[...] “a nova mídia eletrônica não apenas possibilita a expansão das relações sociais pelo tempo e espaço, como também aprofunda a interconexão global, anulando a distância entre as pessoas e os lugares, lançando-as em um contato intenso e imediato entre si, em um “presente” perpétuo, onde o que ocorre em um lugar pode estar ocorrendo em qualquer parte”.
(Du Gay, 1994 apud Hall, 1997a, p. 02)
Na conjuntura atual, o contexto globalizado hibridiza a cultura e a identidade dos indivíduos, fazendo com que não existam mais limites nem fronteiras para o contato social e cultural. A globalização de acordo com Stuart Hall (1997b, p 71) é “um complexo de processos e forças de mudança, [...] processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado”.
Canclini (2007) descreve a globalização como o progresso, a aceleração e o aprofundamento dos fluxos e padrões inter-regionais de interação social, unindo
diferentes culturas. Portanto, contexto globalizado é fator político, capital, social e cultural que através da linguagem nos faz conhecer ou ser conhecidos, faz-nos ver outras culturas ou ser vistos por outras.
A infância contemporânea é atravessada pelos artefatos tecnológicos e culturais produzidos pela indústria, facilitados e acessados através das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), independente do meio social e/ou cultural que a criança esteja inserida, seja em grandes centros, metrópoles ou em zonas rurais, adentrando em comunidades indígenas ou quilombolas.
De acordo com Fino & Souza (2003), as TICs são “tecnologias típicas da pós- modernidade”, estas por sua vez, possibilitam mudanças no cotidiano das pessoas e de suas relações sociais ampliando o conhecimento de mundo dos indivíduos, fora do contexto escolar as TICs perpassam o conhecimento e a informação através da internet, televisão (a cabo/ satélite), CD-ROMs e DVDs.
A mídia e a tecnologia atravessam os povos e culturas, modificando os ritmos e modos de vida. Conectando povos e culturas tidos antes como “intocados”, já que não mantinham contato com o restante da civilização, como no caso de algumas tribos indígenas. Em vista destas novas relações que estão se estabelecendo através da mídia, tecnologias e produtos que invadem os mais diversos espaços, muitas tradições que antes eram severamente cultivadas estão se perdendo.
Muitas vezes isso acontece “ingenuamente”, trago esta expressão carregada de sentidos para explicitar que muitas vezes os sujeitos aceitam o que a mídia ou outros meios impõem, por não saber ou entender o verdadeiro sentido nas relações de poder.
Neste momento, não existe querer, aprovar ou não a globalização imergir no cotidiano, de acordo com Hall (1997b, p. 20) “as novas forças e relações postas em movimento por esse processo estão tornando menos nítidos muitos dos padrões e das tradições do passado”. Um forte exemplo para o diálogo em questão é a imagem pintada por Clóvis Irigaray (2013), pintor mato-grossense que representa sua paixão pelas aquarelas através da representação do indígena, Xingu.
Figura 1 - Crianças Xinguanas, piquenique da fase Xinguana.
Fonte: SEMIEDU 2013. Imagens cedidas pelo autor para o evento.
É visível a quebra de barreiras, o uso de produtos como a Coca-Cola, empresa americana que se difundiu pelo mundo, adentrando nos mais diversos espaços e contextos que se possa imaginar. A mídia fez laços com grandes corporações, e a partir de seus apelos midiáticos invade ambientes sociais e culturais, reproduzindo o anseio pelo consumo de brinquedos, eletrônicos, vestuário, alimentos, etc., que hoje estão dentro das residências das pessoas nas mais diversas esferas, em grandes centros urbanos ou na comunidade mais longínqua. As tecnologias fazem parte do cotidiano dos indivíduos, inclusive é pauta de encontros com a tribo Xingu, segundo a organização Y Ikatu Xingu (2011).
