As técnicas de RMN e IV foram analisadas concomitantemente para a avaliação comparativa da relevância de cada uma das técnicas para a discriminação quimiotaxonômica de liquens. Para essa análise, foi construída uma nova matriz de dados em que as colunas correspondem às componentes principais PC1, PC2 e PC3 de cada técnica. A análise de componentes principais (PCA) foi então efetuada a partir desse novo conjunto de dados. A seguir, são apresentadas as análises comparativas expressadas pelo gráfico de scores e loadings (mais fáceis de serem visualizados devido ao reduzido número de variáveis).
4.5.1 – Todas as amostras de liquens (Famílias Physciaceae e Parmeliaceae) Na análise de componentes principais de todas as amostras, empregando-se todas as técnicas em questão, foi observada a tendência à distinção entre as famílias, com o agrupamento das amostras Dirin, Pyx e Hspec em valores mais positivos em PC1 e mais negativos em PC2, conforme está apresentado no gráfico de scores (Figura 4.124A).
A análise do gráfico de loadings permite atribuir essa discriminação entre famílias à técnica de RMN HR-MAS, mais especificamente à primeira componente principal de HR-MAS (PC1-HR), como está destacado na figura 4.124B, onde PC1-HR é a variável que se apresenta em valores mais positivos de PC1 e negativos de PC2. Como já apresentado na análise intacta por RMN HR-MAS (seção 4.2), esta foi a única técnica que apresentou a separação dos liquens em famílias.
Em todas as análises comparativas de PCA, as melhores condições foram:
• Pré-processamento: autoescalamento. • Transformação: nenhuma
Pyx Hspec Dirin Pdel Hypot Pbrev Ptinc Pdil Canop Pcor Pmes A B
FIGURA 4.124: Gráfico de scores (A) e loadings (B) de todas as amostras de liquens avaliadas com as técnicas de RMN e IV, comparativamente (PC1 x PC2, 21,6 e 18,1%, respectivamente).
4.5.2 – Família Physciaceae
A análise comparativa entre as técnicas, aplicada às amostras da família Physciaceae, apresentou excelente discriminação entre os gêneros (Figura 4.125A), assim como foi observado em cada técnica separadamente. Como o
gráfico de loadings (Figura 4.125B) expressa a contribuição de cada variável para a separação, a avaliação somente a primeira componente principal de cada técnica (PC1-HR, PC1-Liq e PC1-IV), as quais possuem a maior quantidade de informação, mostra a contribuição de cada técnica para a localização de um dado gênero numa posição do gráfico de scores (Figura 4.125A), confirmando a importância das três técnicas nesse conjunto de dados.
Pyx
Hspec
Dirin
A
B
FIGURA 4.125: Gráfico de scores (A) e loadings (B) das amostras da família Physciaceae avaliadas com as técnicas de RMN e IV, comparativamente (PC1 x PC2, 64,9 e 31,0%, respectivamente).
4.5.3 – Família Parmeliaceae
A família Parmeliaceae não foi discriminada em gêneros na análise comparativa das técnicas, embora haja uma tendência das espécies do gênero
Parmotrema agruparem-se em valores mais negativos de PC3 (Figura 4.126A),
exceto para a amostra Pcor. Na análise dos loadings, as variáveis PC3-IV e PC2-Liq são as de maior peso em PC3, pois apresentam-se em valores negativos (Figura 4.126B). Desta forma, comparando-se com os resultados obtidos para cada técnica separadamente, onde os gêneros foram discriminados em PC3 na análise de IV (Figura 4.120, página 136) e PC2 na análise de RMN em solução (Figura 4.112, página 126), os resultados encontram-se em plena concordância.
Pmes Pdel Ptinc Pdil Pcor Hypot Canop Pbrev A B
FIGURA 4.126: Gráfico de scores (A) e loadings (B) das amostras da família Parmeliaceae avaliadas com as técnicas de RMN e IV, comparativamente (PC1 x PC3, 25,8 e 17,4%, respectivamente)
4.5.4 – Gênero Parmotrema
Similarmente à análise comparativa entre as técnicas aplicada à família Physciaceae, as seis espécies do gênero Parmotrema foram discriminadas e os
loadings apresentam todas as técnicas como relevantes à separação (Figura 4.127)
Pmes Pdil Ptinc Pbrev Pcor Pdel A B
FIGURA 4.127: Gráfico de scores (A) e loadings (B) das amostras do gênero
Parmotrema avaliadas com as técnicas de RMN e IV, comparativamente (PC1 x
5 – CONCLUSÃO
A quimiotaxonomia de liquens via RMN e IV mostrou-se viável, todavia, pode-se observar que o uso de ferramentas estatísticas como a quimiometria é imprescindível para a realização desse trabalho, já que o grande número de informação contida nos espectros, isoladamente, não fornece dados conclusivos.
A sonda HR-MAS, muito útil para a análise de alimentos e tecidos animais, mostrou-se também um excelente instrumento para a quimiotaxonomia de liquens, com a caracterização da importância dos carboidratos de liquens (polióis) para a sua identificação. Do mesmo modo, a análise por RMN em solução dos extratos liquênicos forneceu uma excelente discriminação entre os gêneros e espécies, baseada na avaliação dos seus metabólitos secundários, embora os dados da HR-MAS sejam indubitavelmente mais interessantes, principalmente porque se trata de um método simples, que dispensa o pré-tratamento das amostras e evita o consumo de tempo e reagentes para a extração, além de outros inconvenientes correlacionados, como por exemplo a decomposição das amostras. Outro aspecto importante observado foi a reprodutibilidade da sonda HR-MAS, a qual mesmo sendo menor que a reprodutibilidade da sonda de líquidos, apresentou um bom agrupamento das replicatas via tratamento quimiométrico e uma resolução espectral muito boa.
A identificação dos metabólitos secundários presentes nos extratos acetônicos, sem nenhum processo de purificação, apresentou resultados importantes, com maior esclarecimento de multiplicidades e constantes de acoplamento. Treze substâncias foram identificadas em mistura, aplicando-se um grande conjunto de técnicas de RMN, juntamente com as simulações de espectros e comparações com dados da literatura.
Aliado aos dados de RMN (HR-MAS e em solução), a espectroscopia na região do infravermelho (IV) mostrou resultados muito interessantes (dados não encontrados na literatura), assim como os resultados já observados com o emprego da RMN HR-MAS no que diz respeito à importância dos carboidratos na análise quimiotaxonômica de liquens. O destaque à técnica de IV deve-se à excelente classificação de amostras desconhecidas ao modelo, fator relevante quando se compara a reprodutibilidade da RMN HR-MAS, ambos obtidos a partir do material vegetal intacto.
Desta forma, a espectroscopia na região do IV, aliada à quimiometria, apresentou-se como a ferramenta em maior potencial para as análises quimiotaxonômicas de liquens, tanto pelos resultados obtidos na classificação quanto pela rapidez e baixo custo da técnica. Todavia, uma análise objetivando-se a elucidação estrutural só é alcançada dispondo-se de ferramentas mais poderosas, como é o caso da RMN.