A formação de professores de Educação Física demanda estruturas necessárias aos saberes docentes, denotando as especificidades exigidas no currículo do Ensino Superior para essa habilitação. Com relação a uma futura atuação em escolas a ser realizada pelo licenciado, existem cláusulas definidas pelas normas específicas da Licenciatura, que vão ao encontro do cenário educacional brasileiro.
Neira e Nunes (2009) declaram que compete ao currículo a responsabilidade pelo desenvolvimento de estratégias de manutenção e a transposição dos conhecimentos historicamente aperfeiçoados. Como também, a promoção da socialização das crianças e jovens de uma sociedade em consonância com os valores apresentados como esperáveis, ou seja, mediante ao conhecimento advindo da escola e às questões relacionadas à aprendizagem, o currículo contribui para “[...] moldar as pessoas de forma a construir os cidadãos almejados pelo projeto social” (NEIRA; NUNES, 2009, p. 57).
A formação profissional em Educação Física passou por mudanças curriculares pautadas na necessidade de dimensionar ou delinear as suas áreas de atuação profissional, para poder delimitar as diferenças existentes na formação do licenciado e do bacharel, colocando em pauta discussões sobre as estruturas curriculares e suas dimensões. Tem-se então, uma formação para a área escolar, que caracteriza respectivamente as licenciaturas, com duração entre três e quatro anos.
Diante desse perfil, as IES, na construção de seus currículos, orientandas pelas Diretrizes da área, dividem os cursos em dois eixos: o da Formação Ampliada e o da Específica. O eixo Formação Ampliada deve compreender as seguintes dimensões do conhecimento: a) Relação ser humano e sociedade; b) Biológica do corpo humano; c) Produção do conhecimento científico e tecnológico. O eixo Formação Específica deve abarcar os conhecimentos indicadores da Educação Física e contemplar as seguintes dimensões: a) Culturais do movimento humano b) Técnico-instrumental c) Didático-pedagógico.
Autores como Andrade Filho, (2001), Azevedo e Malina (2004) e Fernandes e Venditti Jr., (2008) compartilham da ideia da complementariedade do atual currículo, norteado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), contemplado pelos conhecimentos biológicos, humanos e técnicos como jogos, danças, lutas, ginásticas e esportes. Porém, é interessante pensar em um currículo para a EF que não só consinta os conteúdos técnico- biológicos e desportivos para formar um professor, bem como atente para as necessidades do ser humano, sua singularidade e as particularidades dos alunos.
Conforme Leis, segundo o Parecer CNE/CP 09/2001 e a Resolução CNE/CP 01/02, específicos para as licenciaturas, é complacente repensar o método dos processos educacionais, no intuito de promover situações de aprendizagem por meio de situações- problema, ou pelo desenvolvimento de projetos que permitam a relação de conteúdos distintos, que podem estar elencados em áreas ou disciplinas, conforme a matriz curricular proposta pela Instituição de Ensino Superior (BRASIL, 2001, 2002).
Dando continuidade ao raciocínio anterior, verifica-se que há uma Lei, a de nº 10.793, de 1º de dezembro de 2003, que sanciona a Educação Física como uma disciplina escolar obrigatória no ensino básico, e que exige que os professores tenham ciência de qual é realmente o papel da Educação Física no currículo escolar:
Lei nº 10.793, de 1º de dezembro de 2003
Altera a redação do art. 26, §3º, e do art. 92 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que "estabelece as diretrizes e bases da educação nacional", e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA.
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º - O § 3º do art. 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a seguinte redação:
"Art.26[...] § 3º - A Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica [...] . LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. (BRASIL, 2003).
Todas essas circunstâncias geram inquietações, ocasionando uma necessidade de rever os pontos relacionados à formação do professor de EF. Mais especificamente sobre os moldes existentes nos cursos de licenciatura em EF no que se refere aos seus projetos político- pedagógicos, bem como ao subsídio dado aos professores para conectar-se ou distanciar-se do conhecimento obtido durante essa formação. Ou seja, deve-se indagar sobre a relação teoria e prática que compreenda tanto o processo em formação quanto a consolidação dessa profissionalização no ambiente característico da escola (SOUZA et al, 2013).
