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A - Les gestions de fait

Dans le document Rapport public annuel 2012 (Page 31-34)

Quando analisamos atentamente os nomes das personagens que constituem o universo ficcional da trilogia, é possível constatar sua ambivalência e como eles repercutem em sua construção. Sem dúvida alguma, Margaret Atwood joga com todos os mecanismos satíricos possíveis, como é recorrente em seu fazer literário. Blackbeard, em português Barba Negra, epítome dos nomes atribuídos aos/às Crakers, faz uma clara referência a uma figura histórica. As próprias palavras de Toby fazem essa associação: “Blackbeard, o notório pirata assassino? Esta doce criança? Uma criança que nunca terá barba quando crescer, porque Crake eliminou os pelos do corpo da sua nova espécie. Muitos Crakers têm nomes estranhos” (ATWOOD, 2013, p. 92, tradução minha).134 Nesse sentido, outros nomes merecem destaque, a saber:

Abraham Lincoln, Marie Antoinette e Sojourner Truth.

A escolha de tais nomes, que aludem a pessoas da história universal, pode ser lida como um aspecto bastante controverso, quando levamos em conta a misantropia de Crake. Parar a humanidade foi um dos seus objetivos almejados e alcançados; entretanto, nomear sua nova raça a partir de figuras (humanas) históricas muito conhecidas obviamente configura-se como um tipo de homenagem. Tal ambivalência sugere, a meu ver, o elemento nostálgico que permeia a obra, assim como a ideia de repetição, que é outro aspecto evidente da trilogia.

Como priorizei centrar parte da minha análise em torno dos protagonistas, sobretudo por causa do tema da sobrevivência, um outro fator importante que norteou meu percurso analítico foi a narração. Assim como os demais protagonistas, Blackbeard emerge como uma das vozes do conjunto polifônico da trilogia. Diferentemente dos demais, entretanto, essa personagem é o porta-voz genuíno da nova raça, que venho denominando pós-humana. Além disso, vale lembrar a importância de Toby enquanto narradora das histórias aos Crakers, como apresentei no início deste capítulo. A relação dessa personagem com o humanoide, Blackbeard, repercute como desfecho que altera o objetivo inicial de Crake, uma vez que o cientista havia projetado seus hominídeos sem as habilidades de leitura e escrita.

134 No original: “Blackbeard, the notorious murdering pirate? This sweet child? A child who will never have a

beard when he grows up because Crake did away with body hair in his new species. A lot of the Crakers have odd names.”

No capítulo intitulado “Cursive” [Cursiva], há algumas cenas em que Toby escreve em seu diário. A descrição da capa do caderno que ela utiliza para registrar seus escritos é muito eficiente em comunicar a nostalgia que perpassa a narrativa:

Ela está escrevendo em um desses cadernos escolares baratos, comprados em farmácias. A capa traz um sol amarelo brilhante, várias margaridas cor-de-rosa e um menino e uma menina, figuras rudimentares do tipo que crianças costumavam desenhar. Na época em que havia crianças humanas — há quanto tempo? Parece que faz séculos desde que a praga se alastrou. Embora faça menos de seis meses. O menino está usando short azul, um boné azul e uma camisa vermelha; a menina está de tranças, usa uma saia triangular, vermelha, com um top azul. Os dois têm olhos pretos borrados e indefinidos e bocas vermelhas e grossas, curvadas para cima; estão se matando de rir. Morrendo de rir. São só crianças de papel, mas mesmo assim elas parecem mortas agora, como todas as crianças reais. Ela não consegue olhar muito para a capa do

caderno porque isso dói (ATWOOD, 2013, p. 201, tradução minha).135

O desenho de duas crianças na capa do caderno reforça o tom elegíaco da cena, a qual evoca um passado não muito distante. As figuras aparentemente felizes e em roupas coloridas, como imagens que as crianças humanas já não existentes costumavam desenhar, só reforçam o sentimento nostálgico e de dor que preenchem a narradora. É uma cena que torna oportuno, neste trabalho, retomar a discussão sobre nostalgia, já iniciada anteriormente. A esse respeito, escreve Slovic (2014, p. 11, tradução minha):