O uso da tecnologia pelos jovens indígenas também foi abordado no debate na reunião preparatória para o II Encontro de Jovens, realizada no sábado, 11/06/2011, que contou com a presença e o apoio de representante do Fundo das Nações Unidas para as Crianças (Unicef) no Brasil e da ECOAR comunicação.
O indígena da atualidade não se encontra mais isolado, sem contato com outros povos, outras culturas como antes. Outra imagem de Irigaray (2013) coloca-nos a refletir a respeito da cultura indígena que está sendo também atravessada pelas
informações tecnológicas, mídia e artefatos. Reflete o Índio no seu meio social e cultural, contudo envolvido pela televisão, que traz à tona um mundo muitas vezes imaginário e cheio de fetiches.
Figura 2 – Índio na canoa da fase Xinguana
Fonte: SEMIEDU 2013. Imagens cedidas pelo autor para o evento.
Com cada vez mais frequência os Índios precisam sair de suas aldeias, tribos e se inserirem no universo profissional e acadêmico como qualquer outra pessoa, por necessidades próprias ou até mesmo pelo seu povo, como para buscar recursos, por exemplo. Em vista disto, o conhecimento nas tecnologias, nas ciências, em uma língua estrangeira e na língua do país que se insere, não somente a de sua tribo e cultura faz-se necessário.
Logo, é imprescindível dizer que esta “cultura cibernética”, este anseio, necessidade pelo consumo que a mídia e as tecnologias trazem, atravessa as diversas culturas existentes no mundo. Desta maneira, os artefatos culturais e tecnológicos cruzam a vida adulta e infantil, e, com esta ansiedade pelo consumo surge um comércio de marcas utilizadas por nós “cidadãos culturais” que legitima um padrão de consumo cidadão: consumindo identidades que se afirmam politicamente, o próprio ato de comprar torna-se político (YÚDICE, 2006).
Neste sentido, para que não se perca a transcendentalidade deslegitimando a cultura, tornando o mundo uniforme e homogêneo, se faz necessário refletir que “a
cultura global necessita da “diferença”15 (HALL, 1997b, p.18), cada indivíduo possui
suas peculiaridades, por isso, a importância dos processos formais de aprendizagem. Portanto, a escola poderá ser um dos espaços de reflexão crítica entre os sujeitos nos processos educativos, nas instituições e locais de formação. Os fluxos globais vão sempre existir, e eles, se imbricam no movimento contínuo da vida humana. Por esta questão a importância de se pensar sempre de como e por que as TICs podem auxiliar nos processos formais de aprendizagem, naquilo que pode ser produzido e compartilhado através dela, nos prós e contras para dada comunidade, povo ou cultura, para que a tradição e transcendentalidade dos povos não se percam em meio ao consumo.
A chegada dos artefatos tecnológicos e culturais nos mais diversos espaços sociais, aumentou e continua aumentando a cada passo, o questionamento das normas torna-se impreterível. Legitimando esta ideia, Yúdice (2006, p. 64) discursa sobre a importância da “prática reflexiva do autogerenciamento frente aos modelos […] impostos por determinada sociedade ou formação cultural”. Isso faz com que se necessite cada vez mais o entendimento do universo global, para não perdemos de vista o local e por isso, a importância da escola e da educação no processo de formação dos sujeitos.
O global se difunde através das TICs com artefatos feitos para o público adulto e infantil que trazem imbricados consigo a Língua Inglesa, tida como língua franca ou universal falada como segunda língua em 65 países e como primeira língua (nativa) em mais de 80 países, sendo aproximadamente 300 milhões de falantes de Inglês no mundo. Sendo assim, muitos dos artefatos produzidos que se difundem pelo mundo possuem esta língua como padrão, e assim, ela atravessa as mais diversas culturas, inclusive a cultura infantil.
