestis”, diz a manchete, acompanhada de um segundo título em letras menores, segundo o qual “famílias do bairro (...) se incomodam também com o tráfico de drogas”. No corpo da reportagem, ilustrada com a foto de uma travesti em seu ponto de trabalho, um embaralhamento entre as reclamações sobre a conduta das travestis na rua, sobre o tráfico de drogas e sobre o vandalismo no bairro finalizam com a providência tomada pela polícia: “as rondas noturnas serão intensificadas, e policiais ficarão de plantão observando as atitudes dos travestis”.
A produção jornalística, portanto, constrói demandas junto à polícia a partir de seu lugar de veiculadora da “opinião pública”, seja alertando para supostos perigos iminentes representados pela atuação das travestis, seja congratulando ações policiais que atendam ao apelo por moralização dos espaços públicos – leia-se Avenida da Saudade, ao longo da qual as travestis realizam seu trottoir. Pretensamente portadores da voz moral, os colunistas empreendem sistemáticas acusações às travestis, privilegiados pelos espaços de que dispõem junto à imprensa, e, ao mesmo tempo, cobram medidas policiais, fiscalizando-as e denunciando sua inércia.