A música popular brasileira possui uma grande diversidade de gêneros e estruturas rítmicas e, também, um sem número de variações e ramificações de cada um deles. Este trabalho não pretende tratar de toda essa variedade, mas, tomaremos como referência alguns gêneros de maior alcance e que também se encontram presentes nas obras de Marco Pereira. São eles o samba, o choro, o frevo e o baião/côco.
Barsalini (2009) divide os instrumentos de percussão no samba em três grupos de acordo com a função principal exercida. O primeiro grupo se refere aos instrumentos que executam frases rítmicas ou padrões chamados de linhas-guia. Neste grupo se encontram o tamborim, a cuíca e o agogô. O segundo é o grupo dos instrumentos de marcação, que fazem a marcação dos “tempos fortes sobre os quais o ritmo é estruturado” (BARSALINI, 2009, p.32). O surdo, o tantã e a timba são instrumentos graves que exercem essa função de marcação. O último grupo tem como principal função a condução, ou seja, “gerar uma base de condução que sirva de apoio na sustentação do ritmo” (BARSALINI, 2009, p.39). O grupo dos instrumentos de condução é formado pelos chocalhos, pandeiro, reco-reco e a caixa35.
Abaixo seguem exemplos das funções executadas por diferentes instrumentos de percussão no samba de acordo com Bolão (2003). O exemplo 8 mostra a rítmica executada pelo tamborim, onde a nota superior é executada pela baqueta e a inferior pelo dedo médio na parte de trás da pele do instrumento. No exemplo 9 temos algumas variações da marcação executada pelo
35 Tanto o pandeiro quanto a caixa podem ser considerados instrumentos que executam mais de uma função. O
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surdo e no exemplo 10 há a escrita para o pandeiro que exerce as funções de marcação e condução.
Exemplo 8 - Rítmica do tamborim no samba (BOLÃO, 2003, p.34)
Exemplo 9 - Rítmica do surdo no samba (BOLÃO, 2003, p.29)
Exemplo 10 - Rítmica do pandeiro no samba (BOLÃO, 2003, p.27)
Uma variação muito comum do samba é o partido-alto. O samba de partido-alto é marcado pelos refrões cantados em coros e pelo desafio de versos improvisados entre os “partideiros” nas estrofes. A linha-guia do ritmo normalmente era feita por palmas, mas “instrumentos leves de percussão, como o pandeiro, aos poucos foram sendo incorporados” (BOLÃO, 2003, p.93). A rítmica executada pelo pandeiro contém as linhas-guia e a marcação dos tempos fortes, como podemos observar abaixo em algumas de suas variantes:
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Exemplo 11 – Rítmica do pandeiro no samba de partido-alto (BOLÃO, 2003, p.93)
Já o choro possui menos instrumentos de percussão, mas os regionais tem a presença constante do pandeiro que exerce as funções de marcação, linhas-guia e condução. A marcação é feita pelos ataques na região grave. As linhas-guia são executadas através de acentos realizados pelos dedos indicador, médio e anelar juntos e a condução é feita pelo movimento contínuo das platinelas em semicolcheias. Bolão (2003, p.104) apresenta cinco variações para execução do pandeiro no choro:
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No frevo a percussão é composta basicamente por caixa, surdo e pandeiro. Há ainda a presença de chocalhos, pratos e wood-blocks em algumas formações. Podemos tomar os conceitos de marcação, condução e linhas-guia também para o frevo pois as figurações são bastante diferentes entre cada instrumento e quando somadas as funções se complementam. O surdo realiza a marcação dos tempos fortes, o pandeiro realiza a condução através de ostinato característico e a caixa realiza as linhas-guia com acentuações que ora sublinham a melodia ora a complementam. No exemplo abaixo é possível observar a relação entre surdo, caixa e pratos sintetizada por Pladevall (2004, p. 38) para bateria:
Exemplo 13 - Rítmica da bateria no frevo (PLADEVALL, 2004, p.38)
A condução do frevo normalmente é realizada pelo pandeiro executando o ostinato rítmico descrito abaixo:
Exemplo 14 - Ostinato rítmico do pandeiro no frevo
Marco Pereira em seu método de ritmos brasileiros para violão descreve a instrumentação típica do baião como fixada por Luiz Gonzaga que “trouxe para o público urbano a tradicional formação instrumental da música nordestina: sanfona, triângulo e zabumba, conhecida hoje como ‘Trio de Forró’ ” (PEREIRA, 2007, p.62). Rocha (2005, p.28) afirma que “o nome forró vem da expressão forró-bodó, usada para denominar essas festas [juninas]; o termo forró é usado erroneamente para designar um ritmo”. Nas festas juninas, também conhecidas como arraiais, os trios de forró executam diferentes ritmos como xote, baião, marchas e cocos. O coco é descrito por Rocha (2005, p.31) como “dança trazida pelos negros africanos, com grande influência portuguesa e das danças indígenas” e afirma que:
“O que caracteriza o coco é o canto improvisado e o ritmo do trupé (sapateado) de sua dança. Seus instrumentos também variam muito: uma simples palma, um ganzá (coco- de-ganzá), um bombo (coco-de-bombo), um pandeiro (coco-de-embolada) ou vários desses instrumentos, formando um só grupo.” (ROCHA, 2005, p.31)
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O coco e o baião são ritmos de origens diferentes, mas que por conta da presença marcante nos forrós acabaram se fundindo e muitas vezes sendo tratados como variações um do outro ou simplesmente como variações do forró.
No baião o triângulo realiza a condução rítmica e a zabumba, de forma improvisada, faz a marcação e a linha-guia. Abaixo segue um exemplo da relação rítmica entre zabumba e triângulo no baião:
Exemplo 15 - Relação rítmica entre zabumba e triângulo no baião
O coco apresenta um grande número de vertentes e intérpretes, mas seu representante mais conhecido foi Jackson do Pandeiro que obteve projeção nacional nas décadas de 50 e 60. Bibliografias relacionadas à execução do coco e suas variantes ainda são bastante escassas. Utilizaremos como representação da execução do ritmo dois exemplos apresentados por Rocca (1986, p.38), e as adaptações para zabumba realizadas por Rocha (2005, p.32) como segue nos exemplos abaixo:
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Exemplo 17 - adaptações do coco para zabumba realizadas por Rocha (2005, p.32)