Para clarear mais a ideia sobre a constituição do mercado para o público infantil, utilizo as palavras de Sarmento (2004) que reporta:
A constituição do mercado de produtos culturais para a infância (programas de vídeo, de televisão, cinema, desenhos animados, jogos informáticos, jogos de construção, literatura infanto-juvenil, parques temáticos, etc.). Estes produtos acompanham o incremento comercial de outros produtos de consumo para crianças (moda infantil, fast-food, guloseimas, brinquedos, serviços recreativos, material escolar, mobiliário infantil, etc.), a ponto de constituírem um dos segmentos de mercado de maior difusão mundial, em torno do qual se estabelecem algumas das mais difundidas cadeias de
franchising, que são mesmo, por vezes, recordes de investimento económico
(por exemplo: a Eurodisney). Este facto contribui poderosamente para a globalização da infância.
(SARMENTO, 2004, p. 18)
A criança que vive sua infância no período contemporâneo partilha dos gostos e gestos de muitas culturas, parecendo que há uma única cultura no espaço mundial. Crianças da América, Europa, Ásia ou demais partes do mundo brincam com brinquedos e jogos da Mattel, leem livros do Harry Potter, usam as vestimentas da Nike, Addidas, Benetton, assistem filmes da Disney, alimentam-se no MacDonald’s, etc.
Apesar disso, é possível perceber que a criança é um indivíduo com características próprias, atravessada pelas significações produzidas a partir dos artefatos tecnológicos e culturais que possuem, com os quais convive e interage. As identidades são culturais e sociais, justamente por serem construídas na relação com este mundo onde as crianças, adolescentes e adultos vivem. Portanto, é fundamental que a criança seja reconhecida em suas particularidades e na interação com outras, neste processo de construção. O mesmo autor trata ainda que,
Há a considerar, todavia, a reinterpretação activa pelas crianças desses produtos culturais e o facto dessas reinterpretações se fixarem numa base local, cruzando culturas sociais globalizadas, com culturas comunitárias e culturas de pares. As crianças de Braga, do Rio de Janeiro, de Dili ou de Los Angeles têm acesso (ainda que desigual) aos mesmos produtos culturais, mas não o fazem pondo de lado os processos simbólicos e culturais que constroem a sociabilidade de forma distinta em cada uma dessas cidades e, sobretudo, no uso desses produtos, põem em acção características próprias inerentes à sua condição infantil.
(SARMENTO, 2004, p. 18)
A forma como cada criança utiliza os artefatos culturais em seu contexto são diferentes, justamente por haver a individualidade de cada sujeito e também, porque elas não abandonam os processos simbólicos que as constituem com os quais, constroem sua sociabilidade. O consumo de bens materiais e culturais dependem neste caso, da maneira como cada um interpreta e utiliza, e isto, faz com que a cultura infantil seja atravessada social e culturalmente.
Para Sarmento (2004), a geração da infância não é apenas uma fase de maturação biológica e desenvolvimento humano intermediário, mas também um objeto de investigação sociológica e uma categoria social de extrema relevância, a qual é continuamente modificada por ações internas e externas de elementos que compõem sua realidade, incluindo os meios de comunicação.
Por isso, a importância da escola como um elemento mediador na ação educativa reflexiva, a captar o universo globalizado, para poder dialogar e desenvolver estratégias
de conscientização do consumo, das demais culturas, para saber e entender o que as crianças assistem, comem, vestem, jogam, escutam, observam. E desta maneira, que as crianças consigam compreender o mundo ao seu redor, não se deixando influenciar, e sabendo discernir o que é adequado para si, sua cultura, seu contexto ou não.
É possível dizer que a língua inglesa, de alguma forma está dentro da casa das pessoas através da televisão em programas e desenhos infantis, dos canais por assinatura da TV a cabo, na música, na internet, na tecnologia, dentre outros meios, porém, hoje sua presença é bem mais intensa e atinge o público infantil. Apresentando-se nos produtos que as famílias adquirem desde alimentação até as vestimentas, fazendo parte do cotidiano infantil, já que há o mercado próprio endereçado a infância.