Nessa conjuntura, é válido mencionar que teoria e prática, citadas anteriormente, correspondem a dois tipos diferentes de saberes que podem ou não estar associados entre si. A teoria está ligada à compreensão de fatos, conceitos, ações e fenômenos, no que condiz aos significados e sentidos, procurando identificar as analogias existentes entre diferentes fatores, bem como, criar definições para acontecimentos sugerindo razões e motivos para esses.
Já o conhecimento prático, segundo Souza et al (2013) é o saber fazer, podendo ser um simples procedimento ou uma ação padronizada ou repetitiva, ou mesmo uma realização improvisada e criativa. Teoria e prática se associam quando esta é fundamentada ou norteada por aquela, considerando uma reflexão teórica acerca da realidade concreta.
Tardif (2012) delibera que os saberes docentes se estruturam em: formação profissional (conjunto de saberes que vão se incorporando à prática docente); disciplinares (diversos campos de conhecimento, integrados nas universidades e divididos na forma de disciplinas); curriculares (organização e seleção de conteúdos, métodos, estratégias, entre outros e que se apresentam de forma concreta nos programas escolares, os quais, por sua vez, os professores devem saber aplicar); e experienciais (experiência profissional adquirida ao longo do percurso docente e que é incorporada individualmente em seu cotidiano). Pode-se observar, então, que há uma transposição de um novo conjunto de saberes da Educação Física, proporcionando uma nova significância a esse escopo de conhecimento da área.
Entende-se que o licenciado em Educação Física, na edificação do seu conhecimento deverá ter a educação como princípio norteador, e vivenciar oportunidades de organizar e aplicar situações adequadas de ensino e aprendizagem. “[...] para trabalhar em Educação” (NEIRA, 2009, p.7), o contexto em que se graduam esses profissionais deve ser educacional.
Há um grande empenho das Instituições de Ensino Superior em concatenar a compreensão da realidade e os conhecimentos gerais e específicos da Educação Física, tendo em vista a formação de professores críticos e criativos.
O curso de Licenciatura em Educação Física oferece uma formação com uma matriz curricular específica, seguindo a legislação e, segundo Antunes (2007, p.143):
[...] Os Cursos de Licenciatura em Educação Física (licenciatura de graduação plena) formam professores de Educação Física para atuar exclusivamente na Educação Básica/escolar: educação infantil, ensino fundamental e médio. As exigências para a formação do licenciado são: 400 horas de práticas como componente curricular, 400 horas de estágio curricular supervisionado, 1.800 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-culturais complementares. Totalizando uma carga horária mínima de 2.800 horas e três anos de tempo mínimo para integralização do curso.
Discutindo sobre o currículo do Ensino Superior nos cursos de Educação Física, deve- se refletir em torno da essência da área, delineando uma seleção mais próxima do graduando, considerando as vertentes dos campos pedagógicos de atuação em sua ampla complexidade. Pensar na elaboração de um currículo requer primeiramente uma análise contextualizada do Projeto Político Pedagógico (PPP) da Instituição de Ensino Superior. Um currículo formador deve estar pautado no contexto pragmático da área da EF em que o fazer/ensinar acadêmico se alicerça na aplicação dos estudos teóricos desenvolvidos, em sua dimensão multifacetária, indo além do aspecto puramente motor. Elaborar um currículo desse tipo é considerar os aspectos pedagógico-biológico e as questões humanas (EUSTAQUIO et al, 2012).
Refletir e organizar um currículo formador significa também pensar nos aspectos que norteiam o desenvolvimento humano, nas relações interpessoais (professor/aluno;
aluno/aluno), na subjetividade que existe nessa interface, nas atitudes e nos valores do ser humano, na busca de sua autonomia, no conhecimento e cultura adquiridos, na diversidade e avaliação presentes nesse contexto, entre tantos outros elementos que poderão permear essa ação. Ou seja, refletir sobre currículo significa entender suas diferentes exigências: culturais; antropológicas, mercadológicas; políticas; sociais e humanas. É compreender que o conhecimento possui várias dimensões que emanam reflexões, tensões e conflitos.