O que tem a palavra “nostalgia” que parece evocar reações tão negativas, ou pelo menos ambivalentes? No uso popular, “nostalgia” geralmente implica uma tendência excessiva de olhar para o passado, desejando dolorosamente alguma coisa ou algum lugar ou algum relacionamento que já não mais existe. Literalmente, a palavra significa “dor do retorno”. Há uma futilidade implícita no desejo humano de voltar ao

passado (SLOVIC, 2014, p. 11, tradução minha).136

Essa explanação contempla em cheio o sentimento nostálgico que invade Toby como vimos na citação anterior. A protagonista em questão, assim como as outras personagens humanas na condição de sobreviventes, vivenciam constantemente a “dor do retorno” a um passado que, no escopo de MaddAddam, já não é mais possível. Diante disso, como propor uma evolução em direção ao pós-humano, considerando o sentimento de nostalgia exacerbado que prende as personagens a um passado pré-apocalíptico? Também me respaldo em Slovic,

135 No original: “She’s writing in one of the cheap schooltime drugstore notebooks. The cover has a bright yellow sun, several pink daisies, and a boy and a girl, rudimentary figures of the kind children used to draw. Back when there were human children – how long ago? It seems like centuries since the plague swept through. Though it’s less than half a year. The boy has blue shorts, a blue cap, and a red shirt; the girl has pigtails, a triangular skirt, red, and a blue top. They both have smudgy black blob eyes and thick red upcurved mouths; they’re laughing fit to kill. Fit to die. They are only paper children, but they seem dead now anyway, like all the real children. She can’t look at this notebook cover too much because it hurts”.

136 No original: “What is it about the word ‘nostalgia’ that seems to evoke such negative, or at least ambivalent, responses? In popular usage, ‘nostalgia’ tends to imply an excessive tendency to look toward the past, to wish painfully for something or some place or some relationship that no longer exists. Literally, the word means ‘return- pain’ or ‘pain of return’. There is an implied futility in the human desire to go back into the past”.

quando, em seu estudo, ele identifica três modos de nostalgia ambiental que aparecem em textos da literatura internacional: nostalgia loci, nostalgia condicional e nostalgia estratégica.

O primeiro modo tem a ver com o espírito do lugar que se aplica a paisagens específicas que ecoam as lembranças de um passado particular. O segundo tipo evoca a ideia de la condition

humaine, no sentido de que o sentimento nostálgico é inerente justamente à condição humana.

Este tipo de nostalgia, vale ressaltar, costuma estar relacionado com os impulsos psicológicos de desejo, arrependimento ou de um histórico de traumas. O terceiro tipo, a nostalgia estratégica, ou, como Slovic também a denomina, a nostalgia antecipatória, refere-se ao “efeito retórico da nostalgia [que] pode ser mais bem empregado mirando-se em uma perda potencial ou uma mudança ainda não ocorrida de fato e que poderia ser evitada se os leitores reagirem à ameaça percebida clamando por mudança”137 (SLOVIC, 2014, p. 14, itálico do original,

tradução minha).

Eu diria que MaddAddam traz a mobilização dos três tipos de variações de nostalgia ambiental apresentados acima, em especial, a estratégica ou antecipatória. A esse respeito, retomo ainda uma citação de Santaella (2010, p. 44), que escreve: “Contra qualquer forma de universalismo ou de qualquer cenário fixo e eterno, o pós-humano reconhece a heterogeneidade, a multiplicidade, a contradição [...] do que decorre uma nova ontologia das instabilidades”. Diante disso, e considerando o que Slovic deixa em aberto sobre a existência de numerosas variações de nostalgia vivenciadas pelo humano e exploradas na arte e na literatura, proponho aqui uma outra variação, que denomino nostalgia pós-humana, para abarcar a diversidade e a complexidade do sentimento, expostas na trilogia de Atwood, claramente informada pela noção de ficção especulativa e de cli-fi.

Não há mais crianças humanas como aquelas simbolizadas pela capa do caderno, no tempo presente de Toby. Apenas seres híbridos, a exemplo de Blackbeard, que emerge como uma das crianças através da qual Toby exerce seu papel de tutora. Seria essa postura da protagonista uma forma de lidar com a nostalgia que a acompanha? De fato, a presença dos

Crakers, ainda que sirva de lembrete do “fim” do humano, também permite aos narradores

trilharem um outro caminho, sem muitas amarras com o passado. Guiar, ensinar a Blackbeard, representa uma mudança no curso original da história pré-estabelecida por Crake, tal como veremos mais adiante.