Outros países já estão refletindo sobre a relevância do ensino de LE, e estão criando leis apropriadas, que preveem este ensino a partir dos sete anos de idade, como em notícia extraída do site braziliannews.uk no dia 01 de agosto de 2013 em se tratando do ensino de LE no Reino Unido:
A obrigatoriedade da disciplina de língua estrangeira a partir dos sete anos de idade tem como principal objetivo beneficiar os jovens, assumindo que a habilidade bilíngue proporcionaria maiores chances no mercado de trabalho globalizado. A revisão do currículo nacional do ensino primário proposta pela secretaria da educação no Reino Unido surgiu em resposta às recentes críticas feitas ao governo pela classe média britânica. Aos olhos dos pais, as escolas do estado estão decaindo em qualidade e com isso prejudicando o futuro de seus filhos. Dessa forma, a meta é tornar crianças provenientes de escolas do estado fluentes em uma língua estrangeira já no início da escola secundária, por volta dos 11 anos de idade.
É necessário comentar brevemente em relação à notícia, o Reino Unido torna obrigatório o ensino de LE desde os sete anos, prevendo que, por volta dos onze anos as crianças estejam fluentes na LE. Diferentemente do Brasil, que a LE só é ofertada no currículo escolar e obrigatória somente a partir dos onze anos.
É inegável que as crianças que hoje frequentam a Educação Infantil, Pré-Escola e Anos Iniciais do Ensino Fundamental estão imersas em um universo cultural cada vez mais tomado pelas tecnologias de comunicação e pelos artefatos de consumo no cotidiano, os quais introduzem expressões, instruções, recomendações, etc. em língua inglesa. Dessa forma, quer queiramos ou não, a LI torna-se uma língua universal e dominá-la, mesmo que minimamente, é condição indispensável para a inserção consciente, também, crítica na sociedade globalizada. A partir desta ideia, podemos pensar a educação no Brasil.
Já superamos o momento de resistência à imposição cultural e ideológica que herdamos da guerra fria e vivemos um momento em que é necessário pensar numa inclusão mais crítica na sociedade contemporânea e, para tal, a escola terá de pensar no domínio de códigos e das linguagens para o acesso a informações, entre eles ou na base deles, está o ensino de LE. É elementar através deste processo de pesquisa, que possamos juntos pensar o processo de escolarização inicial, a escola necessita rever sobre o ensino dedicado à infância contemporânea, e a partir disso, a qualidade da educação brasileira.
Neste capítulo, foi possível verificar junto à revisão da literatura, o ensino de Língua Estrangeira no contexto escolar infantil como desenvolvimento linguístico e cultural em uma interação social. Os estudos revisados a respeito da aquisição da linguagem associados à neurociência puderam apontar que a aquisição da linguagem depende do cérebro.
As crianças são capazes de perceber maior variedade de contrastes fonéticos do que adultos fixando os parâmetros da língua a qual está exposta, e por isso, costumam ter uma pronuncia melhor do que adultos aprendizes de LE. Consequentemente, a relevância de expô-la a uma LE o quanto antes.
Outro ponto que destaco importante é o uso dos artefatos culturais e tecnológicos que atravessam a infância, como vias de aprendizagem para instigar as crianças no processo de aprendizagem formal de língua estrangeira no contexto escolar, e isso, poderá ser visto no capítulo subsequente a metodologia. Os artefatos são por nós acessados através das TICs e da indústria cultural, e que de certa forma, está imbricada também no contexto social e cultural que se encontra a infância contemporânea.
Por fim, foi possível notar a importância do ensino de LE em um ambiente formal, deliberado de aprendizagem na infância como forma de reflexão da cultura local e global. De forma a que se inicie desde cedo um processo aprendizagem consciente da língua, da mídia, do consumo e das relações sociais.