Para Neira e Nunes (2009), o currículo, ao mesmo tempo que atende a escolha da validação de seus conteúdos, organiza o ensino deles. Portanto, é interessante compreender quais são os valores, as atitudes e os conhecimentos que estão implicados nesse movimento. Outra reflexão levantada por esses autores é saber quem são os responsáveis pelas decisões sobre os conteúdos a serem ensinados por meio das disciplinas que compõem a matriz curricular. A questão é identificar se quem organiza o currículo são as mesmas pessoas que lecionam os conteúdos. Tais informações são válidas para a formação da identidade profissional do professor.
Na busca de uma formação integral do professor de EF, faz-se necessário considerar e contemplar, na idealização do currículo, as questões dos hábitos e as atitudes profissionais, pois, eles serão diferenciais na imagem e na trajetória do profissional. Hábitos, segundo Eustáquio et al (2012), no sentido de sensibilizar o profissional a viver a Educação Física em sua totalidade, sair em busca de leituras diárias, ter consciência que a formação é pragmática e que o aprender é um processo longitudinal, que acontece em todo o percurso da sua vida profissional.
Um currículo que atende os requisitos para formar um professor de Educação Física de forma adequada, ou seja, que respeite os aspectos levantados aqui anteriormente deve contribuir para o graduando se tornar diretor de sua própria história: ele próprio busca a sua identidade, por meio de vivências experienciadas num contexto educacional.
Deve haver um equilíbrio na escolha das disciplinas e suas respectivas cargas horárias, para que o currículo seja menos tendencioso e mais efetivo, numa almejada educação formadora.
Para Neira e Nunes (2009), há um debate sobre o currículo da EF na atualidade em que se propõem disciplinas que contemplem subsídios psicológicos. Segundo esses autores, já se percebe que a Psicologia pode ajudar a compreender os comportamentos humanos e sua construção, e oferecer apoio nas relações escola e sociedade.
Mesmo em meio a inúmeros debates no campo acadêmico, ainda não há um consenso entre esses estudiosos quanto ao currículo ideal para a Educação Física. A EF é uma área que
se construiu e se alicerçou com contribuições de diversos campos de conhecimentos (biomecânica, psicológico, biológico e cultural). A análise de um plano de ensino expõe compreensões e propostas que se coadunam com facetas distintas (NEIRA; NUNES, 2009).
Nesse aspecto, cabe então aos professores ampliar seus artifícios pedagógicos, possibilitando maior interesse pelas disciplinas, absorvendo delas o máximo do aporte teórico. O professor, como qualquer outro profissional, precisa estar consubstancialmente revendo, revertendo e ampliando suas práticas pedagógicas. Os professores das disciplinas de Psicologia nos cursos de licenciatura em EF também devem possibilitar discussões sobre diferentes formas de ensinar, voltando-se às questões da aprendizagem dos seus futuros alunos. Ter em suas atuações didáticas o foco em torno da constituição da docência, elucidando competências e abrindo possibilidades de interlocuções entre a educação e os sujeitos envolvidos.
Inserir disciplinas de Psicologia nos cursos de licenciatura em EF não significa apenas introduzir conhecimentos psicológicos no âmbito acadêmico, mas integrar, articular, dialogar, aprender com as diferenças e lançar questionamentos continuamente no contingente educacional.
Segundo Neira e Nunes (2009), essas reflexões sobre currículo e EF demonstram que a discussão ainda é intensa e inesgotável, o que talvez até prejudique a autonomia da área, porém, a intenção é que se promovam novos debates. Para esses autores, o currículo abrange o planejamento da relação humana no ambiente da sala de aula, as questões pedagógicas e todos os aspectos culturais vividos numa sociedade.
5 AS DISCIPLINAS DE PSICOLOGIA E SUA INTERLOCUÇÃO COM A