137 No original: “the rhetorical effect of nostalgia can be harnessed by looking forward to a potential loss or change that has not actually occurred and might be averted if readers react to the perceived threat by calling for change”.

Ao observar Toby fazendo anotações em seu diário, Blackbeard se aproxima e, com a curiosidade característica dos Crakers, fica interessado pelas linhas registradas no caderno: “O que são essas linhas?”. Ao que Toby responde: “Estou escrevendo: é para isto que estas linhas servem. Vou lhe mostrar” (ATWOOD, 2013, p. 202, tradução minha)138. A partir desse

momento, Toby dá início a uma das reviravoltas da trilogia, quando muda o curso da história

Craker ao alfabetizar Blackbeard. Dá-lhe um curso explanatório básico sobre o que é escrita, o

que é papel, de onde vem o papel, o que é caneta, e para que serve a tinta. Tudo isso é uma novidade para o menino Blackbeard, que reage com um olhar de perplexidade e incredulidade diante daquela apresentação.

O momento marcante acontece quando Toby destaca uma das folhas do caderno e escreve BLACKBEARD. “Então ela soletra cada letra para ele. ‘Viu?’ Ela diz. ‘Significa você. Seu nome.’ Ela coloca a caneta na mão dele, dobra seus dedos sobre ela, guia a mão e a caneta: a letra B. ‘Seu nome começa assim’, ela diz. ‘B. De abelhas. É o mesmo som” (ATWOOD, 2013, p. 203, tradução minha)139. Cabe aqui fazer uma breve referência ao Spelling Bee, um

dos jogos de soletração mais conhecidos nos países anglófonos, sendo ainda a soletração um dos recursos mais comuns no processo de alfabetização na maioria dos idiomas. O que está em jogo aqui, no entanto, é como a introdução da linguagem repercutirá no desenvolvimento da nova raça a partir de Blackbeard. Lembrando que essas criaturas foram projetadas sem os conhecimentos de leitura e de escrita, o que ressalta ainda mais sua ambivalência. A função de Toby vai além da experiência com a manipulação de ervas e medicamentos naturais para tratar dos sobreviventes. Ela acaba mudando o curso da história que envolve os humanoides. Por isso, especula:

Mas o que foi que eu fiz? Ela pensa. Que problemão eu fui arrumar? Elas são muito rápidas, essas crianças: elas vão pegar isso e passar adiante para todas as outras. E o que vem depois? Regras, dogmas, leis? O Testamento de Crake? Quanto tempo até que haja textos antigos que elas sintam que têm de obedecer, tendo já se esquecido de como interpretá-los? Será que eu as estraguei? (ATWOOD, 2013, p. 204, tradução minha).140

Todos esses questionamentos de Toby certamente ficarão sem respostas, considerando o final em aberto da trilogia. Porém, algumas reflexões sobre a escolha de algumas palavras me

138No original: “‘What are those lines?’ […] ‘I’m doing writing: that is what these lines are. I’ll show you’”. 139 No original: “Then she sounds out each letter for him. “See?” She says. “It means you. Your name.” She puts the pen in his hand, curls his fingers around it, guides the hand and the pen: the letter B. “This is how your name begins”, she says. “B. Like bees. It’s the same sound”.

140 No original: Now what have I done? She thinks. What can of worms have I opened? They’re so quick, these

children: they’ll pick this up and transmit it to all the others. What comes next? Rules, dogmas, laws? The Testament of Crake? How soon before there are ancient texts they feel they have to obey but have forgotten how to interpret?Have I ruined them?

parecem pertinentes para discussão da tese. Foco-me, em especial, na indagação: “What can of worms have I opened?” (que quer dizer, literalmente, “Que lata de minhocas eu abri?”, uma referência à imagem pouco atrativa de uma lata contendo várias desses bichos usados como isca pelos pescadores, e que, como expressão idiomática, alude a algo que seja fonte de problemas imprevisíveis e desagradáveis). Esta metáfora imediatamente me direciona a outra, ao termo “bookworm”, que é a palavra inglesa rotineira para “traça de livro”, mas que também tem conotações positivas quando usada para descrever alguém que está sempre lendo livros.

Embora os Crakers ainda não saibam ler, o sentimento de “bookworm” se manifesta nos momentos em que demandam a contação de histórias. Nessa linha de reflexão, retomo o tema do canibalismo, agora em seu sentido figurado. Como já frisei, os Crakers parecem se alimentar de narrativas. Como argumenta Jacobson-Konefall, os momentos de contação de histórias ressaltam o consumo metafórico inerente aos atos de narração, um paralelo que se estabelece com clareza diante do relato da experiência antropofágica de Zeb. Nas palavras de Jacobson- Konefall (2017, p. 63, tradução minha): “Os Crakers consomem [tais] histórias como sustento espiritual, como a história da sua criação: simbólica, espiritual, e comunal”141.

Este é o aspecto mais ambivalente concernente a tais criaturas. Como será o desenrolar a partir da inserção da escrita e da leitura na formação da nova raça? Sendo crianças muito perspicazes, como a narrativa sugere, certamente aprenderão rápido e passarão as informações umas para as outras, consumindo e transcriando aquilo que foi ensinado por Toby. A própria narradora questiona: “Have I ruined them?” [Será que os estraguei?]. A indagação remete ao projeto original de Crake, que previa uma raça sem acesso às informações do mundo humano. Como eles se desenvolverão a partir da interferência de Toby?

No primeiro capítulo deste trabalho, toquei na questão do Bildungsroman (romance de formação) como uma possibilidade de análise das personagens, Jimmy, Oryx e Crake, em que ressalto um processo de seu crescimento às avessas: dois já estão mortos e um claramente fragilizado, tentando sobreviver. Diante disso, sugeri o termo de-formação como um viés de leitura, considerando o desfecho da narrativa em que nos é apresentado um fim trágico dos protagonistas, bem diferente dos desfechos do Bildungsroman tradicional. Parece-me possível essa alternativa a partir da consideração da habilidade inconteste com que a própria Atwood mescla elementos de gêneros distintos nos seus romances, de um modo geral.

Isto posto, voltando às especulações de Toby em relação ao futuro dos Crakers, e tendo em conta a ideia de Bildungsroman no processo de caracterização de personagem, como

141 No original: “The Crakers consume [such] stories as spiritual sustenance, as their creation story: symbolic, spiritual, and communal”.

entender o processo de formação dos Crakers? É uma questão que nos direciona para a noção de devir desses humanoides, os quais se apresentam como seres fluidos e híbridos na própria constituição de misturado material genético humano com o de animais e plantas. Na interação com os humanos, subvertem inclusive a condição imposta pelo seu criador (parar a condição humana), e a partir da alfabetização de Blackbeard — o primeiro dos Crakers a desenvolver a habilidade da escrita — podemos vislumbrar um provável processo de reumanização, através do resgate daquilo que Crake tentou apagar:

Eu sou Blackbeard, e esta é a minha voz que estou escrevendo para ajudar Toby. Se olharem para este escrito que eu fiz, vocês podem me ouvir (eu sou Blackbord) falando com vocês, dentro da sua cabeça. Isto que é escrita. Mas os Porcões podem fazer isso sem escrever. E às vezes nós podemos também, os Filhos de Crake. Os

duas-peles não podem fazer isso (ATWOOD, 2013, p. 377, tradução minha).142

As orações simples e erro de ortografia do próprio nome (Blackbord) sinalizam que a personagem ainda tem certa dificuldade em articular a escrita. Independentemente disso, no entanto, Blackbeard destaca nesse excerto um traço marcante dos Crakers: a cooperação. Como ele mesmo coloca, escreve para ajudar Toby. Através da citação, o/a leitor/a consegue vislumbrar o encontro de três espécies distintas: os Filhos de Crake, os Porcões [Pig Ones] e os humanos, os ditos “duas-peles” [two-skinned ones]. Este grupo de seres diferentes é o que vai formar uma comunidade multiespécie no contexto pós-humano, conforme será analisado a seguir.

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